Perguntas do paciente (14)

  • Me sinto sobrecarregada com todas as informações que recebi sobre lúpus eritematoso sistêmico (LES).

    Me sinto sobrecarregada com todas as informações que recebi sobre lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso lidar com a avalanche de informações sem me sentir perdida ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, você trás uma pergunta muito importante e curiosa. Tentarei te ajudar do melhor modo.

    Essa sobrecarga que você descreve é muito comum e compreensível. O lúpus eritematoso sistêmico carrega consigo uma vastidão de informações — médicas, nutricionais, terapêuticas, jurídicas, existenciais — que chegam de fontes diferentes, muitas vezes contraditórias, e com um tom de urgência que pode paralisar.

    Do ponto de vista da esquizoanálise, o excesso de informação pode se tornar uma avalanche emocional que captura seu desejo, transformando-o em ansiedade, em vez de potência de ação.

    É como se o conhecimento, que deveria ser uma ferramenta, virasse um território minado onde cada novo dado exige um posicionamento. Mas existem algumas ações que podem te ajudar a reorganizar as coisas, vou tentar auxiliar com algumas delas:
    - Nomeie o que essa avalanche provoca em você: Busque listar as diferentes informações e o que elas produzem em você (no seu corpo e no seu psiquismo), listar e identificar essas reações vão ajudar a dar materialidade ao que você está sentido e reduzir a ansiedade.
    - Crie um fluxo de entrada controlado: Busque filtrar de onde vem as informações e a qualidade delas, você pode eleger 2 ou 3 fontes confiáveis e buscar se basear nelas, o tempo aqui também é um fator importante, tente delimitar um tempo de exposição a essas informações, alguns minutos por dia ou por semana, e não se expor mais do que o estipulado.
    - Tenha espaços seguros para compartilhar a tarefa de compreensão: É muito importante que esse não seja um trabalho feito em isolamento, ter pessoas confiáveis e espaços seguros para compartilhar descobertas, conhecimento, alegrias e angústias também é algo essencial.

    Bom, minha sugestão é que você não passe por isso sozinho(a), a psicoterapia é um espaço muito potente para ajudar a organizar os fluxos de pensamentos, emoções e desejos, e construir um caminhos mais seguro e confiante.

    Espero ter ajudado com a sua pergunta, qualquer coisa me procura, estou à disposição!


  • Sinto que estou me afastando das pessoas por causa diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico (LES).

    Sinto que estou me afastando das pessoas por causa diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso me reconectar e pedir ajuda quando preciso?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, inicialmente gostaria de te parabenizar por estar buscando ajuda profissional e entender a importância de se cuidar adequadamente.
    Você traz uma questão que não é só sua, ela é reflexo de como o lúpus (LES), muitas vezes força a gente a habitar uma espécie de território de isolamento.
    O afastamento que você sente não é fraqueza, nem desinteresse pelos outros: é um movimento produzido por várias forças. O corpo imprevisível, a fadiga que não pede licença, o medo de ser um “fardo”, a dificuldade de explicar uma doença que muitas vezes não se vê, os olhares que desconfiam ou que romantizam a sua luta. Tudo isso vai criando barreiras, mesmo quando você quer estar perto.
    Por vezes, os desafios impostos pela doença, faz como que nossas relações pareçam estremecer, uma vez que, enquanto sujeitos sociais, vamos criando expectativas sobre a ação do outro e quando essa expectativa não é atendida, gera frustração.
    Através da psicoterapia é possível entender melhor o fluxo dessas relações, entender que é possível resgatar, e/ou construir novas relações onde não seja necessário o "peso" de expectativas rígidas como "ter que ser forte" ou "útil" o tempo todo, nem tampouco a sensação de "estar incomodando". Mas para isso, se faz necessário entender o lugar que ocupamos nas diferentes relações e como nos posicionamos frente a elas.

    Espero ter ajudado com a pergunta, qualquer coisa estou à disposição!


  • Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso

    Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso aceitar doença sem me sentir vulnerável?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, sua pergunta é muito importante e curiosa, tentarei te ajudar a entendê-la do melhor modo.

    Na verdade logo de início me vejo tentado a te fazer uma outra pergunta:
    o que exatamente você teme que as pessoas pensem ou façam se te virem como “frágil”?
    - Medo de ser tratada como incapaz?
    - Medo de que as pessoas se afastem por não saberem lidar?
    - Medo de perder autoridade no trabalho, na família, nos espaços que você ocupa?
    - Medo de que sua dor seja desqualificada ou, ao contrário, superdimensionada?

