Perguntas do paciente (189)

  • Tenho 23 anos, trabalho a 3 anos, sou introvertido e não tenho habilidade social, não vivi muita coi

    Tenho 23 anos, trabalho a 3 anos, sou introvertido e não tenho habilidade social, não vivi muita coisa e não costumo sair de casa. Estou grávida de 4 meses, e por ver que tava horrível pra mim psicologicamente resolvi me mudar pro bem do bebe, ainda em processo de mudança sem dizer a minha mãe. Fiquei desesperada com a gravidez e agora mesmo tentando gostar e ver algo novo na minha vida, minha cabeça está me fazendo pensar que ele é amado e eu não, e que a viva que eu finalmente poderia começar não é minha, mas sim será pro bebe. O que fazer? Como é possível não ter planos e objetivos na vida, e ao mesmo tempo acreditar que um filho a caminho roubará a minha vida?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Antes de tudo, quero acolher o seu relato com muito carinho e sem nenhum tipo de julgamento. Descobrir uma gravidez em meio a um momento de fragilidade emocional, introversão e sensação de isolamento é algo extremamente assustador. Sentir que um filho a caminho pode "roubar" a sua vida não faz de você uma pessoa ruim; faz de você uma jovem de 23 anos que está apavorada diante de uma transformação gigante para a qual não se sentia pronta.

    Vale ressaltar que essa fase inicial da gestação costuma ser bastante turbulenta. Os primeiros meses são quase sempre os mais difíceis, pois é o período em que o seu corpo e a sua mente estão tentando se acostumar com a ideia e a sensação real de ter outro ser se desenvolvendo dentro de você. É uma sobrecarga hormonal, física e emocional imensa acontecendo ao mesmo tempo.

    O que mais me chama atenção no seu relato é a dor da ambivalência. Existe o desejo sincero de que o bebê seja amado e tenha uma vida boa, mas, ao mesmo tempo, existe o luto de sentir que a sua própria vida e o seu futuro ainda nem puderam começar. Quando nunca tivemos a oportunidade de construir nossos próprios planos, objetivos ou experiências no mundo, a chegada de uma responsabilidade tão definitiva pode trazer a sensação de que fomos "soterradas" antes mesmo de podermos florescer.

    Muitas vezes, a nossa mente nos faz acreditar em uma ideia muito dura: a de que, para ser mãe, a mulher precisa anular completamente a sua própria existência. No entanto, cuidar do bebê não precisa significar o fim da sua história. Pelo contrário: a melhor forma de oferecer um ambiente saudável e amoroso para essa criança é garantindo que a mãe também tenha espaço para existir, ter seus projetos e cuidar da própria saúde mental.

    Você tomou uma atitude de muita coragem ao buscar se mudar e tentar construir um ambiente melhor para vocês dois, mesmo estando psicologicamente exausta. Isso demonstra que existe uma força imensa em você, mesmo que hoje ela esteja encoberta pelo desespero e pela ansiedade.

    Vale a pena fazer algumas reflexões para o seu momento presente: hoje, quem são as pessoas que formam a sua rede de apoio, além da sua mãe? Existe alguém com quem você possa conversar abertamente sobre esses medos, sem o receio de ser julgada? O que seria, para você, dar um pequeno passo em direção a ter algo que seja só seu, mesmo durante a gestação?

    A maternidade não precisa ser um caminho de anulação pessoal. Com o acompanhamento psicológico adequado, é totalmente possível aprender a reorganizar essa história, atravessar esse período inicial tão turbulento, acolher seus medos e construir objetivos de vida em que você e o seu bebê possam crescer juntos, sem que você precise abrir mão de si mesma.


  • Como a TCC trata a ansiedade social? Fui diagnosticado com ansiedade social e o psiquiatra me passou

    Como a TCC trata a ansiedade social? Fui diagnosticado com ansiedade social e o psiquiatra me passou 100mg de sertralina, mas não resolveu. Faz 3 anos que eu não vou a escola por conta dessa ansiedade. Tenho medo do julgamento, medo do que os outros estão pensando, medo de ser rejeitado, criticado, medo de desagradar alguém, autoestima baixa. Quando alguém me chama para sair, ir em algum evento, festas ou um jogo de futebol, eu nunca vou por conta dessa ansiedade. Já passei por 2 psicólogas da TCC, mas eu parei de fazer terapia porque eu achei que não estava resolvendo.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Antes de tudo, quero acolher o seu relato. Ficar afastado da escola por três anos e sentir-se paralisado pelo medo constante do julgamento, da rejeição e da crítica é algo extremamente doloroso e exaustivo. Reconheço a coragem de continuar buscando caminhos, mesmo depois de experiências frustradas.

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    Para responder à sua pergunta de forma muito transparente, preciso começar me posicionando: minha atuação clínica não é focada na Abordagem Cognitivo-Comportamental (TCC). Minha especialidade é em psicoterapia individual, sexualidade, relacionamentos conjugais e familiares. Na minha prática, não olho para a ansiedade social apenas como um conjunto de sintomas ou técnicas a serem aplicadas, mas como uma forma pela qual você aprendeu a se proteger nas suas relações ao longo da vida.

