Artigos 12 maio 2026

SOP e Hiperandrogenismo: como esses fatores afetam a ovulação e a fertilidade

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

O hiperandrogenismo é uma condição endócrina caracterizada pelo excesso de hormônios femininos andrógenos no organismo feminino, sendo essencial compreender como a relação entre hormônios e fertilidade envolve desequilíbrios em homens e mulheres. Embora esses hormônios, como a testosterona, a androstenediona e o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), sejam comumente associados ao sistema reprodutor masculino, eles desempenham funções biológicas essenciais nas mulheres, incluindo a manutenção da massa óssea, o desejo sexual e a saúde metabólica. No entanto, quando os níveis circulantes ultrapassam os limites fisiológicos ou quando há uma sensibilidade aumentada dos tecidos a essas substâncias, surgem manifestações clínicas que afetam tanto a estética quanto a saúde reprodutiva e sistêmica.

Esta condição não é uma doença isolada, mas sim um espectro clínico que pode derivar de diversas etiologias, desde disfunções ovarianas e adrenais até fatores exógenos. O reconhecimento precoce é fundamental para evitar complicações a longo prazo, como distúrbios metabólicos, infertilidade e impactos significativos na qualidade de vida e na saúde emocional das pacientes.

O que é o hiperandrogenismo

O hiperandrogenismo define-se pela presença de sinais clínicos de excesso de andrógenos ou pela comprovação laboratorial de níveis elevados desses hormônios no sangue, estado este conhecido como hiperandrogenemia. Biologicamente, o excesso de andrógenos interfere no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, o que pode resultar em falhas na ovulação e alterações no ciclo menstrual.

Nas mulheres, os andrógenos são produzidos em partes aproximadamente iguais pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais (adrenais), além da conversão periférica que ocorre no tecido adiposo e na pele. Quando ocorre um desequilíbrio em qualquer uma dessas vias de produção ou na regulação das proteínas transportadoras, como a globulina fixadora de hormônios sexuais (SHBG), a fração livre do hormônio — que é a forma biologicamente ativa — aumenta, desencadeando os sintomas característicos da condição.

Principais sintomas e manifestações clínicas

As manifestações do hiperandrogenismo variam amplamente entre as pacientes, dependendo da gravidade da elevação hormonal e da predisposição genética dos tecidos-alvo. Os sinais físicos resultam da exposição prolongada da unidade pilossebácea e de outros órgãos a altos níveis de andrógenos. As manifestações podem ser divididas em cutâneas, reprodutivas e metabólicas.

Hirsutismo e alterações capilares

O hirsutismo é a manifestação clínica mais comum do hiperandrogenismo, afetando entre 5% a 10% das mulheres em idade fértil. Caracteriza-se pelo crescimento excessivo de pelos terminais (pelos grossos e escuros) em áreas que são tipicamente dependentes de andrógenos no sexo masculino, como o lábio superior, queixo, tórax, abdômen e costas. Diferencia-se da hipertricose, que é o aumento global de pelos não relacionado aos hormônios sexuais.

Além do hirsutismo, a alopecia androgenética é uma queixa frequente. Neste quadro, ocorre a miniaturização dos folículos capilares no couro cabeludo, levando ao afinamento dos fios e à perda de densidade capilar, geralmente preservando a linha frontal do cabelo, mas tornando o topo da cabeça mais visível.

Para quantificar a gravidade do hirsutismo, a ferramenta clínica mais utilizada é a escala de Ferriman-Gallwey modificada, conforme detalhado na tabela abaixo:

Área do corpo
Descrição da pontuação (1 a 4)
Lábio superior
Presença de poucos pelos nas extremidades até bigode completo.
Queixo
Pelos isolados até cobertura densa de toda a área.
Tórax
Pelos periareolares até cobertura completa do esterno.
Abdômen superior
Poucos pelos na linha média até cobertura total da região.
Abdômen inferior
Poucos pelos na linha alba até crescimento em forma de triângulo invertido.
Braços
Pelos esparsos na face interna até cobertura total.
Coxas
Crescimento leve até pelos grossos em toda a extensão.
Costas (superior)
Pelos isolados até cobertura densa.
Costas (inferior)
Pelos na região sacral até extensão para as laterais.

Nota: Uma pontuação total igual ou superior a 8 é geralmente considerada indicativa de hirsutismo clínico em populações ocidentais.

