Artigos 12 maio 2026

Hormônios e fertilidade: como os desequilíbrios afetam homens e mulheres

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

A compreensão da fertilidade humana é um dos pilares fundamentais da saúde reprodutiva e do planejamento familiar. Este conceito abrange não apenas a capacidade biológica de concepção, mas também uma série de processos fisiológicos complexos que envolvem o equilíbrio hormonal, a integridade dos órgãos reprodutores e a saúde sistêmica de ambos os parceiros. Frequentemente, a busca por informações sobre este tema ocorre quando o desejo de formar uma família encontra obstáculos, o que torna o conhecimento técnico e baseado em evidências um recurso valioso para a tomada de decisões conscientes.

Embora a fertilidade seja comumente associada apenas à ausência de patologias, ela é influenciada por uma multiplicidade de fatores, que variam desde a genética e a idade até hábitos de vida e exposições ambientais. A abordagem clínica contemporânea preconiza que a fertilidade deve ser vista como um estado dinâmico, exigindo um olhar atento tanto para o funcionamento do sistema reprodutor feminino quanto para o masculino, uma vez que a concepção depende da interação harmoniosa entre ambos os gametas em um ambiente biológico favorável, o que pode ser dificultado por desafios hormonais na concepção feminina.

O que é fertilidade e como ela funciona

A fertilidade é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a capacidade biológica de reprodução, especificamente a aptidão de um indivíduo ou casal para gerar descendentes por meio do coito vaginal. Este processo não é garantido em todos os ciclos menstruais, mesmo em indivíduos saudáveis, pois depende de uma sequência precisa de eventos biológicos que culminam na fertilização do oócito pelo espermatozoide.

No sistema reprodutor feminino, o processo inicia-se com a maturação de um folículo ovariano sob a influência do hormônio folículo-estimulante (FSH). Após a ovulação, o oócito é captado pelas tubas uterinas, onde permanece viável por um período aproximado de 12 a 24 horas. Simultaneamente, no sistema reprodutor masculino, a espermatogênese produz espermatozoides que, após a ejaculação, devem ser capazes de migrar através do colo uterino e útero até encontrar o gameta feminino. A interação entre esses sistemas exige que o ambiente vaginal e cervical seja propício à sobrevivência dos espermatozoides, os quais podem permanecer viáveis no trato reprodutivo feminino por até cinco dias.

A fertilidade feminina e a reserva ovariana

Diferente do sistema masculino, a capacidade reprovativa feminina é marcada por uma finitude biológica estrita. A mulher nasce com um estoque predefinido de oócitos, denominado reserva ovariana. Estima-se que, ao nascimento, existam cerca de um a dois milhões de folículos, número que decresce continuamente devido ao processo fisiológico de atresia, independentemente do uso de contraceptivos ou da ocorrência de gestações.

A cada ciclo menstrual, um grupo de folículos é recrutado, mas geralmente apenas um atinge a maturidade plena para ser liberado. Ao longo das décadas, não apenas a quantidade de óvulos diminui, mas também a sua qualidade genética, o que eleva a incidência de aneuploidias (alterações cromossômicas) e reduz a taxa de implantação embrionária. O acompanhamento da reserva ovariana é realizado clinicamente por meio de ultrassonografia para contagem de folículos antrais e exames laboratoriais.

O impacto da idade na fertilidade da mulher

A idade cronológica é o fator isolado mais determinante para o sucesso de uma gestação natural. Após os 35 anos, observa-se uma aceleração no declínio da fertilidade, que se torna ainda mais acentuado após os 40 anos. Este fenômeno ocorre porque o envelhecimento celular afeta as mitocôndrias e o fuso meiótico dos oócitos, dificultando a divisão celular correta após a fertilização.

