Quais as condições do neurodesenvolvimento se encaixam nos modelos transdiagnósticos em psiquiatria?

3 respostas
Quais as condições do neurodesenvolvimento se encaixam nos modelos transdiagnósticos em psiquiatria?
Os modelos transdiagnósticos não devem ser considerados como definitivos, mas como uma proposta (inclusive com várias críticas apontando falhas nela). Como o objetivo é justamente transdiagnóstico, não há condições específicas (caso com isto você queira dizer os diagnósticos atuais) que se encaixem. A ideia é que haveria uma traços comuns a transtornos como, por exemplo, o do espectro autista, o de déficit de atenção-hiperatividade e que se deve achar os mecanismos neurais que levam a estes traços e, com base nisto, criar tratamentos.

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Dr. Lucas Gurgel Tiso
Psiquiatra, Médico clínico geral, Médico de família
São Paulo
Olá! Essa é uma ótima pergunta e muito atual. Os modelos transdiagnósticos propõem que muitas condições compartilham mecanismos cerebrais, sintomas e fatores de risco similares. Sendo assim, de forma breve podemos considerar os seguintes:

1. Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH
Estas são as condições com maior evidência científica para abordagem transdiagnóstica. Inúmeras pesquisas na área amostram que cerca de um terço das crianças com TEA também apresenta TDAH, e ambos compartilham alterações nas mesmas redes cerebrais, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle executivo e processamento sensorial.

2. Transtornos de Aprendizagem
Aqui podemos considerar a dislexia, discalculia e disgrafia, que frequentemente se sobrepõem e compartilham déficits em funções como memória de trabalho e atenção, independentemente do diagnóstico específico.

3. Transtorno de Coordenação do Desenvolvimento
Problemas motores aparecem em diversos transtornos do neurodesenvolvimento de forma similar, sugerindo mecanismos neurológicos compartilhados.

4. Transtornos de Comunicação e Processamento Sensorial
Dificuldades na comunicação social e no processamento de estímulos sensoriais atravessam múltiplas condições do neurodesenvolvimento.

Outras informações epidemiológicas relevantes para análise clínica:
- Por volta de 80% dos adultos com TEA somente apresentam pelo menos uma condição psiquiátrica comórbida: em torno de 60% apresentam depressão, e 55% ansiedade;
- Pacientes que apresentam TEA e TDAH apresentam maiores taxas de ansiedade, chegando a 70% dos pacientes, enquanto a depressão acomete um terço;
- Carga genética relevante: algo em torno de um terço dos irmãos de crianças com TEA desenvolvem algum transtorno psiquiátrico ou do neurodesenvolvimento.

Esse conhecimento é fundamental para abordagem de saúde mental atualizada, com visão abrangente e familiar. Além disso, permite ao psiquiatra atuar com mais precisão no cuidado aos pacientes. Busque seu médico de confiança para aprofundar a discussão.
Nos modelos transdiagnósticos, as condições do neurodesenvolvimento não são vistas como “caixinhas separadas”, mas como conjuntos de dimensões alteradas:
• Atenção/Controle cognitivo → TDAH, TEA, transtornos de aprendizagem.
• Processamento social → TEA, mutismo seletivo, ansiedade social.
• Regulação emocional/impulsividade → TDAH, TEA, TOD, transtornos de conduta.
• Função motora → dispraxia, TEA, TDAH.

Esses modelos ajudam a entender por que há altas taxas de comorbidade e permitem tratamentos que focam em processos-alvo, não só em rótulos diagnósticos.

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