Artigos 17 abril 2026

Raquitismo Infantil: Como a falta de vitaminas afeta o crescimento dos ossos

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

A saúde esquelética durante a infância é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento físico, crescimento infantil e puberdade, garantindo a qualidade de vida a longo prazo. O raquitismo configura-se como uma condição clínica que, embora muitas vezes associada a períodos históricos de carência nutricional extrema, permanece um desafio relevante para a saúde pública contemporânea, inclusive em países com alta incidência de radiação solar. Trata-se de uma patologia que afeta o tecido ósseo em crescimento, resultando em estruturas frágeis e suscetíveis a deformidades permanentes caso não haja intervenção precoce e adequada.

A compreensão desta condição exige uma análise detalhada dos processos biológicos de mineralização, da homeostase do cálcio e do fosfato, e da influência de fatores genéticos e ambientais. Este guia tem como objetivo fornecer informações precisas e baseadas em evidências sobre o espectro do raquitismo, abordando desde sua etiologia até os avanços terapêuticos mais recentes, facilitando o reconhecimento de sinais clínicos e a busca por suporte médico especializado.

O que é raquitismo?

O raquitismo é definido como um distúrbio da mineralização da placa epifisária (ou placa de crescimento) e do tecido osteoide recém-formado. Esta condição ocorre exclusivamente em crianças e adolescentes, indivíduos cujas placas de crescimento ainda não se fundiram. Nesses casos, a avaliação do desenvolvimento e da maturação esquelética pode ser complementada pelo exame de idade óssea. A falha na deposição adequada de minerais, como cálcio e fosfato, na matriz óssea torna o esqueleto maleável e propenso a deformações sob a carga do peso corporal e da tensão muscular.

É fundamental estabelecer a distinção entre o raquitismo e a osteomalácia. Enquanto o raquitismo se manifesta na fase de crescimento, afetando tanto a cartilagem de crescimento quanto o osso, a osteomalácia é o termo aplicado a adultos que já completaram a maturação esquelética. Nestes casos, o defeito de mineralização ocorre apenas na matriz osteoide do osso maduro, não havendo mais envolvimento das placas de crescimento. Ambas as condições compartilham causas biológicas semelhantes, mas suas manifestações clínicas e radiológicas divergem devido ao estágio de desenvolvimento do paciente.

Principais tipos de raquitismo

A classificação do raquitismo é essencial para determinar a abordagem terapêutica, visto que a origem da deficiência mineral pode ser puramente nutricional ou decorrente de complexos mecanismos genéticos.

Tipo de raquitismo
Causa principal
Características
Nutricional (carencial)
Deficiência de vitamina D, cálcio ou fósforo na dieta.
Tipo mais comum, frequentemente associado à baixa exposição solar.
Hipofosfatêmico (genético)
Mutações genéticas (ex: gene PHEX) que causam perda de fosfato.
Caracterizado por níveis baixos de fósforo no sangue devido à excreção renal excessiva.
Renal
Doença renal crônica (osteodistrofia renal).
Ocorre quando os rins não conseguem ativar a vitamina D ou equilibrar os minerais.
Vitamina D-resistente
Mutações no receptor de vitamina D.
O corpo possui vitamina D, mas as células não conseguem responder à sua ação.

Cada subcategoria apresenta desafios diagnósticos específicos. O raquitismo carencial é predominante em populações com dietas restritivas ou isolamento social, enquanto as formas genéticas, como o Raquitismo Hipofosfatêmico Ligado ao X (XLH), exigem um acompanhamento especializado por endocrinologistas pediátricos e geneticistas devido à sua natureza crônica e progressiva.

Epidemiologia e estatísticas no Brasil

No contexto brasileiro, a prevalência do raquitismo apresenta nuances particulares. Apesar de o Brasil ser um país com ampla disponibilidade de luz solar em quase todo o território, estudos indicam que a hipovitaminose D é um fenômeno frequente em diversas faixas etárias, incluindo a pediátrica. Fatores como o uso de protetores solares, o aumento do tempo de permanência em ambientes fechados e a poluição urbana contribuem para a redução da síntese cutânea de vitamina D.

Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, o diagnóstico e o tratamento do raquitismo e da osteomalácia são estruturados dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), visando a padronização dos cuidados. No que tange às formas raras da doença, as estatísticas são mais precisas para as variantes genéticas. Estima-se que o Raquitismo Hipofosfatêmico Ligado ao X (XLH) afete aproximadamente 1 em cada 20.000 nascidos vivos. Esta estatística destaca a importância de um olhar clínico atento para casos que não respondem à suplementação nutricional convencional, sinalizando a necessidade de investigação para causas metabólicas e hereditárias mais complexas.

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Causas e fatores de risco

A integridade do esqueleto depende de um equilíbrio delicado entre a ingestão de nutrientes e o funcionamento adequado dos órgãos responsáveis pela sua absorção e processamento. A interrupção deste equilíbrio é o que desencadeia o enfraquecimento ósseo.

