Todo ser humano tem direito a um amor-próprio básico? Não me refiro ao egoísmo ou à exaltação do eu

4 respostas
Todo ser humano tem direito a um amor-próprio básico?
Não me refiro ao egoísmo ou à exaltação do eu, mas à autopreservação da vida, à dignidade humana mínima que impede a autodestruição total.

Nesse sentido, mesmo pessoas egoístas ou moralmente erradas não estariam erradas em possuir esse amor-próprio mínimo e saudável, sendo o problema aquilo que está deturpado no caráter, nas escolhas e nas ações, e não o simples instinto de preservar a própria existência.

Essa noção também se aplicaria, em termos gerais, até a pessoas más ou cruéis? (considerando que em alguns casos há patologias envolvidas). A distinção estaria entre o valor intrínseco da vida humana e a responsabilidade moral pelos atos cometidos?
 Helio Martins
Psicólogo
São Bernardo do Campo
Olá, tudo bem?

A forma como você coloca a questão é bastante cuidadosa e, do ponto de vista psicológico, faz muito sentido. Existe, sim, uma diferença importante entre amor-próprio como autopreservação básica e aquilo que costuma ser confundido com egoísmo, narcisismo ou exaltação do eu. Esse amor-próprio mínimo está ligado ao reconhecimento do próprio valor enquanto vida humana, à dignidade básica que sustenta o desejo de existir, de não se destruir e de se proteger do aniquilamento, mesmo quando a pessoa falha moralmente ou causa sofrimento aos outros.

Em termos clínicos, esse núcleo de autopreservação não é o problema, inclusive ele é necessário para qualquer possibilidade de mudança, responsabilização ou reparação. Pessoas egoístas, moralmente equivocadas ou até cruéis não estão “erradas” por possuírem esse instinto de preservar a própria existência. O que costuma estar comprometido são as formas de se relacionar com o outro, a empatia, a capacidade de considerar consequências e assumir responsabilidade pelos próprios atos. Retirar delas o direito a esse valor básico da própria vida não torna o mundo mais ético, apenas mais punitivo e desumanizado.

Mesmo em casos de pessoas consideradas más, a psicologia costuma diferenciar o valor intrínseco da vida humana da avaliação ética ou jurídica das ações cometidas. Uma coisa não anula a outra. Reconhecer que toda vida humana possui um valor mínimo não equivale a justificar comportamentos destrutivos, violentos ou cruéis. Significa apenas manter a distinção entre quem a pessoa é enquanto ser humano e aquilo que ela faz ou escolhe fazer, inclusive quando há traços de personalidade rígidos ou quadros psicopatológicos envolvidos.

O que você acha que se perde quando confundimos amor-próprio básico com egoísmo? Em que medida essa distinção ajuda a pensar responsabilidade sem cair na desumanização? E como essa reflexão se conecta com a forma como você olha para si mesmo(a) e para os próprios erros?

Esse tipo de reflexão costuma ser muito fértil em psicoterapia, porque ajuda a construir uma visão mais madura sobre dignidade, culpa, responsabilidade e limites, sem reduzir o ser humano a rótulos simplistas. Caso precise, estou à disposição.

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Sim. Todo ser humano tem direito a um amor-próprio básico, entendido como autopreservação e dignidade mínima, independentemente de falhas morais. Esse valor é intrínseco à vida humana. O que pode e deve ser responsabilizado são as escolhas e ações cometidas, não o simples direito de existir. Essa distinção entre valor da vida e responsabilidade moral é fundamental, inclusive na clínica.
Olá, como vai?
Você pode se aprofundar no tema ao ler sobre narcisismo na psicanálise.
Espero ter ajudado, fico à disposição.
 Lucas Teixeira
Psicólogo
Belo Horizonte
Na teoria freudiana, existe algo próximo a esse “amor-próprio básico”: o narcisismo primário. Trata-se do investimento libidinal do eu sobre si mesmo, fundamento da autopreservação e da continuidade psíquica. Sem um mínimo desse investimento, o sujeito tende à autodestruição ou ao esvaziamento do desejo.

Isso é diferente do egoísmo exacerbado, que pode envolver defesas rígidas, idealizações ou distorções do caráter. Mesmo alguém moralmente condenável mantém, em geral, esse núcleo narcísico que sustenta a própria vida. A psicanálise distingue, portanto, o valor estrutural do eu — necessário para existir — das escolhas e atos pelos quais o sujeito deve responder. O problema ético não é amar-se minimamente, mas como esse amor se articula com os outros.

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