Artigos 15 abril 2026

Ginecomastia: Por que as glândulas mamárias masculinas crescem?

Equipe Doctoralia
Equipe Doctoralia

A compreensão das alterações corporais masculinas é um passo fundamental para a manutenção da saúde e do bem-estar, o que inclui o cuidado com a testosterona e a saúde masculina. Entre essas condições, o aumento das mamas em homens, conhecido tecnicamente como ginecomastia, destaca-se como uma das queixas mais frequentes em consultórios de mastologia, endocrinologia e cirurgia plástica. Embora muitas vezes associada a desconforto estético ou constrangimento social, essa condição possui raízes biológicas profundas e variadas, exigindo uma abordagem clínica cuidadosa para identificar suas origens e determinar a conduta terapêutica mais adequada.

Este guia tem como objetivo fornecer informações detalhadas sobre a ginecomastia, explorando desde os mecanismos hormonais que desencadeiam o crescimento do tecido mamário até as inovações tecnológicas disponíveis para o seu tratamento. Através de uma perspectiva baseada em evidências, busca-se esclarecer dúvidas comuns e orientar sobre a importância de um acompanhamento profissional qualificado.

O que é ginecomastia

A ginecomastia é definida clinicamente como o aumento benigno do tecido glandular mamário em indivíduos do sexo masculino. É fundamental distinguir essa condição do simples acúmulo de gordura na região peitoral, uma vez que a ginecomastia envolve a proliferação real das glândulas mamárias. O mecanismo fisiopatológico central reside no desequilíbrio entre a ação dos hormônios estrogênio e testosterona.

Em condições normais, os homens produzem pequenas quantidades de estrogênio, mas a predominância da testosterona inibe o desenvolvimento das glândulas mamárias. Quando ocorre uma alteração nessa proporção — seja pelo aumento do estrogênio, pela diminuição da testosterona ou pela redução da sensibilidade dos tecidos aos andrógenos — o tecido glandular pode se expandir. Essa proliferação pode ocorrer de forma unilateral (em apenas uma mama) ou bilateral (em ambas), apresentando-se frequentemente como uma massa firme ou elástica situada logo abaixo da aréola.

Estatísticas e prevalência

A prevalência da ginecomastia é significativamente elevada, afetando uma ampla parcela da população masculina brasileira em diferentes estágios do desenvolvimento. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), estima-se que a condição afete entre 50% e 60% dos adolescentes durante a puberdade. Na maioria desses casos, trata-se de um evento transitório que tende a regredir espontaneamente conforme o equilíbrio hormonal é estabelecido.

Entre a população adulta, a incidência permanece relevante, alcançando aproximadamente 30% dos homens. Em idosos, esse número pode ser ainda maior devido às alterações hormonais naturais do envelhecimento. No âmbito das intervenções estéticas e reparadoras, a correção da ginecomastia ocupa um lugar de destaque. Segundo o último censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), essa cirurgia representa cerca de 8,9% das cirurgias plásticas realizadas em pacientes do sexo masculino, evidenciando a busca crescente por soluções definitivas para o desconforto causado pelo aumento mamário.

Principais causas da ginecomastia

As origens do desenvolvimento mamário masculino são multifatoriais, podendo ser classificadas de acordo com a natureza do estímulo que gera o desequilíbrio hormonal.

Causas fisiológicas

Existem três períodos da vida em que o surgimento da ginecomastia é considerado comum devido a oscilações hormonais naturais:

  1. Período neonatal: Recém-nascidos do sexo masculino podem apresentar aumento mamário devido à influência dos estrogênios maternos que atravessam a placenta durante a gestação. Geralmente, o quadro regride em algumas semanas após o nascimento.
  2. Puberdade: Por volta dos 12 aos 14 anos, as variações nos níveis de testosterona e estrogênio podem causar o crescimento das glândulas. Na vasta maioria dos casos, a condição desaparece naturalmente em até dois anos.
  3. Envelhecimento: Em homens mais velhos (geralmente acima dos 60 anos), a queda na produção de testosterona e o aumento da conversão de precursores hormonais em estrogênio no tecido adiposo favorecem o surgimento da ginecomastia, muitas vezes relacionada aos efeitos da andropausa.