    Todos esse medos são legítimos. Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a autonomia e a produção, e que muitas vezes trata a dependência como algo vergonhoso. Mostrar-se vulnerável pode soar como dar munição para que desconfiem ainda mais de você. É importante nomear isso: seu receio não é só pessoal, ele é social e político.

    Na esquizoanálise, trabalhamos com a ideia de que o corpo é um agenciamento de afetos, não uma essência fixa. A fragilidade que você teme talvez seja uma imagem estática: alguém quebrado, sem potência. Mas a vulnerabilidade — o fato de sermos afetáveis, de dependermos uns dos outros, de termos limites — é constitutiva de todo ser humano. Você não escolheu ser vulnerável; a vida é vulnerável.

    Desse modo, acredito ser essencial separarmos "fragilidade" de "vulnerabilidade", em termos conceituais.

    A questão talvez não seja deixar de ser vulnerável, mas sim como você percebe essa vulnerabilidade. É possível estar vulnerável e ainda assim ser a pessoa que decide sobre sua vida, que estabelece limites, que pede o que precisa sem se diminuir. A diferença está na agência: você pode dizer “hoje estou com menos energia, mas ainda sou eu quem decide o que fazer com essa energia”.

    Esse é um processo de desorganização e reorganização existencial. E é um processo necessário, principalmente quando lidamos com eventos que afetam nossa relação com o nosso próprio corpo e o mundo. Ainda assim é fundamental entender que se desorganizar e se reorganizar faz parte do fluxo da vida, e não significa que essa reorganização seja para algo inferior. É possível se construir modelos de reorganização potentes e grandiosos, lidando adequadamente com os fluxos de relações e variáveis disponíveis.

    Assim, acredito que para esse processo de reorganização existencial, a psicoterapia seria essencial, enquanto um espaço seguro, acolhedor e potente, para nomear os sentimentos, produzir sentidos e experimentar modos existenciais possíveis.

    Espero ter ajudado com sua pergunta, e me coloco à disposição para auxiliar no que for preciso.




  • Tenho medo de que minha vida nunca mais será a mesma com lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como pos

    Tenho medo de que minha vida nunca mais será a mesma com lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso aprender a lidar com essa incerteza sem me sentir desesperada ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, primeiramente gostaria de elogiar sua iniciativa de buscar ajuda, esse primeiro passo é fundamental! Agora, tentarei te ajudar do melhor modo.

    Uma das maiores dores nesse medo é a sensação de que você está perdendo a vida que tinha, e que a que virá será uma versão empobrecida. Na esquizoanálise, trabalhamos com a ideia de que a vida é um processo de constantes desorganização e reorganização. O lúpus desorganiza brutalmente: ele tira você de certos lugares, rotinas, planos, identidades. Mas a desorganização não é o fim — ela convoca uma reorganização, ou seja, a criação de novos modos de existir, que não são “menores” que os anteriores, apenas diferentes.

    Sinto dizer, mas de fato, Você não vai voltar a ser quem era antes, assim como ninguém volta a ser quem era depois de qualquer experiência que transforma a relação com o corpo e com o tempo. Mas isso não quer dizer que a pessoa que você está se tornando não possa construir uma vida significativa, afetiva, criativa — ainda que marcada por ritmos e limites novos.

    As vezes esse "desespero" se apresenta como o medo do que é novo, do que ainda não está consolidado, do risco, do que não está sob o nosso controle... Mas de fato a vida, ela é sempre um eterno "vir a ser", não temos como ter um controle real sobre a vida, há sempre um imprevisto, uma mudança, algo que escapa à nossa capacidade de previsão - por melhor que sejamos na arte de prever ou de controlar variáveis - porque essa é a natureza da vida. Entender isso, retira de nós o peso e a culpa quando acontece algo fora das nossas expectativas.

