Perguntas do paciente (5)

  • Tenho medo de Tudo. Olhar pra uma mulher que gostei e mesmo não falando nada ser acusado de alguma c

    Tenho medo de Tudo. Olhar pra uma mulher que gostei e mesmo não falando nada ser acusado de alguma coisa e alguém me matar.
    Alguém buzinar pra mim no trânsito e pensar que vão anotar minha placa pra me matar. Alguém olhar pra mim no Supermercado e ficar pensando que ela quer me matar. Estou sozinho há 4 anos e choro quase todo dia, sempre pensando que algo ruim vai acontecer, eu vou ser morto e minha família irá sofrer. Não aguento mais essa sensação. E o pior que ninguém consegue entender. Não sei o que fazer.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Mariana Silva de Oliveira

    Olá! Ao que parece, com base no que você relata, existe uma grande vulnerabilidade, para ser atacado, diante da menor movimentação que possa ter sido feita, seja ao olhar ao alguém, ou algo no trânsito. Convido-o a refletir a respeito do que seria esse tamanho perigo, por quê alguma dessas situações poderiam te levar à morte? Talvez, a questão não necessariamente seja a respeito da morte, mas sobre a vida que morre quando paralisada pelo medo. A boa notícia, é que você pode refletir e elaborar essa grande situação que lhe produz angústia, produzindo outro sentido para ela. Fico a disposição!


  • É normal sentir culpa/angustia/remorso? Muitos anos atrás cometi alguns erros bem graves, na epoca

    É normal sentir culpa/angustia/remorso?
    Muitos anos atrás cometi alguns erros bem graves, na epoca tinha 13 anos e não percebia a gravidade deles.
    Hoje tenho 21 anos e namoro, disse para a minha namorada que eu havia feito algumas coisas ruins, porém disse que não estava preparado para contar à ela, ainda.
    Tais coisas, para mim, podem ser um motivo para que ela decida não querer mais se relacionar comigo.

    As vezes surgem assuntos ou conversas ocasionais que me lembram desse fato ou que me mostram como pode ser a reação dela (mesmo que apenas uma pequena parcela) se um dia eu decidir contar. Todas as vezes que isso ocorre eu sinto uma especie de culpa junto de medo e remorso. Isso é normal? Como posso lidar com isso?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Mariana Silva de Oliveira

    Olá! Sim, sentir culpa, angústia e remorso faz parte da complexidade de coisas que um ser humano pode sentir ao longo da vida. Mas não necessariamente a vida toda pela mesma razão. Entendo que ao arrepender-se de algo é de grande importância, e perdoar-se pelo o que fez é como se fosse uma chave para selar uma porta. Ou seja, sem perdoar a si mesmo a porta da culpa sempre estará ali aberta, ainda que você já tenha se arrependido do que houve. Aparentemente, mesmo que você tenha se arrependido, tem sido difícil conseguir se perdoar. Caso um dia queira contar, para quem quer que seja, esteja ciente que o outro pode escolher ou não manter-se ali. Mas ao estar seguro por ter se arrependido e você mesmo se perdoado, então esta ''grande decisão'' além de ser do outro, também pode ser sua a depender da maneira como a pessoa reagir. Você também pode escolher não estar mais nessa dinâmica de relação em algum momento, não por vergonha, nem por culpa. Sobretudo, será que este seria um vínculo tão enfraquecido e inseguro, ao ponto de uma situação que aconteceu em sua adolescência possa levar a outra pessoa a não querer mais se relacionar com você adulto? Creio que caiba o convite para refletir a respeito dessas possibilidades. Fico a disposição!


