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Deus como Nome-do-Pai: o que Lacan revela sobre fé, desejo e sintoma
Ana Borges Psicanálise e Psicologia
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29 de maio de 2025
“Deus está morto”, disse Nietzsche, e Lacan, ao escutar essa frase ecoando no inconsciente do sujeito moderno, não tentou refutá-la. Em vez disso, se perguntou: e o que surge no lugar desse Deus que caiu? Porque, quando uma crença desaparece, o sujeito não fica vazio. Ele encontra um substituto. Um sintoma.
No Seminário 3, Lacan apresenta o Nome-do-Pai como mais que uma figura religiosa, ele é um significante que estrutura a entrada do sujeito na linguagem, aquilo que marca a separação da criança em relação ao desejo materno. É o “não” inaugural que nos permite dizer “eu”. Sem esse corte simbólico, o sujeito se perde no gozo do outro, sufocado por excessos ou silenciado por faltas.
Mas o mundo contemporâneo parece viver um colapso desse Nome. E onde antes havia um Deus que simbolizava o limite, hoje muitos se entregam a crenças que prometem certezas absolutas. Lacan advertia: quando a metáfora paterna falha, o que retorna é o gozo despótico, e não raro, disfarçado de fé.
O que vemos então é uma tentativa desesperada de tamponar o vazio com doutrinas rígidas, fanatismos que não acolhem a diferença, mas exigem obediência. Como escreveu Maria Rita Kehl, o mal-estar atual não está na ausência de Deus, mas no excesso de sentidos que tentam ocupar seu lugar.
Ainda é possível crer sem se perder? A psicanálise não responde com dogmas. Ela pergunta: o que é Deus para você? Que lugar ele ocupa na sua história? O que você tenta calar quando se agarra ao que é inquestionável?
Crer pode ser um gesto íntimo de abertura ao mistério. Mas quando essa fé deixa de ser espaço de elaboração e vira exigência de certeza, talvez o que esteja em jogo não seja Deus, mas um sintoma que clama por escuta.
Vamos conversar sobre isso? A psicanálise pode ajudar a pensar.
23/06/2026