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    Pelo que você descreve, a ansiedade social impacta diretamente a sua capacidade de se conectar com as pessoas — seja na escola, em eventos ou em um jogo de futebol. Quando o medo de desagradar ou de ser rejeitado assume o controle, o que está em jogo é o próprio desejo e a dificuldade de construir vínculos seguros. Acredito que sobre os conceitos de ansiedade social, pensamentos automáticos e medicamentos você já deva ter acumulado bastante informação técnica. O desafio costuma ser transformar essa teoria na prática da vida real.

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    Para mim, o coração do tratamento está na própria relação terapêutica. O consultório precisa ser um espaço em que você experimente uma relação onde é aceito, compreendido e respeitado exatamente como é, sem a pressão de precisar agradar ou corresponder a expectativas. Quando você vivencia um vínculo assim na terapia, aprende gradualmente a se sentir mais seguro e passa a levar essa nova postura para as outras relações da sua vida.

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    Como você já passou por dois profissionais da TCC e não sentiu que o processo caminhou, talvez seja o momento de buscar um tipo diferente de acompanhamento. O que você procura, no fundo, é aprender a se relacionar melhor com as pessoas e consigo mesmo — e é exatamente sobre a construção de relações que meu trabalho se debruça.

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    Para ajudá-lo a refletir sobre o tipo de vínculo que você precisa encontrar, deixo uma sugestão: assista à série "Falando a Real" (Shrinking). Além de leve, ela ilustra de forma muito bonita o poder do vínculo terapêutico, da humanidade do profissional e da importância de uma relação verdadeira para gerar transformações reais na vida de quem busca ajuda.


  • Tenho um relacionamento há 5 anos e, às vezes, quando vejo alguém que já foi um paquera antigo, fico

    Tenho um relacionamento há 5 anos e, às vezes, quando vejo alguém que já foi um paquera antigo, fico preocupada com a forma como essa pessoa vai me enxergar. Penso que preciso parecer bonita, legal e mostrar que estou bem, e por isso acabo agindo de forma estranha. Não tenho intenção de chamar atenção ou de ficar com essas pessoas, mas sinto culpa por esses pensamentos e atitudes, como se fossem uma forma de traição.

    Gostaria de saber se isso pode ser considerado traição ou se pode estar relacionado à ansiedade, ao TOC ou simplesmente à baixa autoestima e à preocupação excessiva com a opinião dos outros.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Eu não trataria isso, por si só, como traição. Perceber alguém do passado e querer causar uma boa impressão é uma reação bastante humana. A gente costuma se preocupar com a imagem que transmite, principalmente diante de alguém que já despertou nosso interesse em algum momento. O ponto mais importante é entender o que acontece depois desse pensamento: você apenas percebe que gostaria de parecer bonita e segue a sua vida, ou começa a alimentar fantasias, buscar aproximação e agir deliberadamente para obter algo daquela pessoa?

    Também me chama atenção o quanto você se sente culpada por algo que, pelo seu relato, não parece ter uma intenção de aproximação sexual ou romântica. Talvez o sofrimento esteja menos no comportamento e mais na interpretação que você faz dele: “se eu quis parecer bonita para alguém que já foi uma paquera, então estou fazendo algo errado”. Esse tipo de pensamento pode transformar uma reação comum em uma espécie de prova contra você mesma.

    A hipótese de ansiedade ou até de um funcionamento obsessivo pode ser considerada, principalmente se você fica revisando mentalmente suas atitudes, tentando descobrir se aquilo significou alguma coisa, buscando certeza de que não traiu e voltando várias vezes à mesma situação. Mas não dá para concluir TOC apenas por esse relato. Também pode existir uma preocupação maior com a aprovação dos outros ou uma autoestima que fica muito dependente da forma como você acredita que está sendo percebida.

    Eu também olharia para o seu relacionamento. Cinco anos é bastante tempo, e a relação provavelmente já passou daquela fase inicial em que a paixão costuma ocupar muito espaço. Como vocês estão hoje? Você ainda se sente desejada, admirada e conectada a ele? Existe carinho, intimidade e vontade de construir a relação? Você não mencionou nada sobre deixar de amar seu parceiro ou querer ficar com essas pessoas, então eu não partiria da ideia de que esses pensamentos significam falta de amor. Mas vale entender o contexto em que eles aparecem.

    Talvez uma pergunta interessante seja: “eu quero realmente aquela pessoa ou quero que aquela pessoa perceba que eu me tornei alguém interessante?”. São coisas bem diferentes. Às vezes, não estamos buscando o outro; estamos buscando uma confirmação sobre nós mesmos. E quando existe muita necessidade dessa confirmação, qualquer encontro com alguém do passado pode virar uma pequena avaliação de valor pessoal.

