Perguntas do paciente (271)

  • Tenho passado por problemas sérios devido à minha baixa autoestima. Recentemente, acabei traindo meu

    Tenho passado por problemas sérios devido à minha baixa autoestima. Recentemente, acabei traindo meu namorado porque fui elogiada por outra pessoa; como isso nunca tinha acontecido antes, ouvir aquelas palavras foi maravilhoso para mim. Comecei a me relacionar com essa pessoa, mas logo percebi que tudo aconteceu porque busco incessantemente a aprovação alheia.
    ​Meu namorado me elogia e sempre faz minhas vontades, mas parece que nada é suficiente para suprir o que carrego desde a infância. Sofri muito com críticas da família e de outras pessoas sobre o meu corpo. Agora, além desse trauma, enfrento outra crise: meu namorado descobriu a traição e me perdoou, mas sinto que o amor acabou e eu não consigo parar de pensar na outra pessoa.
    ​Apesar disso, não consigo terminar por medo de ficar sozinha, já que sinto uma necessidade de 'atenção total'. Além disso, tenho medo de terminar meu curso e ficar ociosa, pois quando não estou ocupada, começo a ter pensamentos ruins. Para completar, sinto dificuldade em conseguir um emprego por ser excessivamente tímida. É um mix de emoções e não tenho ideia do que fazer para melhorar tudo isso..

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    O que você descreve não é uma simples falha de caráter, mas o reflexo de uma ferida antiga: a busca por aprovação que aprendeu desde a infância, quando críticas ao seu corpo marcaram sua autoestima. A traição não define quem você é, mas revela uma carência que busca preencher um vazio com o olhar do outro - seja do seu namorado, que a ama, seja de quem a elogia. O perdão que recebeu não apaga a sensação de que o amor acabou, e o medo de ficar sozinha mostra o quanto é difícil sustentar-se emocionalmente sem muletas externas.

    O caminho não está em escolher entre um homem e outro, mas em reconstruir sua relação consigo mesma. Enquanto sua autoestima depender da validação alheia, você estará sempre refém do próximo elogio ou crítica. Buscar terapia seria um espaço seguro para entender por que a solidão é tão aterrorizante e aprender a habitar sua própria companhia, sem precisar se ocupar para fugir de pensamentos ruins. Você não é seus erros - é uma pessoa tentando sobreviver com as feridas que carrega, e há caminhos para construir uma autoestima que venha de dentro.


  • E se eu não gostar do meu analista nas primeiras sessões? Devo insistir ou é melhor trocar logo de p

    E se eu não gostar do meu analista nas primeiras sessões? Devo insistir ou é melhor trocar logo de profissional?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Essa é uma dúvida muito comum e legítima, e faz todo sentido que você se pergunte sobre isso. O início de uma análise é um momento delicado, onde se encontra o estranho e o íntimo. O que você chama de "não gostar" pode ser, na verdade, uma reação à estranheza do setting, à figura do analista que não corresponde às suas expectativas conscientes, ou até mesmo uma resistência inicial ao próprio processo de se expor. Muitas vezes, o que nos incomoda no analista pode ser a chave para compreendermos algo sobre nós mesmos e nossos padrões de relação. Portanto, um certo desconforto inicial não é apenas normal, mas pode ser matéria-prima preciosa para o trabalho.

    No entanto, é fundamental que você se sinta em um ambiente minimamente seguro e acolhedor para que a fala possa circular. Se a sensação de não se sentir compreendido ou a antipatia for muito intensa e persistente a ponto de bloquear qualquer possibilidade de associação livre, é um sinal a ser considerado Vale a pena, nas primeiras sessões, trazer exatamente esse sentimento para a conversa. Falar sobre o que te incomoda é um exercício valiosíssimo e pode desobstruir o caminho.

