Artigos 15 abril 2026

Hiperandrogenismo: o que é, causas e como tratar o excesso de hormônios

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

O hiperandrogenismo define-se como uma condição clínica caracterizada pelo excesso de hormônios andrógenos no organismo feminino. Embora esses hormônios, como a testosterona (que é fundamental para a saúde masculina e associada a quadros como andropausa, ginecomastia ou testosterona baixa), o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA) e a androstenediona, sejam frequentemente associados à biologia masculina, eles desempenham papéis fundamentais na fisiologia feminina, incluindo a manutenção da massa óssea, o desejo sexual e a saúde metabólica. No entanto, quando os níveis dessas substâncias ultrapassam os limites fisiológicos ou quando há uma sensibilidade aumentada dos tecidos a esses hormônios, instalam-se manifestações clínicas que podem afetar significativamente a saúde e a qualidade de vida.

No Brasil, estima-se que a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), que representa a principal causa de hiperandrogenismo, afete entre 5% a 15% das mulheres em idade reprodutiva, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Além da SOP, diversas outras etiologias podem levar ao aumento da produção androgênica, variando de condições genéticas leves a patologias tumorais raras. A identificação correta desta condição é fundamental para o manejo de sintomas dermatológicos e reprodutivos, bem como para a prevenção de riscos metabólicos a longo prazo, como o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Principais sintomas do hiperandrogenismo

As manifestações físicas do excesso de andrógenos resultam da interação desses hormônios com receptores específicos localizados na pele, nos folículos pilosos e no sistema reprodutivo. O impacto dessas alterações varia conforme a intensidade do desequilíbrio hormonal e a suscetibilidade individual.

  • Hirsutismo: Caracteriza-se pelo crescimento de pelos terminais — pelos grossos, pigmentados e longos — em áreas do corpo feminino que são tipicamente dependentes de andrógenos. Isso inclui regiões como o rosto (queixo e buço), peito, abdômen superior, costas e glúteos. É importante distinguir o hirsutismo da hipertricose, que é o aumento generalizado de pelos em áreas não dependentes de hormônios masculinos.
  • Acne e seborreia: O excesso de hormônios andrógenos estimula as glândulas sebáceas, resultando em uma produção elevada de sebo. Esse processo obstrui os poros e favorece a proliferação bacteriana, levando ao surgimento de acne persistente, muitas vezes resistente a tratamentos tópicos convencionais. A seborreia, ou oleosidade excessiva do couro cabeludo e da face, frequentemente acompanha esse quadro.
  • Alopecia androgenética: Refere-se à queda de cabelo com padrão de raleamento, especialmente no topo da cabeça (região do vértice), enquanto a linha frontal costuma ser preservada inicialmente. Os andrógenos promovem a miniaturização dos folículos capilares, fazendo com que os fios nasçam cada vez mais finos e curtos até que cessem o crescimento.
  • Alterações menstruais: O desequilíbrio hormonal interfere no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, resultando em ciclos irregulares (oligomenorreia) ou na ausência completa de menstruação (amenorreia). Essas alterações são frequentemente acompanhadas de anovulação, o que pode dificultar a concepção natural.

Abaixo, apresenta-se a ferramenta clínica utilizada por profissionais de saúde para quantificar o impacto do hirsutismo.

Escala de ferriman-gallwey para graduação do hirsutismo Descrição da pontuação
Pontuação por área corporal Avalia 9 áreas (lábio superior, queixo, peito, abdome superior, abdome inferior, braços, coxas, dorso superior, dorso inferior).
Graduação de 0 a 4 0 indica ausência de pelos terminais e 4 indica crescimento intenso.
Interpretação do resultado No Brasil, um escore total maior ou igual a 4 a 6 costuma ser indicativo de hirsutismo clínico.

Causas comuns do aumento de andrógenos

O diagnóstico etiológico é uma etapa essencial, pois o tratamento depende diretamente da origem da produção hormonal excessiva.