    Porém há alguns aspectos imediatos que podem ajudar, por exemplo:
    * Separar o luto legítimo de uma antecipação catastrófica:
    - O luto: você perdeu ou está perdendo certas possibilidades. Isso dói, e merece ser chorado, nomeado, compartilhado. Fazer luto não é fraqueza; é um trabalho psíquico necessário para que você possa se abrir ao novo.
    - A antecipação catastrófica: é quando a mente projeta que tudo o que virá será só perda, sofrimento e isolamento. Essa projeção muitas vezes ignora sua capacidade de adaptação, sua rede de apoio, e os recursos que você ainda nem descobriu que tem. Produzindo assim: ansiedade, estresse e paralisação frente aos desafios.
    * Nomeie o medo e compartilhe-o: Outro ponto muito importante é nomear e compartilhar o que se está sentindo, dentro de uma rede de apoio efetiva e um espaço seguro. Desse modo, esse medo é materializado e reduzido à sua real dimensão, enquanto que quando não é nomeado e compartilhado ele tende a assumir proporções bem maiores do que ele é de fato "na nossa mente".

    Dessa maneira, acredito que a psicoterapia seria essencial para você nesse momento, criando um espaço seguro e potente para você nomear suas angústias, construir pontes de possibilidades e articular essas novas "versões" de si que serão essenciais para lidar com os novos desafios.

    Por fim, é muito importante dizer que novos desafios não significar uma condição de existência pior, muito pelo contrário, porém exigirá atenção e reorganização.

    Espero ter ajudado com sua pergunta, e me coloco à disposição para te ajudar com o que for preciso.



  • Eu tento não pensar sobre o lúpus eritematoso sistêmico (LES), mas isso só faz com que eu me sinta m

    Eu tento não pensar sobre o lúpus eritematoso sistêmico (LES), mas isso só faz com que eu me sinta mais ansiosa e estressada ? O que posso fazer para lidar com a ansiedade sem ignorar a doença?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, sua pergunta é muito importante, tentarei te trazer algum conforto com minha resposta.

    Inicialmente é muito importante entender que "não pensar" não é o mesmo que "não ser afetada", desse modo, quando tentamos bloquear um pensamento, ele se torna uma figura de fundo permanente, consumindo energia psíquica sem ser trabalhado. A ansiedade surge porque o corpo e a mente estão constantemente em estado de alerta para que o pensamento “proibido” não apareça. É um gasto imenso de energia, o que gera ansiedade, estresse e cansaço.

    O ponto, portanto, não é tentar "parar de pensar", e sim buscar pensar de outro modo: não de forma obsessiva ou desorganizada, mas em momentos e formas delimitadas, para que o restante do tempo você possa ter leveza para se ocupar de outras coisas.

    Para isso, algumas coisas podem ajudar, como por exemplo:
    - Delimitar um tempo específico para tratar dos assuntos referentes à doença: A criação de uma espécie de ritual para isso pode ser excelente (Ex.: 10 minutos pela manhã: você verifica como está o corpo, toma a medicação, anota algo que percebeu; uma vez por semana: você revisa suas questões, lê uma informação de fonte confiável, ou escreve no caderno de cuidados.). Esse tipo de ação simples pode retirar a tensão de que você não estaria olhando para algo tão importante, e diminuir a sensação de que você precisaria consumir todo o seu tempo com isso.
    - Use a ansiedade como sinal, não como inimiga: Busque entender como a ansiedade se apresenta no se corpo e o que ela está tentando te sinalizar. Às vezes, a ansiedade diminui quando você faz uma única coisa concreta: tomar o remédio no horário, enviar uma mensagem para um profissional, beber água, deitar 15 minutos. Não é sobre resolver tudo, mas sobre responder à ansiedade com um gesto de cuidado.

    Em linha gerais, entender que não é necessário lidar com isso sozinha, ter redes de apoio e espaços confiáveis para construir uma rotina de autocuidado e tratamento é o mais essencial para lidar com o estresse e a ansiedade causados pelo medo. O medo, principalmente do novo, de algo que ainda não sabemos lidar, ele pode paralisar, mas com uma rede de apoio efetiva (e afetiva), redes de informação e tratamento adequados essa ansiedade tende a reduzir.

    Desse modo a psicoterapia pode ser um excelente aliado nesse momento, construindo um espaço seguro e potente para organizar os fluxos de pensamento e cuidado.

    Espero ter ajudado com sua pergunta, e me coloco à disposição para qualquer dúvida ou apoio necessário.


  • Será que se eu continuar negando o diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico (LES), minha saúde vai

    Será que se eu continuar negando o diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico (LES), minha saúde vai piorar?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, a sua pergunta é muito importante e curiosa. Você está de parabéns por fazê-la. Vou tentar te ajudar do melhor modo.

