Perguntas do paciente (9)

  • Podemos Mudar Nossa Personalidade? .

    Podemos Mudar Nossa Personalidade? .

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, entendemos "personalidade" como o modo relativamente estável com que cada sujeito se estrutura psíquica e afetivamente diante de si, dos outros e do desejo. Esse modo é formado a partir das primeiras experiências de vida — especialmente nas relações com os pais e cuidadores —, e se consolida por meio de identificações inconscientes, mecanismos de defesa e fixações pulsionais.

    Do ponto de vista clínico, não falamos em “mudar completamente” a personalidade, mas em transformar a forma como o sujeito lida com suas repetições, angústias e sintomas. Isso significa que certos padrões podem ser flexibilizados ou ressignificados ao longo do processo analítico — como formas rígidas de se relacionar, de reagir emocionalmente ou de se posicionar diante de conflitos.

    A estrutura psíquica (neurose, psicose ou perversão), conforme compreendida na psicanálise, não se altera. Porém, o sujeito pode reorganizar sua relação com o inconsciente, com o desejo e com os outros, tornando-se menos refém de repetições inconscientes que o fazem sofrer.

    Assim, sim: há possibilidade de mudança — mas ela não se dá por força de vontade ou esforço racional. A mudança psicanalítica é um processo profundo, que passa pelo reconhecimento de si, pela escuta do inconsciente e pela elaboração simbólica do sofrimento.


  • Quais fatores do ambiente que podem afetar a saúde mental das pessoas?

    Quais fatores do ambiente que podem afetar a saúde mental das pessoas?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, compreendemos que o sujeito é formado a partir de sua inserção no laço social — ou seja, ele se constitui a partir do outro. Por isso, fatores ambientais têm um impacto significativo na constituição psíquica e no sofrimento mental.

    Entre os principais fatores do ambiente que podem afetar a saúde mental, destacam-se:

    Relações primárias com cuidadores: Experiências precoces de abandono, negligência, excesso de exigência ou falta de reconhecimento simbólico afetam profundamente a estruturação do psiquismo. Winnicott, por exemplo, enfatiza a importância de um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento emocional saudável.

    Ambientes familiares marcados por violência ou instabilidade emocional: Produzem no sujeito vivências que podem ser inscritas como traumas psíquicos, afetando sua capacidade de simbolizar e de construir relações afetivas estáveis.

    Exigências sociais e culturais excessivas: A lógica de produtividade, desempenho e idealização pode gerar sentimentos de inadequação, culpa e fracasso — especialmente em sujeitos neuróticos, que tendem a se organizar em torno de um Ideal do Eu rígido (Freud).

    Falta de escuta simbólica: Ambientes que não permitem a expressão do desejo, da diferença ou da singularidade do sujeito tendem a silenciar conflitos internos, que podem retornar na forma de sintomas (ansiedade, depressão, compulsões, etc.).

    Eventos coletivos traumáticos (ex: pandemia, guerra, desastres): Podem reativar angústias primitivas ligadas ao desamparo (Hilflosigkeit), como descrito por Freud, e desestabilizar funções psíquicas que estavam relativamente organizadas.

    Do ponto de vista clínico, a psicanálise trabalha para construir um espaço simbólico de escuta onde o sujeito possa nomear seus sofrimentos e ressignificar os efeitos do ambiente sobre sua história.


  • Qual é o impacto da influência parental na saúde mental de uma pessoa ?

    Qual é o impacto da influência parental na saúde mental de uma pessoa ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, compreendemos que a influência parental é fundamental na constituição psíquica do sujeito. Os pais (ou figuras parentais) não afetam apenas o comportamento externo da criança, mas participam diretamente da formação do seu inconsciente, de suas identificações, de suas defesas e da maneira como ela lida com o desejo, o amor e a falta.

    Alguns aspectos importantes dessa influência incluem:

    Identificações primárias: Desde os primeiros anos de vida, o sujeito se constitui por identificações inconscientes com os pais. Essas identificações ajudam a formar instâncias como o Ego, o Superego e o Ideal do Eu (Freud). Pais muito críticos, ausentes, invasivos ou idealizados podem estruturar formas de sofrimento psíquico que se repetem na vida adulta.

