- O lacrimejamento excessivo (epífora) sinaliza desequilíbrio na produção ou na drenagem de lágrimas, exigindo investigação clínica.
- A síndrome do olho seco pode causar lacrimejamento reflexo quando a baixa qualidade da lágrima basal irrita a superfície do olho.
- Infecções, alergias e obstruções dos ductos são causas comuns que demandam tratamentos específicos, como colírios ou cirurgias.
- Sinais de alerta como dor intensa, perda de visão ou fotofobia indicam a necessidade urgente de uma avaliação por um oftalmologista.
- Medidas de prevenção incluem pausas no uso de telas, proteção contra raios UV e higiene rigorosa das mãos e das pálpebras.
A presença de lágrimas é um elemento fundamental para a manutenção da saúde ocular, exercendo funções que vão desde a lubrificação até a proteção contra patógenos externos. No entanto, quando a produção de fluido se torna excessiva ou quando o sistema de drenagem apresenta falhas, ocorre o fenômeno conhecido como lacrimejamento excessivo. Esta condição pode variar de um leve desconforto passageiro a um sintoma de patologias mais complexas que exigem intervenção médica especializada. Compreender esses e outros sintomas de problemas de vista é o primeiro passo para identificar a necessidade de tratamento e evitar complicações na acuidade visual e no bem-estar geral do paciente.
O que é o lacrimejamento excessivo (epífora)?
O termo médico utilizado para descrever o transbordamento de lágrimas sobre a face é epífora. Esta condição não é considerada uma doença por si só, mas sim um sinal clínico de que algo está em desequilíbrio no complexo sistema lacrimal. Basicamente, a epífora ocorre devido a dois mecanismos principais: a hipersecreção (produção exagerada de lágrimas) ou a insuficiência de drenagem (incapacidade do sistema excretor de escoar o volume produzido).
Em um estado fisiológico normal, as glândulas lacrimais produzem um volume de líquido suficiente para manter a superfície do olho úmida, enquanto os pontos lacrimais, localizados nos cantos internos das pálpebras, drenam esse líquido para o saco lacrimal e, posteriormente, para a cavidade nasal. Quando esse fluxo é interrompido ou sobrecarregado, o excesso de fluido acumula-se e escorre, o que pode causar visão embaçada, visão turva, irritação na pele das pálpebras e desconforto social.
A função e os tipos de lágrima
A lágrima não é apenas um líquido salino; ela é composta por uma mistura complexa de proteínas, lipídios, eletrólitos e enzimas que formam o filme lacrimal. Este filme é estruturado em três camadas: a camada mucosa (que adere a lágrima ao olho), a camada aquosa (que fornece hidratação e oxigênio) e a camada lipídica (que evita a evaporação precoce). Existem três categorias funcionais de lágrimas, cada uma com um propósito biológico distinto.
Lágrimas basais
Estas são as lágrimas produzidas continuamente para manter a córnea lubrificada, nutrida e protegida. Elas agem como uma barreira constante contra a poeira e detritos, garantindo que a superfície ocular permaneça lisa e transparente para permitir uma visão nítida. A ausência de uma produção basal adequada é uma das principais causas de desconforto ocular crônico.
Lágrimas reflexas
As lágrimas reflexas são geradas como uma resposta defensiva imediata a estímulos irritantes externos. Isso inclui a exposição à fumaça, vapores químicos (como os liberados ao cortar cebolas), corpos estranhos ou ventos fortes. Receptores sensoriais na superfície ocular detectam a agressão e o sistema nervoso coordena a resposta para que as glândulas lacrimais produzam um grande volume de líquido para "lavar" o agente irritante.
Lágrimas emocionais
Este tipo de lacrimejamento ocorre em resposta a estados emocionais intensos, como tristeza, alegria, dor ou estresse. Estudos indicam que as lágrimas emocionais possuem uma composição química ligeiramente diferente, contendo níveis mais elevados de hormônios e neurotransmissores, como a encefalina, que atua como um analgésico natural.
Principais causas do olho lacrimejando
A identificação da causa exata do lacrimejamento é um processo que envolve a análise do histórico do paciente e a observação de sintomas concomitantes. Fatores anatômicos, ambientais e imunológicos podem atuar isoladamente ou em conjunto.