    O objetivo não precisa ser chegar ao ponto de nunca mais pensar “quero estar bonita quando essa pessoa me vir”. Isso seria tentar controlar um pensamento perfeitamente possível de aparecer. O mais saudável pode ser conseguir perceber a vontade, não transformá-la em um julgamento moral e seguir vivendo de acordo com aquilo que você realmente escolheu para a sua relação.


  • como se livrar do vicio em pornografia teleguiada?

    como se livrar do vicio em pornografia teleguiada?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Quando esse tipo de comportamento envolve uma pessoa específica, uma personagem ou até mesmo uma figura criada na imaginação, existe um elemento que pode ser ainda mais importante do que o estímulo sexual: a idealização.

    Às vezes, a pessoa não está buscando apenas chegar ao orgasmo. Ela está buscando uma experiência muito específica de ser desejada, conduzida, observada, valorizada ou de viver uma fantasia de intimidade. A outra pessoa, a personagem ou até mesmo a figura imaginada pode ocupar um lugar muito maior do que o de simples estímulo sexual.

    Isso pode criar um vínculo bastante poderoso. Como a interação é construída para atender exatamente à fantasia daquela pessoa, existe pouco espaço para frustração, negociação ou rejeição. A experiência pode parecer uma forma de relacionamento, mesmo que aconteça dentro de uma situação sexual. E quanto mais a pessoa recorre a esse vínculo para aliviar solidão, ansiedade, tédio ou necessidade de conexão, mais difícil pode ser interrompê-lo.

    Por isso, eu teria cuidado com a ideia de simplesmente "parar de consumir pornografia". Talvez seja necessário compreender o que essa experiência representa para você. O que você sente quando aquela pessoa te conduz? O que existe nessa fantasia que você não encontra em outras relações? É apenas excitação sexual ou existe também uma sensação de intimidade, pertencimento, atenção ou de ser desejado?

    Outro ponto importante é observar se existe uma diferença entre fantasia e realidade. Na fantasia, a outra pessoa pode parecer exatamente aquilo que você gostaria que ela fosse. Você recebe atenção, as coisas acontecem no ritmo que deseja e praticamente não existe o risco de rejeição. Uma relação real, por outro lado, envolve conhecer o outro de verdade, descobrir suas limitações, lidar com diferenças e também correr o risco de não ser correspondido. Às vezes, a dificuldade não está somente em abandonar o estímulo sexual, mas em abrir mão da relação idealizada que foi construída em torno dele.

    Isso também explica por que algumas pessoas conseguem interromper o consumo por determinado período e depois retornam. Elas tentam eliminar o comportamento, mas continuam com a mesma necessidade emocional que estava sendo satisfeita por ele.

    Por isso, se você percebe que perdeu o controle, que passa muito tempo pensando nessa experiência, gasta mais do que gostaria ou sente que está deixando outras relações de lado, a psicoterapia pode ajudar bastante. O objetivo não seria apenas retirar a pornografia ou a interação sexual da sua rotina, mas compreender o vínculo que foi criado e construir outras formas de viver sexualidade, intimidade e conexão.

    Talvez a pergunta mais importante não seja apenas "como faço para parar?", mas "o que essa experiência me oferece que eu tenho tanta dificuldade de encontrar fora dela?". Muitas vezes, é justamente nessa resposta que começamos a entender o que mantém o comportamento.


  • Como trabalhar com uma criança de 3 anos a morte do pai que nunca conheceu, sendo que a partir dos 2

    Como trabalhar com uma criança de 3 anos a morte do pai que nunca conheceu, sendo que a partir dos 2 anos tem como figura paterna o padastro.

    Há uma idade adequada para para iniciar o assunto?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Falar sobre a morte de um pai com uma criança tão pequena pode despertar muitas dúvidas nos adultos, principalmente quando existe outra pessoa ocupando uma referência paterna importante na vida dela. Não existe necessariamente uma idade única ou um momento perfeito para começar essa conversa. O mais importante é compreender o que essa criança já sabe, o que ela percebe sobre a própria história e quais perguntas ela já está começando a fazer.

    Antes de decidir como abordar a morte do pai, eu tentaria entender como essa história foi construída até agora. O pai biológico era mencionado em casa? A criança já perguntou quem é o pai? O que foi respondido? Como ela chama o padrasto? Desde quando ele ocupa esse lugar de referência? Ela o chama de pai ou por outro nome? Como vocês costumam lidar com o Dia dos Pais? Ela já vivenciou essa data na escola? Essas experiências ajudam a compreender o que a criança já sabe e como ela está simbolizando essa história.

    Algumas crianças nessa idade conseguem compreender mais do que os adultos imaginam. Aos 3 anos, elas já podem fazer perguntas importantes sobre a própria origem e sobre as pessoas que fazem parte da sua história. Podem perguntar quem é o pai, onde ele está ou por que determinada pessoa não está presente. Não é necessário esperar que a criança faça uma pergunta perfeita para começar a construir essa conversa.

