Perguntas do paciente (7)

  • Tenho fobia social mais vivia normalmente,porém depois de um período em casa,pesquisei muito sobre f

    Tenho fobia social mais vivia normalmente,porém depois de um período em casa,pesquisei muito sobre fobia e outros transtornos de ansiedade agora não consigo sair de casa sozinho,o excesso de pesquisa pode atrapalhar uma ansiedade já presente na nossa mente?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    Sim, pode acontecer. Quando a pessoa já tem ansiedade e começa a pesquisar demais sobre sintomas, transtornos e possíveis causas, ela pode acabar ficando ainda mais atenta ao que sente no corpo e na mente.
    Aí entra num ciclo: sente ansiedade, pesquisa para tentar entender ou se acalmar, encontra novos sintomas, fica mais preocupada, começa a se observar mais e passa a evitar situações que antes conseguia enfrentar. Com o tempo, até sair de casa sozinho pode parecer muito mais difícil do que era antes.
    Então, provavelmente, a pesquisa não “criou” a fobia, mas pode ter aumentado o medo e a insegurança que já existiam. Principalmente se a pesquisa virou uma forma de buscar certeza o tempo todo.
    O mais importante agora não é se culpar por ter pesquisado, mas entender esse processo e, aos poucos, voltar a fazer coisas que foram sendo evitadas. Em terapia, dá para trabalhar tanto o medo quanto essa necessidade de ficar checando, pesquisando e tentando ter certeza de que nada ruim vai acontecer.


  • Estou passando por um casamento muito desgastado emocionalmente e gostaria de uma orientação do pont

    Estou passando por um casamento muito desgastado emocionalmente e gostaria de uma orientação do ponto de vista da psicanálise.

    Estou em um relacionamento em que há muitos conflitos, ofensas e perda de respeito mútuo. As brigas são frequentes e muitas vezes acontecem na frente dos nossos filhos. Já não existe mais convivência afetiva entre nós: não dormimos mais juntos e o carinho praticamente desapareceu.

    Sinto que, ao longo do relacionamento, houve um acúmulo de mágoas e quebra de confiança. Antes do casamento, minha esposa teve comportamentos que me geraram muita insegurança e desconfiança, o que fez com que eu entrasse no casamento já com o respeito e a admiração bastante abalados. Com o tempo, apesar de tentativas de reconstrução, o relacionamento foi se desgastando ainda mais.

    Hoje percebo um ciclo constante de conflito: eu reconheço meus erros e tento assumir responsabilidade pelas minhas atitudes durante as brigas, mas sinto que minha esposa não reconhece a própria participação nos problemas, o que me gera frustração e sensação de impotência. Isso acaba intensificando os conflitos entre nós.

    Também percebo em mim um grande desgaste emocional, sentimentos de baixa autoestima, medo de ficar sozinho e dúvida constante sobre se devo continuar tentando ou me afastar. Ao mesmo tempo, amo muito meus filhos e tenho muito medo de prejudicar a convivência com eles caso haja separação.

    Gostaria de entender, sob uma perspectiva psicanalítica, como esses padrões emocionais e relacionais podem estar se repetindo na minha vida e de que forma um processo terapêutico poderia me ajudar a compreender melhor minhas escolhas, meus vínculos afetivos e minha dificuldade em lidar com essa situação.

    Também gostaria de saber como a psicanálise enxerga situações em que há perda de respeito e repetição de conflitos dentro do casal, e quando isso pode indicar um limite emocional para a continuidade da relação.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    O que você descreve é um quadro de sofrimento importante, e a maneira como você relata a situação mostra que está tentando compreendê-la, não apenas encontrar um culpado. Pela sua formação e interesse em psicanálise, vou responder a partir desse referencial, mas procurando manter os pés na realidade concreta.

    Do ponto de vista psicanalítico, um casamento não se sustenta apenas pelo amor. Ele também depende da preservação de certos pilares: confiança, respeito, possibilidade de diálogo e reconhecimento do outro como sujeito. Quando esses pilares vão sendo corroídos durante anos, o casal frequentemente entra em um funcionamento repetitivo, em que cada conflito atual reabre feridas muito antigas.

    Pela sua descrição, parece haver algo que antecede o próprio casamento: você diz que entrou na relação já com a admiração e o respeito abalados por acontecimentos anteriores. Isso é um ponto importante. Em termos psicanalíticos, pode-se pensar que o vínculo começou sustentado por uma divisão interna: uma parte sua desejava investir nesse amor, enquanto outra nunca conseguiu elaborar completamente a desconfiança. Quando uma ferida narcísica dessa natureza permanece aberta, ela tende a reaparecer repetidamente nas discussões, mesmo que o tema explícito da briga seja outro.

