Perguntas do paciente (112)
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É normal sonhar com alguém que não vejo há muito tempo? Constantemente tenho sonhos com uma rapaz qu
É normal sonhar com alguém que não vejo há muito tempo? Constantemente tenho sonhos com uma rapaz que fui apaixonada por muito tempo, mas já fazem anos que não o vejo ou tenho noticias. Normalmente são sonhos onde ele está próximo de mim. No ultimo, eu tentava ignora-lo numa espécie de pátio amplo, mas acabava conversando com ele. Não gosto desses sonhos porque sinto que impedem que eu siga minha vida. É como se eu estivesse esperando por alguém que sei que não vai voltar, mas continuo presa a isso.
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
sonhos em geral são manifestações de um desejo. Somos seres desejantes. Lacan nos lembra - através da perspectiva spinozista - que a essência do homem é o desejo. Os sonhos, porém - como dito acima -, não podem ser interpretados literalmente. Sonhar como um rapaz que foi uma paixão significa o que? De que falta estamos falando? Dele ou de algo subjacente a sua figura? Registre-se que há sonhos que podem ser reencenações de um trauma. Este, portanto, nada tem a ver com desejabilidade. Não parece ser o seu caso. Há também manifestações oníricas que jamais chegam à consciência e não são passíveis de interpretação. Se quiser, de fato, compreender o caráter reiterado de tal sonho e o sofrimento que ele te traz, sugiro que procure um psicanalista gabaritado. A travessia analítica é capaz de criar condições para que você entenda alguns dos enigmas de sua subjetividade.
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A ausência paterna na infância pode gerar uma atração desta mulher por homens que de alguma forma re
A ausência paterna na infância pode gerar uma atração desta mulher por homens que de alguma forma remetam ao pai? E essa atração não ser sexual?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz, você refere-se à "ausência paterna". Preciso, então, te explicar a importância da função paterna na constituição subjetiva de um sujeito. Segundo Sônia Thorstensen, no livro "Incestualidade", existem interações profundas entre o feto e a mãe. O bebê, na dimensão intrauterina, consegue discernir a voz da genitora; a posição em que ele e ela se encontram; os odores próprios dela, mas também outros cheiros (perfume, tabaco, etc.). Quando a criança vem a lume, ela reencontrará estes odores nos cabelos, pescoço, seios e em outras partes do corpo da mãe. Sabe-se que em poucas horas de contato visual aproximado, o bebê logra memorizar o rosto da mãe ou de quem desempenha a função materna. Irrompe, portanto, uma relação de muita estreiteza subjetiva, que tem seu viés sexual. O bebê, além de acolhimento, sente prazer com a genitora. Tal erogeneidade precisa ser recalcada para que esta possa renascer em outro contexto da vida emocional daquele ser. Quem fomenta este recalcamento é o pai. É ele que separa, do ponto de vista da sexualidade não-genital, a criança da mãe. Se não há um pai para realizar a função de castração, esta operação subjetiva fica comprometida e poder gerar vários sintomas. Mais ainda: o sujeito vitimado por uma "incestualidade aprisionadora" desenvolve uma dependência emocional da mãe, que lhe impede de buscar objetos (sexuais ou não) exogamicamente. Registre-se que a função paterna não precisa ser exercida necessariamente por um indivíduo do gênero masculino. De qualquer maneira - atentando para o fulcro da pergunta -, a ausência paterna pode sim fazer com que uma pessoa desenvolva uma dependência afetiva em relação a um homem, podendo ser um avô, um tio, um amigo, mas também um namorado ou marido. Duas considerações: i) nem toda incestualidade, ou seja, simbiose entre mãe e bebê é aprisionadora; há uma relação incestual necessária entre a criança e sua genitora; ii) função paterna não deve ser vista pela lógica machista ou falocrata segundo a qual a mulher deve se subordinar ao homem; um dos principais desafios do psicanalista é mostrar para o senso comum que a teoria dos gêneros não é, epistemologicamente falando, o mesmo que psicanálise. Tal confusão faz com que haja um discurso frágil que vê o conhecimento psicanalítico como refém de uma perspectiva androcêntrica, portanto, incapaz de ajudar clinicamente o público feminino, homossexual, transsexual, et. al.. Ainda em relação à indagação, julgo incontornável que falantes que não puderam contar com a presença do pai procurem um profissional da psicanálise. Através de um bom manejo, ele saberá fazer com que o analisante produza uma "escrita" no sentido de perceber as implicações da falta do pai e como lidar com ela.
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O TDAH desde criança com 5 anos pode ter desencadeado a Fibromialgia? Depressão Recorrente, e ansied
O TDAH desde criança com 5 anos pode ter desencadeado a Fibromialgia? Depressão Recorrente, e ansiedade generalizada?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
é preciso um olhar mais crítico sobre o TDAH. Leon Eisenberg, médico psiquiatra estadunidense, descreveu a enfermidade em 1960. Para ele, tratava-se de uma 'reação hipercinética da infância'. Os principais sintomas seriam: hiperatividade, desatenção e impulsividade. No Brasil, entretanto, o TDAH foi supervalorizado, especialmente no âmbito pedagógico. Esta supervalorização abriu caminho para o consumo exagerado de Ritalina que, aliás, exige receita médica. Conforme uma investigação feita pela USP e outras instituições, em 2011, aproximadamente 75% de moços e moças nacionais que recorreram à Ritalina e medicamentos correlatos foram diagnosticados incorretamente. Mais ainda: pouco tempo antes de vir a óbito, em 2009, Eisenberg afirmou que os erros de diagnóstico em relação à patologia em tela tinham a ver com uma ênfase dada à predisposição genética às expensas dos fatores "socioambientais do transtorno". Observando mais detidamente a pergunta, é difícil colocarmos juntos fibromialgia e TDAH. A fibromialgia, como destacado acima, evoca as conversões histéricas que marcaram o nascedouro da psicanálise. Ou seja, desordenamento somático por uma questão psíquica. A ansiedade e a depressão em crianças podem estar relacionadas ao TDAH. Contudo, é fundamental não confundir uma tristeza passageira com um processo depressivo. A depressão implica em uma total paralisia da vida do sujeito; uma experiência psíquica antiquíssima em que a pulsão de morte, em muitas circunstâncias, se impõe.