    Função simbólica do pai e da mãe: A presença (ou ausência) da função paterna — entendida como função simbólica que marca o limite e separa a criança da fusão com a mãe — é essencial para que o sujeito acesse o campo do desejo, da linguagem e da alteridade (Lacan). Quando essa função falha, podem surgir dificuldades no campo da subjetivação, como angústia de abandono, dependência afetiva ou dificuldades de simbolização.

    Ambiente emocional primário: Winnicott destaca que a saúde mental depende, em grande parte, de um ambiente suficientemente bom nos primeiros cuidados. A falha precoce da mãe (ou cuidador primário) pode gerar um colapso não simbolizado — que, mais tarde, se expressa em sintomas difíceis de nomear, como ansiedades difusas ou sensação de vazio.

    Transmissão transgeracional do trauma: Experiências não elaboradas dos pais (perdas, violências, segredos familiares) podem ser transmitidas aos filhos de forma inconsciente, como cargas afetivas que atravessam gerações, sem que a criança compreenda sua origem (Ferenczi e autores contemporâneos).

    Portanto, a influência parental não é apenas um fator externo: ela está inscrita profundamente na economia psíquica do sujeito. Na clínica psicanalítica, parte importante do processo é justamente revisitar essas marcas, escutá-las, simbolizá-las e, quando possível, deslocar as repetições que causam sofrimento.


  • O que provoca uma crise existencial em uma pessoa adulta ?

    O que provoca uma crise existencial em uma pessoa adulta ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, a angústia que emerge nas chamadas crises existenciais não é vista como um problema a ser eliminado rapidamente, mas como um sinal psíquico importante — um ponto de inflexão que revela o confronto do sujeito com questões fundamentais sobre si mesmo, seu desejo, sua finitude e seu lugar no mundo.

    Essa angústia geralmente surge quando o sujeito se depara com perguntas como:

    Quem sou eu além dos papéis que desempenho?

    O que realmente desejo?

    Qual o sentido da minha existência?

    E se tudo isso for sem sentido?

    Essas perguntas tocam diretamente no que Freud chamou de "inquietações do eu" (Ich-Störungen) e, posteriormente, Lacan nomeou como confronto com a falta estrutural do ser — a constatação de que não há uma resposta completa ou garantida sobre quem somos.

    1. A angústia não tem objeto, mas tem causa

    Na clínica psicanalítica, diferentemente do medo, a angústia não está ligada a um objeto externo claro — ela emerge quando o sujeito se vê frente a algo que desestabiliza sua identidade simbólica. Pode acontecer após perdas, rupturas, mudanças ou até em momentos de silêncio, quando o sujeito se aproxima daquilo que o sustenta, mas não sabe nomear.

    Essa angústia não deve ser silenciada à força — ela pode ser escutada como chamado do desejo, como sinal de que uma mudança psíquica está em curso.

    2. Evitar a fuga pela idealização ou pela anestesia

    É comum que o sujeito tente lidar com a angústia existencial buscando soluções prontas, respostas religiosas, consumismo, hiperatividade ou medicalização excessiva. A psicanálise, ao contrário, propõe um caminho mais profundo: escutar o que essa crise quer dizer sobre o sujeito, em vez de apenas eliminá-la.

    3. A clínica como espaço de simbolização

    O espaço psicanalítico oferece a possibilidade de falar sobre aquilo que angustia, mesmo que ainda não tenha forma definida. Pela associação livre e escuta do inconsciente, o sujeito pode construir sentido para o que antes era vivenciado como um vazio insuportável.

    Ao longo do processo, a angústia pode se transformar em pergunta produtiva, em busca singular, em abertura para escolhas mais autênticas — não como garantia de sentido absoluto, mas como reconexão com o desejo.

    Conclusão clínica:

    A angústia existencial, quando escutada, pode se tornar uma bússola. Ela marca o encontro do sujeito com sua verdade mais íntima, com o limite do saber, com a condição de falta que nos constitui como humanos. A psicanálise não oferece sentido pronto, mas ajuda o sujeito a sustentar a pergunta e a criar, a partir dela, uma existência mais implicada com seu desejo.