    De um modo objetivo, a resposta a sua pergunta seria: Sim, a negação prolongada pode piorar a sua saúde, mas não pela dimensão da culpa, e sim por alguns fatores objetivos que tentarei listar a baixo:
    - Atraso ou abandono do tratamento: se você não se reconhece como alguém que tem lúpus, fica mais difícil tomar medicação regularmente, fazer exames de acompanhamento, ou aderir a orientações que previnem crises (como evitar sol, gerenciar estresse). O lúpus é uma doença que, quando não monitorada, pode ter surtos que afetam rins, articulações, pele e outros órgãos.
    - Interpretação errônea dos sintomas: a negação pode levar a ignorar sinais precoces de atividade da doença, tratando-os como “frescura” ou “coisa passageira”, até que se tornem uma crise que exige intervenção mais agressiva.
    - Sobrecarga do corpo e do sistema nervoso: sustentar a negação consome energia psíquica constante. É um estado de vigilância contra uma verdade que já habita o corpo. Esse desgaste crônico pode, por si só, desencadear ou agravar crises, já que o estresse é um dos gatilhos bem conhecidos do lúpus.

    Desse modo, a questão talvez não seja simplificar a "negação", mas entender porque ela está se manifestando, e talvez isso esteja relacionado a outras questões como por exemplo:
    - O medo do próximo passo: O que acontece após a aceitação, como será a vida, as relações, o trabalho, e outras dimensões existenciais.
    - O medo da fragilidade: O receio da existência ou não de suporte, e todos os desdobramentos disso.
    - Angustia com o desconhecido

    Mas é fundamental dizer: isso não é uma falha moral. A negação não é “desleixo” ou “falta de amor-próprio”. Ela é, muitas vezes, um mecanismo de proteção diante de algo que parece grande demais para ser integrado. O problema não é ter tido negação; o problema é quando ela começa a bloquear os gestos de cuidado que você precisa fazer por si mesma.

    Desse modo, acredito que seria muito importante buscar um apoio profissional para lidar com esse movimento de "desorganização" e "reorganização" existencial, das relações (consigo própria e com o mundo). Assim, acredito que nesse momento a psicoterapia seria essencial para você passar por esse momento, através de um espaço seguro e acolhedor seria possível nomear esses anseios, e construir caminhos possíveis de tratamento e de reorganização psíquica.

    Espero ter ajudado com a sua pergunta, me coloco à disposição para te ajudar com o que seja possível.


  • Por que eu não consigo aceitar que tenho lúpus eritematoso sistêmico (LES), mesmo depois de tantos e

    Por que eu não consigo aceitar que tenho lúpus eritematoso sistêmico (LES), mesmo depois de tantos exames e diagnósticos?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, gostaria de te parabenizar pela iniciativa de buscar ajuda profissional. Já é um grande passo.

    Desse modo, vou tentar responder sua pergunta do melhor modo.

    Muitas vezes imaginamos a aceitação como um momento de virada: “recebi o diagnóstico, agora preciso aceitar e seguir em frente”. Mas na experiência real com doenças crônicas, a aceitação é mais como um movimento "em onda", um fluxo contínuo de vai e vem. Você pode sentir que já aceitou, e num dia qualquer — ao olhar no espelho, ao ter uma crise inesperada, ao ouvir um comentário — tudo desaba de novo. Isso não significa que você não está se esforçando; significa que aceitar uma condição que muda a relação com o corpo e com o futuro é um trabalho que se renova.

    Na esquizoanálise, entendemos que não somos “sujeitos” fixos que simplesmente adicionam uma informação. Somos feitos de fluxos, territórios existenciais, memórias, afetos. O diagnóstico de lúpus não é apenas um dado médico; ele desorganiza a imagem que você tinha de si. Pode haver com isso:
    - Uma discrepância entre “quem eu achava que era” e “quem essa doença diz que eu sou”.
    - Medo de que essa nova identidade (a “pessoa com lúpus”) apague outras partes suas que são importantes.
    - Se na sua história você já foi desacreditada em suas dores (por questões de gênero, raça, classe), o diagnóstico pode reativar essa desconfiança: “será que é isso mesmo? Será que vão usar isso contra mim?”
    - Não aceitar pode ser uma forma de proteger uma imagem de si que está ameaçada.

    E todos esses questionamentos são legítimos e reais.

    E talvez, essa mudança, em termos de aceitação, possa iniciar ao entendermos que esse movimento de "desorganização" e "reorganização" é um elemento essencial para o fluxo da vida, principalmente ao nos depararmos com situações que modificam a nossa relação com nosso próprio corpo e com o mundo.