Causas patológicas e doenças associadas

Certas condições médicas podem interferir no balanço hormonal e desencadear o crescimento mamário. Entre as principais patologias associadas, destacam-se:

  • Hipogonadismo: Condições que reduzem a produção de testosterona, como a síndrome de Klinefelter ou disfunções nos testículos, situações que podem requerer reposição hormonal masculina.
  • Doenças hepáticas: A cirrose, por exemplo, pode alterar o metabolismo hormonal e aumentar os níveis de estrogênio circulante. O acompanhamento com um hepatologista pode ser necessário nesses casos.
  • Insuficiência renal: Pacientes submetidos à diálise podem apresentar alterações hormonais que resultam em ginecomastia.
  • Tumores: Certos tipos de tumores, especialmente os testiculares, adrenais ou hipofisários, podem secretar hormônios que estimulam o tecido mamário, desencadeando um quadro de excesso de hormônios.
  • Hipertiroidismo: O excesso de hormônios tireoidianos pode elevar os níveis de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), alterando a relação entre testosterona livre e estrogênio.

Induzida por medicamentos e substâncias

O uso de determinadas substâncias químicas e medicamentos é responsável por uma parcela considerável dos casos clínicos. Medicamentos que possuem atividade estrogênica ou que bloqueiam a síntese e ação da testosterona são os principais causadores. Exemplos incluem:

  • Esteroides anabolizantes: O uso indiscriminado para fins estéticos ou esportivos leva à aromatização (conversão do excesso de testosterona em estrogênio).
  • Antiandrógenos: Utilizados no tratamento de câncer de próstata ou aumento da próstata.
  • Medicamentos psicotrópicos: Alguns antidepressivos e antipsicóticos.
  • Drogas recreativas: O consumo de álcool, maconha, anfetaminas e heroína tem sido correlacionado ao desenvolvimento da condição em alguns indivíduos.
  • Anti-hipertensivos: Bloqueadores dos canais de cálcio e certos diuréticos, como a espironolactona, que muitas vezes exigem monitoramento por um cardiologista.

Classificação e graus de ginecomastia

A avaliação da gravidade da ginecomastia é essencial para o planejamento do tratamento. A classificação mais utilizada baseia-se no volume de tecido e na presença de flacidez de pele.

Grau Características
Grau I Aumento leve do tecido mamário, concentrado abaixo da aréola, sem excesso de pele.
Grau IIa Aumento moderado da mama, sem excesso de pele aparente.
Grau IIb Aumento moderado com presença de leve excesso de pele (ptose leve).
Grau III Aumento severo da mama, semelhante à mama feminina, com excesso de pele significativo.
homem com ginecomastia O tratamento da ginecomastia depende diretamente da causa, do tempo de evolução e do impacto na qualidade de vida do indivíduo.
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Diferença entre ginecomastia e pseudoginecomastia

Um ponto de confusão frequente é a distinção entre a ginecomastia real e a pseudoginecomastia. Esta última, também conhecida como lipomastia, é caracterizada puramente pelo acúmulo de gordura na região peitoral, sem alteração na glândula mamária, sendo comum em quadros de obesidade.

Característica Ginecomastia Pseudoginecomastia
Composição Tecido glandular firme e fibroso. Tecido adiposo (gordura) macio.
Sensibilidade Comum haver dor ou sensibilidade ao toque. Geralmente indolor.
Causa Principal Desequilíbrio hormonal. Excesso de peso e acúmulo de gordura localizado.

Em muitos casos, o paciente apresenta uma condição mista, onde há tanto o aumento da glândula quanto o acúmulo de gordura, o que exige uma abordagem combinada no tratamento cirúrgico.