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Tive um crise conversiva foi feita tomografia onde está tudo ok Minha dúvida é a partir de agora e
Tive um crise conversiva foi feita tomografia onde está tudo ok
Minha dúvida é a partir de agora eu sempre terei essa crise ?RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
a conversão histérica foi associada desde Hipócrates, na Antiguidade, às mulheres. A histeria - "sufocação da matriz" - era tida como uma enfermidade decorrente da falta de relação sexual. Tal ausência tornava a "matriz", ou seja, o útero mais leve. Esta leveza fazia o órgão feminino (reconhecido como um animal vivo) se deslocar pelo corpo da mulher. Tal esdrúxulo entendimento - aos nossos olhos - sugeria que o útero se aproximava de outros órgãos, como o fígado, comprometendo a saúde feminina. Esta era a explicação para a má respiração, salivação excessiva, alteração das órbitas oculares (muitas vezes, aliás, a histeria foi confundida com crises epiléticas). No século XIX, dr. Charcot criticou tais análises superficiais e agressivas que apregoavam a retirada do útero. Observando de perto seus pacientes, ele percebeu pelo menos duas coisas: i) a doença não tinha a ver com a tese da mobilidade do útero; ii) não se tratava de uma afecção circunscrita ao público feminino. No seu caso, é preciso notar os condicionantes de sua constituição psíquica que estimularam a conversão. A partir daí ficará mais fácil perceber a possibilidade de novas crises ou não. Procure um psicanalista que possa lhe acolher e criar meios para que as tramas de seu inconsciente se revelem.
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Meu marido meu contou hoje que me traiu disse que foi uma vez só, mais eu não sei oque fazer sobre i
Meu marido meu contou hoje que me traiu disse que foi uma vez só, mais eu não sei oque fazer sobre isso , temos um filho de 5 anos e estou sem saber como agir ,oque fazer?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Caríssima,
saúde e paz,
perguntas: por que seu marido confessou uma traição? O que - conscientemente ou não - ele desejava com este ato? Vou fazer algumas considerações. Seu caso não tem a ver provavelmente com angústia. A angústia - em certa leitura freudiana - não tem objeto. Ou seja, é um desconforto que não sabemos de onde vem (diferente do medo que, em geral, tem um rosto). Sua desorganização emocional guarda relação com a "traição". É preciso remover o manto de moralidade que envolve relacionamentos extra-conjugais. Evidentemente, isso não é fácil. Fomos forjados psiquicamente em uma cultura cristã em que o adultério traz em seu bojo uma carga muito pesada. Você tem uma história com seu parceiro; história esta que envolve uma criança de cinco anos. Sugiro que você consulte uma psicanalista para entender qual o "estrago" provocado por tal infidelidade. E mais: se é possível vocês seguirem juntos ou não. Concretamente, este adultério pode significar o fim da relação. Por outro lado, pode consolidar seu casamento. Pode mostrar que, de fato, os envolvidos não desejam se afastar. Cuidado para que sintomas como raiva, medo, tristeza e outros, não atravessem sua postura em relação a seu marido. É provável que irrompa um quadro sintomatológico diante da confissão de seu cônjuge. Ao mesmo tempo que a dimensão sintomatológica é necessária para que você sobreviva ao trauma, ela pode dificultar suas escolhas futuras. Nesse momento, o mais importante é você recorrer a um profissional. Em muitas circunstâncias, não conseguimos lidar com esta situação sem um acompanhamento clínico. Em tempo: nada está perdido. Você não está fadada a sentir esta dor para sempre.
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Olá , sou gay e casado com um cara maravilhoso , amoroso , que me ama muito e sempre transparece iss
Olá , sou gay e casado com um cara maravilhoso , amoroso , que me ama muito e sempre transparece isso , mas a pouco tempo descobri que meu namorado prefere assistir porno hetero , ele me explicou , eu tentei entender , mas minha cabeça ainda ficou meio confusa , e eu meio que não consegui aceitar isso !
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
há certa mostruosidade no outro - como nos conta Slavoj Zizek - em "Como ler Lacan". O outro (amemos ou odiemos) não está sob nosso "controle". Têm cosmovisões, desejos, projetos que, muitas vezes, não nos envolvem; nos escapam. Daí é "natural" um certo estranhamento quando a fantasia do parceiro aparentemente está em contradição com o gênero. Vou lembrar aqui o que já respondi em outras oportunidades. Para Lacan - um dos principais difusores da psicanálise - "não há relação sexual". No encontro carnal, sequestramos momentaneamente o corpo do outro para que em nome da fantasia seja possivel o gozo. Não há completude aí. Por que? Porque nós, falantes, somos marcados pela falta, pela divisão, pela clivagem, pelo furo. Didaticamente: no sexo é cada um com a sua bola. Esta é a fantasia (ou fantasma, como preferia Lacan). Isto não significa dizer que não não haja atração ou amor pelo parceiro ou parceira. A pergunta que você deve fazer é: qual o real motivo do incômodo com a fantasia alheia? O que tal mal-estar oculta? A resposta para esta indagação exige uma travessia analítica, ou seja, um tratamento com um profissional gabaritado. Provavelmente, há algo na sua constituição psíquica que estimula esta desorganização emocional. Observe que poderia ser um desconforto passageiro. Contudo, você sublinha peremptoriamente uma "não-aceitação". Por que?
