Artigos 13 abril 2026

O papel da Testosterona na saúde da mulher

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

A compreensão da fisiologia endócrina e a importância dos hormônios femininos na saúde da mulher evoluiu significativamente nas últimas décadas, permitindo uma visão mais integrada sobre o papel dos andrógenos no organismo feminino. Embora a testosterona seja habitualmente classificada como um hormônio masculino, sua presença e atividade são fundamentais para a manutenção da homeostase e do bem-estar na saúde da mulher. Este hormônio, produzido em concentrações menores do que nos homens, exerce funções biológicas em diversos sistemas, desde o tecido musculoesquelético até o sistema nervoso central.

Este guia aborda o papel essencial da testosterona na saúde feminina, os critérios para diagnóstico de alterações e os riscos associados ao uso indiscriminado deste hormônio, conforme as diretrizes das principais entidades médicas brasileiras, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).

O papel da testosterona no organismo feminino

Diferente do que ocorre no público masculino, onde a produção é majoritariamente testicular, nas mulheres a testosterona é sintetizada de forma equilibrada entre os ovários e as glândulas suprarrenais. Além da produção direta, uma parcela significativa da testosterona circulante provém da conversão periférica de precursores, como a androstenediona e o deidroepiandrosterona (DHEA).

Este hormônio atua como um precursor essencial para a síntese de estrogênios através do processo de aromatização, mas também possui ações diretas em receptores androgênicos distribuídos por todo o corpo. A presença de níveis fisiológicos adequados contribui para a integridade estrutural dos tecidos e para a regulação de processos metabólicos complexos.

Principais benefícios para a saúde da mulher

Níveis adequados de testosterona são determinantes para diversas áreas da saúde sistêmica. Abaixo, detalham-se os principais benefícios observados quando os níveis hormonais permanecem dentro da faixa fisiológica:

  • Manutenção da massa óssea: A testosterona desempenha um papel protetor contra a reabsorção óssea. Ela estimula a formação de osteoblastos e, após ser convertida em estradiol, auxilia na preservação da densidade mineral óssea, sendo um fator relevante na prevenção da osteoporose em mulheres no período pós-menopausa.
  • Composição corporal e força muscular: O hormônio possui propriedades anabólicas que favorecem a síntese proteica no tecido muscular. Isso contribui para a manutenção da massa magra e da força física, elementos essenciais para o metabolismo basal e para a mobilidade ao longo do envelhecimento.
  • Bem-estar cognitivo e humor: Existem evidências de que os andrógenos influenciam as funções cognitivas, incluindo a memória verbal e a capacidade de concentração. Além disso, a estabilidade nos níveis de testosterona está correlacionada com a regulação do humor e a redução da incidência de sintomas depressivos leves.
  • Saúde sexual: A testosterona é um dos principais moduladores do desejo sexual (libido) na mulher. Ela atua em áreas específicas do cérebro responsáveis pela motivação e resposta ao estímulo sexual, além de influenciar a sensibilidade dos tecidos genitais.

Valores de referência e como medir os níveis hormonais

A avaliação laboratorial e os exames hormonais em mulheres apresentam desafios técnicos significativos. Devido às concentrações muito baixas presentes no soro feminino — frequentemente dez a vinte vezes menores do que as encontradas em homens — muitos ensaios laboratoriais comuns podem carecer de sensibilidade para fornecer resultados precisos em valores limítrofes.

Os métodos mais recomendados pela literatura médica atual incluem a espectrometria de massas, que oferece maior acurácia para níveis reduzidos. É necessário avaliar não apenas a testosterona total, mas também a fração livre (aquela que não está ligada à proteína SHBG e que está biologicamente disponível para os tecidos). Os valores de referência podem variar conforme o laboratório, a idade da paciente e o método utilizado, mas a tabela abaixo apresenta uma estimativa geral das faixas observadas:

Categoria hormonal Valores de referência estimados (em idade reprodutiva)
Testosterona total 15 a 70 ng/dL
Testosterona livre 0,5 a 1,9 pg/mL
Testosterona biodisponível 2 a 12 ng/dL
Testosterona na pós-menopausa Frequentemente abaixo de 15 ng/dL

A interpretação desses resultados deve ser obrigatoriamente clínica. A existência de um valor numericamente baixo, isoladamente, não define uma patologia se não houver sintomatologia correspondente, assim como níveis dentro da média não excluem a possibilidade de disfunções hormonais se os sinais clínicos forem evidentes.

Testosterona baixa: Sintomas e causas

A redução nos níveis de andrógenos, frequentemente denominada deficiência androgênica feminina, pode decorrer de diversos fatores fisiológicos ou iatrogênicos. Uma das causas mais comuns é o processo natural de envelhecimento; observa-se que, aos 40 anos, os níveis de testosterona de uma mulher podem representar apenas metade do que eram aos 20 anos.