Síndrome do olho seco
Embora pareça contraditório, a síndrome do olho seco é uma das causas mais frequentes de lacrimejamento excessivo. Quando o olho não produz lágrimas de qualidade ou em quantidade suficiente para a lubrificação basal, a superfície ocular torna-se irritada e inflamada. Essa irritação envia um sinal de "emergência" ao cérebro, que responde ativando as lágrimas reflexivas. Como essas lágrimas de reflexo são compostas majoritariamente por água e carecem da camada lipídica necessária para a aderência, elas evaporam rápido ou escorrem, não conseguindo hidratar o olho efetivamente e criando um ciclo de secura e lacrimejamento constante.
Conjuntivite e infecções oculares
Processos infecciosos que atingem a conjuntiva — a membrana transparente que reveste o globo ocular e a parte interna das pálpebras — provocam uma resposta inflamatória robusta. A conjuntivite, seja ela viral, bacteriana ou fúngica, resulta em aumento da produção de fluido como tentativa de eliminar o patógeno. Além das lágrimas, é comum observar a presença de secreção nos olhos ou remela no olho de forma purulenta ou mucosa, além de um olho vermelho intenso.
Alergias e fatores ambientais
A exposição a alérgenos como pólen, ácaros, pelos de animais e mofo pode desencadear a conjuntivite alérgica. Nestes casos, o corpo libera histamina, substância que causa dilatação dos vasos sanguíneos, estimula a secreção lacrimal e provoca uma persistente coceira nos olhos. Fatores ambientais também desempenham um papel significativo; em regiões de clima seco, a baixa umidade do ar acelera a evaporação da lágrima, levando ao lacrimejamento reflexo mencionado anteriormente. A poluição urbana e o uso constante de ar-condicionado são outros agravantes comuns.
Obstrução do canal lacrimal
A obstrução das vias lacrimais impede que o fluido ocular siga seu caminho natural de drenagem em direção ao nariz. Em recém-nascidos, isso ocorre frequentemente devido ao desenvolvimento incompleto do sistema de drenagem (dacriostenose). Em adultos, a obstrução pode ser causada por infecções crônicas, traumas na região nasal, pólipos ou o processo natural de envelhecimento, que pode levar ao estreitamento (estenose) dos pontos lacrimais. Sem uma rota de saída, as lágrimas acumulam-se no olho e transbordam constantemente.
Blefarite e meibomite
A blefarite é uma inflamação crônica das bordas das pálpebras, muitas vezes associada a uma disfunção das glândulas de Meibômio. Estas glândulas são responsáveis pela produção da camada oleosa da lágrima. Quando estão obstruídas ou inflamadas (meibomite), a lágrima torna-se instável e evapora precocemente, o que deixa o olho ardendo, irrita a superfície ocular e gera o lacrimejamento excessivo como resposta compensatória.
Condições sistêmicas e outras causas
O lacrimejamento pode ser um sintoma secundário de condições que não se originam diretamente no olho. A sinusite e a rinite, por causarem inflamação nas passagens nasais, podem obstruir indiretamente a saída do ducto nasolacrimal. Outras causas incluem:
- Paralisia facial (Paralisia de Bell): afeta a capacidade de fechar a pálpebra completamente, expondo o olho ao ressecamento.
- Ectrópio ou entrópio: mau posicionamento das pálpebras que afeta o contato da lágrima com a superfície ocular ou a drenagem.
- Medicamentos: certos fármacos, como os utilizados em quimioterapia ou colírios para glaucoma, podem ter o lacrimejamento como efeito colateral.
- Cefaleia em salvas: um tipo de dor de cabeça intensa que frequentemente apresenta lacrimejamento unilateral e dor atrás do olho como sintoma associado.

Diferenciando as causas pelos sintomas associados
A observação atenta dos sinais que acompanham o lacrimejamento ajuda o profissional de saúde a direcionar o diagnóstico. A tabela abaixo resume as apresentações mais comuns:
Quando o lacrimejamento é motivo de alerta?
Embora em muitos casos o lacrimejamento seja uma resposta a irritações leves, existem sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica imediata. O paciente deve procurar um oftalmologista se observar:
- Perda de visão ou redução da acuidade.
- Dificuldade para enxergar à noite.
- Dor no olho severa ou persistente, ou o olho dolorido ao toque.
- Sensação de corpo estranho que não melhora com a lavagem.
- Presença de visão dupla, pontos pretos na visão, moscas volantes ou flashes de luz.
- Olho inchado pronunciado e calor na região do saco lacrimal.
- Forte sensibilidade à luz (fotofobia).
- Trauma físico direto no globo ocular ou na face.
A identificação precoce de condições graves, como o glaucoma de ângulo fechado ou úlceras de córnea, é essencial para preservar a visão.