    O mais importante é acompanhar o desenvolvimento dela e responder às perguntas com sinceridade, utilizando uma linguagem adequada à idade. Isso não significa contar todos os detalhes. Informações que podem ser muito difíceis ou desnecessárias para uma criança pequena, como circunstâncias violentas ou cruéis da morte, podem ser trabalhadas posteriormente, conforme ela tenha condições de compreender.

    Também é importante diferenciar a existência do pai biológico da função que o padrasto ocupa na vida dela. O fato de ela ter uma figura paterna presente não significa que sua história biológica precise ser apagada. Ao mesmo tempo, falar sobre o pai que morreu não diminui a importância daquele que está presente e construiu uma relação afetiva com ela.

    Eu teria bastante cuidado para que essa informação não apareça escondida, durante uma discussão ou de maneira desorganizada. É melhor que os adultos que cuidam da criança conversem previamente sobre como irão abordar o assunto e mantenham uma narrativa coerente. A criança precisa perceber que pode fazer perguntas e que os adultos conseguem conversar sobre sua história sem transformar esse assunto em um segredo.

    E existe uma razão importante para não adiar indefinidamente: conforme a criança cresce, outras pessoas passam a conhecer essa história. Escola, familiares, outras crianças e diferentes situações sociais podem fazer surgir perguntas. É melhor que ela construa esse conhecimento gradualmente dentro de uma relação de confiança e segurança com quem cuida dela do que descobrir algo importante sobre a própria história por outra pessoa.

    Nesse tipo de situação, uma consulta de orientação familiar também pode ser muito útil. Não necessariamente é preciso iniciar um processo longo: uma ou algumas consultas podem ajudar os adultos a compreender o que a criança já sabe, organizar a forma de conversar sobre a morte do pai, pensar em como responder às perguntas que podem surgir e alinhar a participação da mãe e do padrasto nesse processo. O objetivo é que a criança possa conhecer sua própria história de maneira gradual, segura e adequada ao seu desenvolvimento.


  • Estou passando por uma fase de muita dúvida em relação aos meus sentimentos pelo meu namorado. Estam

    Estou passando por uma fase de muita dúvida em relação aos meus sentimentos pelo meu namorado. Estamos juntos há quase 3 anos e, ultimamente, sinto que não tenho mais aquela animação ou aquela sensação gostosa que sentia antes. Isso tem me deixado muito ansiosa, porque eu não quero machucá-lo e também não quero terminar. Ao mesmo tempo, não me sinto desconfortável ou presa ao lado dele. Quando conversamos, muitas vezes é bom e consigo ficar conversando até tarde. Eu reconheço que ele é uma pessoa que me ama, cuida de mim, se preocupa comigo e demonstra isso muito pelas atitudes.

    Tenho me perguntado se ainda o amo ou se estou confundindo amor com carência, rotina ou ansiedade. Quero entender meus sentimentos e, se for possível, quero recuperar o carinho e a conexão que sinto que perdi. Não quero fingir nem obrigar meus sentimentos, só queria entender o que está acontecendo comigo e saber se é possível voltar a sentir amor e entusiasmo pela pessoa que amo.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Talvez a sua dúvida esteja acontecendo justamente porque a relação mudou, mas você ainda está tentando medir o amor pela sensação que existia no começo. Depois de quase três anos, é bastante comum que a intensidade da paixão diminua. A questão é entender o que apareceu no lugar dela.

    Uma relação pode deixar de ter aquela ansiedade gostosa, a expectativa constante e a sensação de novidade e, ainda assim, continuar sendo uma relação amorosa. Mas também pode acontecer de a paixão ter sustentado uma relação que não tinha tanta afinidade ou intimidade para continuar se desenvolvendo quando a intensidade inicial diminuiu.

    Por isso, eu não começaria perguntando apenas "eu ainda amo?". Tentaria observar como vocês estão construindo a relação hoje. Você diz que consegue conversar com ele por horas, gosta da companhia dele, não se sente presa e reconhece cuidado e preocupação nas atitudes dele. Esses são elementos importantes. Mas como está a relação de vocês como casal? Vocês ainda têm encontros, novidades, intimidade, planos e experiências que pertencem aos dois? Ou a relação foi ficando cada vez mais parecida com uma amizade confortável?

    Existe ainda uma possibilidade que vale observar: a acomodação de um dos parceiros. Às vezes, uma pessoa percebe que a relação perdeu conexão e começa a se perguntar o que está acontecendo, enquanto a outra continua dizendo que "está tudo bem". Se você conversar sobre a relação e ele realmente não perceber nenhuma mudança, vale investigar se vocês estão vivendo a relação de formas diferentes e se ele deixou de investir na construção do vínculo.

    Também é importante não transformar a recuperação do entusiasmo em uma obrigação. Você não precisa fabricar sentimentos para provar que ama alguém. O entusiasmo costuma aparecer como consequência de uma relação que continua viva, e não como uma tarefa que uma pessoa precisa cumprir.

    Talvez seja interessante conversar com ele não dizendo simplesmente que "não sente mais o mesmo", mas compartilhando que você percebeu uma mudança e quer entender o que aconteceu com vocês. A partir daí, vocês podem observar se ainda existe disposição dos dois para reconstruir a intimidade, a novidade e o espaço de casal.