Outro fator preponderante é o uso de anticoncepcionais orais combinados. Estes fármacos aumentam a produção hepática da globulina fixadora de hormônios sexuais (SHBG), que se liga à testosterona circulante, reduzindo drasticamente a sua fração livre e ativa. Além disso, a falência ovariana prematura (menopausa precoce) e a ooforectomia bilateral (remoção cirúrgica dos ovários) causam uma queda abrupta na produção hormonal.

No cenário clínico brasileiro, o impacto da baixa hormonal é frequentemente associado ao Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH). Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), essa condição atinge entre 15% e 35% das mulheres, caracterizando-se pela ausência persistente de pensamentos ou fantasias sexuais que causa sofrimento pessoal ou interpessoal.

Sinais de alerta para baixa hormonal

O reconhecimento dos sintomas de baixa testosterona deve ser feito de forma criteriosa, uma vez que muitos sinais clínicos são inespecíficos. De acordo com consensos médicos internacionais e nacionais (Endocrine Society e SBEM), os pontos de atenção incluem:

  1. Transtorno do Desejo Sexual Hipativo (TDSH): É o único sintoma com evidência científica robusta de correlação com a baixa hormonal em mulheres, caracterizado pela redução significativa do interesse e da responsividade sexual.
  2. Perda de pelos pubianos e axilares: A redução da estimulação androgênica está associada à perda de pelos nestas áreas específicas, e não ao afinamento dos cabelos no couro cabeludo (alopecia).
  3. Fadiga e desânimo: Embora frequentemente relatados, são considerados sintomas altamente inespecíficos, sem evidências científicas suficientes que os correlacionem diretamente apenas à deficiência de testosterona.
  4. Dificuldade na manutenção da massa muscular: A perda de tônus muscular é um sinal clínico que carece de correlação exclusiva comprovada, exigindo investigação de outros fatores metabólicos e de estilo de vida.
  5. Comprometimento da memória e foco: Queixas cognitivas, como a “névoa mental”, são relatadas subjetivamente, mas não possuem comprovação clínica robusta como indicadores diretos de baixa hormonal androgênica feminina.
mulher simulando uma testosterona alta Níveis adequados de testosterona são determinantes para diversas áreas da saúde sistêmica.
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Testosterona alta na mulher e o impacto da SOP

O excesso de hormônios androgênicos, conhecido como hiperandrogenismo, é uma condição que pode desencadear alterações metabólicas e estéticas significativas. A causa mais prevalente de testosterona elevada em mulheres em idade reprodutiva é a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP).

De acordo com protocolos da FEBRASGO, a SOP atinge entre 5% e 15% das mulheres brasileiras e não se resume apenas à presença de cistos nos ovários, sendo um distúrbio endócrino complexo que envolve resistência à insulina e desequilíbrios hormonais. Outras causas menos comuns para o aumento da testosterona incluem a hiperplasia adrenal congênita de início tardio e, raramente, tumores produtores de andrógenos.

Sinais clínicos de hiperandrogenismo Descrição da manifestação
Acne Frequentemente persistente e resistente a tratamentos convencionais, localizada no terço inferior do rosto e dorso.
Hirsutismo Crescimento de pelos terminais em áreas tipicamente masculinas (queixo, tórax, abdome e glúteos).
Alopecia androgênica Queda de cabelo com padrão de raleamento no topo da cabeça.
Irregularidade menstrual Ciclos anovulatórios, longos períodos sem menstruar (oligomenorreia) ou ausência total (amenorreia).
Alterações metabólicas Maior predisposição à resistência insulínica e aumento da oleosidade da pele.

Quando a reposição hormonal é realmente indicada?

A reposição hormonal de testosterona em mulheres é um tema que exige rigor científico e cautela ética. De acordo com o consenso estabelecido pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela FEBRASGO, existe apenas uma indicação formal e baseada em evidências para este tratamento: o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) em mulheres no período da pós-menopausa.

O objetivo da terapia é restaurar os níveis hormonais para a faixa fisiológica feminina pré-menopausa, e não elevar as concentrações para níveis masculinos ou suprafisiológicos. É fundamental destacar que o uso de testosterona para fins estéticos, como ganho de massa muscular acelerado ou perda de gordura em mulheres sem diagnóstico clínico de deficiência, não possui suporte de segurança e é condenado pelas entidades médicas devido aos altos riscos de efeitos adversos.