Sinais, sintomas e quando se preocupar

Os sintomas da ginecomastia variam de acordo com o estágio da condição e a causa subjacente. Os sinais mais comuns incluem:

  • Inchaço no tecido da glândula mamária.
  • Sensibilidade ou dor ao toque, especialmente na fase de crescimento ativo do tecido.
  • Presença de um nódulo firme ou elástico localizado atrás da aréola.

Embora a ginecomastia seja uma condição benigna, alguns sinais de alerta indicam a necessidade de uma investigação imediata para descartar patologias mais graves, como o câncer de mama masculino, que apesar de raro (representando menos de 1% dos casos de câncer de mama), deve ser considerado:

  • Aumento unilateral muito assimétrico ou súbito.
  • Presença de secreção mamilos (especialmente se for sanguinolenta).
  • Endurecimento excessivo ou retração da pele e do mamilo.
  • Presença de linfonodos (ínguas) aumentados na região da axila.

Diagnóstico e exames necessários

O diagnóstico preciso é o primeiro passo para o manejo adequado. O médico iniciará o processo com uma anamnese detalhada, investigando o histórico de saúde, o tempo de evolução do quadro e o uso de medicamentos ou suplementos.

Avaliação clínica

O exame físico é realizado através da palpação das mamas para diferenciar o tecido glandular firme da gordura macia. O médico também pode examinar os testículos para descartar massas que possam indicar tumores produtores de hormônios.

Exames de imagem

Para confirmar a natureza do tecido e descartar outras patologias, podem ser solicitados:

  • Ultrassonografia das mamas: Permite visualizar a densidade do tecido e distinguir glândula de gordura.
  • Mamografia bilateral: Frequentemente utilizada quando há suspeita de nódulos ou em pacientes acima de 50 anos para descartar neoplasias.

Exames laboratoriais

As análises de sangue visam identificar o perfil hormonal do paciente, incluindo a dosagem de:

  • Testosterona total e livre
  • Estradiol (estrogênio)
  • LH e FSH
  • Prolactina
  • Função hepática, renal e tireoidiana
  • Marcadores tumorais (em casos de suspeita de neoplasias testiculares)

Opções de tratamento

O tratamento da ginecomastia depende diretamente da causa, do tempo de evolução e do impacto na qualidade de vida do indivíduo.

Abordagem clínica e observação

Em muitos casos, especialmente na ginecomastia puberal, a conduta inicial recomendada é a observação. Como a condição tende a regredir espontaneamente em até dois anos, o acompanhamento médico regular é suficiente. Se a causa for o uso de um medicamento específico, a interrupção ou substituição da substância sob orientação médica pode reverter o quadro.

Tratamento medicamentoso

O uso de medicamentos é mais eficaz quando iniciado na fase proliferativa ou inflamatória da condição (geralmente nos primeiros 12 meses). Após esse período, o tecido glandular tende a se tornar fibrótico (cicatrizado), tornando-se pouco responsivo a remédios. Os Moduladores Seletivos de Receptores de Estrogênio (SERMs), como o Tamoxifeno, podem ser prescritos para bloquear os efeitos do estrogênio na mama, reduzindo o volume e a dor. Vale ressaltar que o uso de tais medicamentos deve ser estritamente superviseonado por um médico.

Tratamento cirúrgico

A cirurgia é indicada quando o tratamento clínico não apresenta resultados, quando a condição persiste após a puberdade ou em casos de graus avançados que causam desconforto físico e psicológico. As técnicas incluem:

  • Lipoaspiração: Utilizada para remover o excesso de tecido adiposo (gordura).
  • Adenectomia mamária: Cirurgia para a remoção direta da glândula mamária através de uma pequena incisão periareolar (na borda da aréola).
  • Técnica combinada: Frequentemente, a associação da lipoaspiração com a remoção da glândula oferece os melhores resultados estéticos.