    Outro aspecto que chama atenção é o ciclo que você descreve: você reconhece seus erros e espera que sua esposa faça o mesmo; quando isso não acontece, surge frustração, impotência e novas brigas. A psicanálise diria que, independentemente de quem esteja "certo", cada um ocupa uma posição nesse circuito. Muitas vezes, um parceiro assume a posição daquele que busca reparar continuamente a relação, enquanto o outro pode ocupar uma posição mais defensiva ou menos capaz de reconhecer a própria participação. Não é possível afirmar que seja exatamente esse o caso sem conhecer ambos, mas é um padrão bastante observado na clínica.

    Também me chamou atenção quando você fala do medo de ficar sozinho. A psicanálise costuma olhar para essa questão com bastante cuidado. Às vezes, o sofrimento da separação parece maior do que o sofrimento da convivência, não porque a convivência seja boa, mas porque a ideia da perda desperta angústias muito profundas: abandono, rejeição, fracasso ou desamparo. Isso pode fazer alguém permanecer durante muito tempo em relações que já deixaram de oferecer segurança emocional.

    Ao mesmo tempo, existe outro elemento muito concreto: seus filhos. É compreensível querer preservar a convivência com eles. Porém, a psicanálise também chama atenção para o fato de que as crianças aprendem sobre amor, respeito e resolução de conflitos observando os pais. Crescer em um ambiente de ofensas constantes pode ser bastante difícil para elas. Isso não significa que a separação seja automaticamente a melhor solução; significa apenas que permanecer juntos, por si só, também não garante proteção aos filhos. O modo como os pais convivem costuma ser tão importante quanto a configuração da família.

    Você pergunta quando a perda de respeito pode indicar um limite emocional para a continuidade da relação. A psicanálise não estabelece um critério objetivo do tipo "três brigas significam separação". Em vez disso, ela costuma investigar perguntas como:

    * Ainda existe possibilidade de escutar o outro sem apenas atacar ou se defender?
    * Ainda existe desejo de reconstruir o vínculo de ambos os lados?
    * O sofrimento está produzindo transformação ou apenas repetição?
    * O casal ainda consegue reconhecer alguma humanidade um no outro, ou resta apenas ressentimento?

    Quando o casal passa a existir apenas através do conflito, e o respeito desaparece de forma persistente, muitas vezes a relação deixa de funcionar como espaço de crescimento e passa a funcionar como espaço de repetição do sofrimento.

    Sobre o papel da terapia, penso que ela poderia ajudá-lo em vários níveis. Não necessariamente para decidir entre separar ou permanecer, mas para compreender:

    * por que você permaneceu em uma relação na qual já entrou ferido;
    * o que sustenta o medo intenso da solidão;
    * como sua autoestima ficou tão vinculada ao funcionamento desse casamento;
    * quais expectativas você deposita na mudança da sua esposa;
    * quais aspectos da história dela pertencem a ela e quais pertencem à sua própria história emocional.

    Existe um ponto que considero importante destacar. Você escreve que reconhece seus erros, mas sente que ela não reconhece os dela. Isso pode ser verdade. Porém, a psicanálise convida a deslocar um pouco a pergunta. Em vez de "quando ela vai mudar?", a questão passa a ser: "o que me faz permanecer nessa dinâmica e o que está sob minha responsabilidade transformar?". Essa mudança de foco costuma devolver ao paciente uma sensação de autoria sobre a própria vida.

    Por fim, gostaria de dizer algo que considero essencial. Não posso concluir, a partir do seu relato, que a separação seja o melhor caminho, nem que permanecer seja. Seria precipitado. O que posso dizer é que você descreve uma relação marcada por sofrimento prolongado, perda de respeito, afastamento afetivo e conflitos frequentes diante dos filhos. Esses são sinais de que a situação merece ser levada muito a sério e trabalhada, idealmente em psicoterapia individual e, se ambos estiverem genuinamente dispostos, também em terapia de casal.

    A decisão sobre continuar ou não precisa nascer menos do medo e mais da compreensão de quem você é, do que deseja construir e do que considera um vínculo emocionalmente saudável para você e para seus filhos. Esse tipo de clareza costuma ser uma das maiores contribuições que um processo psicanalítico pode oferecer.


