Perguntas do paciente (24)

  • Estou passando por um casamento muito desgastado. As discussões são frequentes, há ofensas de ambos

    Estou passando por um casamento muito desgastado. As discussões são frequentes, há ofensas de ambos os lados e isso acontece, infelizmente, na frente dos nossos filhos. Percebo que isso está afetando meu bem-estar emocional.

    O que mais me angustia é que sinto muita dificuldade em conversar com minha esposa sobre os problemas, pois tenho a impressão de que ela nunca reconhece a própria participação nos conflitos. Isso me faz perder a esperança de que a relação possa melhorar.

    Também reconheço que eu erro e que, durante as discussões, acabo respondendo de forma inadequada. Hoje me sinto emocionalmente exausto, com baixa autoestima e muito confuso sobre como lidar com essa situação.

    Minha dúvida é: do ponto de vista psicológico, como saber quando um relacionamento ainda tem possibilidade de ser reconstruído e quando o desgaste já é tão grande que um afastamento temporário pode ser uma alternativa saudável para preservar a saúde emocional e o bem-estar dos filhos?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Luiz Siqueira

    Olá, Talvez você esteja preso não apenas ao casamento, mas também à esperança de que o outro reconheça sua parcela de culpa. Quando as discussões se tornam ofensas diante dos filhos, é preciso interromper esse circuito e proteger a todos. A relação pode ser reconstruída se houver responsabilidade mútua e disposição real para mudar; se isso não existe, um afastamento temporário, com apoio profissional, pode ser uma forma de preservar o vínculo e a saúde emocional.


  • Desde criança (por volta dos 4 anos), tenho uma imaginação muito ativa. Crio histórias contínuas na

    Desde criança (por volta dos 4 anos), tenho uma imaginação muito ativa. Crio histórias contínuas na minha cabeça, com personagens, acontecimentos e “episódios”, às vezes recriando minha própria vida de formas diferentes ou criando qualquer cenário que eu queira.

    Durante esses momentos costumo andar em círculos, girar objetos (quando era criança era sacola/corda, hoje é mais lápis) e fazer sons com a boca. Isso acontece quando estou entediado ou quando vejo algo que me inspira. Eu acho divertido e consigo parar quando quero, mas comecei a fazer escondido por vergonha, porque eu nunca vi ninguém fazer isso, de andar de um lado para o outro fazendo sons e girando lápis enquanto imagina…

    Além disso, desde criança tenho dificuldades como procrastinação, esquecer coisas, deixar tarefas para última hora, dificuldade em terminar atividades e começar tarefas chatas. Também tenho histórico de ansiedade/depressão e muita timidez, com medo de julgamento e dificuldade social.

    Quero entender se isso pode ter relação com alguma condição como TDAH ou outra questão, ou se é apenas meu jeito de funcionar

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Luiz Siqueira

    Olá.

    O que você descreve tem nome: capacidade alta de absorção. É a habilidade de entrar num estado mental em que a atenção fica inteiramente tomada por uma cena interna, com o mundo externo em segundo plano. O movimento — andar em círculos, girar o lápis, os sons — não é um defeito acoplado a isso. É o que sustenta o estado. O ritmo funciona como âncora, e é por isso que parar de andar costuma dissolver a cena.

    Três pontos que valem para o seu caso.

    Primeiro: você acha divertido, consegue parar quando quer e isso não invadiu sua vida. Esses três dados juntos afastam a leitura de transtorno. O que te incomoda não é o fenômeno — é a vergonha de nunca ter visto ninguém fazer igual. E é bem mais comum do que parece; as pessoas simplesmente fazem escondido, como você passou a fazer.

    Segundo: absorção alta não é sintoma de TDAH. As duas coisas podem coexistir, e no seu caso a procrastinação, o esquecimento e a dificuldade de iniciar tarefas chatas são a parte que de fato merece avaliação — separadamente. Se quiser investigar, o caminho é avaliação neuropsicológica ou psiquiátrica focada nesses pontos, não no devaneio.

    Terceiro, e o mais útil: essa capacidade é um recurso, não um problema a corrigir. É exatamente a aptidão que torna alguém responsivo a trabalho hipnótico e a técnicas de foco atencional. Bem dirigida, serve para regular ansiedade, ensaiar situações difíceis e sustentar concentração — o oposto de dispersão.