  • O que fazer quando a crise existencial bate à porta?

    O que fazer quando a crise existencial bate à porta?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, a angústia que emerge nas chamadas crises existenciais não é vista como um problema a ser eliminado rapidamente, mas como um sinal psíquico importante — um ponto de inflexão que revela o confronto do sujeito com questões fundamentais sobre si mesmo, seu desejo, sua finitude e seu lugar no mundo.

    Essa angústia geralmente surge quando o sujeito se depara com perguntas como:

    Quem sou eu além dos papéis que desempenho?

    O que realmente desejo?

    Qual o sentido da minha existência?

    E se tudo isso for sem sentido?

    Essas perguntas tocam diretamente no que Freud chamou de "inquietações do eu" (Ich-Störungen) e, posteriormente, Lacan nomeou como confronto com a falta estrutural do ser — a constatação de que não há uma resposta completa ou garantida sobre quem somos.

    1. A angústia não tem objeto, mas tem causa

    Na clínica psicanalítica, diferentemente do medo, a angústia não está ligada a um objeto externo claro — ela emerge quando o sujeito se vê frente a algo que desestabiliza sua identidade simbólica. Pode acontecer após perdas, rupturas, mudanças ou até em momentos de silêncio, quando o sujeito se aproxima daquilo que o sustenta, mas não sabe nomear.

    Essa angústia não deve ser silenciada à força — ela pode ser escutada como chamado do desejo, como sinal de que uma mudança psíquica está em curso.

    2. Evitar a fuga pela idealização ou pela anestesia

    É comum que o sujeito tente lidar com a angústia existencial buscando soluções prontas, respostas religiosas, consumismo, hiperatividade ou medicalização excessiva. A psicanálise, ao contrário, propõe um caminho mais profundo: escutar o que essa crise quer dizer sobre o sujeito, em vez de apenas eliminá-la.

    3. A clínica como espaço de simbolização

    O espaço psicanalítico oferece a possibilidade de falar sobre aquilo que angustia, mesmo que ainda não tenha forma definida. Pela associação livre e escuta do inconsciente, o sujeito pode construir sentido para o que antes era vivenciado como um vazio insuportável.

    Ao longo do processo, a angústia pode se transformar em pergunta produtiva, em busca singular, em abertura para escolhas mais autênticas — não como garantia de sentido absoluto, mas como reconexão com o desejo.

    Conclusão clínica:

    A angústia existencial, quando escutada, pode se tornar uma bússola. Ela marca o encontro do sujeito com sua verdade mais íntima, com o limite do saber, com a condição de falta que nos constitui como humanos. A psicanálise não oferece sentido pronto, mas ajuda o sujeito a sustentar a pergunta e a criar, a partir dela, uma existência mais implicada com seu desejo.


  • como lidar com a angústia da crise existencial? .

    como lidar com a angústia da crise existencial? .

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, a angústia que emerge nas chamadas crises existenciais não é vista como um problema a ser eliminado rapidamente, mas como um sinal psíquico importante — um ponto de inflexão que revela o confronto do sujeito com questões fundamentais sobre si mesmo, seu desejo, sua finitude e seu lugar no mundo.

    Essa angústia geralmente surge quando o sujeito se depara com perguntas como:

    Quem sou eu além dos papéis que desempenho?

    O que realmente desejo?

    Qual o sentido da minha existência?

    E se tudo isso for sem sentido?

    Essas perguntas tocam diretamente no que Freud chamou de "inquietações do eu" (Ich-Störungen) e, posteriormente, Lacan nomeou como confronto com a falta estrutural do ser — a constatação de que não há uma resposta completa ou garantida sobre quem somos.

    1. A angústia não tem objeto, mas tem causa

    Na clínica psicanalítica, diferentemente do medo, a angústia não está ligada a um objeto externo claro — ela emerge quando o sujeito se vê frente a algo que desestabiliza sua identidade simbólica. Pode acontecer após perdas, rupturas, mudanças ou até em momentos de silêncio, quando o sujeito se aproxima daquilo que o sustenta, mas não sabe nomear.

