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Estrabismo em crianças: do diagnóstico à cirurgia

Equipe Doctoralia

Principais pontos deste artigo
  • O diagnóstico precoce do estrabismo é fundamental para garantir o desenvolvimento visual pleno e prevenir danos permanentes na infância.
  • A ambliopia ou 'olho preguiçoso' é a principal consequência do estrabismo não tratado, resultando na perda funcional da visão no olho afetado.
  • Sinais sutis como inclinação da cabeça ou fechar um olho sob luz intensa são indicativos de estrabismo e necessitam de avaliação especializada.
  • Tratamentos conservadores, como o uso de óculos e tampões, são eficazes para corrigir o desvio e estimular o desenvolvimento visual saudável.
  • A cirurgia de estrabismo visa restaurar a visão binocular e o alinhamento ocular por meio do ajuste preciso da força dos músculos dos olhos.

O desenvolvimento visual na infância é um processo complexo que requer a integração perfeita entre os olhos e o cérebro, prevenindo diversos problemas de visão infantil. O estrabismo infantil é uma condição oftalmológica caracterizada pelo desalinhamento dos eixos visuais, o que impede que ambos os olhos foquem simultaneamente no mesmo ponto. Embora muitas pessoas associem a condição apenas a uma questão estética, o estrabismo representa um desafio para a saúde funcional da visão, podendo interferir na percepção de profundidade e no desenvolvimento da acuidade visual.

Diferente do que ocorre em adultos, o sistema visual das crianças ainda está em fase de maturation. Por essa razão, a detecção precoce e a intervenção adequada são fundamentais para garantir que o cérebro aprenda a processar as imagens de forma binocular. Este artigo aborda detalhadamente as causas, os tipos, as formas de diagnóstico e as opções terapêuticas para o estrabismo em pacientes pediátricos, visando informar pais e cuidadores sobre a importância do acompanhamento especializado.

O que é o estrabismo infantil?

O estrabismo ocorre quando os muscles oculares não trabalham de maneira coordenada. Cada olho possui seis músculos que controlam seus movimentos; para que a visão seja nítida e tridimensional, esses doze músculos (seis em cada olho) devem atuar em harmonia. Quando um ou mais desses músculos não funcionam corretamente ou quando há um erro de refração não corrigido, um dos olhos pode se desviar para dentro, para fora, para cima ou para baixo.

O resultado desse desalinhamento é que o cérebro recebe duas imagens distintas. Em crianças, o sistema nervoso central possui uma plasticidade que permite "ignorar" a imagem proveniente do olho desviado para evitar a visão dupla (diplopia). Se esse fenômeno de supressão persistir sem tratamento, pode levar ao desenvolvimento da ambliopia em crianças, condição popularmente conhecida como "olho preguiçoso", onde a visão do olho afetado não se desenvolve plenamente, mesmo com o uso de lentes corretivas futuramente.

Tipos de estrabismo e classificações

A classificação do estrabismo baseia-se principalmente na direção para a qual o olho se desvia. Além da direção, os médicos também avaliam a frequência do desvio (se é constante ou intermitente) e se ele ocorre em apenas um olho (monocular) ou se alterna entre os dois (alternante).

Tipo de estrabismo
Direção do desvio
Características visuais comuns
Esotropia
Para dentro (nasal)
É o tipo mais comum na infância; pode ser congênito ou acomodativo.
Exotropia
Para fora (temporal)
Frequentemente intermitente; o desvio pode ser mais visível quando a criança está cansada ou exposta à luz solar.
Hipertropia
Para cima
O eixo visual de um olho está posicionado acima do outro.
Hipotropia
Para baixo
O eixo visual de um olho está posicionado abaixo do outro.

Além dessas categorias, o estrabismo pode ser classificado como concomitante, quando o ângulo do desvio permanece o mesmo em todas as direções do olhar, ou incomitante, quando o desvio varia dependendo da posição para a qual a criança está olhando.

Principais causas e fatores de risco

As causas do estrabismo em crianças são multifatoriais, envolvendo desde questões anatômicas até fatores neurológicos. Compreender a origem do problema é essencial para determinar a melhor abordagem terapêutica.

  1. Erros refrativos: A causa mais frequente de esotropia acomodativa é a hipermetropia elevada. Para tentar focar objetos de perto, a criança realiza um esforço excessivo de acomodação, o que gera uma convergência reflexa exagerada dos olhos.
  2. Fatores genéticos: Existe uma forte predisposição hereditária. Crianças com histórico familiar de estrabismo ou ambliopia possuem uma probabilidade maior de desenvolver a condição.
  3. Controle neuromuscular: Em muitos casos, o problema não reside nos músculos oculares em si, mas no centro de controle cerebral que coordena o movimento dos olhos.
  4. Condições neurológicas: Doenças que afetam o cérebro, como a paralisia cerebral, a síndrome de Down e a hidrocefalia, frequentemente apresentam o estrabismo como um sintoma associado devido ao comprometimento das vias motoras oculares.
  5. Prematuridade: Bebês nascidos prematuramente ou com baixo peso ao nascer apresentam um risco elevado de distúrbios do desenvolvimento visual.