    Não existe um tempo específico para tal, mas a psicoterapia pode ser essencial para te ajudar nesse processo, uma vez que atua enquanto um espaço seguro e acolhedor para você nomear as emoções, medos, angústias e construir novos fluxos de possibilidade. O fato das coisas não serem mais como "eram" não significa que devam ser necessariamente piores, o movimento de reorganização pode ser algo potente e grandioso também.

    Espero te ajudado com a sua pergunta, e me coloco à disposição para ajudar no que for possível!


  • A fibromialgia causa desorientação espacial? .

    A fibromialgia causa desorientação espacial? .

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, como vai? Muito interessante e curiosa sua pergunta, tentarei responder do melhor modo.

    Primeiro precisaremos entender a partir de qual perspectiva será falada aqui. Falamos sobre uma perspectiva existencial que não vê separação entre "corpo e mente". Isso significa dizer que apesar de considerarmos muito importante os aspectos fisiológicos que caracterizam a fibromialgia, entendemos que eles não dão conta de explicar e melhor tratar, simplesmente por focar apenas nos efeitos biológicos que o corpo produz.
    Buscaremos, portanto, entender que esse corpo não está descolado de uma realidade social e cultura, e nem de um território físico e existencial. Se desconsiderarmos isso, talvez comecemos a achar também que é "coincidência" a grande prevalência dessa condição em mulheres, e dentre elas, principalmente em pessoas negras por exemplo.

    Dito isso, vamos pensar juntos, a fibromialgia não é uma doença reumática no sentido estrito; é uma síndrome de sensibilização central. O sistema nervoso central está em estado de hipervigilância constante. Porém, para a esquizoanálise (abordagem na psicologia com a qual me identifico), nós nos orientamos no mundo não apenas pela visão ou pela audição, mas também pelo afeto. Desse modo é importante entender que a desorientação espacial não começa no diagnóstico; começa na experiência de um corpo que aprendeu, desde cedo, que não tem direito ao espaço. Muitas mulheres negras, por exemplo, sofrem uma colonização do corpo: seus movimentos são vigiados, seus gestos são patologizados, sua presença no espaço público é questionada.

    A fibromialgia, neste contexto, não é apenas uma síndrome; é a somatização de um cansaço ancestral. A desorientação é o corpo dizendo: "Eu nunca pude me orientar plenamente neste mundo, porque este mundo não foi feito para mim".

    Desse modo a fibromialgia produz desorientação porque:
    - Sobrecarrega o sistema nervoso, deixando pouca energia para o processamento espacial.
    - Transforma o corpo num território imprevisível, minando a confiança no deslocamento.
    - Refrata dores sociais e históricas, especialmente em corpos racializados e generificados, que já habitavam o espaço de forma precária.

    Podemos entender então que não é um erro de rota; é o corpo dizendo, na única língua que lhe restou, que vive num mundo que não foi feito para que ele se oriente com dignidade.

    Assim, dentro dessa perspectiva, o trabalho psicoterapêutico buscaria restituir ao corpo o direito de se mover sem medo e de reivindicar esse espaço como seu.

    Espero ter ajudado. Para qualquer dúvida ou qualquer outra questão à respeito, estou à disposição.


  • Tenho 20 anos, atualmente me encontro em uma fase complicada da vida e, por diversos motivos, durant

    Tenho 20 anos, atualmente me encontro em uma fase complicada da vida e, por diversos motivos, durante os ultimos anos minha válvula de escape tem sido a pornografia. Gostaria de saber como proceder, como atenuar esse problema e quais medidas tomar

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, me chamo Pablo Barreto, sou psicólogo e vou tentar responder sua pergunta do melhor modo:
    Não acredito que a psicoterapia seja a solução para todos os problemas do mundo, porém existem situações em que a psicoterapia é de fato muito assertiva e resolutiva, e vou te explicar o porquê.
    Você já trás na pergunta um ponto crucial para a análise (ao menos na perspectiva que eu trabalho que é a esquizoanálise), que é o termo "válvula de escape". Ele indica uma função. Pelo olhar da esquizoanálise, perguntaríamos: qual a função que a pornografia está exercendo na sua vida atualmente?
    - Poderia estar regulando afetos intoleráveis? (Ansiedade, raiva, solidão, vazio, tédio).
    - Ou proporcionando um território de controle e previsibilidade em uma vida que pode parecer caótica ou opressiva?
    - Ou ainda, oferecendo uma "anestesia" temporária para se livrar de pensamentos repetitivos ou de uma dor psíquica mais profunda?
    - Ou quem sabe, preenchendo uma lacuna de conexão humana, ou desilusão em relações, mesmo que de forma simulada e não recíproca?

