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O sintoma no ambiente corporativo: quando o sujeito adoece para suportar
Ana Borges Psicanálise e Psicologia
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30 de maio de 2025
A partir de 26 de maio de 2025, uma nova exigência entra em vigor no universo corporativo brasileiro: os fatores de risco psicossociais passam a ser obrigatoriamente considerados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), conforme a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01).
Ainda que as multas só comecem a ser aplicadas em maio de 2026, este primeiro ano tem caráter educativo — e pode ser um marco importante para as empresas que desejam sair na frente. Porque mais do que se adequar à norma, é preciso repensar a cultura que estrutura o sofrimento no trabalho.
Afinal, como nos ensina a psicanálise, o sintoma fala. E quando ele emerge no ambiente corporativo, é porque há algo que insiste em ser escutado.
O sintoma como linguagem
O que se chama hoje de “absenteísmo”, “queda de performance” ou “resistência à mudança” pode ser, na verdade, o sujeito tentando existir em meio ao adoecimento.
A psicanálise compreende o sintoma não como falha, mas como mensagem. Um recurso que o sujeito inconscientemente utiliza para suportar aquilo que não consegue simbolizar. E no mundo do trabalho, isso aparece em forma de ansiedade crônica, dores recorrentes, esgotamento, falta de ar — sinais silenciosos de que algo não vai bem.
Com a nova NR-01, não se trata apenas de reconhecer que esses sinais existem, mas de perguntar: o que eles estão tentando dizer sobre o modo como a organização funciona?
A escuta como prática de gestão
Enquanto algumas empresas buscam “eliminar” o sintoma com ações pontuais e paliativas, a psicanálise propõe outra via: escutar. Não como protocolo, mas como ato ético.
A nova exigência da NR-01 é um convite para que o RH, as lideranças e todos os gestores deixem de olhar o sofrimento psíquico como “problema individual” e passem a vê-lo como um fenômeno coletivo e estrutural.
Escutar, nesse contexto, significa abrir espaço para a fala, rever posturas gerenciais, flexibilizar metas inatingíveis, criar políticas de cuidado que sejam sustentáveis — e não apenas bonitas no papel.
Adoecer não é falta de preparo. É resposta
O adoecimento psíquico muitas vezes aparece como única resposta possível frente a ambientes que exigem demais e oferecem de menos. O sujeito adoece para suportar.
A psicanálise nos ajuda a compreender que o sintoma, nesse caso, é um pedido de socorro — mas também uma forma inconsciente de se preservar diante de algo que está além do tolerável.
A empresa que decide escutar esse pedido não apenas evita sanções legais no futuro. Ela transforma relações, valoriza o humano e abre espaço para novas formas de estar no trabalho.
O momento de mudança é agora
Com um ano inteiro de transição até que as penalidades entrem em vigor, o momento é estratégico. Não só para se adequar à norma, mas para implementar uma nova cultura organizacional, mais conectada com o bem-estar psíquico e com a escuta sensível das equipes.
Porque se é verdade que a NR-01 trouxe novas obrigações, também é verdade que ela escancarou um velho silêncio: o sofrimento no trabalho existe, e precisa ser levado a sério.
16/06/2026