A tabela abaixo ilustra a relação estatística entre a idade materna e as chances de concepção ao longo do tempo:

Faixa etária feminina
Chance de concepção após 1 ano
Chance de concepção após 2 anos
19 a 26 anos
92%
98%
27 a 34 anos
82%
95%
35 a 39 anos
73%
90%
40 anos ou mais
Inferior a 50%
Dados variáveis (baixo prognóstico)

Fertilidade masculina: Quebrando o tabu

Historicamente, as dificuldades de concepção foram atribuídas predominantemente às mulheres, porém os dados científicos atuais demonstram que o fator masculino está presente em aproximadamente 40% a 50% dos casos de infertilidade conjugal. A fertilidade masculina depende da produção contínua de espermatozoides (espermatogênese) nos túbulos seminíferos dos testículos, processo que leva cerca de 74 dias para ser concluído.

Diferente das mulheres, os homens produzem gametas ao longo de quase toda a vida adulta. No entanto, o envelhecimento masculino também está associado à fragmentação do DNA espermático e a uma leve redução no volume e na motilidade do sêmen. A avaliação da fertilidade masculina não se resume apenas à contagem de espermatozoides, mas envolve a análise da sua morfologia e capacidade de progressão, bem como a investigação de um eventual desequilíbrio hormonal no homem.

Fatores que afetam a saúde do esperma

Diversas condições clínicas e escolhas de estilo de vida podem comprometer a qualidade seminal. Entre as patologias mais comuns está a varicocele, uma dilatação das veias do plexo pampiniforme nos testículos, que causa um aumento da temperatura local e estresse oxidativo, prejudicando a produção de espermatozoides.

Outros fatores influentes incluem:

  • Uso de esteroides anabolizantes: O uso de testosterona exógena inibe o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, podendo causar azoospermia (ausência total de espermatozoides no sêmen).
  • Exposição ao calor: O uso frequente de saunas, banheiras quentes ou o hábito de trabalhar com o computador no colo pode elevar a temperatura escrotal.
  • Substâncias químicas: A exposição a metais pesados, pesticidas e solventes industriais possui efeito tóxico direto sobre as células germinativas.

Estatísticas da fertilidade no Brasil

O cenário demográfico brasileiro tem passado por transformações profundas nas últimas décadas. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, a taxa de fecundidade no Brasil atingiu o mínimo histórico de 1,6 filhos por mulher, situando-se abaixo do nível de reposição populacional (2,1 filhos). Esse fenômeno reflete a tendência de adiamento da maternidade devido à inserção da mulher no mercado de trabalho e ao planejamento financeiro familiar.

Paralelamente, a dificuldade de concepção é uma realidade para uma parcela significativa da população. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) estima que cerca de 15% dos casais brasileiros enfrentam algum tipo de desafio para engravidar, o que corresponde a aproximadamente 8 milhões de pessoas. Esse aumento na percepção da infertilidade tem impulsionado a busca por diagnósticos precoces e tratamentos especializados em todo o país.

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Como identificar o período fértil

Para casais que buscam a concepção natural, o reconhecimento do período fértil é uma ferramenta essencial. O período fértil compreende os dias que antecedem a ovulação e o dia em que ela ocorre. Como o espermatozoide possui uma vida útil maior que a do óvulo, a janela de oportunidade se estende por cerca de seis dias.

A identificação desse período baseia-se na observação de mudanças fisiológicas decorrentes das oscilações nos níveis de estrogênio e progesterona. Em casos onde há suspeita de progesterona baixa, o uso de hormônios para engravidar sob supervisão médica pode ser uma estratégia adotada para otimizar as chances de concepção.

Sinais e sintomas da ovulação

O corpo feminino emite sinais biológicos específicos que indicam a proximidade da fase ovulatória. Embora nem todas as mulheres percebam esses sintomas de forma intensa, os principais indicadores são:

  • Secreção vaginal (muco cervical): Sob a influência do estrogênio, o muco torna-se transparente, elástico e fluido, assemelhando-se à clara de ovo. Esta característica facilita a migração e proteção dos espermatozoides.
  • Alterações físicas: Pode ocorrer um ligeiro aumento na temperatura basal (medida logo ao acordar) após a ovulação. Algumas mulheres relatam a mittelschmerz, uma dor pélvica leve e unilateral relacionada à ruptura do folículo.
  • Mudanças de humor e libido: O pico hormonal pré-ovulatório frequentemente resulta em um aumento do desejo sexual e alterações na percepção sensorial e estabilidade emocional.