    O ponto é que precisamos entender que as manifestações corporais transbordam a partir de um contexto, um território e não como algo biológico isolado. É possível que você aos 20 anos se perceba em um momento importante de construção de território existencial (identidade profissional, afetiva, social). Diante de forte pressão, a pornografia pode funcionar como uma máquina de afetos pré-fabricados, que oferece uma solução rápida, privada e potente para a gestão do caos interno. O problema não é necessariamente o ato em si, mas o fechamento do campo do desejo em torno dele. O desejo, que é produtivo e criativo, fica canalizado e reduzido a um único circuito repetitivo. Trocando em miúdos, para lidar com essa fuga para a pornografia, é importante analisar o que tem produzido essa necessidade de fuga, quais os campos de força que produzem essa pressão existencial e como construir estratégias possíveis para uma resposta mais ampla e com efeitos colaterais mais saudáveis e sustentáveis. E sim, a psicoterapia seria um caminho possível para chegar a esse objetivo.
    Espero ter ajudado. Até breve.


  • Pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) têm problemas de planejamento cognitivo ?

    Pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) têm problemas de planejamento cognitivo ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Sim, muitos pacientes com diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) podem apresentar dificuldades no planejamento cognitivo, especialmente em contextos de alta carga emocional ou situações que ativam medos de abandono e rejeição. Podemos dizer que, neuropsicologicamente, observa-se comprometimento em funções executivas, incluindo planejamento, tomada de decisões, flexibilidade cognitiva e inibição de impulsos. Porém, parto da perspectiva de que existem outras dimensões tão importantes quanto a biológica. Poderíamos ler, por exemplo, como um modo de existência produzido por uma sociedade capitalista, patriarcal e colonial, gera subjetividades fragmentadas, marcadas por inseguranças afetivas profundas. O “problema de planejamento” então, não seria apenas uma disfunção cognitiva, mas uma dificuldade de projetar-se num futuro que parece constantemente ameaçador – o que faz todo sentido, por exemplo, se a experiência de vida da pessoa é de desamparo, violência ou exclusão.


  • Tenho percebido um ciclo dos meus relacionamentos e percebi que ao entrar em relações complicadas ou

    Tenho percebido um ciclo dos meus relacionamentos e percebi que ao entrar em relações complicadas ou que sinta desafios eu costumo sofrer, mas permaneço, porém em relações de afeto e tranquilas, em algum momento me encontro com ansiedade e pensamentos de medo excessivo de um dia estragar a relação por não amar de verdade a pessoa ou magoá-la, algo que não sinto em relações desafiadoras, estou ficando com uma pessoa uns meses após sair de uma relação que me era desafiadora e finalmente saí quando senti que deveria ter alguém que me amasse, porém ao me sentir desejada e vista por alguém, comecei a ter ansiedade e aperto no peito novamente, tenho medo de nunca conseguir quebrar esse ciclo e medo de talvez ser uma pessoa incapaz de amar de verdade, queria muito não sentir esses medos e permitir conhecer as pessoas e me relacionar com elas antes de sentir esses sentimentos e acabar com tudo

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Muitas pessoas internalizam que relações afetivas precisam ser difíceis, desgastantes ou tortuosas para serem “verdadeiras”. Quando aparece uma dinâmica tranquila, receptiva e afetuosa, isso pode gerar estranhamento, ansiedade e até suspeita (“será que é real?”).
    Isso não significa que você é “incapaz de amar”. Pelo contrário: seu relato demonstra um desejo profundo de vínculos significativos e uma capacidade de autoobservação crítica – algo potente. A ansiedade que surge pode ser um sinal do corpo de que algo novo está acontecendo, algo que foge ao “caminho conhecido” das relações desafiadoras. Enquanto sociedade somos atravessados por estruturas que vão moldando nosso senso de verdade ou ao menos do que seria "natural". Se estamos acostumados a ver ou vivenciar relações onde o conflito e o jogo de poder é algo constante, é possível que comecemos a achar que esse é o único caminho possível. É importante um espaço acolhedor, seguro e livre de julgamentos, para que se possa experimentar ser e viver novos caminhos e novas possibilidades. Muitas vezes essa ansiedade se dá pela falta de repertório e medo de ser julgada(o). Medo de ser insuficiente, ou ser a culpada(o) por qualquer desfecho ruim, porém é importante entender que estar em um ambiente leve e tranquilo nos convoca justamente a ser nós mesmos, livre de julgamentos, inclusive dos autojulgamentos. Nesse sentido a psicoterapia pode ser libertador, para nos mostrar que não somos obrigados a viver sob a régua que nos foi imposta, o podemos criar e produzir outros caminhos existenciais sempre que tivermos vontade, porque o certo e o errado (no modo de existir) só existe quando faz sentido em ser, ou não é liberdade.


