Artigos 24 agosto 2026

Lente escleral: solução para ceratocone e olho seco

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia
Principais pontos deste artigo
  • As lentes esclerais apoiam-se na parte branca do olho, garantindo conforto superior para quem possui córneas sensíveis ou irregulares.
  • A lente corrige o ceratocone e ectasias ao criar uma nova superfície óptica através de um reservatório de fluido que mascara deformidades.
  • O reservatório de soro mantém a córnea hidratada continuamente, sendo um tratamento eficaz para casos graves de síndrome do olho seco.
  • A adaptação é personalizada via exames de alta tecnologia para garantir que a lente não toque a córnea e preserve a oxigenação ocular.
  • A manutenção exige higiene rigorosa com produtos específicos e acompanhamento médico periódico para garantir a durabilidade e segurança.

A oftalmologia moderna tem avançado significativamente no desenvolvimento de dispositivos que visam não apenas a correção da visão, mas também a melhora da qualidade de vida de indivíduos com patologias corneanas graves. Entre essas inovações, a lente escleral destaca-se como uma ferramenta de alta tecnologia para a reabilitação visual. Diferente das lentes de contato convencionais, este modelo oferece uma abordagem distinta para lidar com irregularidades na superfície do olho, proporcionando conforto e clareza em casos onde outros métodos falham.

O entendimento sobre o funcionamento e as indicações deste dispositivo é fundamental para pacientes que sofrem de condições como o ceratocone ou a síndrome do olho seco severo. Este artigo detalha os aspectos técnicos, os benefícios clínicos e o processo de adaptação dessas lentes, fundamentando-se em práticas reconhecidas pela comunidade médica e em padrões internacionais de saúde ocular.

O que é a lente escleral?

A lente escleral é uma modalidade de lente de contato de grande diâmetro, fabricada com materiais rígidos gás-permeáveis (RGP). Sua característica mais distintiva é o seu ponto de apoio: ao contrário das lentes rígidas comuns que se apoiam diretamente sobre a córnea, a lente escleral repousa sobre a esclera, que é a parte branca e menos sensível do olho.

Devido ao seu tamanho ampliado, que geralmente varia entre 14 e 20 milímetros, a lente é desenhada para projetar-se sobre a córnea sem tocá-la. Esse espaço entre a superfície posterior da lente e a parte anterior da córnea é preenchido por um reservatório de fluido (geralmente soro fisiológico estéril). Este reservatório desempenha duas funções primordiais:

  1. Atua como uma superfície óptica líquida que neutraliza as irregularidades corneanas.
  2. Mantém a córnea constantemente hidratada, o que é um benefício terapêutico para superfícies oculares comprometidas.

Os materiais utilizados na fabricação dessas lentes possuem alta permeabilidade ao oxigênio (Dk), garantindo que, mesmo com um diâmetro maior, a fisiologia ocular seja respeitada e o tecido corneano receba a oxigenação necessária para manter sua transparência e saúde.

Como a lente escleral funciona

O princípio de funcionamento da lente escleral baseia-se na criação de uma nova superfície óptica. Em olhos com irregularidades, como astigmatismos elevados ou ectasias, a luz que entra no globo ocular é desviada de forma desordenada pela córnea deformada, resultando em uma visão borrada que muitas vezes não pode ser corrigida satisfatoriamente com óculos.

Ao aplicar a lente escleral, o reservatório de fluido preenche as depressões e “mascara” as elevações da córnea. A luz, então, passa primeiro pela superfície frontal perfeita da lente rígida e depois pelo líquido, que possui um índice de refração semelhante ao do tecido ocular. Esse sistema elimina as distorções causadas pela geometria irregular do olho.

Além disso, a estabilidade é um fator determinante. Como a lente se apoia na esclera e fica posicionada sob as pálpebras, ela não se desloca com o piscar dos olhos, garantindo uma visão estável ao longo de todo o dia. O fato de não haver contato mecânico com a córnea, que é uma das áreas mais inervadas e sensíveis do corpo humano, explica por que muitos pacientes relatam um conforto superior em comparação com as lentes rígidas corneanas.

Indicações principais para o uso

O uso de lentes esclerais é indicado principalmente quando a visão não pode ser corrigida de forma adequada com óculos ou lentes de contato gelatinosas, ou quando a saúde da superfície ocular está em risco. As principais condições clínicas incluem:

  • Ceratocone avançado: Doença progressiva que causa o afinamento e a protrusão da córnea em formato de cone. A lente escleral é frequentemente a melhor opção antes de se considerar intervenções cirúrgicas como o transplante.
  • Degeneração marginal pelúcida: Uma forma de ectasia corneana que gera astigmatismo irregular acentuado.
  • Olho seco severo: Condições como a Síndrome de Sjögren ou a doença enxerto-contra-hospedeiro (GVHD), onde a produção de lágrimas é insuficiente para proteger o olho. O reservatório de soro sob a lente atua como um curativo líquido contínuo.
  • Pós-operatórios complexos: Pacientes submetidos a transplantes de córnea ou cirurgias refrativas que resultaram em irregularidades cicatriciais podem encontrar na lente escleral a única forma de atingir uma boa acuidade visual.
  • Cicatrizes e queimaduras químicas: Lesões que deixam a superfície ocular irregular e extremamente sensível.