    Essa angústia não deve ser silenciada à força — ela pode ser escutada como chamado do desejo, como sinal de que uma mudança psíquica está em curso.

    2. Evitar a fuga pela idealização ou pela anestesia

    É comum que o sujeito tente lidar com a angústia existencial buscando soluções prontas, respostas religiosas, consumismo, hiperatividade ou medicalização excessiva. A psicanálise, ao contrário, propõe um caminho mais profundo: escutar o que essa crise quer dizer sobre o sujeito, em vez de apenas eliminá-la.

    3. A clínica como espaço de simbolização

    O espaço psicanalítico oferece a possibilidade de falar sobre aquilo que angustia, mesmo que ainda não tenha forma definida. Pela associação livre e escuta do inconsciente, o sujeito pode construir sentido para o que antes era vivenciado como um vazio insuportável.

    Ao longo do processo, a angústia pode se transformar em pergunta produtiva, em busca singular, em abertura para escolhas mais autênticas — não como garantia de sentido absoluto, mas como reconexão com o desejo.

    Conclusão clínica:

    A angústia existencial, quando escutada, pode se tornar uma bússola. Ela marca o encontro do sujeito com sua verdade mais íntima, com o limite do saber, com a condição de falta que nos constitui como humanos. A psicanálise não oferece sentido pronto, mas ajuda o sujeito a sustentar a pergunta e a criar, a partir dela, uma existência mais implicada com seu desejo.


  • Quais são as diferenças entre retraimento social normal do patológico?

    Quais são as diferenças entre retraimento social normal do patológico?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, o retraimento social pode ter diferentes significados, a depender da estrutura psíquica e da função que esse comportamento exerce para o sujeito. Nem todo afastamento do convívio social é necessariamente patológico — pode representar um tempo de recolhimento, elaboração psíquica ou preservação subjetiva. No entanto, há sinais que diferenciam o retraimento funcional daquele que aponta para um sofrimento mais profundo.

    1. Retraimento social “normal” ou funcional:

    Tem caráter temporário e contextual: ocorre em momentos de luto, sobrecarga emocional, mudança de fase da vida, cansaço psíquico ou necessidade de introspecção.

    O sujeito mantém desejo de laço e capacidade de retomada relacional após um período de pausa.

    A solidão, nesse caso, pode funcionar como espaço de elaboração simbólica e não gera sofrimento intenso ou prejuízo significativo à vida cotidiana.

    2. Retraimento social patológico:

    Tem caráter crônico, repetitivo ou rígido, muitas vezes desconectado de eventos externos claros.

    Está frequentemente associado a sintomas como angústia intensa, fobia social, depressão, despersonalização ou delírios persecutórios (dependendo da estrutura clínica: neurose, psicose ou estados-limite).

    O isolamento funciona como defesa psíquica contra o desejo do Outro, contra a invasão de angústias intoleráveis ou como proteção frente a experiências traumáticas precoces não simbolizadas.

    Em certos casos, como nos quadros de retraimento melancólico ou de retração esquizóide, o sujeito rompe a possibilidade de troca simbólica com o mundo externo, e a relação com o outro se torna fonte de ameaça ou aniquilação.

    Do ponto de vista clínico, é importante investigar:

    Qual a função psíquica do retraimento para aquele sujeito?

    O que ele está evitando ou tentando sustentar com esse distanciamento?

    Há sofrimento subjetivo envolvido ou o retraimento opera como defesa inconsciente contra algo que não pôde ser simbolizado?

    A psicanálise não busca "reintegrar" o sujeito à vida social a qualquer custo, mas sim compreender o sentido do seu afastamento e criar espaço para que ele possa, em seu tempo, retomar o laço com o outro — não como imposição externa, mas como desejo próprio.


  • Me auto sugestiono e acabo desenvolvendo sintomas físicos. Como sair disso ?