Acne e oleosidade da pele

A pele é um órgão altamente sensível aos hormônios esteroides. Os andrógenos estimulam as glândulas sebáceas a produzirem mais sebo, resultando em seborreia (oleosidade excessiva) e criando um ambiente propício para a proliferação da bactéria Cutibacterium acnes.

A acne relacionada ao hiperandrogenismo costuma ser persistente, frequentemente localizada no terço inferior do rosto (mandíbula e pescoço), e pode ser resistente aos tratamentos dermatológicos convencionais tópicos. Quadros de acne inflamatória grave ou que surgem subitamente na idade adulta são fortes indicadores de uma possível desordem hormonal subjacente.

Irregularidade menstrual e infertilidade

O excesso de andrógenos exerce um efeito inibitório sobre o desenvolvimento dos folículos ovarianos. Isso leva à anovulação crônica, que se manifesta clinicamente como oligomenorreia (ciclos menstruais muito longos, com intervalos superiores a 35 dias) ou amenorreia (ausência completa de menstruação).

A dificuldade de concepção é uma consequência direta da falta de ovulação regular, que pode estar relacionada a quadros de progesterona baixa ou à necessidade de hormônios para engravidar. Além disso, o ambiente hormonal desequilibrado pode afetar a qualidade dos oócitos, tornando o hiperandrogenismo uma das causas mais prevalentes de infertilidade hormonal feminina tratável.

mulher com ovulação afetada
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Causas do hiperandrogenismo

A identificação da causa base é o passo fundamental para o manejo adequado. As origens podem ser funcionais, genéticas ou tumorais.

Síndrome dos ovários policísticos (SOP)

A Síndrome dos ovários policísticos é a causa predominante, sendo responsável por aproximadamente 70% a 80% dos casos de hiperandrogenismo. Trata-se de uma disfunção complexa que envolve fatores genéticos e ambientais. Além do excesso de andrógenos, a SOP é frequentemente acompanhada por morfologia ovariana policística à ultrassonografia e distúrbios metabólicos.

Hiperplasia adrenal congênita (forma não clássica)

A hiperplasia adrenal congênita não clássica (HAC-NC) é uma condição genética autossômica recessiva decorrente da deficiência parcial da enzima 21-hidroxilase. Essa deficiência impede a síntese adequada de cortisol, desviando os precursores hormonais para a via de produção de andrógenos. Embora os sintomas possam ser idênticos aos da SOP, o diagnóstico diferencial é relevante para o aconselhamento genético e para abordagens terapêuticas específicas.

Obesidade e resistência insulínica

A relação entre o metabolismo da insulina e os andrógenos é bidirecional. A resistência insulínica leva à hiperinsulinemia compensatória; o excesso de insulina no sangue atua diretamente nos ovários, potencializando a produção de testosterona. Simultaneamente, a insulina elevada inibe a produção hepática de SHBG, aumentando a disponibilidade de testosterona livre nos tecidos. No cenário brasileiro, a prevalência de SOP e sinais androgênicos é significativamente maior em pacientes com Obesidade ou Índice de Massa Corporal (IMC) elevado.

Tumores ovarianos ou adrenais

Embora raros (menos de 1% dos casos), os tumores produtores de andrógenos são condições graves que exigem detecção imediata. Eles se caracterizam por um início abrupto dos sintomas e uma progressão rápida de virilização, que inclui clitoromegalia (aumento do clitóris), engrossamento da voz e desenvolvimento de massa muscular acentuada. Níveis de testosterona total muito elevados (geralmente acima de 200 ng/dL) levantam a suspeita diagnóstica para essas neoplasias.

Uso de medicamentos e esteroides anabolizantes

O hiperandrogenismo iatrogênico ocorre devido ao uso de substâncias com propriedades androgênicas (exógeno) ou que estimulam a produção hormonal endógena. Isso inclui o uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance, além de certos medicamentos como danazol, o ácido valproico (que atua estimulando a síntese de androgênios pelo próprio organismo) e alguns progestagênios de gerações mais antigas presentes em anticoncepcionais ou terapias de reposição hormonal.

Hiperandrogenismo em fases específicas da vida

A apresentação clínica pode mudar conforme a idade da paciente:

  • Puberdade: Pode manifestar-se como puberdade precoce, acne grave de início precoce ou irregularidade menstrual persistente após dois anos da menarca.
  • Vida adulta: Os principais focos são a infertilidade, o hirsutismo e o manejo de riscos metabólicos.
  • Pós-menopausa: Com a queda do estrogênio, os efeitos dos andrógenos (que podem continuar sendo produzidos pelas adrenais e pelo estroma ovariano) tornam-se mais evidentes, podendo causar aumento de pelos faciais e queda de cabelo.