  • Existe "Hiperfoco" no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

    Existe "Hiperfoco" no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá pergunta interessante, mas igualmente complexa. Vou tentar explicar de um modo simples:

    O que denominamos de "hiperfoco" no TDAH é um estado de atenção sustentada, involuntária e imersiva em uma atividade que é interessante em si, recompensadora ou urgente para o cérebro desse indivíduo. É um tipo de concentração canalizada e não tem, como objetivo primário, regular o ambiente interpessoal. Pode inclusive levar ao esquecimento do social, ao isolamento social.

    Já o que acontece no TPB, e que pode ser confundido com hiperfoco são, na verdade, manifestações da instabilidade afetiva, identitária e relacional que normalmente faz parte do transtorno. São, por tanto, estados de fixação psicológica, e não de atenção concentrada.

    Desse modo, não é foco em uma tarefa, mas uma fixação absorvente, ansiosa e intensa em uma pessoa específica. A pessoa com TPB pode ficar horas pensando, monitorando, idealizando ou temendo a rejeição dessa figura.

    O medo do abandono e necessidade desesperada de validação externa para regular um self muitas vezes frágil, pode produzir uma concentração relacional ansiosa. Frequentemente levando à exaustão, conflito, comportamentos de "teste" do vínculo e, paradoxalmente, pode precipitar justamente essa rejeição temida.

    Assim seria muito mais próximo de um estado de sofrimento, não de fluxo.

    Dito isso, podemos olhar para esse fenômeno sob diferentes perspectivas. Para a esquizoanálise, a sociedade produz o medo do abandono ao exacerbar a lógica do desempenho relacional. A fixação na pessoa favorita é um agenciamento onde o desejo de conexão é distorcido por uma produção de pânico-abandono. Isso não desresponsabiliza o sujeito, muito pelo contrário, porém, produz novos modos de enfrentamento ao entender que nem tudo é biológico, que existe uma lógica institucional e estrutural que molda relações e produz sofrimentos para além do indivíduo biológico. Perceber esses fluxos possibilita a produção de caminhos possível para lidar com a autoaprovação, o medo do abandono e problemas com a autoconfiança, que podem gerar esse "pseudo-hiperfoco".

    Como disse no início, é uma pergunta muito interessante, mas igualmente complexa. Caso eu não tenha me feito entender o suficiente, pode entrar em contato comigo para conversarmos um pouco mais sobre isso.


  • O que diferencia o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) de outras condições de saúde mental,

    O que diferencia o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) de outras condições de saúde mental, como o "Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)" e os Episódios Depressivos Ansiosos Mistos (Transtorno Misto Ansioso e Depressivo) ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, me chamo Pablo Barreto, e vou tentar elucidar sua pergunta do melhor modo:
    Primeiramente precisamos entender que quando nos referimos ao Transtorno de Personalidade Boderline (TPB) estamos falando sobre uma estrutura, um modo de existir que é crônico e inflexível de ser-no-mundo. Sua essência é a instabilidade constitutiva em diferentes eixos (afeto, autoimagem, relações). Na linguagem da esquizoanálise, poderíamos pensar em uma dificuldade radical de "territorialização" de si, ou seja, uma necessidade muito grande de validação e preenchimento pelo outro. Quando falamos de TOC, não estamos falando de uma "instabilidade identitária", mas um excesso de rigidez psíquica, como se aí mente se manifestasse como uma prisão. Já o aparecimento de Episódios Depressivos Ansiosos Mistos, por sua vez, significam um estado clínico agudo ou de duração limitada, não uma estrutura de personalidade. Caracteriza-se pela coexistência sintomática de depressão e ansiedade, sem que uma predomine de maneira significativa sobre a outra. É como se fosse uma experiência de paralisia energética: a agitação da ansiedade (taquicardia, inquietação) combinada com a inibição e o pessimismo da depressão.

