Como me tornei psicóloga: entre histórias, perdas e encontros que transformaram meu olhar
Nem sempre nos tornamos aquilo que um dia imaginamos. Às vezes, nossa profissão vai sendo construída aos poucos, a partir dos encontros, das experiências, das escolhas e também das mudanças que a vida nos apresenta.
Minha história com a Psicologia começou muito antes de eu receber o título de psicóloga. Minha primeira formação foi em Administração de Marketing, pela ESPM, e minha trajetória profissional foi construída principalmente no universo corporativo, em experiências relacionadas a Marketing, Treinamento e Desenvolvimento, liderança, aprendizagem e desenvolvimento de pessoas.
Ao longo dos anos, tive a oportunidade de trabalhar com pessoas em diferentes contextos, desenvolver treinamentos, estruturar experiências de aprendizagem, participar de projetos estratégicos e acompanhar profissionais em momentos importantes de suas carreiras.
Eu trabalhava com pessoas todos os dias.
E talvez tenha sido justamente aí que a Psicologia começou a me encontrar.
Antes de estudar Psicologia, eu já estudava pessoas
Minha experiência profissional me ensinou que comportamento não acontece no vazio.
Por trás de uma dificuldade existe uma história.
Por trás de uma mudança de carreira existe uma necessidade.
Por trás de um conflito existe uma relação.
E, muitas vezes, por trás de alguém que aparentemente “não dá conta”, existe uma pessoa tentando lidar com muito mais do que os outros conseguem enxergar.
Quanto mais eu me aprofundava em comportamento, aprendizagem, motivação, comunicação e desenvolvimento humano, mais perguntas surgiam:
O que faz uma pessoa mudar?
Por que algumas experiências nos transformam profundamente enquanto outras não?
Como nossas emoções influenciam nossas escolhas?
Como nossas histórias interferem na maneira como nos relacionamos conosco e com os outros?
Foi nesse caminho que decidi estudar Psicologia.
Não como uma ruptura com tudo aquilo que eu havia construído, mas como uma continuidade da minha própria trajetória.
A Psicologia passou a oferecer novas lentes para perguntas que já me acompanhavam havia muito tempo.
Um novo olhar sobre o ser humano
Durante minha formação em Psicologia, fui me aproximando cada vez mais de áreas que dialogavam com minha trajetória anterior: Neurociências, comportamento, processos emocionais, desenvolvimento humano e as diferentes formas como construímos significado para nossas experiências.
Também passei a olhar com especial interesse para os processos de mudança, adaptação e interculturalidade.
Afinal, mudar de cidade, de país, de profissão, de relacionamento ou de identidade profissional não significa apenas mudar externamente.
Muitas vezes, essas mudanças exigem que a pessoa reconstrua referências internas, relações, expectativas e até a própria percepção de quem é.
Foi nesse encontro entre Psicologia, Neurociências, comportamento e experiências de vida que fui construindo minha maneira de compreender o cuidado psicológico.
E então a vida me colocou diante de uma experiência que nenhum livro poderia ensinar completamente
Em determinado momento da minha própria história, vivi a perda da minha mãe.
O luto é uma experiência que pode transformar nossa relação com o tempo, com as ausências, com as prioridades e, muitas vezes, com a própria maneira como percebemos a vida.
Mas uma das coisas que essa experiência me ensinou foi que não existe uma única maneira de viver ou elaborar uma perda.
Cada pessoa tem sua história.
Cada vínculo tem seus significados.
Cada luto tem seu próprio tempo.
E essa experiência reforçou algo que considero fundamental na Psicologia:
Não precisamos ter vivido exatamente a mesma história de alguém para acolher sua dor. Precisamos estar disponíveis para escutá-la sem julgamentos, comparações ou respostas prontas.
Minha experiência pessoal não me permite saber exatamente o que outra pessoa sente.
Ela me ensinou, porém, a valorizar ainda mais uma escuta presente, respeitosa e humana.
Hoje, entendo minha trajetória como uma construção
Quando olho para trás, percebo que minha história profissional e minha escolha pela Psicologia não são caminhos separados.
O Marketing me ensinou sobre comunicação, comportamento e percepção. O trabalho com Treinamento e Desenvolvimento me ensinou sobre aprendizagem, potencial e transformação. A Psicologia ampliou minha compreensão sobre emoções, pensamentos, relações e comportamentos. As Neurociências trouxeram novas possibilidades para compreender o funcionamento humano.
E a própria vida, com suas experiências, mudanças e perdas, continua me ensinando sobre aquilo que nenhuma formação consegue ensinar completamente: a complexidade de ser humano.
Por que escolhi ser psicóloga?
Talvez porque, no fundo, eu sempre tenha acreditado que pessoas podem se transformar quando encontram um espaço seguro para serem verdadeiramente escutadas.
Hoje, ser psicóloga significa para mim unir conhecimento, ciência, experiência e humanidade.
Significa respeitar a singularidade de cada pessoa. Significa compreender que sofrimento não é fraqueza e que pedir ajuda não diminui ninguém.
E significa também reconhecer que, em alguns momentos da vida, não precisamos necessariamente de alguém que nos diga para onde ir.
Precisamos de um espaço onde possamos compreender nossa própria história e construir novos caminhos.
É assim que compreendo a psicoterapia: como uma jornada de autoconhecimento, cuidado e transformação, construída de maneira singular para cada pessoa.
Foi assim que me tornei psicóloga
Não apenas através de uma graduação.
Mas através de uma trajetória construída por escolhas, encontros, perguntas, mudanças, aprendizados e experiências que continuam fazendo parte de quem sou.
E é desse lugar que hoje recebo cada pessoa que chega até mim:
com conhecimento técnico, mas também com presença, respeito e humanidade.
Porque acredito que cada história merece ser escutada em sua singularidade. E que, muitas vezes, o primeiro passo para uma mudança é simplesmente encontrar um lugar onde possamos dizer:
“Eu preciso falar sobre isso.”
24/08/2026