Neste artigo você verá:
- O cenário da obesidade e os critérios para tratamento medicamentoso
- Principais medicamentos aprovados pela anvisa
- Injetáveis de última geração: glp-1 e gip
- Medicamentos orais tradicionais
- O futuro do tratamento: retatrutida e genéricos
- Remédios naturais e caseiros para emagrecer
- Riscos da automedicação e a importância do acompanhamento médico
- Apoio profissional no tratamento da obesidade
A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, progressiva e recorrente, que exige uma abordagem terapêutica multifatorial, considerando o tratamento da obesidade, suas causas hormonais e riscos. O excesso de gordura corporal não é apenas uma questão estética, mas um fator de risco determinante para o desenvolvimento de diversas comorbidades, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono e doenças cardiovasculares. O tratamento padrão envolve a modificação do estilo de vida por meio de dieta equilibrada e atividade física regular; contudo, para muitos indivíduos, essas intervenções isoladas podem não ser suficientes para alcançar e manter uma perda de peso clinicamente significativa. Nesses casos, o uso de medicamentos torna-se uma ferramenta terapêutica de grande valia para auxiliar no controle metabólico e na redução da ingestão calórica.
O cenário da obesidade e os critérios para tratamento medicamentoso
O panorama da saúde pública no Brasil revela um crescimento alarmante nos índices de excesso de peso. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), cerca de 25,9% da população adulta brasileira é classificada como obesa, o que representa aproximadamente 41,2 milhões de pessoas. Além disso, mais de 60% dos adultos apresentam excesso de peso, evidenciando que a condição atinge a maioria da população em idade produtiva. Diante dessa realidade, o tratamento medicamentoso é discutido como uma estratégia necessária para reduzir a morbimortalidade associada ao peso.
A indicação para o uso de fármacos não é arbitrária e segue critérios científicos rigorosos estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e por sociedades médicas. Geralmente, a prescrição é considerada quando o paciente não atinge uma perda de peso superior a 5% após seis meses de mudanças intensas no estilo de vida. Os critérios de Índice de Massa Corporal (IMC) são os principais norteadores:
Tabela: classificação de imc e indicação de tratamento
| IMC (kg/m²) | Classificação | Indicação de tratamento medicamentoso |
|---|---|---|
| Abaixo de 18,5 | Abaixo do peso | Não indicado |
| 18,5 – 24,9 | Peso normal | Não indicado |
| 25,0 – 29,9 | Sobrepeso | Indicado se IMC ≥ 27,0 kg/m² e houver comorbidades (ex: hipertensão, diabetes) |
| 30,0 – 34,9 | Obesidade grau I | Indicado como terapia auxiliar |
| 35,0 – 39,9 | Obesidade grau II | Indicado como terapia auxiliar |
É fundamental compreender que o medicamento não substitui a dieta, mas atua como um facilitador do processo, ajudando o paciente a aderir às novas rotinas alimentares e metabólicas.
Principais medicamentos aprovados pela anvisa
No Brasil, o mercado de medicamentos para perda de peso passou por transformações significativas nos últimos anos. Atualmente, existem substâncias aprovadas que atuam em diferentes sistemas do organismo, desde o sistema nervoso central até o sistema digestivo. A escolha da substância depende do perfil do paciente, de suas contraindicações e da presença de outras doenças.
Tabela: comparativo de medicamentos: princípio ativo, nome comercial e mecanismo de ação
| Princípio ativo | Nome comercial | Mecanismo de ação |
|---|---|---|
| Sibutramina | Biomag, Vazy, Sibus | Aumenta a saciedade via sistema nervoso central |
| Orlistate | Xenical, Lipiblock | Inibe a absorção de gorduras no intestino |
| Liraglutida | Saxenda | Análogo de GLP-1; retarda esvaziamento gástrico e gera saciedade |
| Semaglutida | Ozempic, Wegovy | Análogo de GLP-1 de longa duração; controle da fome e saciedade |
| Tirzepatida | Mounjaro | Agonista duplo de GLP-1 e GIP; alta eficácia metabólica |
Injetáveis de última geração: glp-1 e gip
Os medicamentos injetáveis que utilizam análogos de hormônios incretínicos representam a maior inovação na endocrinologia moderna. Eles mimetizam substâncias naturais produzidas pelo intestino que sinalizam ao cérebro quando o corpo está satisfeito. Esses fármacos têm demonstrado uma eficácia superior a terapias tradicionais, aproximando-se, em alguns casos, dos resultados obtidos com intervenções cirúrgicas.