    Desse modo:
    - TPB é uma estrutura de subjetividade (modo de ser).
    - TOC é uma síndrome ansiosa com mecanismos psíquicos específicos. (Que não existe a obrigatoriedade de ser crônico)
    - Transtorno Misto é um estado afetivo agudo ou subsindrômico. (Que tende a ser breve)

    Porém, é muito importante considerar que somos seres integrais, os aspectos biológicos e nosológicos das patologias são apenas um recorte. Um tratamento adequado deve levar em consideração o contexto e o ambiente sociocultural que dá condições para o aparecimento, e faz a manutenção desses quadros clínicos.

    Espero ter ajudado. Até breve.


  • O que é a dor emocional no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e por que ela é tão intensa?

    O que é a dor emocional no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e por que ela é tão intensa?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Pablo  Barreto

    Olá, me chamo Pablo Barreto, sou psicólogo e vou tentar responder sua pergunta:

    Já adianto que é uma pergunta muito interessante, mas um pouco complexa, tentarei ser o mais didático possível, vamos lá:

    Podemos dizer que a dor emocional no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) não é simplesmente uma tristeza profunda ou uma ansiedade aguda. É algo de ordem estrutural, que toca na própria estrutura da experiência de ser um "eu" no mundo.

    Para entendê-la, precisamos abandonar a ideia de "ferida" e pensar em uma condição constitutiva de vulnerabilidade extrema. Em termos gerais, entendemos a partir da esquizoanálise (que é a abordagem dentro da Psicologia com a qual me identifico), que essa cronificação funciona como uma resposta possível de sobrevivência psíquica a um ambiente fortemente marcado por experiências precoces de invalidação, abandono ou trauma.

    - Um ponto crucial a partir dessa perspectiva, é entender que apesar dos aspectos biológicos e sintomáticos serem importantes, eles não dão conta da realidade como um todo. Precisamos de um olhar mais amplo, que incluam o território, cultura, historicidade e as relações que produziram, produzem e fazem a manutenção dos estados patológicos. Dentro desse olhar, não existem eventos patológicos como um "ente sobrenatural", muito pelo contrário, eles só se apresentam porque existe um contexto que possibilita essa manifestação.

    Retornando para a resposta inicial, a estrutura borderline é frequentemente descrita como uma falha no desenvolvimento de um "container" psíquico estável.

    O que seria isso?

    É como se a maioria das pessoas tivessem uma espécie de filtro, que tem a função de modular e dar limites aos estímulos internos e externos, reduzindo a intensidade como que esses estímulos são percebidos por esse indivíduo. Na estrutura boderline, é como se esse filtro não se formasse adequadamente ou é crônica e severamente danificada por experiências negativas de invalidação, violências ou traumas.

    Desse modo, um comentário neutro é vivido como um golpe; uma pequena separação é sentida como um abandono catastrófico; uma emoção não é um estado que se tem, mas algo que se é, de forma total e avassaladora. Não há amortecimento. Então essa intensidade vem justamente da exposição direta.

    Mas como mencionei um pouco mais acima, a dor borderline não existe no vácuo. Ela é fabricada e amplificada em contextos relacionais invalidantes. A invalidação não é apenas dizer "você está exagerando". É uma negação sistemática da experiência interna do sujeito. Para uma criança cujas emoções são constantemente ignoradas, ridicularizadas ou punidas, aprende-se que: o que você sente está errado, não existe ou é motivo de rejeição.

    Portanto, a dor é intensa porque é uma dor dupla: a dor emocional primária mais a dor de ter essa experiência negada, distorcida ou punida pelo mundo. É uma dor sem testemunha, sem reconhecimento social legítimo. Isso gera uma solidão ontológica devastadora.

    Nesse sentido, a dor borderline é intensa porque precisa ser. Em um ambiente primário invalidante, a intensidade era talvez o único recurso para sinalizar que algo estava terrivelmente errado. O problema é que esse sistema de alarme de incêndio continua disparando constantemente e de modo atemporal, ampliando a percepção de perigo na vida cotidiana, ainda que o risco real tenha diminuído.

    É por isso que não se trata apenas de algo biológico que possa ser tratado apenas por vias medicamentosas. As medicações podem e devem auxiliar bastante no tratamento, porém a experiência é fortemente atravessada por uma dimensão existencial, o que faz com que outras ferramentas sejam essenciais como por exemplo a psicoterapia.

    Espero ter ajudado. Até breve.


Perguntas frequentes

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