Deficiência de vitamina D e cálcio

A vitamina D atua como um hormônio essencial que facilita a absorção intestinal de cálcio e fósforo. Sem níveis adequados de colecalciferol (vitamina D3) ou ergocalciferol (vitamina D2), o organismo não consegue extrair esses nutrientes da dieta de forma eficiente. Em resposta à baixa concentração de cálcio no sangue, o corpo ativa o hormônio da paratireoide (PTH), que mobiliza o cálcio dos próprios ossos para manter as funções vitais, agravando ainda mais a fragilidade esquelética. É importante ressaltar que, para o desenvolvimento da estatura, a ação de outros reguladores, como o hormônio do crescimento (GH), também é fundamental.

Os principais fatores de risco para a deficiência nutricional incluem:

  • Amamentação exclusiva prolongada sem a devida suplementação de vitamina D recomendada pela pediatria.
  • Dietas pobres em produtos lácteos ou fontes alternativas de cálcio.
  • Pele com fototipos mais altos (maior pigmentação de melanina), que exige maior tempo de exposição solar para a síntese da vitamina.
  • Condições de má absorção intestinal, como doença celíaca ou doença inflamatória intestinal.

Raquitismo hipofosfatêmico e genética

Diferente da forma nutricional, o raquitismo genético é causado por mutações que interferem no metabolismo do fósforo. O fosfato é um componente mineral indispensável para a formação do cristal de hidroxiapatita, que confere rigidez ao osso. No XLH, a mutação no gene PHEX leva ao excesso de uma proteína chamada FGF23 (fator de crescimento de fibroblastos 23). O excesso desta proteína sinaliza aos rins para excretarem fosfato na urina de forma descontrolada e impede a ativação da vitamina D.

Este tipo de raquitismo é hereditário e não se resolve com a simples exposição ao sol ou melhora na dieta. Ele exige uma abordagem farmacológica contínua para evitar deformidades graves, baixa estatura acentuada e dores crônicas que podem perdurar por toda a vida adulta se não houver manejo apropriado na infância.

Sintomas e sinais clínicos

As manifestações do raquitismo tornam-se mais evidentes à medida que a criança começa a sustentar o próprio peso e a desenvolver marcos motores. Os sinais podem ser divididos em alterações esqueléticas, musculares e de desenvolvimento.

  • Deformidades nas pernas: O sinal mais característico é o arqueamento dos membros inferiores (genu varum) ou os joelhos que se tocam enquanto os tornozelos permanecem afastados (genu valgum).
  • Rosário raquítico: Refere-se à proeminência visível e palpável das junções costocondrais, assemelhando-se a contas de um terço ou rosário no tórax.
  • Atraso no fechamento das fontanelas: A “moleira” da criança demora mais tempo do que o esperado para fechar, e os ossos do crânio podem apresentar uma consistência amolecida (craniotabes).
  • Alterações torácicas e de coluna: Pode ocorrer o surgimento do peito de pombo (protrusão do esterno) e desvios na coluna vertebral, como a cifose.
  • Atraso no desenvolvimento motor: A fraqueza muscular associada à dor óssea pode fazer com que a criança demore a sentar, engatinhar ou andar.
  • Desenvolvimento dentário prejudicado: Atraso na erupção dos dentes de leite, defeitos no esmalte dentário e maior predisposição a cáries e abscessos.
  • Dores e irritabilidade: O paciente pode apresentar desconforto constante nos ossos e músculos, muitas vezes manifestado por choro ao ser manipulado ou relutância em praticar atividades físicas. Tais sinais são frequentemente um alerta para uma insuficiência de nutrientes essencial para os ossos.

Diagnóstico: exames e avaliação médica

O diagnóstico precoce é um elemento essencial para reverter as alterações ósseas e prevenir sequelas permanentes. O processo investigativo combina a anamnese detalhada, o exame físico minucioso e o suporte de exames complementares.

Exames de laboratório

Os exames de laboratório (sangue e urina) são fundamentais para identificar a etiologia do raquitismo e monitorar a resposta ao tratamento.

Marcador
Alteração comum no raquitismo
Significado clínico
Cálcio sérico
Pode estar baixo ou normal
Níveis baixos indicam raquitismo calcipênico grave.
Fósforo sérico
Frequentemente baixo
Redução acentuada em casos genéticos (XLH).
Fosfatase alcalina
Muito elevada
Indica alta atividade de remodelação óssea compensatória.
Vitamina D (25(OH)D)
Baixa no raquitismo nutricional
Reflete os estoques corporais de vitamina D.
Paratormônio (PTH)
Elevado
Resposta do corpo para tentar elevar o cálcio no sangue.

Além desses, a análise da urina de 24 horas pode ser necessária para avaliar a excreção de cálcio e fósforo, auxiliando na distinção entre causas renais e intestinais.