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Uma pessoa narcisista consegue gostar de alguém de verdade, tipo uma mãe narcisista ela consegue rea
Uma pessoa narcisista consegue gostar de alguém de verdade, tipo uma mãe narcisista ela consegue realmente amar um filho, ou não, ela sempre o fará sofrer ?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
o conceito de narcisismo foi mobilizado por Freud, na construção do saber psicanalítico, no começo de século XX. Depois foi aprimorado por outros especialistas: Melaine Klein, Donald Winnicott, entre outros. É fundamental percebermos a dessemelhança entre o comportamento narcísico e o narcisismo patológico. Este pode se traduzir, como foi dito acima, em uma Perturbação de Personalidade Narcísica (PPN). A mãe - ou a figura social que cumpre esta função - desempenha um papel nevrálgico em nossa vida psíquica. É ela que nos retira do desamparo ao nascermos. É a primeira pessoa a nos acolher. Diga-se, aliás, que inicialmente o bebê não sabe que ele e a mãe são seres distintos. Contudo, algumas mães manipulam, fazem chantagem emocional, assediam moralmente, quando não agridem fisicamente os filhos. Tal postura impede que o descendente tenha independência e autonomia. Assim, ele torna-se vítima de um sequestro emocional permanente, tendo grandes chances de se transformar em um adulto infantilizado e inseguro. Certa feita, provocativamente, Jacques Lacan disse que lidar com o desejo da mãe era como estar na boca de um crocodilo. Deve-se ter muito cuidado para não satanizar a mãe narcisista. Ela, não raras vezes, ignora o fato de que o drama que sustenta seu discurso é uma forma de aprisionamento do filho. Isso não que dizer que a progenitora não ame seu rebento. Mas como evitar o sofrimento? Fazendo análise. A travessia analítica estimula a montagem de diques emocionais que conterão a incidência da dramaticidade materna sobre o ser/espírito dos filhos. Sem tais "diques" o binômio alienação e padecimento psicológico continuarão a existir. E mais: o prosseguimento da alienação, por exemplo, cria maridos que não têm a capacidade de escolher a sua própria cueca ou meia sem a intervenção da esposa (simbolicamente uma nova mãe). Ou seja, companheiros psiquicamente mutilados, sem proatividade para enfrentar os desafios do mundo.
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É normal demorar quase 1 mês pra se adaptar a um novo hábito? Parece ser tão mais fácil pra outras p
É normal demorar quase 1 mês pra se adaptar a um novo hábito? Parece ser tão mais fácil pra outras pessoas
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
O que é um hábito? Há, pelo menos, dois sentidos para o termo: primeiro, regras sócio-culturais inscritas na tradição, mas que contém algum nível de reinvenção. Esta é inescapável pois não existe uma "essência" que sirva de substrato do costume. Hábitos mudam com o tempo. É possível o irrompimento de novos costumes; no entanto, tal insurgência implica em um corte espaço-temporal provocado por algum fenômeno. Vamos a alguns exemplos: o advento de novas tecnologias (microeletrônica, quatro G, internet das coisas); desastres naturais; o aparecimento de quadras epidêmicas ou pandêmicas (basta lembrarmos dos efeitos da Covid sobre nossas vidas e cotidiano). Segundo, hábitos têm a ver com as formas pelas quais nos comportamos. Isso dialoga com a adoção de práticas culturais e/ou religiosas. Nas duas vertentes aqui apresentadas, lidaremos com as habitualidades a partir do Outro (grande outro) que nos governa. O Outro - na terminologia lacaniana - é formado por discursos e enunciados de pessoas importantes que ajudaram a forjar nossa constituição subjetiva. Ele igualmente é formado pela cultura, incluindo-se aí a organização familiar. Objetivamente: quero dizer que a demora ou não em assimilar um hábito está umbilicalmente relacionada a nosso inconsciente. Quanto mais nos conhecermos - através da terapia psicanalítica -, mais saberemos quais os elementos que favorecem ou dificultam a apreensão de um novo costume. Se esta for sua questão, procure um clínico da escuta para lhe ajudar.
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Por que me estresso com tanta facilidade? Detesto me estressar, me sinto muito mal. Contudo, sempr
Por que me estresso com tanta facilidade?
Detesto me estressar, me sinto muito mal. Contudo, sempre me irritei muito fácil, principalmente com a minha mãe - que é maravilhosa. Fico tão triste por não conseguir mudar...RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
cólera, raiva, estresse... No seminário da "Angústia", Jacques Lacan, com seu estilo provocador, dispara: "A cólera [...] é o que acontece nos sujeitos quando os pininhos não entram nos buraquinhos". Na sequência, dá uma pista: "Que quer dizer isso? É quando no nível do Outro (grande outro), do significante [...], não se joga o jogo". O leitor não-especialista pode se perguntar sobre o significado do Outro. Este é um arquivo com falas e dizeres das pessoas próximas a nós que ajudaram a formar nossa constituição subjetiva mesmo antes de virmos ao mundo. Ou seja, desde quando estávamos na barriga da mãe. O Outro também é formado pela cultura - no sentido mais amplo - onde o sujeito nasceu e entrou em contato com a linguagem. O Outro igualmente é um "tesouro de significantes". Noutras palavras, Ele é formado por termos e sons que são caros a nosso inconsciente. Em última instância, que determinam este. "Jogar o jogo" - em uma leitura possível - é se desalienar diante dos nossos significantes. É saber quais são nossos sintomas e como lidar com eles (raiva, tristeza, insônia, compulsões, entre outros). A desalienação só é possível através da terapia. Trata-se de uma experiência - na falta de uma palavra melhor - de autoconhecimento. Feito este preâmbulo, creio que posso entrar mais detidamente em seu caso. Você não está fadado/a a seguir com esta irritabilidade em relação a sua mãe. A terapia psicanalítica pode lhe dar caminhos para superar isso. Lembre-se, porém, que a irritação é um quadro sintomatológico ou um tipo de gozo que cria condições para que você siga vivendo. Nesse sentido, remover ou eclipsar o sintoma não é uma tarefa simplória. A agressão verbal pode ser muito prazerosa a quem agride. Assim, nem todo ser humano está disposto a abdicar dessa gratificação. O fundamental é você se colocar a seguinte questão: por que - embora maravilhosa - minha mãe se transformou inconscientemente em objeto de minha raiva?