  • Olá, tenho TOC com pensamentos repugnantes. Estudei bastante o TOC pela ótica da TCC, e ela sempre m

    Olá, tenho TOC com pensamentos repugnantes. Estudei bastante o TOC pela ótica da TCC, e ela sempre me ajudou muito com meus conflitos. No entanto, comecei a estudar a teoria do TOC pela psicanálise (neurose obsessiva). A maioria dos psicanalistas que acompanho aborda os pensamentos intrusivos como manifestações de desejos inconscientes reprimidos que emergem à consciência. Em outras palavras, seria um processo de substituição: como o desejo reprimido é considerado imoral, ele é recalcado e depois retorna de forma distorcida como pensamento intrusivo. No entanto, achei essa explicação superficial e até desesperadora — dizer que aquilo que você mais repudia é, na verdade, um desejo inconsciente. Será que esses pensamentos não poderiam surgir de medos, traumas ou mecanismos que não envolvem, necessariamente, o desejo? Alguém poderia, por gentileza, me orientar sobre isso?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Mariana Silva de Oliveira

    Sua pergunta é muito pertinente, porque toca numa angústia legítima: a de se ver confrontado com pensamentos intrusivos e repulsivos, e depois ouvir que isso, de algum modo, estaria ligado a desejos inconscientes — como se aquilo que mais o atormenta fosse, no fundo, o que você quer. É compreensível que essa formulação, tomada ao pé da letra, soe desesperadora e até violenta. Mas talvez o incômodo que ela causa também possa ser uma via de acesso para algo mais profundo.

    É possível que o modo como você tem buscado compreender o TOC — com muita leitura e teorização, seja pela TCC ou pela psicanálise — esteja servindo a mais de uma função. O desejo de saber é legítimo, claro, mas na neurose obsessiva ele pode se tornar também uma defesa: uma forma de tentar dominar o indizível, manter à distância o que é angustiante, controlar o que escapa. Em outras palavras, o excesso de teoria pode ser, paradoxalmente, um modo de evitar o confronto direto com o próprio conteúdo inconsciente.

    Nesse sentido, o problema talvez não esteja na teoria psicanalítica em si, mas no uso que, em certos momentos, se pode fazer dela: como uma forma de tentar "neutralizar" o sofrimento ao invés de escutá-lo. E aí é importante lembrar que, na psicanálise, o desejo inconsciente não é o mesmo que um desejo consciente, deliberado ou moralmente aceitável. Não se trata de dizer que você quer aquilo que pensa, mas que há algo em você que não encontra outro modo de expressão — algo recalcado, distorcido, que retorna travestido de ameaça, de repulsa, de pensamento intrusivo.

    É um equívoco comum interpretar o desejo inconsciente como uma afirmação direta — como se fosse uma espécie de verdade escondida e literal. Mas o inconsciente se exprime de forma cifrada, ambígua, contraditória. O pensamento obsessivo, nessa lógica, é uma formação de compromisso: uma tentativa do psiquismo de representar algo que foi reprimido, mas que insiste em retornar, mesmo de maneira deformada, dolorosa, absurda. Ele pode carregar resquícios de desejo, sim — mas também culpa, interdito, angústia, medo da castração, conflitos infantis não simbolizados.

    Você também levanta uma questão importante ao perguntar se esses pensamentos não poderiam ser fruto de traumas, medos, ou outros mecanismos que não envolvem o desejo. A psicanálise não nega isso — ao contrário: ela justamente tenta pensar como o trauma, os interditos e os recalques estruturam o desejo inconsciente. O desejo, aqui, não é um "querer fazer aquilo" — mas o traço deixado por uma cena, um afeto, uma perda, que o sujeito não conseguiu simbolizar inteiramente. Então sim, o pensamento obsessivo pode surgir da tentativa de lidar com traumas ou medos — mas isso também se articula à economia do desejo no inconsciente.

    Talvez, então, o mal-estar que você sentiu com a teoria psicanalítica do TOC seja, também, um indício de que ela tocou em algo que resiste — algo que não se deixa dizer facilmente. E isso não é ruim. A psicanálise não pretende oferecer um saber fechado, nem uma explicação definitiva — ela propõe um trabalho de escuta, de construção com o sujeito, para que ele mesmo possa se haver com o que retorna em forma de sintoma.

    Por isso, talvez o mais produtivo agora não seja buscar mais teoria — mas encontrar um espaço em que você possa falar, livremente, sem o compromisso de entender tudo. Um espaço em que os pensamentos possam ser ditos sem censura, e onde não se trata de descobrir o que você “realmente quer”, mas de escutar como o seu desejo se construiu, como sua angústia se organiza, e que lugar os sintomas ocupam nessa história.