    E uma reflexão que pode ajudar: se você descobrisse que ele também percebeu essa mudança e está disposto a construir algo diferente com você, isso despertaria vontade de tentar? Ou a ideia de reconstruir a relação já não desperta nenhum desejo?

    Essa diferença pode dizer bastante sobre o que está acontecendo. Às vezes, o que desapareceu não foi o amor, mas uma forma antiga de viver o amor. Em outras situações, a perda da intensidade revela que a relação não estava conseguindo se desenvolver para além da paixão inicial.


  • Olá! Eu sou timida e sinto uma certa ansiedade social eu não sei se chega a ser o transtorno. Atualm

    Olá!
    Eu sou timida e sinto uma certa ansiedade social eu não sei se chega a ser o transtorno. Atualmente eu sou operadora de caixa e quando comecei foi bem difícil estava me sentindo muito ansiosa e travada foi muito difícil mesmo, eu cresci sendo muito timida eu quase não enteragia com as pessoas na escola sofria bullying o que me fez me fechar cada vez mais. Hoje depois de 6 meses nesse trabalho eu sei que estou bem melhor mesmo nas interações a ansiedade diminuiu, mas ainda sinto uma cobrança muito grande quando falam que sou séria, quieta e que não falo. Eu acredito que tenho falado o que quero falar, mas esses comentários me fazem duvidar da minha evolução. O que posso fazer para lidar com esses comentários? Eu sentir isso significa que não estou me curando? Me curando da ansiedade social eu vou parar de ouvir esses comentários e de ser quieta ou apenas aprender a conviver com eles?
    Eu também tenho a sensação de não pertencimento
    O que de fato é está se curando?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    O fato de você ter vindo buscar uma resposta já mostra uma postura muito importante: você está observando a si mesma, reconhecendo as dificuldades e tentando entender como seguir em frente. Esse costuma ser um dos primeiros passos de qualquer processo de mudança.

    Pelo que você descreve, sua história faz bastante sentido. Você cresceu sendo muito tímida, sofreu bullying e acabou aprendendo, como forma de proteção, a se fechar mais nas relações. Depois, escolheu justamente um trabalho que exige contato constante com pessoas. Isso exige muita coragem e, pelo seu relato, parece que você conseguiu avançar bastante nesses últimos seis meses.

    Uma reflexão que considero importante é que as relações humanas dificilmente funcionam em extremos. Muitas pessoas que sofreram por serem muito tímidas acabam acreditando que só estarão "curadas" quando deixarem de ser vistas como quietas. Mas talvez esse não seja o melhor parâmetro. Existe uma diferença entre ser uma pessoa naturalmente mais reservada e viver limitada pela ansiedade.

    Também fiquei pensando nos comentários que você recebe. As pessoas do trabalho conheceram você recentemente e, para elas, você pode realmente parecer mais séria ou mais quieta. Isso não significa, necessariamente, que exista algo errado ou que você não tenha evoluído. Muitas vezes, é apenas a percepção delas sobre alguém que fala menos do que a média.

    Existe outro aspecto que costuma acontecer quando estamos tentando mudar. Quando nos abrimos para experimentar comportamentos novos, também ficamos mais vulneráveis ao olhar dos outros. É como se a opinião das pessoas ganhasse mais peso justamente porque estamos prestando muita atenção em como estamos nos saindo. Por isso, mudar exige coragem. Se você desistisse, voltasse a se isolar e evitasse novas interações, talvez sofresse menos com esses comentários por um tempo. Mas também deixaria de conquistar tudo o que já conseguiu até aqui. O desconforto faz parte do caminho da mudança, não significa que ela não esteja acontecendo.

    Talvez o mais importante seja observar o efeito que esses comentários têm em você. Hoje, eles fazem você duvidar da própria evolução. Isso é diferente de significarem que você não evoluiu. Quando alguém diz "você é muito quieta", você consegue pensar: "sim, sou mais reservada, mas estou muito melhor do que antes"? Ou automaticamente sente que voltou à estaca zero? Aprender a fazer essa diferenciação costuma ser uma parte importante do processo terapêutico.

    Você também perguntou o que significa, de fato, estar se curando. Na minha compreensão, não significa deixar de ouvir comentários ou se transformar em uma pessoa extremamente comunicativa. Significa que esses comentários deixam de definir quem você é. Você passa a conseguir escolher quando falar, quando ficar em silêncio e quando se posicionar, sem que isso seja determinado pelo medo ou pela ansiedade.

    Outra coisa que chamou minha atenção foi você mencionar a sensação de não pertencimento. Muitas pessoas que sofreram bullying acabam carregando essa impressão para outros ambientes, mesmo quando as pessoas atuais não estão rejeitando elas. Por isso, vale a pena refletir: hoje você realmente não pertence aos lugares ou, muitas vezes, ainda espera ser tratada da mesma forma que foi no passado? Essa diferença costuma ser muito importante.