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É normal se apaixonar por personagens fictícios? Embora eu já tenha gostado de pessoas reais, desde
É normal se apaixonar por personagens fictícios? Embora eu já tenha gostado de pessoas reais, desde muito nova eu costumo me apaixonar por personagens de animes ou pessoas famosas. A verdade é que não consigo me imaginar amando uma pessoa real, eu só tenho vontade de viver um amor intenso e verdadeiro com personagens fictícios (geralmente desenhos). Isso é loucura?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
minha experiência clínica sugere que não é tão incomum falantes que se fixem principalmente em figuras virtuais. Há casos de pessoas que recorrem aos games e seus avatares (entre seis e doze horas por dia). A captura pela cena virtual assume tal proporção que o sujeito se desinteressa pelo mundo real e passa a ter um gozo intenso em experienciar a virtualidade. Quando isso acontece é possível o desenvolvimento de um "duplo", ou seja, a energia libidinal investida no personagem leva o sujeito a um atravessamento segundo o qual ele ou ela deixa de se distinguir em relação ao personagem ficcional. Dito de outra maneira: o falante passa a viver como se fizesse parte de um desenho ou game, confundindo-se com o próprio personagem. A mesma lógica pode irromper em pessoas que apresentam uma compulsão no que diz respeito à pornografia hentai. Analisando mais detidamente seu caso, desde Platão sabemos que o ser humano se nutre da ilusão de obter a completude a partir do encontro com o outro. Para Lacan, tal ideia de complementaridade é uma fábula, pois os sujeitos são barrados, divididos, cindidos. Nesse sentido, um enlaçamento com um parceiro ou parceira jamais preencherá esta falta. Haverá - em termos lacanianos - sempre um mais de gozar, isto é, uma sobra, um resto, que é irrecuperável. O investimento libidinal em uma pessoa real (objeto erótico inscrito no tecido social) pode trazer consigo muito sofrimento, visto que não temos controle sobre o outro. Assim, o inconsciente pode realizar manobras criativas segundo as quais a pulsão é deslocada para objetos virtuais. E tal fixação - umbilicalmente ligada à fantasia que dá sustentação ao desejo do sujeito - pode gerar cotas generosas de satisfação. Talvez, seja o que acontece com você. Não tenho, contudo, como traçar um diagnóstico, pois você não é minha analisante. Mas algumas questões podem ser colocadas: por que você performa emocionalmente ligando-se a objetos irreais? O que em sua formação subjetiva criou condições para que seu gozo tivesse este direcionamento? Será que você jamais amará uma pessoa real? Do ponto de vista da vinculação libidinal, há diferença para seu inconsciente entre a fixação em pessoas famosas e desenhos? Estas e outras indagações só podem ser respondidas através da análise pessoal. Procure um profissional competente que engendre meios para que você consiga se conhecer melhor. Ou seja, vivenciar um processo de desalienação. É um caminho longo a percorrer, mas há grandes chances de - no final da estrada - você alcançar uma melhor compreensão de seus desejos e sintomas. Nesse estágio você entenderá qual o seu lugar no que Jacques Lacan chamou de "espetáculo do mundo".
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Frequentemente tenho a sensação de que todos estão apaixonados por mim. É quase inevitável chegar em
Frequentemente tenho a sensação de que todos estão apaixonados por mim. É quase inevitável chegar em um local e não pensar que as pessoas estão me olhando e se apaixonando, ou que as indiretas românticas de algum conhecido são para mim. Não consigo entender... por que isso acontece?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
Antônio Quinet, importante psicanalista brasileiro, escreveu a obra: "Um olhar a mais - ver e ser visto na psicanálise". O autor sugere que a psicanálise rompeu com a tradição filosófica que ignorou a separação entre visão e olhar. Descartes foi a grande expressão desta tradição. Para a filosofia, o atributo visual pertence ao sujeito. Trata-se de uma faculdade noética, ou seja, intelectiva, que possibilita o falante "ver e compreender o mundo". O olhar psicanalítico, mais especificamente lacaniano, é outra coisa. Ele é tido como um objeto, portanto, separado do sujeito. Não é, contudo, um objeto passivo. Na verdade, é um objeto causador de desejo. Jacques Lacan o denominou objeto a. Registre-se que este não está inscrito no mundo sensível ou concreto. Porém, tal objeto nos afeta. Quando conhecemos alguém pode haver na pessoa algo que nos fisgue, que nos capture, e não apenas pelo olhar. Ainda que não possamos ver o objeto a, ele está lá. Nesse sentido, é uma presença-ausente. Em uma sociedade do espetáculo (ou escópica, como prefere Quinet) a captura pelo olhar do outro torna-se ainda mais recorrente. Vídeos, imagens, selfs, assumiram uma dimensão ubíqua. Noutras palavras, estão por toda parte. O resultado é a implosão da vida privada e a deflagração de gatilhos para a ansiedade e a depressão. Mas este aparentemente não é seu caso. Passo a ele com mais vagar. Uma hipótese é que você apresente erotomania ou síndrome de Clérambault. Na erotomania o sujeito é tomado por uma fantasia segundo a qual acredita que outra pessoa está apaixonada por ele. A tendência é que ilusoriamente se fixe neste pensamento. Importante: trata-se de uma hipótese, não um diagnóstico. Apenas o trabalho analítico criará condições para que o psicanalista observe a factibilidade desta hipótese. Lembremos que este profissional trabalha com a escuta, mas também interpreta como reconhece o próprio Lacan. Alternativamente, pode ser que a análise revele que você apresenta um hipernarcisismo em função de um marcador constituinte de sua formação subjetiva. De qualquer maneira, penso que no seu caso o trabalho clínico é incontornável.
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Estou em um relacionamento a 3 meses e ela me pediu relacionamento aberto, não entendo como uma pess
Estou em um relacionamento a 3 meses e ela me pediu relacionamento aberto, não entendo como uma pessoa que diz que gosta de mim quer ficar com outras pessoas, principalmente na fase inicial do “namoro”!