  • “Como se estrutura o manejo clínico do paciente com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) na

    “Como se estrutura o manejo clínico do paciente com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) na perspectiva psicanalítica, e qual a função da escuta analítica em articulação (ou não) com a psiquiatria?”

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    Na perspectiva psicanalítica, o manejo do paciente com Transtorno de Personalidade Borderline costuma exigir uma postura muito cuidadosa, estável e consistente. Não se trata apenas de “interpretar o inconsciente”, mas de oferecer um espaço em que a pessoa possa, aos poucos, compreender emoções muito intensas, relações marcadas por medo de abandono, idealizações, raiva, impulsividade e mudanças bruscas na forma de perceber a si mesma e os outros.
    A escuta analítica tem uma função central porque ajuda o paciente a colocar em palavras aquilo que muitas vezes aparece primeiro como crise, ruptura, atuação ou sofrimento corporal. O terapeuta procura entender não apenas o que o paciente conta, mas também como ele vive os vínculos, inclusive a própria relação com o analista. Muitas questões importantes aparecem justamente na transferência: medo de ser abandonado, necessidade de confirmação, sensação de rejeição, idealização do terapeuta e, em outros momentos, raiva ou desvalorização.
    Por isso, o enquadre precisa ser claro. Horários, limites, frequência das sessões e maneira de lidar com crises devem ser relativamente previsvisíveis. Para alguns pacientes borderline, essa estabilidade do tratamento já tem uma função terapêutica importante, porque oferece uma experiência de relação que não precisa oscilar entre fusão e ruptura.
    Também é muito importante que o analista esteja atento à própria reação emocional diante do paciente. Às vezes o terapeuta pode sentir vontade de proteger excessivamente, irritação, impotência ou até medo de que o paciente abandone o tratamento. Na psicanálise, essas reações podem fazer parte da contratransferência e, quando bem trabalhadas, ajudam a compreender o que acontece nas relações daquele paciente.
    A psiquiatria não precisa ser vista como oposta à psicanálise. Em muitos casos, as duas abordagens funcionam muito bem juntas. A medicação não “trata a personalidade” diretamente, mas pode ajudar em sintomas associados, como depressão, ansiedade intensa, alterações importantes do sono, impulsividade ou outros quadros que estejam presentes. Quando existe risco de autoagressão, ideação suicida, crises muito intensas ou grande desorganização, a avaliação psiquiátrica pode ser especialmente importante.
    Então eu pensaria menos em “psicanálise ou psiquiatria” e mais em qual combinação de cuidados essa pessoa precisa naquele momento.
    Na psicanálise, o objetivo não é simplesmente retirar sintomas, mas ajudar o paciente a compreender melhor seus afetos, reconhecer padrões repetitivos nas relações, suportar frustrações sem precisar romper vínculos e construir uma imagem mais integrada de si mesmo e das outras pessoas.
    Talvez uma forma simples de explicar seja: a psiquiatria pode ajudar a diminuir a intensidade da tempestade; a análise procura compreender por que determinadas tempestades se formam e como a pessoa pode aprender a atravessá-las de outra maneira.


  • Qual o papel dos mecanismos de defesa nas interações sociais de pessoas com Transtorno de Personalid

    Qual o papel dos mecanismos de defesa nas interações sociais de pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    Na psicanálise, os mecanismos de defesa são formas inconscientes de proteger a pessoa de sentimentos que seriam muito difíceis de suportar. No Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), esses mecanismos costumam aparecer com bastante intensidade e acabam influenciando diretamente a forma como a pessoa se relaciona com os outros.
    Um exemplo comum é a tendência de enxergar alguém como totalmente bom ou totalmente ruim, sem conseguir integrar qualidades e defeitos na mesma pessoa. Isso pode fazer com que um relacionamento passe rapidamente da admiração para a decepção diante de pequenas frustrações. Outro mecanismo frequente é a projeção, quando sentimentos como medo, raiva ou insegurança são percebidos como se viessem do outro.
    Esses mecanismos não são escolhas conscientes nem tentativas de manipular as pessoas. Eles funcionam como uma maneira de lidar com emoções muito intensas, especialmente o medo de rejeição e abandono. Por isso, os relacionamentos podem se tornar instáveis e marcados por conflitos, mesmo quando existe um desejo genuíno de manter o vínculo. A psicoterapia busca justamente ajudar a pessoa a reconhecer esses padrões e desenvolver formas mais saudáveis de compreender a si mesma e aos outros.