Semaglutida (ozempic, wegovy e rybelsus)
A semaglutida é uma molécula que atua como agonista do receptor de GLP-1 (Glucagon-like peptide-1). Ela atua no hipotálamo, região do cérebro responsável pelo controle do apetite, e retarda o esvaziamento do estômago, o que mantém a sensação de plenitude por mais tempo.
- Wegovy: É a versão especificamente aprovada para o tratamento da obesidade, com doses que chegam a 2,4 mg por semana. Estudos indicam uma perda de peso média superior a 15%.
- Ozempic: Embora amplamente utilizado para obesidade, sua indicação em bula (on-label) é para o tratamento do diabetes tipo 2.
- Rybelsus: Consiste na versão oral da semaglutida, indicada para pacientes que possuem resistência ao uso de agulhas, embora a absorção exija cuidados específicos de jejum.
Liraglutida (saxenda)
A liraglutida foi o primeiro análogo de GLP-1 a receber aprovação específica para o tratamento da obesidade no Brasil. Diferente da semaglutida, a sua aplicação é diária, o que permite um ajuste de dose mais dinâmico caso o paciente apresente efeitos colaterais. O medicamento auxilia na redução da ingestão calórica ao modular os sinais de fome e aumentar a saciedade pós-prandial.
Tirzepatida (mounjaro)
A tirzepatida representa um avanço adicional por ser um agonista duplo, atuando nos receptores de GLP-1 e também nos de GIP (Polipeptídeo Inibidor Gástrico). Essa ação combinada potencializa o metabolismo da glicose e a quebra de gordura. Em estudos clínicos de larga escala, como o programa SURMOUNT, pacientes utilizando a dose máxima de tirzepatida alcançaram perdas de peso médias superiores a 20%, o que coloca esta substância como uma das mais potentes ferramentas farmacológicas disponíveis atualmente.

Medicamentos orais tradicionais
Apesar do sucesso dos injetáveis, os medicamentos via oral ainda ocupam um espaço relevante no tratamento, especialmente por apresentarem custos mais acessíveis ou por tratarem aspectos comportamentais específicos, como a compulsão alimentar.
Sibutramina
A sibutramina é um dos fármacos mais antigos ainda em uso no Brasil. Ela atua impedindo a recaptação de neurotransmissores como a serotonina e a noradrenalina. Isso resulta em uma maior sensação de saciedade e um leve aumento no gasto energético. Devido à sua ação no sistema cardiovascular, o uso é restrito a pacientes sem histórico de doenças cardíacas, hipertensão descontrolada ou arritmias. No Brasil, sua venda exige uma receita especial com termo de responsabilidade assinado pelo médico e pelo paciente.
Orlistate (xenical)
O orlistate possui um mecanismo de ação periférico, ou seja, não atua no sistema nervoso central. Ele inibe as lipases gastrointestinais, enzimas responsáveis pela quebra da gordura para que ela seja absorvida. Com o uso do orlistate, aproximadamente 30% da gordura ingerida na refeição é eliminada nas fezes. É um medicamento útil para a reeducação alimentar, pois o consumo excessivo de gorduras durante o tratamento pode causar efeitos colaterais desagradáveis, como urgência evacuatória e esteatorreia (fezes gordurosas).
Naltrexona e bupropiona (contrave)
Esta combinação ataca dois componentes essenciais da obesidade: a fome física e o "fome emocional" (hedônica). A bupropiona é um antidepressivo que reduz o apetite, enquanto a naltrexona é um antagonista opioide que atua no sistema de recompensa do cérebro, reduzindo o prazer associado à comida e o desejo intenso por alimentos específicos (craving). É uma opção indicada para pacientes com perfil de comportamento compulsivo ou ansioso em relação à alimentação.