    Essa é, no fundo, a aposta da psicanálise: não interpretar você, mas criar as condições para que você próprio possa começar a escutar o que em você insiste, apesar — ou por causa — do seu esforço em recalcá-lo.


  • Olá, estou preso a erros do passado que já me arrependi e não faço mais.O grande problema é que não

    Olá, estou preso a erros do passado que já me arrependi e não faço mais.O grande problema é que não consigo me relacionar profundamente com pessoas seja amizade ou relação amorosa, sem pensar que aquela pessoa não estaria comigo ou não gostaria de mim se soubesse o que eu já fiz, mesmo eu sendo uma nova pessoa arrependida que nunca mais repetirá tais erros. Sinto que a culpa só vem quando envolve outra pessoa no meu círculo de vivência, quando me encontro sem contato com ninguém não tenho essa sensação de culpa. Quero saber qual profissional procurar?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Mariana Silva de Oliveira

    Olá! Penso que arrepender-se e não fazer mais algo é um passo importante, mas são coisas diferentes de se perdoar por ter feito o que quer que seja. Dessa forma, carregando a culpa e o constrangimento consigo, mesmo após arrepender-se, pode impossibilitar de abrir-se para experenciar vínculos novos sejam eles românticos, ou não. Fato é, que antes mesmo que possa desejar se relacionar bem com alguém, antes disso é imprescindível ser capaz de relacionar-se bem consigo mesmo! O outro só é capaz de admirar em alguém, aquilo que ele mesmo admira em si. Logo, é importante que a culpa seja deixada de lado, para abrir caminhos possíveis para que você seja capaz de voltar a se admirar e espelhar para o outro aquilo que você mesmo contempla em si e considera bom. Neste caso, recomendaria que você buscasse ajuda psicológica para escutar melhor o que tem dito sobre si mesmo, como tem vivido os últimos tempos, olhar para essa culpa e ressignificar para conseguir seguir em frente. Fico à disposição!


  • Olá, irei tentar escrever tudo que sinto, no momento provavelmente estou passando por depressão, cre

    Olá, irei tentar escrever tudo que sinto, no momento provavelmente estou passando por depressão, creio que a raiz dela é desde minha infância, tenho extrema dificuldade de interagir e conversar, manter conversas e etc, até ai ok eu vivi minha vida, resultado: solitude e bloqueio emocional, tenho apenas 1 amigo que está desde minha infância comigo, ainda tenho extrema dificuldade de interagir e conversar, isso pode parecer bobo mas já arruinou, amizades, trabalho em grupo, questões amorosas, basicamente tudo em minha vida, como posso lidar com isso? Creio que não sou tímido, mas a falta de conhecimento nesse tipo de interação me gera insegurança, consequentemente levando a timidez de qualquer forma, também gostaria de saber lidar com o fato de que amadureci demais, me sinto sem graça e estóico, rejeito pessoas e amizades para evitar frustrações, a propósito tenho toc diagnósticado.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Mariana Silva de Oliveira

    Olá!

    Creio que relacionar-se com o outro é um desafio desde o momento do nascimento. Existem várias camadas que implicam essa questão, e que te convidam para um processo aprofundado de escutar a si mesmo, sua própria narrativa, olhar para a sua história, todas as suas relações, como maneira de montar um quebra-cabeça pessoal sobre quem você. Isso porque não falamos apenas do que você relata a respeito da dificuldade em interagir e conversar, mas os alicerces que sustentam essa história, para além de comportamentos, escolhas para se relacionar, entre outros pontos.

    Sobretudo, por que será que a possibilidade de haver qualquer tipo de aproximação pode soar de maneira tão ameaçadora para que sinta-se ameaçado/inseguro? A timidez é com relação a que? A quem? A rejeição de amizades também não poderia ser uma maneira de rejeitar ideias diferentes das suas, ou a possibilidade que o outro te rejeite em algum momento?

    Se proteger é bom, e importante. Mas se proteger demais pode te impedir de viver muitas coisas boas na vida!

    Fico à disposição!


Autor

Psicólogo, Psicanalista

Perguntas frequentes

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