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
Platão, importante filósofo da Antiguidade Ocidental, tematizou o amor em um pequeno livro denominado "O banquete". Nele, em uma festa os convidados tecem considerações sobre Eros, deus do amor. O ponto alto do encontro festivo é quando aristófanes (comediógrafo) toma a palavra. Ele diz que no começo da humanidade os seres humanos eram marcados pela completude. Tinham quatro pernas e quatro braços, além das duas cabeças. Tal estrutura favorecia o deslocamento deles. Contudo, os homens desafiaram os deuses. Julgaram que deviam subir aos céus e tomar o lugar das deidades. Porém, os entes humanos perderam a batalha. A vitória das divindades não aplacou a ira de Zeus, que decidiu se vingar. Zeus, com sua espada, dividiu os homens ao meio. Ele pediu que Apolo cicatrizasse o ferimento (o indício de tal cicatrização seria o umbigo). Os seres humanos quedaram na Terra já divididos. Sofrendo com a saudade, eles passaram a procurar sua parte faltante, pois sem sua "metade" não conseguiriam continuar suas vidas. Através da obra platônica, nasceu o mito da "Alma Gêmea". Jaques Lacan - o principal comentador da obra de Freud - critica o mito. Para o psicanalista francês, os homens já nasceram divididos, barrados, dotados de uma clivagem. Há um Outro (grande outro) que nos habita. Ou seja, o discurso do inconsciente. Este, no entanto, não é o ponto fundamental da minha abordagem. Quero registrar apenas que fomos forjados em uma cultura que nos leva a acreditar que estamos destinados a encontrar nossa "alma gêmea" ("a metade da laranja") que irá nos completar e nos amar para o todo e sempre. Tal codificação cultural foi sobreposta pela moral burguesa do século XIX - este assunto foi exaustivamente estudado por Peter Gay. O avanço do capitalismo trouxe consigo um novo padrão de moralidade, segundo o qual o homem deveria prover os bens do sistema capitalista à esposa e aos filhos. O papel dela seria se manter intocada e pura até o casamento - um nítido atravessamento cristão. Após o matrimônio, era esperado que ela desse filhos ao marido; fosse subserviente a ele e tomasse conta do espaço doméstico. A mulher Oitocentista era vista como um ser infantil e subserviente que precisava (na ausência do pai) de um marido que lhe guiasse os caminhos. Embora a relação entre os gêneros tenha mudado bastante com o decorrer do tempo, homens e mulheres ainda são influenciados - ainda que não unilateralmente - por estas duas tradições. Todavia, vivemos a era do "amor líquido", como destacou brilhantemente o sociólogo polonês Baumann. As relações fazem e se desfazem com rapidez. Os contratos amorosos são mais flexíveis. O poliamor tornou-se uma realidade. O casamento - a despeito de ser uma instituição ainda valorizadíssima - tornou-se menos engessado e pode apresentar um formato pluridiverso. Os relacionamentos tornaram-se descartáveis como produtos capitalistas já amplamente usados. O problema fundamental - e aqui que entra seu caso - é que nossa subjetividade tem tido dificuldades em assimilar tais mudanças. Daí o padecimento de muitos. A pergunta que você deve fazer não é por que sua namorada age dessa maneira. A indagação deve ser outra: quero um relacionamento assim? Encontrarei gratificação/prazer (emocional e sexual) dessa forma? Quais são verdadeiramente os meus desejos? Para enfrentar estas questões difíceis (e sair da alienação) é preciso fazer terapia. Com um profissional hábil, no setting analítico, você terá grandes oportunidades de compreender como seu inconsciente foi forjado e como ter uma vida plena e feliz. Sem obviamente, recair no pensamento mágico segundo o qual tudo sempre dará certo. Você reconhecerá seus sintomas e saberá como lidar com eles. E o mais importante: como enfrentar as contingências da vida. Para alcançar este patamar precisa se implicar realmente no processo analítico; frequentar semanalmente as sessões; encarar dúvidas, hesitações, traumas pregressos, etc.. Julgo que provavelmente sairá deste processo com outra perspectiva e que encontrará seu lugar no mundo. É o que a experiência clínica e teórica tem mostrado em inúmeros casos.
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Tenho 57 anos, a mais ou menos dois anos atrás, meu desempenho foi caindo gradativamente, e hoje alé
Tenho 57 anos, a mais ou menos dois anos atrás, meu desempenho foi caindo gradativamente, e hoje além de ter uma dificuldade de ereção, quando minha mulher muda de posição, principalmente por cima não consigo manter a ereção, ela vem ficando cada vez mais nervosa, e quando chego perto dela meu coração dispara fico super ansioso e co medo dela ficar chateada e não consigo manter a ereção. Já fiz vários exames e nenhum apontou qualquer irregularidade, faço uso do Tadalafila 20 e não esta tendo resultado satisfatório, e estou em baixa estima, me sentindo um dos piores homens.
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Caríssimo,
saúde e paz,
somos herdeiros de uma modernidade Oitocentista que definiu papéis muito claros para homens e mulheres. Ainda que no tempo presente haja núcleos familiares e posições de gênero bastante diversificadas, há um imaginário remanescente segundo o qual o homem deve ser provedor. Ou seja, ele deve disponibilizar os bens do capitalismo à esposa e filhos. Ademais, deve proteger a família. Além disso, se espera que o homem seja o conquistador e que performe como um "macho" disponível para o sexo. Daí todo um simbolismo inscrito na cultura em torno do tamanho do pênis. Não é casual o fato de Júlio César, famoso guerreiro romano da Antiguidade, após vencer as tropas de Pompeu Magno, ter entrado em Roma ovacionado pelo povo com um pênis ereto gigante. O monumento peniano simbolizava não apenas sua macheza, mas seu vigor militar, suas conquistas. Com isso quero dizer que o homem se cobra e é cobrado para estar sempre pronto para ter uma ereção. Na Idade Moderna, esposas procuravam a Justiça Real para se livrarem de maridos que não conseguiam manter o pênis erétil. Eles não estariam cumprindo suas funções maritais, portanto, não geravam filhos. Donde o desejo de muitas de invalidar o casamento. Pierre Darmon escreveu um livro interessantíssimo sobre o assunto denominado "Tribunal da Impotência". Mais objetivamente, remédios como Cialis e Viagra funcionam precariamente se o sujeito não tiver estabilidade emocional e desejo. Converse com sua esposa. É natural o nervosismo dela porque provavelmente se sente culpada pelo quadro. É comum uma fantasia segundo a qual não é mais atraente como antes. Há casos em que o marido, emocionalmente desorganizado culpabiliza a companheira e vice-versa. Sugiro que procure um analista competente o quanto antes. O trabalho analítico (acompanhado ou não de um estimulante sexual) fará você lidar melhor com este sintoma até removê-lo. Criará condições para que entenda o que na sua subjetividade está prejudicando sua performance sexual. Há muitas perguntas no seu caso: qual o significado da "mudança de posição" para seu inconsciente? Por que ela "por cima" favorece a disfunção erétil. Há um Outro (grande outro) que nos habita - como diz Lacan - que está atuando aí. O motivo disto você saberá através da psicanálise. Não se sinta o pior dos homens. Para além do caráter crônico que seu caso sugere, homens broxam em maior ou menor grau, exceção aos sexualmente inativos e aos mentirosos.