Diferenças entre lentes esclerais e lentes de contato rígidas comuns

É comum haver confusão entre as lentes rígidas tradicionais (corneanas) e as esclerais. No entanto, a experiência de uso e os resultados clínicos são distintos.

Característica
Lente corneal (rígida comum)
Lente escleral
Diâmetro
Pequeno (8-10mm)
Grande (14-20mm)
Ponto de apoio
Córnea (nervos sensíveis)
Esclera (menos sensível)
Estabilidade
Pode se deslocar facilmente
Alta estabilidade e centralização
Conforto inicial
Geralmente baixo (adaptação lenta)
Alto (semelhante a lentes gelatinosas)
Reservatório de fluido
Mínimo
Constante (ideal para olho seco)

Enquanto as lentes corneanas dependem da tensão superficial da lágrima sobre a córnea para se manterem no lugar, as esclerais utilizam sua base de apoio na conjuntiva sobrejacente à esclera. Isso elimina a sensação de “corpo estranho” que muitos usuários de lentes rígidas pequenas relatam ao piscar.

jovem mulher colocando lente de contato no olho em fundo cinza close-up
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Vantagens da lente escleral para o paciente

Os benefícios práticos do uso deste dispositivo estendem-se além da simples melhora visual. Observa-se um impacto positivo em diversos aspectos da vida cotidiana:

  1. Qualidade visual superior: A correção de aberrações ópticas de alta ordem reduz fenômenos como halos ao redor das luzes e sombras na visão noturna.
  2. Proteção ocular: A lente atua como um escudo físico, protegendo a córnea contra traumas externos e contra o atrito constante das pálpebras em casos de ceratoconjuntivite.
  3. Redução da irritação: Para pacientes com doenças da superfície ocular, a manutenção de um ambiente úmido reduz a dor, a vermelhidão e a sensação de areia nos olhos.
  4. Estabilidade em atividades físicas: Devido ao seu tamanho e encaixe, a lente raramente cai do olho, permitindo que o indivíduo realize atividades esportivas com maior segurança em comparação com as lentes rígidas convencionais.

O processo de adaptação e testes

A adaptação de lentes esclerais é um procedimento especializado que exige tecnologia de ponta e expertise clínica. Não se trata de uma prescrição comum de lentes; é um processo de personalização geométrica.

O médico oftalmologista inicia o processo com um mapeamento detalhado da curvatura ocular, utilizando exames como a topografia corneana ou a tomografia de segmento anterior (OCT). Esses exames permitem entender a elevação da córnea e a forma da esclera.

Após a análise inicial, são realizados testes com lentes de prova. O profissional aplica a lente com um corante especial (fluoresceína) para avaliar, por meio de uma lâmpada de fenda, a distância entre a lente e a córnea. O ajuste ideal deve garantir que a lente não toque o ápice corneano em nenhum momento, mas que também não fique excessivamente alta, o que dificultaria a oxigenação. Cada parâmetro, como a curva base, o vault (folga central) e as zonas periféricas, é ajustado individualmente até que o desenho perfeito seja alcançado para aquele olho específico.

Como colocar e retirar a lente escleral

O manuseio das lentes esclerais difere substancialmente das lentes gelatinosas. Devido ao reservatório de fluido, a lente deve ser aplicada em uma posição horizontal para evitar que o líquido escape.

Para colocar a lente:

  1. Higienizar rigorosamente as mãos.
  2. Colocar a lente sobre uma ventosa específica ou equilibrá-la entre três dedos (formando um tripé).
  3. Preencher completamente a concavidade da lente com soro fisiológico estéril e sem conservantes. É fundamental que não haja conservantes para evitar toxicidade ocular durante o uso prolongado.
  4. Com o queixo encostado no peito e olhando diretamente para baixo, o paciente deve abrir bem as pálpebras e levar a lente ao olho até sentir o contato com o fluido e a esclera.
  5. Verificar se não há bolhas de ar presas sob a lente. Caso existam bolhas, a lente deve ser removida e reaplicada, pois as bolhas pode causar desconforto e comprometer a visão.

Para retirar a lente:

  1. Utilizar uma ventosa de remoção, geralmente menor que a de aplicação.
  2. Umedecer a ponta da ventosa com soro.
  3. Fixar a ventosa na parte inferior da lente e fazer um leve movimento de alavanca para quebrar o vácuo e permitir a entrada de ar, facilitando a retirada segura.

Rotina de cuidados e higienização

A manutenção da integridade da lente e a saúde do olho dependem de uma rotina de higiene impecável. O uso inadequado pode levar a complicações como a ceratite microbiana ou o edema corneano.