O futuro do tratamento: retatrutida e genéricos
A ciência farmacêutica continua avançando para oferecer soluções ainda mais personalizadas. A retatrutida é uma das moléculas mais promissoras em fase final de estudos. Ela é um agonista triplo, agindo nos receptores de GLP-1, GIP e Glucagon. Espera-se que essa tríplice ação resulte em uma perda de peso ainda mais acentuada e uma melhora drástica nos quadros de gordura no fígado (esteatose hepática).
Outro ponto de virada esperado é o fim das patentes de medicamentos como a semaglutida. A entrada de versões genéricas e biossimilares no mercado brasileiro tem o potencial de reduzir drasticamente os custos, facilitando o acesso de uma parcela maior da população ao tratamento de ponta. A democratização desses tratamentos é essencial para o controle da epidemia de obesidade em países em desenvolvimento.
Remédios naturais e caseiros para emagrecer
Muitas pessoas buscam alternativas em produtos naturais, atraídas pela ideia de menos efeitos colaterais. Embora existam fitoterápicos e suplementos que podem auxiliar no processo, é determinante ressaltar que eles não possuem a mesma potência dos fármacos sintéticos e não devem ser utilizados como tratamento único para a obesidade moderada ou grave.
Suplementos e fitoterápicos
Suplementos e fitoterápicos atuam de forma complementar no processo de emagrecimento. Algumas das substâncias mais comuns incluem:
- Quitosana: Uma fibra extraída do exoesqueleto de crustáceos que se liga às gorduras no trato digestivo, dificultando sua absorção.
- Spirulina: Uma microalga rica em proteínas e nutrientes que pode aumentar a sensação de saciedade devido ao seu elevado teor proteico e densidade nutricional.
- Glucomannan: Uma fibra solúvel que absorve água e forma um gel no estômago, retardando o esvaziamento gástrico.
- Chá verde em cápsulas: Rico em catequinas e cafeína, possui um leve efeito termogênico, auxiliando na oxidação de gorduras.
Chás e águas funcionais
Estratégias caseiras são úteis principalmente para a hidratação e a redução da retenção de líquidos. O chá de hibisco e o chá de cavalinha possuem propriedades diuréticas reconhecidas, ajudando a diminuir o inchaço abdominal. A água de gengibre e a água de limão são frequentemente utilizadas por seu frescor e por estimularem a digestão, mas não possuem a capacidade de "queimar gordura" de forma isolada sem um déficit calórico estabelecido.
Riscos da automedicação e a importância do acompanhamento médico
O uso de medicamentos para emagrecer sem a devida supervisão médica representa um risco severo à saúde. Cada organismo reage de maneira distinta às substâncias químicas, e o que é benéfico para um paciente pode ser perigoso para outro. A automedicação com inibidores de apetite pode levar a distúrbios psiquiátricos, alterações cardíacas graves, disfunções renais e dependência.
Além disso, o sucesso do tratamento da obesidade a longo prazo depende da combinação de três pilares: farmacoterapia, plano alimentar e atividade física. O medicamento serve para "silenciar" a fome excessiva e permitir que o paciente consiga fazer escolhas alimentares mais conscientes. Sem a mudança de hábitos alimentares, o risco de reganho de peso (o efeito sanfona) após a suspensão do remédio é extremamente elevado.
O acompanhamento profissional permite monitorar parâmetros como pressão arterial, frequência cardíaca e saúde mental durante todo o processo. Exames laboratoriais periódicos são necessários para garantir que a perda de peso esteja ocorrendo de forma saudável, preservando a massa muscular e otimizando a taxa metabólica basal.
Apoio profissional no tratamento da obesidade
O enfrentamento da obesidade é uma jornada contínua que exige paciência e suporte especializado para garantir resultados duradouros e seguros. Buscar a orientação de um endocrinologista é o primeiro passo para definir a melhor estratégia farmacológica, mas o acompanhamento de um psicólogo também é fundamental para abordar a relação emocional com a comida e garantir a saúde mental durante o processo de transformação corporal.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Novos medicamentos e indicações.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
- PubMed. Semaglutide for weight management in adults with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis.
- National Center for Biotechnology Information (NCBI). Tirzepatide: A Novel Dual GIP and GLP-1 Receptor Agonist for the Treatment of Type 2 Diabetes Mellitus.