    Se, após algumas tentativas de abordar o assunto, você sentir que a comunicação está permanentemente travada ou que há algo na postura do profissional que inviabiliza a confiança, trocar de analista não é um fracasso. É um ato de cuidado consigo mesmo. O importante é não desistir por causa de uma primeira experiência que não foi ideal. O setting analítico é um espaço único, e encontrar a pessoa com quem você consiga estabelecer essa parceria singular faz parte do processo. Confie na sua sensibilidade, mas dê a ela e ao trabalho um tempo para que possam se revelar.


  • Minha família é muito tóxica e me sinto culpada por querer me afastar. A psicanálise ajuda a lidar c

    Minha família é muito tóxica e me sinto culpada por querer me afastar. A psicanálise ajuda a lidar com essa culpa sem me forçar a perdoar?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    A psicanálise não trabalha com a obrigação moral do perdão, mas sim com a possibilidade de você se escutar verdadeiramente. O que chamamos de "família tóxica" geralmente envolve vínculos onde o amor e a dor se misturam de tal forma que o afastamento parece uma traição. A análise pode te ajudar justamente a desembaralhar esses fios: entender de onde vem essa culpa, o que ela protege em você e, principalmente, construir uma autorização interna para se preservar sem carregar o peso de ser "a vilã da história".

    O perdão forçado é, muitas vezes, uma violência disfarçada de virtude. Na clínica, não se trata de perdoar ou não perdoar, mas de elaborar - ou seja, dar lugar a tudo que ficou silenciado, à raiva que não pôde ser dita, à tristeza que não teve acolhimento. Com o tempo, o que pode surgir não é um perdão moral, mas uma espécie de compreensão mais profunda sobre os limites do outro e, principalmente, sobre os seus próprios limites. O afastamento, nesse contexto, pode deixar de ser visto como abandono para se tornar um ato de cuidado consigo mesma - e isso, sim, a psicanálise pode te ajudar a sustentar.


  • Todo mundo hoje diz que tem TDAH ou burnout. A psicanálise acredita nesses diagnósticos ou busca ent

    Todo mundo hoje diz que tem TDAH ou burnout. A psicanálise acredita nesses diagnósticos ou busca entender o que está por trás do sintoma?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    A psicanálise não desacredita a existência do sofrimento nomeado como TDAH ou burnout, mas parte de uma premissa diferente: o sintoma não é um inimigo a ser extirpado, mas uma formação que carrega sentido. Enquanto o discurso médico muitas vezes busca enquadrar o mal-estar em categorias universais para oferecer respostas rápidas, a escuta analítica se pergunta: "o que esse sofrimento diz sobre a história singular deste sujeito?". A dificuldade de concentração pode ser um escape, a exaustão pode ser a linguagem do corpo diante de algo que a psique não pôde suportar. O nome do diagnóstico importa menos do que a trama inconsciente que o sustenta.

    Portanto, mais do que "acreditar" ou não nos diagnósticos, a psicanálise busca justamente desconstruir essa necessidade de um rótulo que muitas vezes silencia o sujeito. O risco contemporâneo é transformarmos dores complexas em siglas, perdendo de vista a singularidade de cada história. O importante não é negar o sofrimento, mas abrir espaço para que, na fala, cada um possa descobrir o que verdadeiramente está adoecendo para além dos manuais diagnósticos.


  • Como a psicanálise lida com o racismo estrutural? O analista leva em conta o sofrimento que vem de f

    Como a psicanálise lida com o racismo estrutural? O analista leva em conta o sofrimento que vem de fora, da sociedade, ou foca só na minha infância?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Essa é uma pergunta fundamental e mostra uma compreensão muito sofisticada de que o sofrimento psíquico não nasce apenas dentro de nós, mas é também moldado pelo mundo que nos cerca. A psicanálise contemporânea, felizmente, já não pode mais se furtar a essa discussão. O racismo estrutural não é um "tema externo" que fica do lado de fora da porta do consultório; ele atravessa o corpo, a história e a subjetividade de quem o sofre. Um analista atento sabe que as marcas deixadas pela violência racial não estão apenas na memória, mas na constituição do sujeito, na sua autoimagem, nas suas defesas e na sua forma de se colocar no mundo. Ignorar isso seria, no mínimo, uma escuta incompleta.