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Não tenho mais vontade de fazer sexo com o meu namorado? Ele me traiu, me mentiu várias vezes e m
Não tenho mais vontade de fazer sexo com o meu namorado?
Ele me traiu, me mentiu várias vezes e me mostrou que não sou muito importante na vida dele. Mas mesmo depois disso eu decidi dar uma chance, e ele me prometeu mudar por nós.
Mas eu não consigo transar com ele, eu sinto muito vontade, mas na hora do vamos ver eu não consigo, acabo sempre chorando e lembrando de todo o mau que ele já me fez.RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Em "Divórcio", romance de Ricardo Lísias, o narrador fala de seu sofrimento ao se separar da esposa (antes da ruptura ele descobriu um diário em que a cônjuge tecia considerações pejorativas sobre sua personalidade). Em um dado momento, o protagonista desce pelas escadas do metrô e se pergunta algo parecido com as palavras que seguem: "como as pessoas estão tocando suas vidas? Como seguem alheias a minha dor? Estou ficando invisível". Cada dor é caracterizada por sua singularidade, sua idiossincrasia. Ninguém será capaz de saber realmente - caso se interessem - a intensidade de seu padecimento. Ou, alternativamente, o quão seu sofrimento lhe machuca psiquicamente. Concordemos, em princípio, com a afirmação de Lacan de que a "relação sexual não existe". No sexo, sequestramos momentaneamente o corpo do outro para que possamos gozar apoiados em nossa fantasia. Lacan vai por esse caminho por acreditar que os sujeitos são barrados, divididos, marcados, portanto, por clivagens emocionais. Por isso mesmo, na avaliação do psicanalista francês, o sexo não poderia gerar qualquer tipo de completude. Pergunto: como mobilizar a fantasia (que estimula o maquinário sexual) em meio a um processo de desorganização psicológica como o seu? Aprofundando a análise. Para Lacan, o amor é "dar o que não se tem". Noutros vocábulos, procuramos no outro - inscrito no tecido social como nós - o que não temos. Indago: como amar uma pessoa que traiu nossa confiança? Para resolver tais questões, você precisará de terapia com um profissional competente. Percebo que você não sabe o que fazer com o sentimento que ainda nutre por seu namorado. O desembaraçamento psíquico será possível com a prática terapêutica baseada na transferência do analisante em relação ao analista. Por meio da associação livre, você perceberá como lidar com tal situação amorosa e com outras se porventura vierem a surgir.
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A pornografia pode gerar algum tipo de problema psicológico? Tipo TOC e TDAH?
A pornografia pode gerar algum tipo de problema psicológico? Tipo TOC e TDAH?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Jacques Lacan, um dos maiores difusores da teoria freudiana, afirmou polemicamente que a relação sexual não existe. Para o psicanalista francês, o sujeito é dividido, barrado. Ou seja, é multifacetado. Um dos exemplos mais emblemáticos desta divisão radica-se no fato de que somos formados e informados pelos Outro (grande outro). Este seria o discurso acerca do inconsciente. Noutras palavras, os significantes que nos formaram a partir da cultura, família e das experiências que constituíram nossa subjetividade. Como somos marcados pela clivagem não poderia ser possível qualquer tipo de completude no encontro sexual. Lacan desprezaria a frase de Eduardo Galeano: "eles são dois por acaso, a noite corrige". A noite não corrige nada. Na ótica lacaniana, a partir do nosso fantasma ou fantasia, sequestramos o corpo do outro por alguns momentos e buscamos por meio dele o gozo, a gratificação. Tal encontro - ou desencontro - não é simples. Temos que lhe dar com o horror do corpo do outro, que desejamos mas ao mesmo tempo tememos. A depender de traumas pregressos e manifestações de desorganização emocional, podemos ter dificuldades no sexo (ejaculação precoce, disfunção erétil, ausência de orgasmo e lubrificação). Diante de tais dificuldades, a pornografia tornou-se um recurso gozante para muitas pessoas. Registre-se que a pornografia traz em seu bojo o que Lacan chamou de discurso capitalista. Os indivíduos entram nos sites pornográficos como se entrassem em um shopping center. Eles escolhem o tipo de corpo (branco, preto, oriental, hentai). Selecionam a modalidade (sexo oral, anal, dupla penetração, gang bang). O corte po gênero (homossexual, bissexual, transsexual, heterossexual). Na sequência consomem o vídeo parcialmente. Procuram outro filmezinho, outro, e mais um, e assim sucessivamente. Impõe-se a compulsão à repetição até se alcançar o gozo. Há uma alívio momentâneo até o recrudescimento do desejo. É possível exercer a sexualidade desta forma. O problema é quando, tomado pela compulsão, o sujeito paralisa a vida para permanecer horas em frente ao computador, tocando-se nas partes erógenas. Há casos de falantes que se desinteressam pelo sexo real por estarem fixados no material pornográfico. Respondendo mais objetivamente: a pornografia pode estimular a sexualidade, mas igualmente pode ser uma fonte de desordenamento psíquico. Porém, é improvável que o Toc e o Tdah sejam decorrentes dela. Ambos estão associados à construção do psiquismo dos sujeitos, portanto, a elementos mais psicanaliticamente subterrâneos.