    Pelo que você descreveu, eu teria bastante cuidado para não medir sua evolução apenas pelo olhar dos outros. O fato de você reconhecer que hoje conversa mais, interage melhor e sente menos ansiedade talvez seja um indicador muito mais confiável do que a opinião de alguém que a conheceu há poucos meses. As mudanças costumam acontecer aos poucos, e aprender a confiar mais naquilo que você percebe sobre si mesma faz parte desse processo de fortalecimento.


  • Estou passando por um momento muito difícil,tenho depressão e pesquisei muito sobre crises de pânico

    Estou passando por um momento muito difícil,tenho depressão e pesquisei muito sobre crises de pânico e fobia social,não estou conseguindo sair de casa sozinho mais,e não consigo fazer terapia online já comecei a tomar os medicamentos mais as pesquisas sobre os sintomas agravaram meu caso,está muito difícil pra mim,as pesquisas excessivas acabaram com meu psicológico, preciso sair dessa e voltar a ter uma vida normal,como reverter as ideias negativas lidas nas pesquisas?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Você pode estar criando uma relação cada vez mais próxima com seus sintomas e seus medos. Quanto mais você pesquisa, observa, compara e tenta entender cada sensação, mais espaço esses conteúdos ocupam na sua vida. E a consequência pode ser justamente viver cada vez mais aquilo que você gostaria de deixar para trás.

    Por isso, talvez o caminho não seja tentar apagar da cabeça tudo o que você leu. É começar a construir outras relações e outras experiências que não estejam organizadas em torno da doença, do medo e do isolamento.

    Pelo que você descreve, parece que neste momento você está precisando de ajuda para fazer esse primeiro movimento. Se sair de casa sozinho está difícil e a terapia online também não está funcionando, pense em qual é a relação mais segura que você tem hoje. Pode ser um familiar, um amigo ou alguém em quem realmente confie.

    Converse com essa pessoa sobre o que está acontecendo. Permita que ela esteja mais próxima. Talvez ela possa ir até sua casa, almoçar com você, conversar, assistir alguma coisa juntos ou simplesmente fazer companhia. Parece algo pequeno, mas pode ser justamente o começo de uma mudança importante: você começa a experimentar novamente uma relação que não está baseada no medo.

    Depois, essa pessoa também pode ajudá-lo a iniciar o atendimento psicológico online. Pode ficar próxima durante o primeiro atendimento, ajudar você a organizar o ambiente ou simplesmente estar disponível enquanto você conversa com o profissional. Você não precisa conseguir fazer tudo sozinho para começar a melhorar.

    Também é importante conversar com o profissional que acompanha sua medicação sobre o agravamento que você percebeu e sobre a dificuldade atual para sair de casa. Não interrompa nem altere a medicação por conta própria.

    Existe ainda uma possibilidade para aqueles momentos em que você percebe que precisa conversar com alguém, mas ainda não consegue sair de casa ou procurar alguém próximo. O CVV, pelo 188, pode funcionar como um espaço de conversa anônima e acolhimento. Não precisa ser utilizado apenas quando existe uma emergência. Para alguém que está muito isolado, conversar com outra pessoa, mesmo que inicialmente seja um desconhecido, pode ser uma maneira de começar a romper esse isolamento.

    Talvez você não precise começar tentando vencer a depressão, a crise de pânico ou a fobia social. Comece tentando reconstruir uma vida que não seja organizada exclusivamente em torno delas.

    Você está precisando criar novas relações para que os sintomas deixem de ser a relação mais importante da sua vida.


  • A 2 meses eu venho tendo lapsos de memória, não consigo me concentrar nas coisas, não consigo racion

    A 2 meses eu venho tendo lapsos de memória, não consigo me concentrar nas coisas, não consigo racionar direito e tô tendo muita ansiedade, não consigo conversar mais com as pessoas e também não sinto vontade, sinto que as pessoas não me querem por perto e que me odeiam, na escola eu só consigo chorar pelo jeito que eu estou porque tá afetando o meu relacionamento, eu não consigo conversar mais com o meu namorado, sinto que ele vai me deixar a qualquer momento e começo a ter muita ansiedade, e não tô conversando muito com ele mais por causa disso, eu me sinto vazia, não consigo achar graça de memes, entender vídeos, ter opinião própria, eu sinto que só estou vegetando, sinto que me perdi de mim mesma, e coisas que eu sabia antes eu esqueci, não consigo nem fazer contas fáceis de cabeça mais, e só sinto vontade de ficar deitada na minha cama pra sempre, choro o tempo todo, e tô muito sensível também, qualquer coisa que me falam eu choro, e não consigo mais discutir com ninguém, não tenho energia pra isso, só aceito tudo. Quero saber oque eu posso ter, eu posso estar com depressão?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto eu lia sua pergunta, fiquei pensando no quanto esses últimos dois meses devem ter sido difíceis para você. Pela forma como conseguiu descrever o que está acontecendo, percebo que existe muito sofrimento, mas também uma boa capacidade de reconhecer e expressar o que está sentindo. Isso é muito importante, porque costuma ser o primeiro passo para conseguir ajuda.