    Quando você chega ao analista, não é para deixar o mundo lá fora. O que se espera de um bom analista é que ele possa acolher tanto as dores mais antigas da sua história infantil quanto as feridas abertas pela sociedade. Muitas vezes, essas duas coisas se misturam: a forma como você foi olhado na infância pode ter sido atravessada pelo racismo, ou as críticas que sofreu podem ter ecoado em estereótipos raciais. O analista não vai escolher entre um ou outro, mas vai justamente te ajudar a entender como o social e o íntimo se entrelaçam na construção do seu sofrimento.

    Portanto, a resposta é: sim, um analista comprometido com a ética da escuta leva em conta o sofrimento que vem de fora. A psicanálise não é uma prática neutra ou alheia às injustiças sociais. O que ela oferece é um espaço para que você possa elaborar como tudo isso - a infância, as críticas, o racismo, as carências - ressoa dentro de você. O importante é que você se sinta à vontade para trazer essas questões e que o profissional demonstre sensibilidade para acolhê-las sem reducionismos.


  • O que é a "crise de vazio" do ponto de vista neurobiológico?

    O que é a "crise de vazio" do ponto de vista neurobiológico?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Quando me perguntam sobre a “crise de vazio” do ponto de vista neurobiológico, preciso começar recusando a própria pergunta – não por desconhecimento da neurologia, mas porque enquadrar uma experiência subjetiva dessa forma já implica um apagamento do que ela realmente é. Do ponto de vista psicanalítico, a chamada “crise de vazio” não é um fenômeno cerebral localizável, nem um desequilíbrio químico que se possa isolar em um exame. Ela é uma experiência de desmoronamento do sentido: um momento em que o sujeito se vê diante de um buraco no que até então o sustentava – seja um laço afetivo, uma crença, uma promessa de felicidade. Reduzir isso a circuitos neurais ou a déficits de neurotransmissores é trocar a escuta do sofrimento singular por um discurso que, por mais que se vista de ciência, não alcança a pergunta que realmente habita a crise: “o que me sustenta?”, “o que faz com que eu exista para alguém?”.

    A psicanálise não nega que o cérebro esteja envolvido em tudo o que sentimos, mas afirma que o sofrimento humano não se deixa capturar pela lógica biológica sem perda irreparável. A “crise de vazio” diz respeito à falta estrutural que nos constitui – aquela que nos move a buscar, a desejar, a nos relacionar. Quando essa falta deixa de ser suporte para a criação de novos laços e se transforma em um poço sem fundo, instala-se a crise. Tratá-la como um problema neurobiológico seria como tentar consertar um romance mal escrito ajustando o tipo de papel. Por isso, a escuta que proponho não busca localizar a dor em um órgão, mas sim acolhê-la como questão de existência – para que, no lugar do vazio, possa se abrir a possibilidade de (re)construir sentidos que façam a vida valer a pena.


  • É possível resolver conflitos de longa duração com uma pessoa com Transtorno de Personalidade Border

    É possível resolver conflitos de longa duração com uma pessoa com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Inicialmente, entendo ser importante ter cuidado com o diagnóstico de "transtorno de personalidade borderline", porque ele tende a etiquetar a pessoa em vez de acolher sua forma singular de sofrer. Nesse tipo de organização subjetiva, os conflitos de longa data não se resolvem por acordos racionais ou pedidos de desculpa isolados, pois há uma oscilação constante entre idealização e desvalorização que faz o outro ora ser visto como salvador, ora como algoz. Tentar resolver os conflitos apenas no conteúdo explícito costuma fracassar, porque o que está em jogo é a dificuldade em sustentar uma imagem estável de si e do outro diante das falhas inevitáveis dos relacionamentos.

    A transformação desses conflitos acontece menos por uma "resolução" definitiva e mais pela construção de um vínculo que suporte as oscilações sem se romper. É a consistência – alguém que não some diante da raiva, não revida com abandono e não se perde na idealização – que permite, com o tempo, que a pessoa experimente um laço que sobrevive à tempestade. Esse trabalho de borda, longo e delicado, não garante um final amarrado, mas abre a possibilidade de que os velhos conflitos deixem de se repetir como armadilhas e se tornem, enfim, algo que pode ser pensado e simbolizado.