Diagnóstico e exames comuns
Para determinar a origem da epífora, o especialista realiza um exame clínico detalhado. A avaliação inicial geralmente inclui o exame na lâmpada de fenda, que permite visualizar a estrutura das pálpebras, a conjuntiva e a córnea sob aumento.
Entre os procedimentos específicos, destacam-se:
- Teste de Schirmer: utiliza pequenas tiras de papel filtro colocadas na pálpebra inferior para medir a quantidade de produção de lágrimas ao longo de cinco minutos.
- Teste de tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT): avalia a estabilidade da lágrima e quanto tempo ela leva para evaporar após o piscar.
- Sondagem e irrigação das vias lacrimais: o médico utiliza uma pequena sonda ou uma solução salina para verificar se existe obstrução física no canal de drenagem para o nariz.
- Dacriocistografia: exame de imagem com contraste que mapeia o trajeto do sistema lacrimal para identificar pontos exatos de bloqueio.
Opções de tratamento para olhos lacrimejantes
O tratamento do lacrimejamento excessivo é focado na resolução da causa primária, podendo variar de medidas conservadoras a procedimentos cirúrgicos.
Medidas clínicas e medicamentosas
Para casos de olho seco, o uso de lágrimas artificiais sem conservantes é frequentemente prescrito para estabilizar o filme lacrimal e reduzir o lacrimejamento reflexo. Se a causa for alérgica, colírios anti-histamínicos ou estabilizadores de mastócitos são indicados. No caso de infecções bacterianas, o tratamento envolve o uso de antibióticos tópicos (colírios ou pomadas).
Higiene ocular
Em pacientes com blefarite ou disfunção das glândulas de Meibômio, a higiene rigorosa das pálpebras é uma etapa fundamental. Isso pode incluir o uso de compressas mornas para fluidificar as secreções oleosas e a limpeza da base dos cílios com produtos específicos ou shampoos neutros indicados pelo especialista. Esta prática ajuda a desobstruir as glândulas e melhora a qualidade da lágrima produzida.
Intervenções cirúrgicas
Quando existe uma obstrução anatômica severa ou mau posicionamento palpebral, a cirurgia pode ser necessária.
- Dacriocistorrinostomia (DCR): procedimento que cria um novo canal de drenagem entre o saco lacrimal e a cavidade nasal, contornando a obstrução.
- Correção de ectrópio ou entrópio: cirurgia plástica ocular para reposicionar a pálpebra, garantindo que o ponto lacrimal esteja em contato direto com o globo ocular para uma drenagem eficiente.
Prevenção e cuidados práticos no dia a dia
A adoção de hábitos saudáveis pode mitigar o desconforto e prevenir episódios de lacrimejamento excessivo causados por fatores externos.
- Uso de umidificadores: em períodos de baixa umidade, manter o ambiente interno umidificado ajuda a prevenir o ressecamento da superfície ocular.
- Pausa de telas: ao utilizar computadores ou smartphones, deve-se aplicar a regra 20-20-20 (a cada 20 minutos, olhar para algo a 6 metros de distância por 20 segundos). Isso ajuda a evitar o olho tremendo, a pálpebra tremendo ou situações de olho piscando sozinho.
- Proteção solar: o uso de óculos de sol com proteção UV de qualidade protege contra a irritação causada pela luminosidade excessiva e pelo vento, fatores que estimulam as lágrimas reflexivas.
- Higiene das mãos: evitar tocar ou coçar os olhos sem higienizar as mãos é uma medida eficaz para prevenir a introdução de bactérias e vírus que causam infecções.
- Hidratação sistêmica: ingerir água regularmente contribui para a produção adequada de todos os fluidos corporais, incluindo a lágrima.
A importância do cuidado com a visão
O lacrimejamento constante não deve ser ignorado ou tratado meramente como um incômodo estético. Ele representa um sinal do organismo de que o equilíbrio da superfície ocular foi rompido, seja por fatores externos ou por condições de saúde subjacentes. A saúde ocular é um componente integrante do bem-estar geral, e a persistência de sintomas como a epífora justifica uma investigação profissional detalhada.
Recomenda-se a consulta regular com um oftalmologista para realizar exames preventivos e obter um diagnóstico preciso. O acompanhamento médico é a forma mais segura de garantir que o tratamento seja adequado e eficaz, prevenindo danos permanentes à visão e melhorando significativamente a qualidade de vida do paciente.
Referências
- American Academy of Ophthalmology. O que é Epífora (Olhos Lacrimejantes)?
- Mayo Clinic. Olhos lacrimejantes: Causas.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão (CID-11). Seção sobre doenças do sistema lacrimal.