    Uma primeira resposta é que, sim, alguns dos sintomas que você descreve podem acontecer em um quadro depressivo. No entanto, apenas pelo seu relato não é possível afirmar um diagnóstico. Para isso, é necessário avaliar melhor há quanto tempo esses sintomas estão presentes, como eles começaram, qual a intensidade e outros aspectos importantes da sua vida. Mais importante do que dar um nome para o que está acontecendo é compreender como podemos ajudá-la a sair desse sofrimento.

    Também fiquei pensando na sequência que você descreve. Você conta que começou a ter dificuldade para se concentrar, lapsos de memória, muito choro, perda de interesse pelas coisas, medo de que as pessoas não a queiram por perto e receio constante de que seu namorado a deixe. Parece que, à medida que foi se sentindo pior, também foi se afastando das pessoas. Muitas vezes, quando estamos vivendo um sofrimento emocional intenso, nossa percepção sobre nós mesmos e sobre os outros fica bastante modificada, fazendo parecer que estamos sendo rejeitados, mesmo quando isso nem sempre corresponde à realidade.

    Existe uma pergunta que considero muito importante: você consegue identificar como tudo isso começou? Antes desses dois meses aconteceu alguma mudança importante na sua vida? Alguma perda, uma briga, uma separação, uma mudança de escola, problemas familiares, alguma situação de violência ou qualquer outro acontecimento marcante? Em muitos casos, compreender o início desse processo ajuda bastante a entender por que esses sintomas apareceram.

    Pelo seu relato, imagino que você seja adolescente, já que menciona a escola. A adolescência é um período em que muitas mudanças acontecem ao mesmo tempo: identidade, amizades, relacionamentos, estudos, expectativas sobre o futuro e até o funcionamento do próprio cérebro. Isso não significa que esse sofrimento seja "normal" ou que deva ser ignorado, mas mostra como essa fase da vida pode deixar algumas pessoas mais vulneráveis quando enfrentam dificuldades emocionais.

    Também gostaria de lhe fazer outra pergunta: algum adulto de confiança sabe que você está se sentindo assim? Seus pais, responsáveis, algum professor, familiar ou outro adulto importante percebeu essas mudanças? Pelo que você descreve, acredito que este não seja um sofrimento para enfrentar sozinha. Quanto antes alguém puder compreender o que está acontecendo, maiores costumam ser as chances de você receber o apoio necessário.

    Por fim, acredito que seria muito importante procurar psicoterapia. Pela intensidade dos sintomas e pelo impacto que eles estão tendo na sua vida, esse é um momento em que você merece um espaço seguro para compreender o que está acontecendo. A terapia pode ajudar tanto a entender como esse sofrimento começou quanto a reconstruir, aos poucos, a forma como você está se relacionando consigo mesma, com seu namorado e com as outras pessoas. O fato de hoje você sentir que "se perdeu de si mesma" não significa que isso será permanente. Com acompanhamento adequado, muitas pessoas conseguem recuperar a capacidade de sentir prazer, confiança, interesse pela vida e voltar a reconhecer quem realmente são.


  • Tenho 20 anos e meu namorado mora cerca de 40 km de mim. Normalmente só conseguimos nos ver nos fins

    Tenho 20 anos e meu namorado mora cerca de 40 km de mim. Normalmente só conseguimos nos ver nos fins de semana. Nos últimos dias passamos quatro dias seguidos juntos: viajamos, cozinhamos, dormimos juntos e aproveitamos muito a companhia um do outro. Foi uma experiência muito especial, porque pudemos viver um pouco da rotina como casal.

    Hoje precisei voltar para casa e, desde que cheguei, estou com uma sensação de vazio e uma vontade de chorar. Não aconteceu nenhuma briga, não existe nenhum problema entre nós e também não tenho problemas em casa nem estou infeliz com a minha família. Pelo contrário, gosto muito de estar em casa e tenho uma boa convivência com a minha família.

    As despedidas dos fins de semana normalmente já me deixam um pouco tristinha e com saudade, mas a despedida de hoje foi diferente. Depois desses quatro dias juntos, senti uma tristeza muito maior, um vazio que eu não esperava sentir. Não é medo de perder o relacionamento, nem insegurança. É simplesmente uma saudade muito intensa da companhia dele. Sinto falta de dividir a rotina, acordar juntos, cozinhar, conversar e terminar o dia ao lado dele.

    Isso é normal? É comum sentir essa tristeza tão forte depois de passar vários dias tão felizes com a pessoa que amo, mesmo sabendo que nosso relacionamento está bem?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    O que mais me chamou atenção na sua pergunta foi que você não está descrevendo um problema no relacionamento. Pelo contrário, parece que vocês viveram dias muito felizes juntos, e justamente por isso a despedida teve um impacto emocional muito maior do que costuma ter.