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Pq pessoas que tem TOC tem a mania de organização? Pode ocorrer da pessoa ter TOC e não ter essa coi
Pq pessoas que tem TOC tem a mania de organização? Pode ocorrer da pessoa ter TOC e não ter essa coisa de organização exagerada? Ou a pessoa quando tem TOC ela sempre vai ter isso
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
o TOC é a expressão moderna para o que no passado foi chamado por Freud de "neurose obsessiva". A nova categorização obedece a um enquadramento capitalista, visto que o sujeito do desejo foi transformado, como registrou Maria Anita Carneiro Ribeiro, em "consumidor passivo" - para a alegria dos que investem na produção laboratorial. A neurose obsessiva foi uma invenção freudiana. O termo aparece no texto de 1896: "a hereditariedade e a etiologia das neuroses". Antes da intervenção do médico da Bergasse dezenove, a neurose obsessiva era tida como um tipo de "mania" que era associada às psicoses. Como destaca Ribeiro, foi classificada de várias formas: "loucura da dúvida", "monomania de raciocínio" ou "patologia da inteligência". Segundo a Classificação Internacional das Doenças, "o TOC é um transtorno caracterizado por ideias obsessivas ou por comportamentos compulsivos recorrentes. As ideias obsessivas são pensamentos, representações ou impulsos que se intrometem na consciência do sujeito de modo repetitivo e estereotipado". O TOC apresenta gradações. As pessoas com tal desordenamento psíquico explicitam níveis distintos de comprometimento que tem a ver com sua constituição subjetiva e os problemas subjacentes a ela. A afecção pode se manifestar, por exemplo, como uma mania de limpeza ou uma preocupação exagerada com a arrumação das roupas no armário. A experiência clínica sugere que, em muitas circunstâncias, a "necessidade de controle" se impõe. Prescindível dizer que o "controle" traz gozo, mas também sofrimento. Em casos gravíssimos - refiro-me a pacientes com ideação suicida -, há um desejo de controlar a própria finitude. Como se deve morrer, quando, o que fazer com o cadáver, etc.. Os sujeitos que padecem com este desequilíbrio psicológico não estão fadados a permanecer assim. Os sintomas podem ser abrandados, de modo a permitir que o indivíduo tenha uma vida mais plena. Para tanto, o trabalho analítico é incontornável. Ao produzir no setting psicanalítico, uma "escrita do inconsciente", o analisante se dá conta (aos poucos) de como lidar com a sintomatologia das obsessões. Às vezes, logra compreender as razões que levaram a desenvolver os distúrbios em tela.
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Minha filha tem 3 anos, fica toda hora metendo cabelo na boca
Minha filha tem 3 anos, fica toda hora metendo cabelo na boca, como proceder?
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
a psicanálise nos ensina que nascemos no mais profundo desamparo. Somos movidos em direção ao seio da mãe (ou da pessoa responsável pelo aleitamento) para saciar a fome. Nesse sentido, o bebê é "informado" pela pulsão de conservação. Porém, ao sugar o seio materno, a criança é tomada por uma gratificação, um gozo, um prazer, que guarda relação com a pulsão sexual. Portanto, duas dimensões pulsionais agem nesse momento (anáclise). Essa foi a percepção de Freud quando a psicanálise dava seus primeiros passos (o que os especialistas chamam de a primeira tópica freudiana). Aqui há uma consideração importante: ao sentir prazer ao sugar o seio da mãe, o bebê inconscientemente quer repetir aquela experiência original. Contudo, tal experiência se perdeu para sempre. Não é passível de recuperação - mesmo que a criança sugue o peito da mãe outras vezes. Há, portanto, algo que nos escapa, um resto, uma sobra, um objeto faltante, que Jacques Lacan - continuador da obra de Freud - chamará (simplificando muito) de mais-de-gozar (ou objeto a). Uma hipótese - a partir das pouquíssimas informações sobre sua filha - é que ela esteja lidando com este objeto perdido através da sucção dos cabelos. Trata-se apenas de um esforço explicativo que encontra limites para seu desenvolvimento, pois não acompanho - do ponto de vista analítico - sua progênita. Não aconselho punição ou reprimenda, mas conversas com a menina. Esteja atenta no sentido de perceber quanto tempo durará este hábito. Estudos mostram que este costume pode passar com o tempo. Ou seja, sua pequena não está fadada a ficar para o todo e sempre com as madeixas na boca.
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Me chamo Marcos tenho 22 anos, desde da adolescência sofro do vício de masturbaçao, já fiz de tudo e
Me chamo Marcos tenho 22 anos, desde da adolescência sofro do vício de masturbaçao, já fiz de tudo e nada, me afastei de todos e perdi muitas oportunidades por conta disso, me sinto pressionado por a igreja dizer que é pecado, como consequência disso eu desisto das coisas que faço. Me dá vontade de morrer, fugir e nunca me relacionar com ninguém me ajudem
RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Marcos,
saúde e paz,
no famoso ensaio "Além do princípio do prazer", Freud destaca a compulsão à repetição em vários aspectos da vida dos seres humanos. Quando temos prazer com a masturbação ou com um parceiro/a, há algo que escapa, que sobra, que não é contemplado pela descarga libidinal. Repetimos, então, a prática (acompanhados ou não) e de novo, e de novo... Não surpreende que seja assim. Afinal, como diz Lacan, somos sujeitos marcados pela falta, psiquicamente barrados e incompletos. Mais do que isso: tentamos preencher a dimensão faltante, porém tal tentativa está fadada a fracassar. O marcador da ausência jamais é totalmente eliminado. Relevante: não há problema com a perpetração do onanismo. A masturbação torna-se, com efeito, problemática quando o ato é realizado tantas vezes que o sujeito paralisa sua vida. Não tem ânimo ou força para fazer mais nada. Não sei se é o seu caso. Há muitas lacunas em sua fala: de que pessoas você se afastou? Quais oportunidades você perdeu? Qual a relação objetiva entre a não-realização de seus projetos e a masturbação? Outra coisa muito relevante: se esforce - o quanto puder - para remover o peso da religião sobre a masturbação. Deus tem coisas mais fundamentais para fazer (acabar com a Guerra na Ucrânia, eliminar a fome nas áreas mais desfavorecidas do planeta, eliminar a Covid-19, para citar alguns exemplos) do que observar o que você faz no banheiro ou no silêncio de seu quarto. Obviamente, se foi educado em uma cultura religiosa terá muitas dificuldades em parar. Mas não desista! Procure um bom analista para te ajudar a lidar com seu "vício". Se você enfrentar a travessia da análise terá excelentes condições de superar este problema e mais: destensionado, a tendência é que a ideação suicida (o mais preocupante) perca força. E não apenas isso: a psicanálise te proporcionará uma experiência de autoconhecimento que transformará sua compulsão em algo trivial em sua vida. A terapia será crucial também em outro ponto: ela levará você (depois de anos de consulta) a compreender o motivo de seu psiquismo se fixar à masturbação. Te mostrará por que sua formação subjetiva te levou ao onanismo desenfreado. Para tanto, você precisa verdadeiramente se implicar no processo analítico; de fato, se comprometer com a terapia. Boa sorte! Que consiga sobrepujar esta questão e que tenha uma vida plena e feliz!