Exames de imagem

As radiografias de punhos, joelhos e tórax são os exames de imagem de escolha. Elas permitem visualizar alterações patognomônicas, tais como:

  1. Alargamento e irregularidade das placas de crescimento (aspecto “em taça”).
  2. Franjamento das metáfises ósseas.
  3. Desmineralização generalizada do esqueleto (diminuição da densidade óssea).
  4. Presença de zonas de Looser (pseudofraturas), que são locais de má mineralização.

Opções de tratamento no Brasil

O tratamento do raquitismo visa restaurar os níveis minerais, promover a cicatrização óssea e corrigir deformidades. No Brasil, as opções terapêuticas variam conforme a gravidade e a causa da doença, com diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde por meio de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

Suplementação nutricional

Para os casos de raquitismo carencial, a base do tratamento é a reposição de vitamina D e cálcio. O protocolo geralmente envolve doses de ataque de vitamina D seguidas por doses de manutenção. A suplementação nutricional deve ser rigorosamente supervisionada por um médico para evitar a toxicidade (hipervitaminose D), que pode causar danos renais.

Novos medicamentos para raquitismo genético

Um dos avanços mais significativos na medicina metabólica óssea recente foi o desenvolvimento do Burosumabe. Este é um anticorpo monoclonal humano aprovado pela ANVISA que atua neutralizando o excesso de FGF23 em pacientes com Raquitismo Hipofosfatêmico Ligado ao X (XLH). Ao contrário do tratamento convencional com fosfatos e vitamina D ativa, que apenas tentam compensar as perdas, o Burosumabe trata a causa subjacente da doença, permitindo que os rins reabsorvam o fosfato e promovendo uma mineralização óssea muito mais eficiente. Este medicamento representa um salto tecnológico para o tratamento de doenças raras no país, melhorando significativamente a mobilidade e reduzindo a necessidade de cirurgias ortopédicas corretivas no futuro.

Prevenção e cuidados contínuos

A prevenção do raquitismo nutricional é uma estratégia de saúde pública eficaz e de baixo custo. Atualmente, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda a suplementação medicamentosa profilática de vitamina D como a forma mais segura e eficaz de prevenção em lactentes e crianças pequenas, independentemente da exposição solar. Essa diretriz prioriza a suplementação (400 UI/dia de 0 a 12 meses e 600 UI/dia de 12 a 24 meses) em vez da exposição solar direta, visando proteger a pele contra os riscos da radiação ultravioleta e do câncer de pele.

Além da suplementação infantil, a nutrição adequada durante a gestação e a lactação desempenha um papel relevante. Gestantes com deficiência de vitamina D podem dar à luz bebês com baixas reservas minerais, aumentando o risco de raquitismo neonatal. Orientações das sociedades de pediatria e ginecologia enfatizam a importância do acompanhamento nutricional materno e da fortificação de alimentos para garantir níveis adequados de nutrientes durante esse período crítico.

O acompanhamento contínuo com um pediatra permite o monitoramento do crescimento e a identificação precoce de qualquer desvio na trajetória de desenvolvimento motor ou na conformação dos membros. Este cuidado é essencial para diferenciar o quadro de outras condições que afetam o desenvolvimento, como a puberdade precoce ou a puberdade tardia. A detecção precoce é o fator determinante para assegurar que a criança atinja seu pleno potencial de crescimento sem limitações funcionais.

Considerações sobre a saúde óssea infantil

O manejo do raquitismo evoluiu consideravelmente, permitindo que crianças com diferentes formas da doença tenham prognósticos favoráveis quando diagnosticadas oportunamente. A integração entre a nutrição adequada, a exposição solar consciente e o acesso a terapias inovadoras é fundamental para a erradicação das formas graves da patologia.

Diante de qualquer sinal de atraso motor, dores ósseas recorrentes ou deformidades visíveis nos membros, a avaliação por um médico pediatra ou endocrinologista pediátrico torna-se essencial. O acompanhamento profissional é a única via segura para estabelecer um diagnóstico preciso e delinear um plano terapêutico que garanta o desenvolvimento saudável do esqueleto, prevenindo complicações que poderiam impactar a autonomia e o bem-estar do indivíduo na vida adulta.


Referências

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Raquitismo e Osteomalácia. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Protocolos/20220201_PORTAL_Portaria_Conjunta_2_PCDT_Raquitismo_e_Osteomalacia.pdf
Mendelics. Raquitismo Hipofosfatêmico Ligado ao X (XLH). Disponível em: https://www.mendelics.com.br/blog/raquitismo-hipofosfatemico-ligado-ao-x-xlh/
XLH Network. Learn About XLH. Disponível em: https://xlhnetwork.org/learn-about-xlh/
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Consultas de Medicamentos e Protocolos. Disponível em: https://portal.anvisa.gov.br/
BMJ Best Practice. Raquitismo: Diagnóstico e Tratamento. Disponível em: https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/635
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Vitamin D Screening and Supplementation During Pregnancy. Disponível em: https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/committee-opinion/articles/2011/07/vitamin-d-screening-and-supplementation-during-pregnancy


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