  • É verdade que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) na maioria das vezes vem acompanhado por outro

    É verdade que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) na maioria das vezes vem acompanhado por outros transtornos mentais ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    A pergunta parte de um pressuposto enganoso: o de que o “Transtorno Obsessivo-Compulsivo” seja uma entidade estável que “vem acompanhada” de outras entidades igualmente fechadas, como se falássemos de objetos que se agregam em um mesmo sujeito. Do ponto de vista psicanalítico, não existem “transtornos” que se somam; existe um sujeito singular cujo sofrimento pode se manifestar por meio de formações obsessivas, fóbicas, somáticas ou depressivas, dependendo de sua história e das vicissitudes de sua constituição subjetiva. A mania contemporânea de acumular diagnósticos – TOC “com” ansiedade generalizada “com” transtorno de pânico “com” depressão – não reflete uma verdade clínica mais precisa; reflete, isso sim, uma lógica de catálogo que fragmenta a pessoa em uma lista de comorbidades, esvaziando aquilo que é central: o modo único como cada um organiza seu sofrimento, suas defesas e seu laço com o outro.

    A chamada “alta comorbidade” que os manuais psiquiátricos tanto repetem é, na verdade, um artefato produzido pelo próprio sistema classificatório. Quando se isola um conjunto de comportamentos e se dá o nome de “TOC”, e depois se isola outro conjunto e se chama “fobia social”, e ambos coexistem no mesmo paciente, a conclusão inevitável será a de que um “transtorno” acompanha o outro. Mas para uma escuta psicanalítica, esses fenômenos não são entidades que se sobrepõem; são expressões de uma mesma estrutura subjetiva que, em diferentes momentos ou diante de diferentes disparadores, pode produzir rituais, preocupações excessivas, evitações ou desânimo. Reduzir essa complexidade a uma ideia de “comorbidade” não apenas medicaliza a existência, como também desvia o olhar do que realmente importa: compreender o que levou aquele sujeito, na sua história, a se organizar dessa forma, e o que ele tenta, com seus sintomas, dar conta de um mal-estar que não encontrou outras vias de simbolização.


  • Como funciona o diagnóstico em psicanálise? Quais são as estruturas psíquicas?

    Como funciona o diagnóstico em psicanálise? Quais são as estruturas psíquicas?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    O diagnóstico em psicanálise, sob uma ótica lacaniana, não é uma rotulagem estanque, mas um instrumento clínico ético e provisório que orienta a direção do tratamento. Ele não busca encaixar o sujeito em uma categoria, mas identificar a estrutura de gozo e a lógica particular que organiza seu inconsciente – sua maneira única de desejar, sofrer e se relacionar com a Lei (o Nome-do-Pai). O fio condutor não é a listagem de sintomas, mas a escuta de como o sujeito fala: seus lapsos, atos falhos, fantasmas e, sobretudo, sua posição diante do desejo. O diagnóstico, portanto, é uma hipótese de trabalho que se confirma ou se transforma ao longo da própria análise, à medida que o sujeito vai se apropriando de sua história singular.

    As chamadas estruturas psíquicas – neurose, psicose e perversão – não são doenças, mas posições subjetivas fundamentais e inconscientes diante do significante fálico e da castração. A neurose (obsessiva e histeria) se caracteriza pela aceitação recalcada da castração, gerando um conflito entre o desejo e a lei, que se expressa no sintoma como compromisso. A psicose se define pela foraclusão (Verwerfung) do significante fundamental (Nome-do-Pai), resultando em uma relação não mediada simbolicamente com o real, que pode irromper no fenômeno alucinatório ou delirante. Já a perversão implica numa denegação (Verleugnung) da castração, onde o sujeito se coloca como objeto instrumento para gozo do Outro. O essencial é compreender que cada estrutura é um modo absolutamente singular de o sujeito se haver com o desejo do Outro e com o real de seu gozo, sendo a análise o caminho para que ele invente uma solução própria para seu mal-estar.