Fatores de estilo de vida que influenciam a fertilidade

A saúde sistêmica exerce um papel fundamental na regulação dos processos reprodutivos. Hábitos cotidianos podem interferir no equilíbrio endócrino, na qualidade dos gametas e na receptividade endometrial, sendo um dos poucos fatores de fertilidade que podem ser modificados pelos indivíduos.

Alimentação e peso corporal

O estado nutricional e o Índice de Massa Corporal (IMC) estão diretamente relacionados à função ovulatória e à espermatogênese. O tecido adiposo em excesso atua como um órgão endócrino, produzindo estrogênio e substâncias inflamatórias que podem desregular o ciclo menstrual e levar à anovulação crônica, frequentemente associada ao hiperandrogenismo. Por outro lado, o baixo peso extremo pode sinalizar ao corpo um estado de privação, interrompendo a produção de hormônios reprodutivos.

A tabela a seguir descreve as categorias de IMC e seus potenciais impactos na fertilidade:

Classificação do IMC
Faixa de peso
Impacto potencial na fertilidade
Abaixo de 18,5
Baixo peso
Risco de amenorreia e disfunção ovulatória.
18,5 a 24,9
Peso normal
Equilíbrio hormonal e ovulação regular.
25,0 a 29,9
Sobrepeso
Possíveis alterações metabólicas e hormonais.
Acima de 30,0
Obesidade
Resistência à insulina, SOP e redução da qualidade seminal.

Sono, stress e melatonina

O repouso adequado é fundamental para a manutenção dos ritmos circadianos que governam a liberação de hormônios como o LH e o FSH. O estresse crônico eleva os níveis de cortisol, o que pode inibir a secreção de GnRH (hormônio liberador de gonadotrofina) e prejudicar a ovulação.

A melatonina, conhecida como o hormônio do sono, possui propriedades antioxidantes potentes. No contexto reprodutivo, ela desempenha um papel essencial na proteção dos oócitos contra os danos causados pelos radicais livres dentro do folículo ovariano. Manter uma higiene do sono adequada contribui para a preservação da qualidade celular e para o bom funcionamento do coração e do sistema reprodutor.

Tabagismo e substâncias tóxicas

O consumo de tabaco é um dos fatores mais prejudiciais à fertilidade. As toxinas presentes no cigarro aceleram a perda da reserva ovariana, antecipando a menopausa em até dois anos em mulheres fumantes. No homem, o tabagismo reduz a concentração, a motilidade e altera a morfologia dos espermatozoides, além de aumentar a fragmentação do DNA. O consumo excessivo de álcool e o uso de drogas recreativas também estão associados a disfunções eréteis e irregularidades ovulatórias.

Impactos ambientais e climáticos na reprodução

Pesquisas recentes indicam que fatores externos, como a poluição atmosférica e as ondas de calor extremo, podem exercer impactos negativos sobre a fertilidade humana. A exposição a disruptores endócrinos, como bisfenóis e ftalatos presentes em plásticos e cosméticos, interfere na sinalização hormonal, podendo levar à redução da contagem espermática e a distúrbios na reserva ovariana.

Além disso, o estresse térmico causado pelo aumento das temperaturas globais afeta a fisiologia masculina, uma vez que a espermatogênese requer uma temperatura cerca de 2°C inferior à temperatura corporal central. Poluentes ambientais também têm sido correlacionados a um aumento nas taxas de aborto espontâneo e complicações gestacionais iniciais.