Diagnóstico e avaliação laboratorial

O diagnóstico é baseado na tríade: história clínica detalhada, exame físico (avaliação de pele e escala de pelos) e exames de sangue complementares. É essencial excluir outras patologias que mimetizam o quadro, como disfunções da tireoide e hiperprolactinemia.

Exames de sangue

A avaliação bioquímica deve ser realizada preferencialmente na fase folicular precoce do ciclo menstrual (entre o 2º e o 5º dia após o início da menstruação) e em pacientes que não estejam utilizando contraceptivos hormonais.

Marcador hormonal
Importância clínica
Testosterona total
Avalia a produção global de testosterona pelos ovários e adrenais.
Testosterona livre
Fração ativa do hormônio; é mais sensível para detectar hiperandrogenismo.
SHBG
Proteína que transporta o hormônio; níveis baixos indicam maior testosterona livre.
SDHEA
Principal marcador de origem adrenal.
Androstenediona
Precursor comum produzido tanto pelo ovário quanto pela adrenal.
17-OH Progesterona
Utilizado para rastrear a hiperplasia adrenal congênita.

Exames de imagem

A ultrassonografia transvaginal é o padrão-ouro para avaliar a morfologia dos ovários, buscando a presença de múltiplos pequenos folículos (aspecto policístico). Em casos de suspeita de tumores ou patologias adrenais, a tomografia computadorizada ou a ressonância magnética das glândulas suprarrenais podem ser solicitadas para uma avaliação anatômica detalhada.

Como é feito o tratamento

O tratamento do hiperandrogenismo é individualizado e focado nos objetivos da paciente, seja o controle dos sintomas dermatológicos, a regularização do ciclo menstrual ou o tratamento da infertilidade.

Mudanças no estilo de vida

Para pacientes com sobrepeso ou obesidade, a perda de peso é considerada a intervenção de primeira linha. A redução de apenas 5% a 10% do peso corporal pode reduzir significativamente os níveis de insulina, aumentar a SHBG e restaurar a ovulação espontânea. Uma dieta com baixo índice glicêmico e a prática regular de exercícios físicos são componentes fundamentais para melhorar a sensibilidade à insulina.

Tratamento medicamentoso

As opções farmacológicas incluem:

  • Anticoncepcionais orais combinados: São frequentemente o tratamento de escolha para mulheres que não desejam engravidar. Eles suprimem a produção ovariana de andrógenos e aumentam a SHBG.
  • Antiandrógenos: Medicamentos como a espironolactona, a finasterida ou o acetato de ciproterona bloqueiam a ação dos andrógenos nos receptores dos tecidos. Geralmente, levam de 6 a 9 meses para mostrar resultados significativos no crescimento dos pelos.
  • Sensibilizadores de insulina: A metformina pode ser utilizada, especialmente em pacientes com resistência insulínica comprovada ou intolerância à glicose, auxiliando no controle metabólico.

Procedimentos estéticos auxiliares

Enquanto o tratamento hormonal atua na causa interna, procedimentos como a depilação a laser ou a luz pulsada são úteis para remover os pelos já existentes. É importante ressaltar que esses procedimentos são mais eficazes quando o ambiente hormonal já está sendo estabilizado por medicamentos, caso contrário, novos pelos podem continuar surgindo.

Perspectivas e acompanhamento clínico

O manejo do hiperandrogenismo exige uma visão de longo prazo, pois a condição está intrinsecamente ligada ao perfil metabólico da paciente. O acompanhamento regular é indispensável para monitorar e prevenir o desenvolvimento de resistência insulínica, diabetes tipo 2, dislipidemia e hipertensão arterial.

A abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo o suporte de profissionais de saúde, como endocrinologistas ou ginecologistas, para garantir um plano terapêutico seguro e eficaz que promova o equilíbrio hormonal e o bem-estar sistêmico.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hiperandrogenismo e pele.
  2. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Posicionamento sobre Síndrome dos Ovários Policísticos.
  3. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Protocolos de Ginecologia: Hiperandrogenismo.
  4. National Center for Biotechnology Information (NCBI). Diagnosis and Management of Hyperandrogenism.

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