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Eu sempre fui um homem hetero e durante minha vida sempre me relacionei com mulheres,hoje sou casado
Eu sempre fui um homem hetero e durante minha vida sempre me relacionei com mulheres,hoje sou casado com filhos adultos,porém ultimamente,agora aos 60 anos,tenho desejos em sexo e uma relação homoafetiva.
Como pode tais desejos e mudanças de orientação sexual aflorarem depois de tantos anos?RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
sua pergunta é desafiadora e temo que não haja uma resposta peremptória. É possível dizer que Freud no livro clássico de 1905 ("Três ensaios sobre a teoria da sexualidade") afirma que nós ("os falantes", diria Lacan) acomodamos o masculino e o feminino. A sexualidade, portanto, é dinâmica e prenhe de possibilidades. Por que sua atração por homens irrompeu tardiamente? Para que você encontre uma resposta satisfatória para tal indagação necessita passar pela travessia da análise. Somente no setting analítico - com uma boa transferência junto a um profissional qualificado -, você terá sinais/indicações dos motivos que fizeram este desejo eclodir na terceira idade. Para Spinoza - como nos lembra Lacan no seminário 6 - o "desejo é a essência humana". Isso significa dizer que a desejabilidade não desaparece com o envelhecimento. O que há é uma mutação. A energia libidinal não cessa, muda. Sua intensidade, seu caráter errático e (em alguns casos) até mesmo os objetos sobre os quais ela se fixa - como no seu exemplo: da heteronormatividade à homossexualidade (ou o protagonismo da bissexualidade). A terapia lhe será útil por outra perspectiva: irá lhe ajudar a lidar com o brutal preconceito em relação aos homoafetivos. A homofobia é fonte de enorme sofrimento psíquico. O sujeito em processo de alienação (sem conhecer seus sintomas e desejos) pode se voltar destrutivamente contra seu próprio Eu. Por quê? Por não tolerar a dor engendrada pela fantasia da inadequação. Dimensão fantasmática produzida pela cultura machista (androcentrismo) e pela religião cristã. Sugiro que você - para além das dúvidas, hesitações e medos - exerça sua sexualidade da maneira plena. Obviamente, tendo o cuidado de não machucar emocionalmente o outro. Por que quando a finitude se aproximar - ainda inspirado em Jacques Lacan - uma pergunta será incontornável: "vivi conforme meu desejo?". Noutras palavras, fui protagonista da minha vida, seguindo minha estrutura desejante, ou me tolhi, me bloqueei para agradar terceiros? Para me alinhar a desejos alheios? Boa sorte e espero que encontre seu lugar no mundo.
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Namoro somente há 3 meses, mas percebi q meu namorado não fica sem beber, todo dia ele bebe no mínim
Namoro somente há 3 meses, mas percebi q meu namorado não fica sem beber, todo dia ele bebe no mínimo umas 5, 6 latinhas.
Uma vez fui falar ele disse q bebe sim todo dia e ninguém irá mudar isso nele. Ele já chegou a ir embora da minha casa pq não tinha cerveja e disse q na dele tinha.
Ele é ótima pessoa mas bebe mto e fds é pior, ele chapa de ficar até falando besteiras.
Gosto dele mas acho q seria melhor acabar por aki enquanto é cedo né? Não sei o q faço. Senão fosse isso seria perfeito pq ele é ótima pessoaRESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :
Saúde e paz,
o alcoolismo tem uma dimensão química que fisga muitos sujeitos. A compulsão por bebida alcoólica tem também uma face psíquica. O indivíduo bebe para lidar com algum tipo de falta. Lembremos que, para Jacques Lacan, as pessoas são marcadas pela incompletude ou atotalidade. Como somos sujeitos psiquicamente barrados, incompletos, atotais, procuramos preencher tal lacuna. Alguns buscam acomodar esta ausência na bebida. Contudo, trata-se de uma ilusão. O desejo não cessará. Sempre haverá um resto, uma sobra, que me levará a mais um copo, mais um e assim sucessivamente. Para tratar destas questões apenas a travessia da análise, ou seja, o tratamento com um psicanalista competente. Mas no caso que você relata seu companheiro deveria procurar atendimento. Deve partir dele. Seu desejo de que ele seja atendido não basta. Falemos um pouco de você a partir das poucas informações que disponibilizou. É importante que você faça análise para saber como lidar com esta situação. Se o vício de seu companheiro te fizer infeliz, mas mesmo assim você quiser sustentar esta relação, é preciso verificar se não há um gozo mórbido por trás de seu ato. Entendo que - tirante a bebida - seu companheiro seja uma boa pessoa, mas a felicidade a dois depende de uma experiência de autoconhecimento. Busque-a.
Perguntas frequentes
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Doente com Cardiomiopatia Hipertrófica Apical e Insuficiência Cardíaca, 68 anos, pode viajar avião?
Em muitos casos a viagem aérea é possível quando a insuficiência cardíaca…