Síndrome dos ovários policísticos (sop)

A SOP é uma disfunção endócrina complexa e a causa mais frequente de hiperandrogenismo. Ela é diagnosticada com base nos Critérios de Rotterdam, que exigem a presença de pelo menos dois dos três sinais: evidência clínica ou bioquímica de excesso de andrógenos, disfunção ovulatória e morfologia ovariana policística identificada via ultrassonografia. Além das questões reprodutivas, a SOP está intimamente ligada a distúrbios metabólicos.

Hiperplasia adrenal congênita (forma não clássica)

Diferente da forma clássica, que se manifesta na infância, a forma não clássica da hiperplasia adrenal congênita (HACNC) surge geralmente na adolescência ou idade adulta. Trata-se de uma condição genética que gera uma deficiência parcial da enzima 21-hidroxilase. Como consequência, as glândulas suprarrenais acumulam precursores que são desviados para a produção de andrógenos, mimetizando os sintomas da SOP.

Hiperandrogenismo na menopausa

Durante o climatério e após a menopausa, ocorre uma queda drástica na produção de estrogênio pelos ovários. Entretanto, os ovários e as glândulas suprarrenais continuam a produzir pequenas quantidades de andrógenos. Essa alteração na proporção hormonal pode resultar em sintomas como o surgimento de pelos faciais e o raleamento capilar em mulheres que anteriormente não apresentavam essas queixas.

Obesidade e resistência insulínica

O tecido adiposo não é apenas um reservatório de energia, mas um órgão endócrino ativo. A obesidade, especialmente a gordura visceral, está associada à resistência à insulina. Níveis elevados de insulina no sangue (hiperinsulinemia) estimulam as células teca dos ovários a produzirem mais testosterona e reduzem a produção hepática da globulina transportadora de hormônios sexuais (SHBG). Com menos SHBG disponível, há mais testosterona livre circulando no sangue para agir nos tecidos.

Tumores ovarianos ou adrenais

Embora representem uma causa rara, os tumores produtores de andrógenos são condições graves. Eles devem ser suspeitados quando os sintomas de virilização (como voz grave, aumento do clitóris e ganho de massa muscular) surgem de forma rápida, abrupta e progressiva, associados a níveis sanguíneos de testosterona extremamente elevados.

Uso de anabolizantes e medicamentos

O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou aumento de performance esportiva é uma causa exógena de hiperandrogenismo. Além disso, certos medicamentos, como alguns progestagênios de gerações mais antigas utilizados em anticoncepcionais ou tratamentos de reposição hormonal, podem possuir atividade androgênica intrseca, contribuindo para o aparecimento de acne e pelos.

mulher com excesso de hormônios O hiperandrogenismo é uma condição que vai além das preocupações estéticas, estando profundamente ligada ao equilíbrio endócrino e metabólico.
Cuide da sua saúde com quem entende
Encontre especialistas qualificados e agende sua consulta online.
Agendar online →

Como confirmar o diagnóstico

A investigação diagnóstica do hiperandrogenismo requer uma abordagem sistematizada para excluir causas secundárias e confirmar a fonte do excesso hormonal.

  • Exame clínico: O profissional de saúde realiza uma anamnese detalhada, investigando a velocidade de aparecimento dos sintomas, o histórico familiar e o padrão do ciclo menstrual. O exame físico foca na distribuição de pelos, presença de acne, sinais de acantose nigricans (manchas escuras que indicam resistência insulínica) e sinais de virilização.
  • Exames laboratoriais: As dosagens hormonais devem ser realizadas, preferencialmente, na fase folicular inicial do ciclo menstrual (entre o 2º e o 5º dia). Os principais parâmetros incluem a testosterona total e livre, o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA) e a 17-OH progesterona (para rastreio de HACNC). Avaliações do perfil glicêmico e lipídico também são comuns devido à associação metabólica.
  • Exames de imagem: A ultrassonografia transvaginal é o padrão-ouro para avaliar a morfologia dos ovários, permitindo identificar o número de folículos e o volume ovariano. Em casos de suspeita de tumores, exames de imagem mais complexos, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética das glândulas suprarrenais, podem ser solicitados.
Valores de referência para principais hormônios androgênicos Faixa de referência sugerida (pode variar por laboratório)
Testosterona total 15 a 70 ng/dL
SDHEA (sulfato de deidroepiandrosterona) Variável conforme a idade (ex: 80 a 350 µg/dL)
17-oh progesterona < 200 ng/dL (fase folicular)
SHBG 18 a 114 nmol/L

