Perguntas do paciente (6)

  • Como superar a dor de um término de relacionamento? Isso pode ser considerado um luto?

    Como superar a dor de um término de relacionamento? Isso pode ser considerado um luto?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    Olha, eu acho que sim, dá pra pensar isso como um processo de luto sim, no sentido pleno do termo.

    Porque o que se perde num término não é só a pessoa em si, mas toda uma estrutura de sentido que só existia naquela relação: os planos, a rotina, os projetos futuros, um modo inteiro de estar no mundo que era construído a dois. É essa perda de mundo compartilhado que explica por que a dor é tão intensa, mesmo sem ter havido morte biológica.

    E é uma dor que se manifesta no corpo, não só psiquicamente. O corpo incorpora o outro nos seus próprios hábitos: o espaço que ele ocupava, os gestos automáticos como pegar o celular pra mandar mensagem. Quando a relação acaba, esse esquema corporal continua, por um tempo, orientado para uma presença que já não está mais lá. Por isso o luto exige um tempo de reorganização que não é só cognitivo, é corporal.

    Existe ainda uma dimensão mais psíquica: muito do que se ama no outro é, na verdade, conteúdo próprio, você vê a você a partir da relação com a pessoa e o reconhecimento dessas partes é importante para a integração e o sentimento de maior segurança consigo, ajuda a sentir menos falta . É justamente esse trabalho, mesmo sendo doloroso, que permite que a pessoa saia do luto mais inteira, e não apenas mais ferida.


  • Quando a ansiedade passa a ser um transtorno mental ?

    Quando a ansiedade passa a ser um transtorno mental ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    A ansiedade pode se configurar como um transtorno mental quando sua intensidade, frequência e persistência ao longo do histórico de vida causam sofrimento significativo. Em vez de ser encarada como um estado a ser eliminado, a ansiedade pode ser vista como um sinal de que necessidades não estão sendo compreendidas ou acolhidas.
    O reconhecimento desses sinais não apenas auxilia no diagnóstico, mas também permite que a pessoa desenvolva novos meios de acolher sua experiência.é possível transformar esse reconhecimento em um convite à conexão consigo e à reorganização da própria experiência,
    Na psicoterapia, acolhemos a ansiedade e suas manifestações, observando como ela se desenrola na vida da pessoa, sem julgá-la. Esse processo de acolhimento permite à pessoa uma maior clareza sobre o que está sendo vivido e a possibilidade de fazer novas escolhas,
    Quando a ansiedade se torna um padrão persistente, bloqueando a possibilidade de descanso, de presença e de segurança, pode indicar um quadro que exige atenção clínica.


  • É verdade que existe relação do Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA) com Transtorno do Espectro Autist

    É verdade que existe relação do Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA) com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    Sim, existe uma relação entre o Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas com diferenças importantes. No meu trabalho com psicodiagnóstico de autismo em adultos, utilizo uma abordagem fenomenológica para compreender essas nuances, focando na experiência única de cada pessoa.

    O FAA se refere a indivíduos que compartilham algumas características do espectro – como um jeito próprio de socializar, uma comunicação mais direta ou um pensamento mais sistemático – mas sem preencher todos os critérios para o diagnóstico de TEA. Podemos pensar nisso como um espectro dentro do espectro: algumas pessoas têm traços leves que se aproximam do autismo, mas não impactam sua vida de maneira significativa a ponto de justificar um diagnóstico clínico.

    A abordagem humanista e fenomenológica permite olhar para essa relação sem a rigidez dos rótulos, explorando como cada pessoa percebe, sente e se organiza no mundo. Mais do que definir quem “é” ou “não é” autista, buscamos compreender a singularidade de cada experiência e encontrar formas mais autênticas e funcionais de estar no mundo.


  • É verdade que pessoas autistas são mais vulneráveis a acidentes?

    É verdade que pessoas autistas são mais vulneráveis a acidentes?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    Sim, pessoas autistas podem ser mais vulneráveis a acidentes devido à maneira como percebem e organizam o tempo, o espaço e os estímulos ao seu redor.

    A experiência do tempo para muitas pessoas autistas não segue a linearidade tradicional, em que passado, presente e futuro são percebidos de forma contínua. Em vez disso, o tempo pode ser vivido de maneira fragmentada ou sem a mesma previsibilidade que para pessoas neurotípicas. Isso pode dificultar a antecipação de eventos, a noção de urgência ou a resposta rápida a mudanças inesperadas no ambiente. Por exemplo, ao atravessar a rua, pode ser mais desafiador calcular a velocidade dos carros e o momento exato para se movimentar.