  • Quais são as maneiras positivas de lidar com uma crise existencial ?

    Quais são as maneiras positivas de lidar com uma crise existencial ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Compreendo que uma crise existencial, embora angustiante, é um sinal de que a psique busca um significado mais autêntico. A maneira positiva de lidar com ela começa pelo acolhimento da angústia sem julgamento, permitindo-se explorar as questões profundas através da associação livre. É fundamental investigar a própria história para entender como expectativas externa podem ter suplantado desejos genuínos, questionando de forma gentil os pilares automáticos que sustentavam a vida até então.

    Num segundo momento, o foco desloca-se da busca por uma "grande resposta" para a construção diária de sentido. Encontrar significado nas pequenas experiências – como um momento de conexão, um ato criativo ou uma tarefa que traga realização – torna-se essencial. A criatividade, nesse contexto, funciona como uma via de expressão do self, ajudando a materializar sentimentos confusos e a reinserir a pessoa no fluxo da vida de maneira mais consciente e integrada.


  • Sobre os testes de QI, é possível ter uma pontuação acima da média em dois subtestes de um índice e

    Sobre os testes de QI, é possível ter uma pontuação acima da média em dois subtestes de um índice e um abaixo ou na média em outro do mesmo índice? Por que?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Do ponto de vista da psicanálise lacaniana, que se interessa pela lógica singular do sujeito do inconsciente e não pela mensuração de uma suposta "inteligência" geral, a pergunta sobre a discrepância entre subtestes de QI é, em si mesma, reveladora. O modelo psicométrico parte do pressuposto de que a inteligência é uma faculdade homogênea e quantificável, enquanto para a clínica psicanalítica, o que existe é uma relação particular do sujeito com o saber. Um resultado irregular não indica uma "deficiência" em um domínio, mas sim como o desejo e a economia libidinal desse sujeito se organizam em torno de certos tipos de operações. Um desempenho superior em subtestes que demandam raciocínio abstrato e verbal pode coexistir com um desempenho mediano em tarefas que exigem velocidade motora ou atenção concentrada, simplesmente porque estas últimas podem ser atravessadas por uma angústia específica, por uma recusa inconsciente, ou por um investimento pulsional totalmente diverso. O teste, nesse caso, não mede capacidade, mas revela a distribuição desigual do interesse libidinal e os efeitos da divisão subjetiva.

    A pergunta crucial para um lacaniano não é "por que a pontuação é baixa aqui?", mas "o que está em jogo para o sujeito nesse tipo específico de operação?". Um subteste de "Código" ou "Procurar símbolos", que exige velocidade e precisão, toca no registro do automaton, da repetição mecânica. Um sujeito cuja estrutura é marcada por uma inquietação pulsional ou por uma recusa a se submeter à lógica do ritmo imposto pelo Outro pode ter seu desempenho drasticamente afetado. Isso não é um erro de medição; é a verdade de sua posição subjetiva se inscrevendo no resultado. Portanto, a inconsistência entre os índices não é um problema técnico do teste, mas a prova inconteste de sua inadequação fundamental para capturar o que é essencial: a singularidade do desejo, que sempre escapa a qualquer tentativa de normalização e hierarquização. O verdadeiro "resultado" a ser interpretado é a relação transferencial que se estabelece durante a situação de teste e a maneira particular como o sujeito lida com o enigma do desejo do Outro que essa situação representa.


  • Como identificar se é Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou comportamento disruptivo?

    Como identificar se é Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou comportamento disruptivo?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    A distinção crucial não está apenas no comportamento observável, mas na posição subjetiva frente ao sofrimento. No chamado Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), o sujeito experimenta seus rituais e pensamentos como egodistônicos, ou seja, como algo alienante, intrusivo e gerador de angústia. Ele luta contra eles, mesmo quando cede à compulsão. Já no comportamento disruptivo (um termo que pode abarcar desde acting outs até estruturas de personalidade mais complexas), frequentemente há uma justificação ou uma satisfação paradoxal no ato. A questão não é "o que ele faz", mas "qual o lugar que esse sintoma ocupa em sua economia psíquica?". O obsessivo é prisioneiro de seu ritual; o sujeito do comportamento disruptivo pode usar o ato como uma forma de desafio ou como uma solução inconsciente para um conflito interno.