Tipos de testosterona e formas de administração

A escolha da via de administração é um ponto essencial para garantir a segurança da paciente. As principais diretrizes recomendam:

  • Via transdérmica (géis ou adesivos): É a forma preferencial de administração. O gel de testosterona, aplicado na pele em doses específicas para o público feminino, permite uma absorção gradual e evita o “efeito de primeira passagem” pelo fígado.
  • Via oral: Esta forma de administração é geralmente evitada. A testosterona ingerida oralmente sofre metabolismo hepático intenso, o que pode alterar os níveis de colesterol (reduzindo o HDL, o colesterol bom) e aumentar o risco de toxicidade hepática.
  • Implantes hormonais: Embora populares, o uso de implantes (como o chamado “chip da beleza”) é visto com extrema reserva pelas comunidades científicas. A principal crítica reside na dificuldade de controle da dose liberada e na impossibilidade de interrupção imediata do tratamento caso surjam efeitos colaterais graves.

Riscos e efeitos colaterais do uso indevido

O uso indiscriminado de testosterona, especialmente em doses elevadas ou por vias não regulamentadas, pode acarretar danos severos e, por vezes, irreversíveis. A busca por resultados imediatos em performance esportiva ou estética frequentemente ignora a fisiopatologia endócrina.

Entre os riscos sistêmicos, observa-se o aumento do risco cardiovascular, alterações no perfil lipídico, sobrecarga hepática e policitemia (aumento excessivo de glóbulos vermelhos, o que torna o sangue mais viscoso). Além disso, o uso sem indicação médica pode suprimir a produção natural de outros hormônios e causar distúrbios psiquiátricos, como irritabilidade excessiva e episódios de ansiedade.

Efeitos de virilização

A virilização ocorre quando os níveis de andrógenos atingem patamares masculinos, provocando mudanças físicas que podem impactar profundamente a autoimagem e a saúde da mulher. Algumas dessas alterações são irreversíveis, enquanto outras podem ser revertidas ou mitigadas com a normalização hormonal:

  • Engrossamento da voz: Decorrente de alterações estruturais nas cordas vocais, efeito que raramente regride após a interrupção do uso.
  • Clitoromegalia: Aumento desproporcional do clitóris, que pode se tornar doloroso e, por ser uma mudança permanente, requer intervenção cirúrgica em casos extremos.
  • Hirsutismo severo: Surgimento de pelos grossos e escuros em áreas como rosto, peito e costas; a reversão total pode ser difícil após a terminalização dos folículos.
  • Calvície de padrão masculino: Perda de cabelo definitiva na região frontal e temporal.
  • Alterações na pele: Desenvolvimento de acne severa (grau III ou IV) e aumento da porosidade cutânea, efeitos que são geralmente reversíveis.

Dicas para regular a testosterona de forma natural

Para mulheres que apresentam flutuações leves nos níveis hormonais ou que desejam preservar a saúde endócrina, mudanças no estilo de vida podem contribuir de forma significativa para a regulação hormonal, sem a necessidade de intervenção medicamentosa.

  • Treino de força: A prática regular de exercícios de resistência (musculação) é um estímulo natural para a manutenção da massa magra e para a sinalização hormonal adequada. O exercício ajuda a melhorar a sensibilidade à insulina, o que é essencial para o equilíbrio dos andrógenos.
  • Higiene do sono: A maior parte da regulação hormonal que ocorre durante as fases profundas do sono. Manter uma rotina de higiene do sono consistente, com duração entre 7 e 9 horas, auxilia na modulação do cortisol, hormônio que, quando elevado pelo estresse crônico, pode prejudicar a produção de testosterona.
  • Alimentação equilibrada: O consumo de hábitos alimentares saudáveis e uma alimentação equilibrada são fundamentais. O consumo de gorduras saudáveis (monoinstaturadas e poli-insaturadas), como as encontradas no azeite de oliva, abacate e castanhas, é vital, pois o colesterol é a matéria-prima básica para a síntese de hormônios esteroides. Além disso, o controle do índice glicêmico ajuda a evitar picos de insulina que desregulam os ovários.
  • Gerenciamento do estresse: Práticas como meditação e ioga auxiliam na redução da carga alostática, permitindo que as glândulas suprarrenais funcionem de maneira mais eficiente.

A manutenção da saúde hormonal é um processo contínuo que envolve o equilíbrio entre fatores biológicos, comportamentais e ambientais. A testosterona desempenha um papel fundamental na vitalidade feminina, mas seu equilíbrio é delicado e deve ser preservado.

Caso sejam observados sintomas de fadiga excessiva, alterações persistentes na libido ou sinais de hiperandrogenismo, recomenda-se a busca por uma avaliação médica detalhada com um endocrinologista ou ginecologista. O acompanhamento profissional é a única forma de garantir um diagnóstico preciso e um plano terapêutico seguro, focado na saúde e na qualidade de vida a longo prazo.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) et al. Posicionamento sobre a utilização de testosterona em mulheres. 2019. Disponível em: https://www.endocrino.org.br/posicionamento-sobre-uso-de-testosterona-em-mulheres/
  2. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Disfunção Sexual Feminina. Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, n. 8, 2021. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/orientacoes-e-recomendacoes-febrasgo/item/1301-n-8-2021-disfuncao-sexual-feminina

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