  • Produtos recomendados: Devem ser utilizados sistemas de limpeza específicos para lentes rígidas, como soluções multipropósito ou sistemas de peróxido de hidrogênio. Nunca se deve utilizar água da torneira ou saliva para limpar as lentes.
  • Limpeza enzimática: Periodicamente, pode ser recomendada a remoção de depósitos de proteínas e lipídios que se acumulam no material da lente.
  • Tempo de uso: Geralmente, recomenda-se o uso por um período de 12 a 14 horas diárias. É essencial remover as lentes antes de dormir para prevenir a hipóxia severa e permitir que a córnea receba a oxigenação necessária, proveniente principalmente dos vasos sanguíneos da conjuntiva palpebral enquanto as pálpebras estão fechadas.
  • Troca do soro: O soro fisiológico utilizado na aplicação deve ser descartado após a abertura conforme as orientações do fabricante ou do médico, preferindo-se sempre as apresentações em doses únicas (flaconetes).

Durabilidade e manutenção

A lente escleral é um investimento em saúde de médio a longo prazo. O material rígido é bastante resistente, mas não é eterno. Em média, a vida útil de uma lente escleral de boa qualidade varia entre 1 e 2 anos.

Com o tempo, o material pode sofrer microfissuras ou acumular depósitos que não são mais removidos pela limpeza comum, o que prejudica a permeabilidade ao oxigênio e a qualidade da visão. Além disso, a fisiologia ocular do paciente pode mudar, exigindo ajustes nos parâmetros da lente. Por esse motivo, consultas de acompanhamento a cada seis meses são essenciais para verificar se o ajuste continua adequado e se a saúde ocular permanece preservada.

Fatores que influenciam o investimento em lentes esclerais

O custo de aquisição e adaptação dessas lentes reflete a complexidade da tecnologia envolvida. Vários fatores determinam o valor final do tratamento:

  • Complexidade do caso: Olhos com deformidades extremas exigem mais horas de consultório e múltiplos testes.
  • Tecnologia do material: Lentes com tratamentos de superfície específicos (como o tratamento de plasma) para aumentar a hidratação tendem a ter custos de fabricação mais elevados.
  • Equipamentos de diagnóstico: A necessidade de exames de alta precisão para o mapeamento ocular está incluída no processo de adaptação profissional.
  • Personalização: Diferente de lentes produzidas em massa, cada lente escleral é fabricada sob encomenda em tornos computadorizados de alta precisão para atender às medidas exclusivas do paciente.

É fundamental que o paciente compreenda que o investimento engloba não apenas o dispositivo físico, mas todo o acompanhamento médico necessário para garantir que o uso seja seguro e eficaz.

Acesso ao tratamento pelo sistema público de saúde

O acesso a tecnologias de alta complexidade como a lente escleral pelo sistema público de saúde no Brasil apresenta limitações significativas, uma vez que o dispositivo ainda não foi incorporado pela CONITEC para distribuição universal e rotineira no SUS.

Embora o ceratocone seja reconhecido em protocolos de reabilitação visual, o caminho para o tratamento enfrenta barreiras práticas:

  1. Consulta inicial em uma unidade de atenção primária ou serviço de triagem.
  2. Encaminhamento para um serviço de oftalmologia especializado ou centro de referência.
  3. Avaliação por um especialista em lentes de contato que verificará os critérios técnicos para a indicação.
  4. Tentativa de obtenção do dispositivo, que na rede pública é dificultada pela defasagem da tabela SIGTAP — cujo valor de reembolso para lentes de contato é insuficiente para cobrir o custo de produção das lentes esclerais — restringindo o acesso majoritariamente a centros universitários específicos ou via judicialização.

A disponibilidade varia drasticamente entre regiões e, apesar de existirem mecanismos legais para garantir o acesso em casos de risco de perda funcional da visão, o fornecimento de lentes esclerais não é um processo administrativo padronizado ou de fácil acesso na rede assistencial convencional.

Considerações sobre a saúde visual e acompanhamento especializado

O desenvolvimento das lentes esclerais representa um marco na medicina ocular, permitindo que indivíduos que antes tinham poucas perspectivas visuais possam retomar suas atividades profissionais e sociais com plenitude. A eficácia desse tratamento depende diretamente da precisão na adaptação e do comprometimento do usuário com as normas de higiene e manutenção.

A decisão de iniciar o uso deste dispositivo deve ser tomada em conjunto com um profissional qualificado. Recomenda-se buscar suporte especializado caso o impacto da limitação visual esteja afetando o bem-estar emocional, e, essencialmente, consultar um médico oftalmologista especialista em lentes de contato para realizar uma avaliação clínica completa. Somente um diagnóstico profissional pode determinar o modelo mais adequado para cada necessidade individual, garantindo a segurança ocular e os melhores resultados a longo prazo.

Referências

  1. Van der Worp E. Um Guia para Adaptação de Lentes Esclerais. Repositório Comum da Universidade do Pacífico. 2015.
  2. Schornack MM, Patel SV. Lentes esclerais no tratamento de irregularidades da córnea e doenças da superfície ocular. Ophthalmology. 2010.

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