Mitos e verdades sobre a fertilidade

A circulação de informações incorretas pode gerar ansiedade e atrasar a busca por ajuda médica adequada. Esclarecer alguns mitos comuns é essencial para uma jornada reprodutiva saudável:

  • Pílulas anticoncepcionais causam infertilidade: Mito. O uso de contraceptivos hormonais apenas suspende a ovulação temporariamente. Após a interrupção, a fertilidade natural da mulher retorna ao seu patamar biológico correspondente à sua idade.
  • A posição durante a relação sexual influencia a concepção: Verdade parcial ou mito. Não há evidências científicas de que posições específicas garantam a gravidez, embora o depósito de sêmen próximo ao colo uterino seja o objetivo fisiológico do coito.
  • Infertilidade é sempre um problema da mulher: Mito. Como mencionado, as causas são distribuídas equitativamente entre homens e mulheres, além de fatores combinados.
  • A ansiedade impede a gravidez: Verdade parcial. Embora o estresse severo possa afetar a ovulação, a infertilidade é geralmente uma condição médica biológica, e não puramente psicológica.

Quando investigar a infertilidade?

A definição clínica de infertilidade é a ausência de concepção após 12 meses de relações sexuais regulares e sem uso de métodos contraceptivos. No entanto, para mulheres acima de 35 anos, o período de espera recomendado antes de buscar auxílio profissional é de apenas 6 meses, devido ao declínio acelerado da reserva ovariana.

A investigação imediata também é indicada em casos de histórico de ciclos menstruais irregulares, endometriose conhecida, cirurgias pélvicas prévias ou condições masculinas como criptorquidia. A abordagem precoce permite identificar causas tratáveis e otimizar as chances de sucesso.

Principais exames de diagnóstico

O protocolo inicial de investigação visa avaliar os pilares da reprodução: a produção de gametas, a anatomia do trato reprodutor e a função hormonal. Os exames mais comuns incluem:

  1. Espermograma: Analisa a quantidade, motilidade e morfologia dos espermatozoides. É o exame padrão-ouro para o fator masculino.
  2. Hormônio Antimülleriano (AMH): Um marcador sanguíneo que reflete a quantidade de folículos remanescentes nos ovários. A análise de prolactina também é essencial para identificar causas ovulatórias.
  3. Histerossalpingografia: Exame de imagem que avalia a permeabilidade das tubas uterinas e a cavidade uterina.
  4. Ultrassonografia Transvaginal: Utilizada para contagem de folículos antrais e identificação de miomas ou pólipos.

Caminhos da reprodução assistida

Quando a concepção natural não ocorre, a medicina reprodutiva oferece diversas tecnologias para auxiliar os pacientes. As técnicas variam desde procedimentos de baixa complexidade, como o Coito Programado e a Inseminação Intrauterina (IIU), até técnicas de alta complexidade como a Fertilização In Vitro (FIV).

No Brasil, o setor tem apresentado crescimento constante. Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio/Anvisa) indicam um aumento superior a 10% no número de ciclos de FIV realizados anualmente nos últimos cinco anos. A FIV permite a superação de barreiras como tubas obstruídas, fator masculino grave e, através do teste genético pré-implantacional (PGT), possibilita a seleção de embriões sem alterações cromossômicas, aumentando as chances de uma gestação segura e saudável.

Apoio e acompanhamento profissional

A jornada rumo à parentalidade é um processo que envolve aspectos físicos e emocionais profundos, exigindo uma abordagem integrada e cuidadosa. Recomenda-se que indivíduos ou casais que desejam engravidar busquem a orientação de um profissional de saúde qualificado, como um ginecologista especializado em reprodução ou um psicólogo, para garantir que todas as dimensões da saúde reprodutiva sejam devidamente assistidas.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS). Infertility definitions and terminology
  2. Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA). Fertility treatment in women over 38
  3. Chaccur, P. Melatonina é uma aliada do sono e do nosso coração. UOL VivaBem
  4. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Dez mitos e verdades sobre a fertilidade
  5. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Fertility problems: assessment and treatment

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