    Me auto sugestiono e acabo desenvolvendo sintomas físicos. Como sair disso ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, compreendemos que sintomas físicos podem ter origem psíquica, especialmente quando o sujeito relata algo como "auto-sugestão". O que muitas vezes é chamado de "sugestão" pode estar relacionado a processos inconscientes de conversão, deslocamento ou formação de sintoma, que expressam conflitos internos não simbolizados.

    Freud mostrou, desde os primeiros estudos sobre a histeria, que o corpo pode funcionar como palco de manifestações inconscientes. Quando emoções, desejos ou angústias não encontram um lugar na palavra, elas podem se converter em sensações físicas — como dores, aperto no peito, tonturas ou alterações funcionais.

    É importante entender que esse processo não é proposital nem controlável pela vontade consciente. O que a pessoa chama de “auto-sugestão” pode ser uma tentativa do psiquismo de representar simbolicamente algo que não foi elaborado mentalmente — o que Freud chamou de retorno do recalcado.

    Como sair disso?

    A saída não é “evitar pensar”, mas sim criar um espaço onde esses pensamentos e angústias possam ser escutados, compreendidos e simbolizados. A psicanálise oferece esse espaço: por meio da fala, da associação livre e da escuta analítica, o sujeito pode reconhecer o que está em jogo por trás do sintoma.

    Ao colocar em palavras o que antes era vivido no corpo, o sintoma pode perder sua função de expressão substitutiva. O alívio não vem da repressão, mas da elaboração.

    Portanto, o caminho não é controlar os pensamentos, mas entender o que eles dizem sobre você — e, com o tempo, abrir mão da necessidade de o corpo falar aquilo que a mente ainda não consegue nomear.


  • Sinto pânico em fazer exames médicos porque isso acontece?

    Sinto pânico em fazer exames médicos porque isso acontece?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. João Nicodemos Martins Mânfio

    Na psicanálise, sintomas como pânico diante de exames médicos são compreendidos não como reações meramente racionais ao procedimento, mas como expressões de angústias inconscientes que são atualizadas nesse contexto.

    Esse tipo de angústia pode estar relacionado a vários fatores psíquicos, entre eles:

    1. Confronto com a finitude e a castração:

    Exames médicos, mesmo quando preventivos, expõem o sujeito à possibilidade de descobrir algo que está fora do seu controle. Isso mobiliza o que Freud chamou de castração psíquica: a percepção de que somos vulneráveis, limitados e mortais. Para muitos, essa percepção é insuportável e se manifesta como pânico.

    2. Angústia antecipatória:

    A mente pode produzir fantasias inconscientes catastróficas diante da possibilidade de um diagnóstico. Isso ativa o que Freud descreve como formações de compromisso, onde o corpo responde com sintomas (taquicardia, falta de ar, sudorese) como forma de expressar um medo que não tem objeto claro, típico do ataque de pânico.

    3. Experiências anteriores mal simbolizadas:

    Se o sujeito já passou por experiências médicas traumáticas ou invasivas, ou se presenciou sofrimento de pessoas próximas em contextos hospitalares, isso pode ter deixado marcas psíquicas não elaboradas. O exame, então, reativa um trauma não simbolizado, retornando na forma de angústia intensa.

    4. Vivência de invasão corporal ou perda de controle:

    Exames clínicos podem ser vivenciados como situações de invasão do corpo — e em sujeitos com história de vulnerabilidade, vergonha ou abusos (inclusive simbólicos), isso pode reencenar vivências anteriores de desamparo (Hilflosigkeit), descritas por Freud como fundantes do trauma psíquico.

    Como a psicanálise pode ajudar?

    A clínica psicanalítica oferece um espaço para escutar e elaborar essas angústias. Em vez de tentar apenas evitar o exame ou racionalizar o medo, o trabalho analítico busca compreender o que esse pânico representa para o sujeito, qual é a fantasia inconsciente associada ao corpo, à doença ou ao saber médico.

    Ao colocar em palavras essas experiências e associações inconscientes, o sintoma pode perder parte de sua intensidade e se tornar mais manejável — o que pode permitir ao sujeito lidar com esses momentos sem paralisia ou sofrimento extremo.


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Perguntas frequentes

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