    Vinte anos escondendo algo que não precisava ser escondido pesa mais que o próprio hábito. Vale trabalhar essa parte.


  • O que seria quando você sente que vai cochilar e você cochila, só que você ainda está de olhos abert

    O que seria quando você sente que vai cochilar e você cochila, só que você ainda está de olhos abertos e você sente que você e seu corpo estão cochilando, mas os seus olhos ainda estão abertos e você consegue ver o que está na sua volta mesmo cochilando, e tem horas que você consegue fechar os olhos e dormir, só que quando você abre, você percebe que às vezes você tá acordada e ao mesmo tempo pode acabar voltando a dormir, e tem vezes que quando você quer mexer o dedo, se auto acordar ou até mesmo falar, você tem que fazer um esforço grande ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Luiz Siqueira

    Em A interpretação dos sonhos (1900), Freud diz que a imobilidade não é falha, é proteção. O mesmo mecanismo que bloqueia o movimento é o que permite sonhar sem agir — Freud chama o sonho de guardião do sono. Você está descrevendo, de dentro, o momento exato em que esse guardião entra em serviço


  • Estou a passar por uma situação que me está a causar muita angústia. Há cerca de dois anos tive uma

    Estou a passar por uma situação que me está a causar muita angústia. Há cerca de dois anos tive uma conversa por mensagens com uma pessoa que conhecia do passado, com quem tinha tido uma experiência típica da pré-adolescência, sem qualquer relação amorosa ou sentimento romântico envolvido mas que ja rolou uns beijos
    Na altura não vi nada de problemático nessa conversa. Falámos sobre assuntos normais, como estudos, amizades em comum e outros temas do dia a dia. No entanto, recentemente comecei a questionar-me sobre essa interação e a sentir muita culpa.
    O problema é que não me lembro da conversa em detalhe, apenas dos temas gerais. Por isso surgem pensamentos constantes como: 'E se eu tiver dado abertura?', 'E se houve algum flerte e eu não me lembro?', 'E se tive alguma intenção inadequada sem perceber?', 'E se fiz algo que vai contra os meus valores?'
    Já falei sobre isto com o meu parceiro e ele não ficou incomodado nem desconfiou de mim. Mesmo assim, continuo a duvidar de mim própria e a sentir necessidade de procurar a opinião de outras pessoas para ter a certeza de que não fiz nada de errado.
    Gostaria de perceber porque é que fico tão presa a estas dúvidas sobre acontecimentos passados, especialmente quando não me lembro de todos os detalhes, e porque a tranquilização dos outros parece não ser suficiente para me deixar em paz

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Luiz Siqueira

    Olá.

    Você fez a pergunta mais importante no final: por que a tranquilização dos outros não a deixa em paz.

    Porque ela não pode deixar. Repare no que sua mente pede: certeza absoluta sobre intenções de dois anos atrás, numa conversa de que você não se lembra em detalhe. Isso é inalcançável — ninguém pode fornecer essa prova. Cada tranquilização traz alívio curto, porque a dúvida não foi respondida, só adiada. E vem o próximo "e se".

    Por isso não vou dizer se você errou ou não. Não por haver qualquer indício de que errou, mas porque entrar nessa conversa como mais um a inocentá-la alimenta exatamente o que a prende. Seu parceiro já tentou e não bastou.

    O padrão é reconhecível: dúvida sobre o próprio caráter, alimentada por uma lacuna de memória, com busca repetida de reasseguramento. E o detalhe que revela o mecanismo é este — a lacuna não é o problema, é o combustível. Memórias antigas são incompletas para todo mundo; a diferença é que quase ninguém precisa preenchê-la para seguir em paz.

    Um dado que costuma passar despercebido: você sofre justamente porque agir contra seus valores seria grave para você. Quem tem intenção inadequada não passa dois anos temendo tê-la tido.

    Isso responde bem a tratamento, e a direção é clara: não é resolver a dúvida, é reduzir a necessidade de resolvê-la. O primeiro passo, desde já, é parar de perguntar a outras pessoas se você errou — é essa pergunta, não a lembrança, que mantém tudo de pé.


Perguntas frequentes

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