Opções de tratamento para o hiperandrogenismo

O tratamento é individualizado e foca tanto na causa subjacente quanto no alívio dos sintomas que mais incomodam a paciente. É um processo de médio a longo prazo, uma vez que o ciclo de crescimento dos pelos e do cabelo exige tempo para responder às mudanças hormonais.

  • Contraceptivos orais: As pílulas anticoncepcionais combinadas são frequentemente a primeira linha de tratamento para mulheres que não desejam engravidar. Elas atuam suprimindo a produção ovariana de andrógenos e aumentando os níveis de SHBG, o que reduz a testosterona livre. Preferem-se formulações contendo progestagênios com efeito antiandrogênico, como a ciproterona, a drospirenona ou o dienogeste.
  • Medicamentos antiandrógenos: Quando o uso de anticoncepcionais não é suficiente ou é contraindicado, podem-se utilizar bloqueadores diretos dos receptores de andrógenos. A espironolactona é amplamente utilizada para o controle do hirsutismo e da acne. Outro exemplo é a finasterida, embora seu uso em mulheres em idade fértil exija cautela rigorosa devido ao risco de teratogenicidade.
  • Sensibilizadores de insulina: Em pacientes com SOP e evidência de resistência insulínica ou pré-diabetes, a metformina pode ser recomendada. Este fármaco auxilia na redução dos níveis de insulina, o que indiretamente diminui a produção de testosterona pelos ovários e pode ajudar na restauração da ovulação.
  • Mudanças no estilo de vida: A modificação de hábitos é considerada a base do tratamento, especialmente para pacientes com sobrepeso ou obesidade. Uma dieta com baixo índice glicêmico e a prática regular de exercícios físicos ajudam a reduzir a gordura corporal e a resistência insulínica, melhorando o perfil hormonal de forma natural e sustentável. Além disso, tratamentos estéticos como a depilação a laser ou eletrólise podem ser utilizados como coadjuvantes para tratar os pelos já existentes.

Importância do acompanhamento especializado

O hiperandrogenismo é uma condição que vai além das preocupações estéticas, estando profundamente ligada ao equilíbrio endócrino e metabólico da mulher. O reconhecimento precoce dos sinais e a investigação minuciosa das causas são determinantes para prevenir o desenvolvimento de condições mais graves, como a infertilidade, a síndrome metabólica e o sofrimento psicológico decorrente das alterações na autoimagem.

A busca por auxílio profissional é o passo mais seguro para o manejo adequado. Recomenda-se a consulta com um médico especialista, como o endocrinologista ou o ginecologista, para realizar uma avaliação clínica individualizada. Estes profissionais podem oferecer um plano terapêutico responsável, baseado em evidências científicas, garantindo que o tratamento seja eficaz e seguro para a saúde a longo prazo.

Referências

  1. Mizuno T, et al. Diagnosis and management of hyperandrogenism. PubMed. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36409990/

Consulte um endocrinologista: por cidade ou diretamente online


A publicação do presente conteúdo no site da Doctoralia é feita sob autorização expressa do autor. Todo o conteúdo do site está devidamente protegido pela legislação de propriedade intelectual e industrial.

O site da Doctoralia Internet S.L. não substitui uma consulta com um especialista. O conteúdo desta página, bem como os textos, gráficos, imagens e outros materiais foram criados apenas para fins informativos e não substituem diagnósticos ou tratamentos de saúde. Em caso de dúvida sobre um problema de saúde, consulte um especialista.

Doctoralia Brasil Serviços Online e Software Ltda Rua Visconde do Rio Branco, 1488 - 2º andar - Batel 80420-210 Curitiba (Paraná), Brasil

www.doctoralia.com.br © 2025 - Agende agora sua consulta

Este site usa cookies
Continue navegando se concorda com nossa política de cookies.