    Do ponto de vista de uma clínica que questiona a centralidade do diagnóstico, a pergunta mais fértil não é "É TOC ou é disruptivo?", mas "O que esse sintoma está tentando dizer?". O ritual obsessivo, com sua meticulosidade, muitas vezes tenta controlar o desejo e a contingência do mundo, organizando simbolicamente uma angústia ligada à falta. O comportamento disruptivo, por sua vez, pode ser uma resposta explosiva a um real insuportável, uma tentativa de gozo imediato ou um apelo dirigido ao Outro. A verdade do sujeito não está no rótulo diagnóstico, mas na maneira singular como seu inconsciente se expressa através dessas formações. A função da análise é, portanto, escutar a história singular por trás do sintoma, ajudando o sujeito a decifrar seu próprio enigma, para além de qualquer categorização que possa aprisioná-lo em uma identidade de "doente".


  • . Existe uma ligação entre memória e inteligência no transtorno de personalidade borderline (TPB)?

    . Existe uma ligação entre memória e inteligência no transtorno de personalidade borderline (TPB)?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Do ponto de vista psicanalítico, a ligação entre memória e inteligência no chamado Transtorno Borderline não é uma relação de causa e efeito, mas uma expressão da própria estruturação psíquica. A instabilidade emocional característica não "prejudica" a memória ou a inteligência de forma mecânica; antes, as memórias são vividas de forma intensamente sensorial e fragmentada, porque estão impregnadas pelas marcas das experiências de abandono e pelas falhas na constituição de uma imagem unificada de si. A "inteligência", por sua vez, frequentemente aguçada e hipervigilante, é mobilizada a serviço de uma função primordial: escanear o ambiente em busca de sinais de rejeição ou ameaça. Nesse sentido, memória e inteligência estão a serviço de uma economia psíquica onde a preservação do vínculo com o outro é questão de sobrevivência psíquica.

    A questão central, portanto, não é medir quantitativamente essa ligação, mas compreender qual a sua função subjetiva. A dificuldade em acessar lembranças coerentes em momentos de desregulação não é um "déficit", mas a manifestação de que a memória está organizada em torno de núcleos traumáticos não elaborados. A grande capacidade intelectual, muitas vezes observada, pode ser uma formação reativa sofisticada – uma "inteligência da crise" voltada para a manipulação de relações e a autopreservação, que paradoxalmente convive com uma imensa dificuldade em simbolizar as próprias emoções. O trabalho analítico visa ajudar o sujeito a tecer uma nova trama narrativa para essas memórias, transformando a inteligência, que era um instrumento de defesa, em uma ferramenta para a construção de um self mais integrado e menos refém da turbulência emocional.


  • O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) está entre a neurose e a psicose ?

    O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) está entre a neurose e a psicose ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Do ponto de vista psicanalítico, recuso o diagnóstico de “transtorno de personalidade borderline” como uma categoria fechada, pois ele tende a transformar em entidade nosográfica aquilo que, na clínica, se mostra como uma questão estrutural complexa. A pergunta sobre se tal quadro estaria “entre a neurose e a psicose” já nasce, para mim, de uma tentativa de localizar o sujeito em um gradiente psicopatológico que a psiquiatria descritiva herdou, mas que a psicanálise lida de outro modo. Na tradição analítica, especialmente a partir dos trabalhos sobre “estados-limite”, não se trata de um meio-termo ou de uma posição intermediária estável, mas de organizações subjetivas que oscilam, que fazem uso de defesas próprias (como a clivagem, a identificação projetiva) e que demandam uma escuta atenta à economia pulsional e ao destino da castração. Reduzi-las a uma categoria diagnóstica rígida muitas vezes obscurece a singularidade do sofrimento e o modo como cada sujeito habita – ou não – as coordenadas da neurose ou da psicose.