  • Como a psicanálise explica a instabilidade dos relacionamentos no Transtorno de Personalidade Border

    Como a psicanálise explica a instabilidade dos relacionamentos no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    Na perspectiva da psicanálise, a instabilidade nos relacionamentos de pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline está ligada ao intenso medo de abandono e à dificuldade em lidar com frustrações afetivas. Pequenos acontecimentos, como uma mensagem não respondida ou uma mudança no comportamento do parceiro, podem despertar sentimentos muito profundos de rejeição. Isso faz com que a pessoa oscile entre idealizar o outro e, diante de uma decepção, enxergá-lo de forma totalmente negativa. Para a psicanálise, essas reações costumam estar relacionadas a experiências emocionais precoces que continuam influenciando a maneira como os vínculos são vividos na vida adulta.


  • Tenho sonhos com situações em que na vida real eu não quero que aconteça, os sonhos sempre são meio

    Tenho sonhos com situações em que na vida real eu não quero que aconteça, os sonhos sempre são meio confusos é uma mistura entre gostar e não gostar do sonho.


    As vezes quando acordo sinto uma sensação boa e culpa por isso, aí eu penso racionalmente se realmente quero que tal coisa aconteça e sempre chego a conclusão que não quero.


    Por que isso acontece? Tenho TOC sexual, muitos pensamentos durante o dia, medo, culpa e agora tenho sonhado com essas coisas. É angustiante.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    O que você descreve é algo que pode acontecer com pessoas que têm TOC, especialmente o TOC de conteúdo sexual. É compreensível que isso seja angustiante, mas os sonhos, por si só, não significam que você deseja aquilo.
    Existem alguns fatores que ajudam a entender isso:
    * Durante o sono, o cérebro continua processando emoções, medos, conflitos e pensamentos que ocuparam sua mente durante o dia. Se o TOC faz você passar horas preocupado com determinado tema, esse tema tem mais chances de aparecer nos sonhos.
    * Os sonhos frequentemente misturam emoções contraditórias. É possível sentir curiosidade, alívio, prazer, medo, culpa e repulsa no mesmo sonho. Isso não é uma prova de um desejo oculto.
    * A sensação boa ao acordar também não prova nada. Durante o sono, diversas substâncias ligadas ao prazer e ao relaxamento são liberadas, e sonhos podem gerar respostas físicas automáticas. Essas respostas não são um teste da sua moralidade nem da sua vontade.

    O aspecto que mais chama atenção na sua descrição é este:
    "Quando acordo penso racionalmente se realmente quero que aquilo aconteça e sempre chego à conclusão que não quero."

    Esse é justamente o padrão do TOC: surge uma experiência (pensamento, imagem ou sonho), vem a dúvida ("e se isso significar alguma coisa?"), depois você procura uma certeza racional de que não quer aquilo. Essa busca por certeza costuma aliviar por um tempo, mas acaba alimentando o ciclo do TOC.
    Do ponto de vista da psicanálise, há autores que entendem os sonhos como expressões simbólicas de conflitos internos. Porém, mesmo dentro da psicanálise contemporânea, não seria correto afirmar que um sonho revela literalmente um desejo consciente ou inconsciente. Os sonhos podem representar conflitos, angústias, defesas e tentativas do psiquismo de elaborar experiências, não uma declaração do que a pessoa realmente quer.
    O fato de você sentir culpa também é bastante característico do TOC. Pessoas com esse transtorno costumam atribuir um peso exagerado aos próprios pensamentos e sonhos, como se eles fossem equivalentes a intenções ou ações. Mas pensamentos e sonhos não são escolhas.
    Se você já tem diagnóstico de TOC sexual, a interpretação mais consistente é que esses sonhos fazem parte do mesmo ciclo obsessivo, e não que eles revelem um desejo escondido.
    Uma pergunta que pode ajudar é: **depois desses sonhos, você passa muito tempo tentando descobrir o que eles "realmente significam" ou buscando ter certeza de que eles não representam seus desejos?** Se a resposta for sim, isso se encaixa bastante no funcionamento do TOC.
    Se esses sonhos estão aumentando sua angústia, vale conversar sobre isso com o profissional que acompanha seu TOC. Esse tipo de conteúdo é comum em pessoas com obsessões sexuais e pode ser trabalhado sem que se conclua que ele representa seus valores ou desejos reais.