Como identificar o estrabismo: sinais e sintomas

Embora o sinal mais evidente seja o desvio visível dos olhos, nem sempre o estrabismo é constante ou facilmente perceptível a olho nu. Pais e educadores devem estar atentos a comportamentos sutis que podem indicar uma dificuldade de alinhamento binocular.

  • Inclinação da cabeça: A criança pode inclinar a cabeça para o lado, para cima ou para baixo para tentar alinhar as imagens ou para compensar a fraqueza de um músculo ocular específico.
  • Fechamento de um dos olhos: É comum que crianças com exotropia (desvio para fora) fechem um dos olhos quando expostas a ambientes com luz solar intensa para reduzir a confusão visual.
  • Dificuldade de percepção de profundidade: A criança pode apresentar certa falta de coordenação motora, esbarrar em objetos com frequência ou ter dificuldade para pegar brinquedos que lhe são estendidos.
  • Cansaço visual e dores de cabeça: Queixas frequentes de desconforto após atividades que exigem esforço visual, como leitura ou desenho, podem ser sinais indiretos.

O caso do pseudoestrabismo (falso estrabismo)

É comum que pais procurem o oftalmologista pediátrico com a suspeita de que o bebê é estrábico, quando, na verdade, trata-se de um pseudoestrabismo. Essa condição ocorre principalmente em bebês que possuem a base do nariz mais larga ou pregas cutâneas excessivas no canto interno das pálpebras (epicanto).

Nesses casos, a pele encobre a parte branca do olho (esclera) quando o bebê olha levemente para o lado, criando a ilusão de que o olho está desviado para dentro. Conforme a face da criança se desenvolve e a ponte nasal se torna mais proeminente, essa aparência tende a desaparecer. No entanto, apenas um exame clínico detalhado pode diferenciar o pseudoestrabismo do estrabismo verdadeiro.

vista frontal. cubra o olho direito com a mão. menino testando a visão com novos óculos pretos.
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A importância do diagnóstico precoce

O diagnóstico precoce do estrabismo é considerado uma prioridade internacional nas políticas de saúde ocular infantil. Programas de triagem neonatal, como o Teste do Reflexo Vermelho, realizados ainda na maternidade, são o primeiro passo fundamental para identificar alterações grosseiras no eixo visual e outras patologias graves.

A recomendação de diversas sociedades de oftalmologia pediátrica é que a primeira consulta completa com um especialista ocorra entre os 6 meses e 1 ano de idade, mesmo na ausência de sintomas aparentes. O diagnóstico realizado nos primeiros anos de vida permite que o tratamento aproveite a fase de maior plasticidade cerebral, aumentando significativamente as chances de recuperação da visão binocular e prevenindo sequelas permanentes. Além disso, a conscientização sobre a saúde ocular no ambiente escolar desempenha um papel relevante na triagem de casos que poderiam passar despercebidos no ambiente familiar.

Consequências da falta de tratamento: ambliopia (olho preguiçoso)

A principal complicação do estrabismo não tratado na infância é a ambliopia em crianças. Quando os olhos estão desalinhados, o cérebro recebe duas imagens diferentes e conflitantes. Para evitar a confusão, o córtex visual "desliga" ou suprime ativamente os impulsos nervosos vindos do olho desviado.

Se essa supressão se tornar constante, as conexões nervosas entre aquele olho e o cérebro não se desenvolvem adequadamente. Atualmente, sabe-se que o desenvolvimento visual pleno pode se estender até os 10-12 anos de idade. Embora o tratamento seja significativamente mais eficaz quando iniciado precocemente, estudos clínicos modernos demonstram que existe plasticidade neural suficiente para obter melhora visual em crianças e adolescentes de até 17 anos. O tratamento do estrabismo, portanto, não visa apenas o alinhamento estético, mas primordialmente a manutenção da saúde funcional e a prevenção de danos permanentes à visão.

Opções de tratamento não cirúrgico

O tratamento do estrabismo é individualizado e depende da causa, da idade da criança e do grau do desvio. Nem todo caso de estrabismo exige cirurgia imediata; muitas vezes, métodos conservadores são extremamente eficazes para restabelecer o equilíbrio visual.

Uso de óculos e prismas

Em casos de esotropia acomodativa, o uso de óculos com a correção exata da hipermetropia pode ser o único tratamento necessário. Ao corrigir o erro refrativo, a criança não precisa mais realizar o esforço de foco excessivo, o que faz com que os olhos se alinhem naturalmente.

Em outras situações, podem ser prescritas lentes com prismas. Os prismas não corrigem o desvio em si, mas alteram a direção da luz que entra no olho, ajudando o cérebro a fundir as duas imagens em uma só. Isso pode ser útil para reduzir sintomas de visão dupla e auxiliar na estabilidade visual antes ou depois de uma intervenção cirúrgica.