    Da mesma forma, a percepção do espaço pode ter características próprias, com desafios na interpretação de distâncias, profundidade e limites corporais em relação ao ambiente. Isso pode afetar a coordenação motora e a precisão dos movimentos, tornando mais difícil evitar obstáculos ou ajustar-se a situações dinâmicas, como caminhar entre uma multidão ou reagir a um objeto em movimento.

    Além disso, a relação com os estímulos externos pode variar bastante. Algumas pessoas podem apresentar hiperfoco, direcionando toda a atenção para um único elemento e reduzindo a percepção do que acontece ao redor. Outras podem ter crises de ausência momentânea, em que há uma desconexão temporária do ambiente, tornando-as menos responsivas a mudanças repentinas.

    A partir de uma abordagem existencial-humanista, essa vulnerabilidade não deve ser vista como um déficit, mas como um modo próprio de estar no mundo. Em vez de buscar forçar uma adaptação ao ritmo neurotípico, é possível construir estratégias que respeitem essa forma de perceber a realidade, garantindo segurança sem desconsiderar a singularidade da experiência autista.


  • Por que o diagnóstico tardio de autismo é mais comum em mulheres?

    Por que o diagnóstico tardio de autismo é mais comum em mulheres?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    O "masking", ou camuflagem social, é uma estratégia na qual indivíduos no espectro autista suprimem ou disfarçam características autísticas para se adequar às normas sociais. Isso pode envolver imitar expressões faciais, gestos e comportamentos considerados típicos, ou criar roteiros para interações sociais, visando evitar estigmatização ou exclusão. citeturn0search16

    Essa prática é frequentemente observada em mulheres autistas, que, devido a expectativas sociais de maior competência em habilidades interpessoais, podem sentir uma pressão intensificada para mascarar seus traços autísticos. Como resultado, muitas mulheres conseguem ocultar suas dificuldades em contextos sociais, levando a um subdiagnóstico ou diagnóstico tardio de autismo. A camuflagem contínua pode ser exaustiva e está associada a altos níveis de estresse e ansiedade. citeturn0search2

    Portanto, o diagnóstico tardio de autismo em mulheres está frequentemente relacionado ao uso do masking, que permite que elas ocultem sinais evidentes do transtorno, dificultando a identificação precoce e a intervenção adequada.


  • Pode parecer estranho mas, teve várias vezes que fiquei com uma vontade enorme de jogar um bebê do a

    Pode parecer estranho mas, teve várias vezes que fiquei com uma vontade enorme de jogar um bebê do andar onde moro ou espancar alguém, sei que tudo isso é errado e nunca faria essas coisas, e sempre tenho alguns pensamentos do tipo "se eu jogar um bebê do último anda ele ainda estará a chorar?", "Será que irei continuar consciente se me jogar de um prédio?".
    Esse pensamentos surgem do nada, não é como se eu quisesse estar pensando em tudo isso.
    Tem outra coisa, as vezes eu me sinto estranha, como se eu não fosse eu, e o lugar onde estou não é o mesmo lugar onde eu estava antes, como se eu não conhecesse quem sou ou onde estou.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Isadora Schleder Dallacosta

    O que você descreve reflete um confronto com a liberdade e seus paradoxos – a percepção de que nada além de você mesma impede determinadas ações pode gerar angústia e pensamentos intrusivos. Esses pensamentos, por mais desconcertantes que sejam, não definem quem você é, nem significam que você deseja agir sobre eles. Eles parecem surgir como um reflexo da consciência intensa da própria existência e da vastidão das possibilidades que se apresentam a todo momento.

    A sensação de estranhamento em relação a si mesma e ao ambiente também pode estar ligada a esse processo. Há momentos em que o mundo ao redor parece perder a familiaridade, como se estivéssemos deslocados da própria experiência, e isso pode ser profundamente desorientador. Mas tudo isso pode ser compreendido e elaborado de uma maneira que faça sentido para você.

    Se esses sentimentos e pensamentos lhe causam desconforto, o espaço terapêutico pode ser um caminho para explorá-los sem medo ou julgamento. A psicoterapia não busca apagar essas questões, mas sim criar um ambiente seguro para que você possa entender o que está por trás delas e encontrar formas mais leves de se relacionar consigo mesma. Se sentir que esse convite faz sentido para você, saiba que esse espaço está disponível.


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