  • Estou passando pelo primeiro luto significativo da minha vida, primeira vez que perco alguém com gra

    Estou passando pelo primeiro luto significativo da minha vida, primeira vez que perco alguém com grande vínculo, que no caso foi a minha gatinha de 13 anos...a dor é tão dilacerante, que simplesmente não consigo suportar. Sinto muitas culpas, pelas decisões tomadas sobre os tratamentos, pelo tempo que não curti ela porque estava envolta em problemas do cotidiano, embora cuidei, amei, fiquei muito com ela, sinto que ainda sim, foi pouco, que eu era muito mas muito feliz com ela, eu tinha tudo, e agora ela se foi, a nova realidade me assola de tristeza, nunca mais terei a felicidade com ela. Não sei como lidar com tudo isso?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Marcos Antônio de Oliveira

    O que você está vivendo é um luto verdadeiro. Quando existe um vínculo de 13 anos, não se perde “apenas um animal”; perde-se uma presença, uma rotina, uma companhia, uma forma de amar e também uma parte da vida que foi construída ao lado dela. Por isso a casa, os horários e até pequenos hábitos podem parecer diferentes agora.

    E essa sensação de “eu deveria ter feito mais” aparece com muita frequência no luto. Depois que alguém morre, nós olhamos para trás sabendo o desfecho da história e começamos a revisar cada escolha: o tratamento que fizemos, aquele que não fizemos, o dia em que poderíamos ter ficado mais perto, as vezes em que estávamos preocupados com outras coisas. Mas você tomou aquelas decisões com as informações, as condições e o amor que tinha naquele momento. Você mesmo diz que cuidou dela, amou e esteve muito com ela. A culpa costuma pegar justamente esse amor e transformá-lo numa cobrança impossível: “se eu amava tanto, deveria ter feito tudo perfeitamente.” Só que ninguém consegue amar perfeitamente.

    Também entendo quando você diz: “nunca mais terei a felicidade com ela”. Isso é verdade em um sentido muito doloroso: aquela relação específica não poderá ser repetida. Ela era única. O trabalho do luto não é esquecer isso, substituir sua gatinha ou convencer você de que “logo passa”. É conseguir, pouco a pouco, encontrar uma maneira de continuar vivendo sem que para isso você precise abandonar o vínculo que teve com ela.

    Agora talvez seja cedo demais para tentar encontrar um significado ou pensar em “superar”. Neste momento, pode ser mais importante permitir que a tristeza exista, conversar sobre ela, chorar quando precisar e falar sobre sua gatinha. Guarde fotos, conte histórias, escreva sobre momentos que vocês viveram, faça algum pequeno ritual de despedida se isso fizer sentido para você. Essas coisas ajudam a transformar uma presença física que acabou em uma presença dentro da nossa história.

    E tente não julgar a intensidade do que está sentindo. No início do luto, às vezes a pessoa oscila muito: em um momento consegue trabalhar ou conversar e, minutos depois, alguma lembrança derruba tudo novamente. Isso não significa que você esteja “voltando para trás”. O luto não acontece em linha reta.

    Talvez uma pergunta mais gentil do que “por que eu não fiz mais?” seja: “o que esses 13 anos dizem sobre a relação que nós tivemos?” Quando você conseguir olhar para a história inteira, e não somente para os últimos dias ou para as decisões médicas, provavelmente encontrará muito mais amor do que culpa.

    E há uma coisa que eu gostaria que você não precisasse decidir agora: se algum dia será feliz novamente. Quem está no meio de uma perda muito recente não consegue imaginar uma vida diferente daquela que acabou de perder. Isso não significa que essa vida não vá existir. Significa apenas que, neste momento, a dor ocupa quase todo o horizonte.

    Se quando você diz que “não consegue suportar” estiver querendo dizer que pensa em se machucar, em morrer ou que não consegue garantir sua própria segurança, isso merece atenção imediata: procure alguém de confiança para ficar com você e ajuda profissional presencial; no Brasil, você também pode ligar para o CVV pelo 188 ou, numa emergência, para o SAMU pelo 192.

    Mas, se estamos falando dessa dor enorme do luto, podemos trabalhar isso juntos sem tentar apressá-la. Você não precisa deixar de amar sua gatinha para conseguir seguir vivendo. O caminho será aprender, aos poucos, a carregar esse amor de uma forma que machuque menos.


Todos os conteúdos publicados no doctoralia.com.br, principalmente perguntas e respostas na área da medicina, têm caráter meramente informativo e não devem ser, em nenhuma circunstância, considerados como substitutos de aconselhamento médico.