Tecnologias avançadas na cirurgia

O avanço da tecnologia médica trouxe ferramentas que aprimoram os resultados da correção cirúrgica, especialmente no que diz respeito ao contorno do tórax e à retração da pele.

  • Lipoaspiração ultrassônica (Vaser): Esta tecnologia utiliza ondas sonoras de alta frequência para emulsificar a gordura antes da sua aspiração. Isso permite uma remoção mais precisa e suave, preservando tecidos adjacentes e auxiliando na definição muscular.
  • Radiofrequência (BodyTite/Morpheus8): Dispositivos que utilizam energia de radiofrequência para aquecer as camadas profundas da pele, estimulando a produção de colágeno e promovendo uma retração cutânea significativa. Isso é especialmente relevante em pacientes com ginecomastia grau IIb ou III, onde o excesso de pele é um desafio.
  • Argoplasma: Uma tecnologia que utiliza o jato de plasma de argônio para gerar um efeito de retração imediata nos tecidos subcutâneos. Essa técnica contribui para a adesão da pele ao músculo peitoral, reduzindo a flacidez pós-operatória sem a necessidade de grandes cicatrizes.

Cuidados pré e pós-operatórios

Para assegurar o sucesso do procedimento e a segurança do paciente, o cumprimento rigoroso das orientações médicas é essencial.

Pré-operatório

O paciente deve realizar todos os exames de risco cirúrgico (avaliação cardiológica, coagulograma, etc.). É recomendável a suspensão do tabagismo pelo menos 30 dias antes da cirurgia, pois o cigarro prejudica a cicatrização e aumenta o risco de complicações vasculares. O uso de certos medicamentos anti-inflamatórios ou suplementos que afinam o sangue também deve ser interrompido.

Pós-operatório

A recuperação exige disciplina:

  • Uso de malha compressiva: O uso de um colete elástico é necessário por cerca de 30 a 45 dias para reduzir o edema (inchaço), evitar o acúmulo de líquidos e ajudar a pele a se moldar ao novo contorno.
  • Repouso e atividades físicas: O retorno ao trabalho costuma ocorrer em 7 a 10 dias, mas atividades físicas pesadas que envolvam a musculatura peitoral devem ser evitadas por pelo menos 45 dias.
  • Drenagem linfática: Sessões de fisioterapia dermatofuncional podem ser recomendadas para acelerar a absorção do inchaço e prevenir fibroses.

Tempo de recuperação

Os resultados iniciais são visíveis após a redução do inchaço nas primeiras semanas, mas o resultado final, com a acomodação total dos tecidos e o clareamento da cicatriz, costuma ser observado entre 6 meses e um ano após o procedimento.

A busca por uma solução para a ginecomastia deve ser sempre acompanhada de uma avaliação profissional criteriosa. Caso o indivíduo perceba alterações no tecido mamário ou sinta desconforto com a aparência do tórax, é recomendável procurar auxílio de um mastologista ou cirurgião plástico. Além do aspecto físico, o acompanhamento com um psicólogo pode ser extremamente benéfico para abordar questões de imagem corporal e autoestima que frequentemente acompanham essa condição. O tratamento adequado é capaz de restaurar não apenas a harmonia estética, mas também a confiança e o bem-estar do paciente.

Referências

MSD Manuals. Ginecomastia. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-geniturin%C3%A1rios/endocrinologia-reprodutiva-masculina-e-dist%C3%BArbios-relacionados/ginecomastia
The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (JCEM). Gynecomastia: Evaluation and Management. Disponível em: https://academic.oup.com/jcem/article/103/5/1715/4939465
Andrology. Pathophysiology and medical treatment of gynecomastia. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/andr.12636
British Journal of General Practice (BJGP). Gynecomastia: clinical evaluation and management. Disponível em: https://bjgp.org/content/64/621/206
American College of Radiology (ACR). ACR Appropriateness Criteria: Breast Imaging of the Male Patient. Disponível em: https://acsearch.acr.org/docs/3091544/Narrative/


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