Terapia oclusiva (o uso do tampão)

A terapia oclusiva é o método padrão-ouro para o tratamento da ambliopia associada ao estrabismo. O procedimento consiste em cobrir o olho com melhor visão (o "olho forte") por períodos determinados durante o dia.

O objetivo é forçar o cérebro a utilizar e processar as imagens do olho desviado (o "olho preguiçoso"), estimulando o desenvolvimento das vias neurais atrofiadas. A eficácia desse tratamento depende diretamente da adesão da família, pois o uso rigoroso do tampão nos horários prescritos é o que determinará o ganho de acuidade visual da criança. É importante ressaltar que o tampão trata a visão, mas nem sempre corrige o desvio físico dos olhos, podendo ser necessário complementar o tratamento com outras abordagens.

Cirurgia de estrabismo em crianças

A intervenção cirúrgica é indicada quando os métodos não invasivos não são suficientes para alinhar os olhos ou quando o desvio é de grande magnitude, impedindo o desenvolvimento da visão binocular (estereopsia).

O objetivo da cirurgia é fortalecer ou enfraquecer determinados músculos extraoculares para alterar a posição do globo ocular. A decisão sobre o momento ideal para a cirurgia é técnica e deve ser discutida entre o oftalmologista pediátrico e a família, levando em conta os benefícios para a função visual e o bem-estar psicossocial da criança.

Como é feito o procedimento e a anestesia

A cirurgia de estrabismo é realizada na parte externa do globo ocular, nos tecidos musculares, e não envolve a abertura da estrutura interna do olho. O cirurgião faz uma pequena incisão na conjuntiva (a membrana transparente que cobre a esclera) para acessar os músculos.

Existem basicamente dois tipos de manobras:

  1. Recessão: O músculo é desinserido de sua posição original e fixado mais atrás, o que reduz sua força de tração (enfraquecimento).
  2. Ressecção: Uma parte do músculo é removida para torná-lo mais curto, aumentando sua força de tração (fortalecimento).

Em pacientes pediátricos, o procedimento é realizado sob anestesia geral. Isso garante a segurança da criança, permitindo que ela permaneça imóvel e confortável durante toda a cirurgia. A técnica anestésica moderna é segura e os riscos são minimizados através de exames pré-operatórios criteriosos.

Pós-operatório e cuidados após a cirurgia

A recuperação da cirurgia de estrabismo costuma ser rápida, mas exige cuidados específicos para evitar infecções e garantir o sucesso do alinhamento.

  • Aspecto visual: É normal que a parte branca do olho apresente vermelhidão intensa nos primeiros dias. Esse sintoma diminui gradualmente em algumas semanas.
  • Desconforto: A criança pode sentir uma sensação de "areia nos olhos" ou leve irritação. Analgésicos comuns costumam ser suficientes para o controle do desconforto.
  • Medicamentos: O uso de colírios contendo antibióticos e anti-inflamatórios é prescrito para prevenir infecções e reduzir o inchaço.
  • Restrições: Deve-se evitar natação, atividades físicas de impacto e ambientes com muita poeira por pelo menos 15 dias.
  • Acompanhamento: Consultas de retorno são essenciais para avaliar o alinhamento. Em alguns casos, ajustes adicionais ou até uma segunda intervenção podem ser necessários ao longo do crescimento da criança, pois o sistema visual continua se modificando.

Mitos e verdades sobre o estrabismo infantil

Existem muitas informações equivocadas que podem gerar ansiedade ou atrasar a busca por ajuda profissional. Esclarecer esses pontos é parte essencial do cuidado pedagógico.

  • O estrabismo cura sozinho com o tempo? Mito. Embora bebês recém-nascidos possam apresentar desvios ocasionais até os 4 meses de idade, qualquer desalinhamento persistente após essa fase deve ser avaliado. O estrabismo verdadeiro não desaparece espontaneamente.
  • O uso de telas causa estrabismo? Verdade parcial. O uso excessivo de dispositivos digitais não causa o estrabismo clássico, mas o esforço excessivo de visão de perto (acomodação) pode desencadear ou agravar uma esotropia em crianças predispostas. Além disso, o excesso de telas é um fator de risco para a progressão da miopia.
  • A cirurgia é apenas estética? Mito. O alinhamento ocular é fundamental para a visão 3D e para a saúde binocular. Além disso, o impacto na autoestima e no desenvolvimento social da criança é um fator clínico relevante.

Próximos passos

O acompanhamento da saúde ocular na infância é um pilar relevante para o desenvolvimento integral de qualquer criança. Caso sejam observados sinais de desalinhamento ou comportamentos visuais atípicos, a consulta com um oftalmologista pediátrico é o passo indicado para um diagnóstico preciso.

A intervenção oportuna, seja por meio de óculos, terapia oclusiva ou cirurgia, contribui para que o sistema visual atinja seu potencial máximo, prevenindo complicações de longo prazo e assegurando o bem-estar do paciente.

Referências

  1. MSD Manuals. Estrabismo em crianças.
  2. Revista Brasileira de Oftalmologia. Perfil clínico do estrabismo e ambliopia em serviço de referência.

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