Sou médica psiquiatra, psicoterapeuta e atuo na interface da saúde mental com a sexualidade humana. Desde muito cedo, aprendi que cuidar da saúde mental também é aprender a escutar aquilo que, muitas vezes, não encontra palavras: o sofrimento, a diferença, o desejo, a vergonha, os vínculos e as formas singulares de cada pessoa existir no mundo.
Aos 10 anos, eu já dizia que seria psiquiatra. A convivência com meu primo autista, criado comigo como um irmão, me ensinou, ainda criança, que “normalidade” é um conceito estreito demais para acolher a complexidade humana. Essa experiência orienta meu trabalho até hoje, especialmente na interface entre psiquiatria, sexualidade humana, comportamento, vínculos familiares, desenvolvimento e diversidade sexual e de gênero.
Atendo adolescentes e adultos com queixas relacionadas a ansiedade, depressão, transtorno bipolar, transtornos do neurodesenvolvimento, como TDAH e TEA, alterações do sono, impulsividade, compulsão alimentar e compulsões comportamentais, como compras compulsivas, transtorno do jogo, uso problemático de pornografia e comportamento sexual compulsivo.
Também acompanho pessoas com dificuldades ou disfunções sexuais de origem ou componente psicogênico, sofrimento relacionado à sexualidade, conflitos nos relacionamentos e questões ligadas à diversidade sexual e de gênero.
Acompanho pessoas trans, não binárias e outras pessoas que vivenciam incongruência de gênero, em diferentes momentos de seus processos de reconhecimento e afirmação. Esse acompanhamento é afirmativo e não patologizante: busca cuidar do sofrimento quando ele existe, sem transformar a diversidade em diagnóstico, respeitando a autonomia, os vínculos familiares, o contexto social e a singularidade de cada trajetória.
Além do atendimento clínico individual, ofereço orientação a mães, pais e responsáveis diante de questões relacionadas à adolescência, sexualidade, limites, saúde mental e uso de tecnologia. Também realizo supervisão e consultoria institucional em Educação Sexual para escolas e equipes que precisam lidar com esses temas de forma ética, cuidadosa e baseada em ciência.
Cursei Medicina e fiz Residência Médica em Psiquiatria na UFRJ. Tenho formação em Sexualidade Humana pelo IPq/HC-FMUSP, em Farmacodependências e Dependências Comportamentais pelo PROJAD/UNIFESP e em Sono pelo Instituto do Sono/UNIFESP. Tenho mestrado em Psicobiologia e Saúde Coletiva pela UNIFESP e doutorado em Sexualidade, na área de Estudos de Gênero, pela UCES.
Hoje, atuo em serviços que oferecem cuidado afirmativo à população
LGBTQIAPN+, supervisionando residentes de diferentes serviços de residência médica do Estado de São Paulo na interface entre psiquiatria e sexualidade, por meio de uma parceria com o MEC.
Mantenho meu consultório particular em São Paulo, com foco em psiquiatria e sexualidade humana, e desenvolvo pesquisa em Estudos de Gênero na UCES, na Argentina, investigando as novas configurações do masculino e do feminino no século XXI e suas relações com as compulsões.
Minha escuta foi moldada tanto pela formação acadêmica quanto pela experiência clínica com pessoas reais: histórias atravessadas por sofrimento emocional, compulsões, conflitos sexuais, questões de identidade e aspectos da personalidade. Histórias marcadas por muito silêncio, mas também por um grande desejo de mudança, transformação e de construir uma vida que valha a pena ser vivida.
Atuei por 20 anos no SUS, em contextos que exigiram técnica, presença e responsabilidade ética. Na Casa da Aids (SEAP/HC-FMUSP), observei de perto como a epidemia “desnudou” aspectos do comportamento sexual dos brasileiros e evidenciou que saúde mental e saúde sexual precisam caminhar juntas. Esses campos exigem conhecimento e cuidado especializado: não há espaço para achismos, tampouco para negligência. Educação e saúde sexual são promotoras de saúde e podem contribuir para a prevenção do sofrimento psíquico.
Nos anos de 2016 e 2017, tive a honra de atuar como colaboradora no Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e de Prevenção aos Desfechos Negativos Associados ao Comportamento Sexual (AISEP/IPq-HC-FMUSP). Essa experiência foi um divisor de águas na minha trajetória acadêmica e clínica. Até então, a saúde sexual já fazia parte do meu entendimento sobre o que era saúde mental, mas meu contato com esse campo acontecia principalmente no cuidado de pessoas que viviam com HIV ou haviam sofrido violência sexual. Foi no AISEP que encontrei um mundo até então pouco visível: pessoas que viviam escondidas de si mesmas. Ali aprendi a ouvir: “o meu comportamento sexual me causa sofrimento”. Compreender essa frase em toda a sua complexidade significou, de fato, retirar o comportamento sexual compulsivo da ótica reducionista de um “vício”.
Durante mais de 15 anos, trabalhei com adolescentes em situação de vulnerabilidade psicossocial, incluindo uso problemático de álcool, tabaco e outras drogas, comportamentos disruptivos, violência, negligência, sofrimento psíquico e cumprimento de medida socioeducativa na Fundação Casa.
Essa experiência ampliou minha compreensão sobre adolescência, trauma, sexualidade, vínculos familiares, masculinidades, comportamento e prevenção/ promoção de saúde mental e educação sexual. Também reforçou a importância de um cuidado clínico, parental e institucional (escola, comunidade, serviços, espiritualidade, etc) que considere o impacto das experiências adversas no desenvolvimento emocional e na saúde mental ao longo da vida.
É desse encontro entre ciência, experiência e presença que nasce meu modo de cuidar: sem reduzir ninguém a um diagnóstico, sem desconsiderar sua história e sem perder de vista a possibilidade de mudança.