    Ao rejeitar o rótulo de “transtorno”, não estou ignorando a intensidade do sofrimento que costuma ser nomeado assim; estou, isso sim, propondo que nos afastemos da tentativa de classificar para nos aproximarmos da experiência do paciente. A noção de uma “fronteira” entre neurose e psicose pode ser útil clinicamente quando pensamos em momentos de descompensação, em passagens ao ato ou em fragilidades defensivas, mas ela nunca é fixa. O trabalho analítico com essas organizações não busca situar o paciente em um ponto entre dois polos, mas sim acompanhar os movimentos de sua subjetividade, os riscos de desmoronamento e as tentativas de sustentação. Assim, a pergunta sobre estar entre neurose e psicose cede lugar a outra: como esse sujeito constrói seu laço com o outro, com o próprio corpo e com o saber que lhe escapa – e como o dispositivo analítico pode oferecer um enquadre em que essas questões possam, enfim, se tornar pensáveis?


  • Quais são os impactos da cibercondria no diagnóstico pela internet?

    Quais são os impactos da cibercondria no diagnóstico pela internet?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    A cibercondria costuma nascer de um movimento legítimo: a tentativa de lidar com a angústia do desconhecido, de buscar um nome para o que se sente. No entanto, em vez de acalmar, esse percurso frequentemente amplifica a ansiedade. Isso porque a internet oferece informações descontextualizadas, sem levar em conta a história singular do sujeito, e o internauta acaba navegando por um mar de possibilidades onde o resfriado comum rapidamente vira “câncer” e o cansaço vira “doença rara”. Do ponto de vista psicanalítico, a cibercondria pode ser entendida como uma tentativa de controlar um real que escapa – o corpo e seus sinais –, mas que, paradoxalmente, coloca o sujeito numa posição solitária, preso em um circuito onde a dúvida só se alimenta de mais busca.

    Os impactos no diagnóstico são profundos. Ao chegar ao consultório já com um autodiagnóstico ou com uma lista de hipóteses colhidas na web, o paciente muitas vezes deixa de ocupar o lugar de quem narra sua experiência e passa a confrontar o profissional com um saber supostamente equivalente. Isso pode fragilizar a relação de confiança e transformar a consulta em um embate de opiniões, em vez de um espaço de escuta e investigação compartilhada. A psicanálise nos lembra que o diagnóstico não é apenas uma etiqueta técnica; ele se constrói na relação, no tempo da palavra e no acolhimento da singularidade. Quando a internet sequestra essa função, perde-se o essencial: a possibilidade de que o sujeito, ao falar de seus sintomas para outro, possa ressignificá-los e sair do lugar de refém da própria angústia.


  • Meu filho está com o comportamento agressivo na escola batendo nos coleguinhas, ele não vive apanhan

    Meu filho está com o comportamento agressivo na escola batendo nos coleguinhas, ele não vive apanhando em casa , converso digo que não pode , deixo de castigo, já não sei mais oque fazer , estou esperando consulta com neuropediatra
    Até lá qual profissional procurar ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Bom dia! Primeiro é importante entender qual o objetivo de buscar um neuropediatra como primeira medida, uma vez que outras abordagens podem ter efeitos tão ou mais eficientes e não vão logo de cara inserir medicamentos ou diagnósticos que mais estigmatizam do que ajudam a criança. Minha recomendação é primeiro buscar auxílio psicológico e, à partir dessa avaliação, buscar outras medidas auxiliares que vão depender principalmente da idade da criança.

    Outra opção é buscar atendimento na rede de saúde mental do SUS, que vai depender da estrutura do seu município de residência. De qualquer forma, mesmo que município não disponha de CAPS Infantil (Centro de Atenção Psicossocial), você pode ser orientado e/ou já iniciar o acompanhamento pela Unidade Básica de Saúde e, caso seja necessário, este serviço pode encaminhar ao CAPS de outros município próximo que funcione como referência regional.


  • Quem tem deficiência intelectual leve pode ter uma vida normal?

    Quem tem deficiência intelectual leve pode ter uma vida normal?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Com certeza! Sob a perspectiva antimanicomial, sim, pessoas com deficiência intelectual leve podem ter uma vida plena e autônoma, desde que recebam os apoios necessários e a sociedade elimine barreiras atitudinais, físicas e institucionais. O movimento rejeita a ideia de "normalidade" como padrão único e combate a institucionalização, defendendo que a limitação não está no indivíduo, mas num ambiente que nega direitos básicos à educação inclusiva, trabalho com adaptações, moradia assistida e participação social. A vida independente é possível através de redes de apoio comunitário, respeito às singularidades e políticas públicas que garantam cidadania – não pela busca de uma suposta "cura", mas pela desconstrução de estigmas e pela garantia de que todas as pessoas, em sua diversidade, tenham acesso a escolhas, relações significativas e projetos de vida conforme seus desejos e potencialidades. A deficiência não anula a humanidade nem o direito de existir em liberdade.


  • Como a deficiência intelectual pode afetar o desenvolvimento social e emocional de uma pessoa?

    Como a deficiência intelectual pode afetar o desenvolvimento social e emocional de uma pessoa?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Bom dia! É difícil responder essa pergunta de maneira direta, uma vez que esses efeitos se dão de maneira particular para cada sujeito, sendo influenciados pela sociedade, cultura e/ou classe social em que a pessoa está inserida. Uma pessoa com deficiência intelectual de classe alta em Belo Horizonte e uma de classe popular em Felisburgo terão atravessamentos brutalmente distintos em suas vidas.


  • Quais são as diferenças entre atraso no desenvolvimento infantil e deficiência intelectual?

    Quais são as diferenças entre atraso no desenvolvimento infantil e deficiência intelectual?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Bom dia! É importante conceitualizar ambos primeiro para entendermos o que os diferencia. O atraso de desenvolvimento pode ser entendido no contexto de uma criança que não se desenvolveu uma ou algumas habilidades dentro de um intervalo de tempo de referência (exemplo: início da fala entre 12 e 18 meses), mas isso não pressupõe que há um quadro de base, uma vez que cada sujeito se desenvolve em um ritmo particular e esses "tempos" são apenas referenciais. Claro, um atraso de desenvolvimento pode ser um sinal de deficiência intelectual, mas não é uma certeza. Já a deficiência intelectual é entendida como um quadro estabelecido, ou seja, é um diagnóstico taxativo. Além disso, quando falamos em desenvolvimento, estamos falando da infância, enquanto a deficiência intelectual também se faz presente na fase adulta.


  • Qual a diferença de transtorno mental para doença mental?

    Qual a diferença de transtorno mental para doença mental?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Pedro Chaves

    Na compreensão psicanalítica, a distinção entre "doença mental" e "transtorno mental" reflete paradigmas distintos de entender o sofrimento psíquico. O termo "doença mental" está ancorado no modelo médico-biologicista, tratando o fenômeno como patologia orgânica comparável a enfermidades físicas, cujo tratamento prioriza a normalização de funções via intervenções como fármacos. Já o conceito de "transtorno mental", em nossa visão, refere-se a estruturas psíquicas inconscientes (como neurose ou psicose) que expressam conflitos singulares do sujeito – não como defeitos, mas como soluções subjetivas diante do real da existência. Aqui reside a diferença crucial: enquanto a doença vê o sintoma como erro a ser eliminado, o transtorno o compreende como mensagem simbólica a decifrar, inscrita na história e no desejo do sujeito. Assim, a abordagem psicanalítica desloca o foco da "cura" normativa para a escuta interpretativa, onde o sintoma não é um inimigo, mas uma cifra do inconsciente que demanda acolhimento da verdade singular que o habita. Como lembrava Freud, a clínica não se faz sobre diagnósticos, mas na arte de ler o que pulsa nas entrelinhas da fala e do corpo.


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