    Pela sua idade e pela forma como descreve essa experiência, isso pode ser bastante comum, principalmente quando estamos vivendo um relacionamento importante e ainda na fase de muita paixão. Quatro dias seguidos compartilhando a rotina — acordar juntos, cozinhar, dormir, conversar e simplesmente estar ao lado um do outro — costumam criar uma sensação de proximidade muito diferente daquela vivida apenas nos finais de semana.

    Também fiquei pensando que esses quatro dias talvez tenham permitido experimentar algo que normalmente vocês não conseguem viver: uma pequena amostra de como seria dividir o cotidiano. Quando essa experiência termina de forma abrupta, é natural surgir uma sensação de vazio, não porque o relacionamento esteja ruim, mas porque vocês passaram de uma convivência muito intensa para uma separação repentina.

    Ao mesmo tempo, vale uma pequena reflexão. Quando vivemos momentos de muita completude, também podemos sentir um vazio proporcional quando eles acabam. Isso, por si só, não significa dependência emocional, mas como você demonstrou preocupação com a intensidade desse sentimento, vale observar como essa saudade evolui. Se ela diminui naturalmente ao longo dos dias, permitindo que você retome sua rotina, provavelmente faz parte da intensidade da paixão e da distância que vocês vivem. Se começar a impedir você de aproveitar sua própria vida, estudar, estar com sua família ou fazer as coisas que sempre gostou, aí sim vale a pena olhar isso com mais cuidado.

    Outra coisa que considero importante é conversar com ele sobre isso. Não para que ele resolva essa tristeza, mas para conhecer como ele também vive essas despedidas. Ele sente uma saudade parecida? Como costuma lidar com ela? Descobrir como cada um experimenta essa distância ajuda bastante o casal a entender se vocês vivem esse momento de formas compatíveis e cria mais segurança para os dois.

    Uma pergunta que pode ser interessante é: essa tristeza existe apenas porque vocês voltaram para suas casas ou porque esses quatro dias despertaram um desejo maior de construir uma vida juntos no futuro? Às vezes, o que dói não é apenas a despedida, mas perceber o quanto aquela convivência fez sentido e despertou um projeto de vida que ainda não pode ser vivido.

    Por fim, achei muito bonito você perceber que sente falta justamente das coisas simples: cozinhar juntos, conversar, acordar ao lado dele e dividir o fim do dia. Geralmente, quando começamos a sentir saudade da rotina compartilhada, isso mostra que o vínculo está amadurecendo para além da paixão inicial. Apenas procure manter um equilíbrio, preservando seus estudos, sua família, seus amigos e seus projetos pessoais. Um relacionamento saudável permite sentir saudade, mas também faz com que cada um continue conseguindo viver bem enquanto espera pelo próximo encontro.


  • Olá, tudo bem? Como sei se estou fazendo "transferência" pra minha psicóloga, ou gostando e tenso in

    Olá, tudo bem?
    Como sei se estou fazendo "transferência" pra minha psicóloga, ou gostando e tenso interesse amoroso/sexual por ela mesmo?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Essa é uma dúvida muito importante e, na verdade, costuma aparecer com mais frequência do que muitas pessoas imaginam. Também exige bastante coragem para ser feita, porque muitas pessoas acabam sentindo vergonha ou medo de contar isso ao próprio terapeuta.

    Na prática da psicoterapia, a diferença entre transferência e um interesse amoroso ou sexual "real" não costuma ser a pergunta mais importante. Isso porque, dentro da relação terapêutica, qualquer um desses sentimentos deve ser compreendido como parte do processo terapêutico e trabalhado dessa forma. Não é uma relação onde exista a possibilidade de um envolvimento afetivo ou sexual saudável, justamente pela natureza da própria psicoterapia.

    Vale lembrar que a relação terapêutica é uma relação muito particular. Você conhece profundamente sua psicóloga como profissional, mas conhece muito pouco sobre quem ela é na vida pessoal. Ela escuta sua história, procura compreendê-lo, acolhê-lo e oferecer um espaço seguro para você falar das suas dificuldades. Esse contexto favorece que sentimentos muito intensos apareçam, e isso não significa que exista, necessariamente, um desejo de construir uma relação fora dali.

    Uma reflexão que costuma ajudar é imaginar como seria essa relação em outra situação. Você conhece a personalidade dela fora do consultório? Como ela se relaciona com amigos, família, parceiros, quais são seus defeitos, suas dificuldades, seus valores? Provavelmente não. Você conhece a psicóloga na função de psicóloga. Em uma relação afetiva real, as duas pessoas vão se mostrando aos poucos, em condições muito mais equilibradas.

    Da mesma forma, se imaginarmos o outro lado, como ela poderia desenvolver um relacionamento amoroso saudável com alguém cuja história íntima ela conhece profundamente, enquanto praticamente nada da vida dela foi compartilhado? A relação começaria em uma posição muito desigual. Ela teria acesso à sua intimidade, aos seus medos, às suas fragilidades e desejos, enquanto você conheceria apenas uma pequena parte de quem ela realmente é. Por isso, caso um terapeuta perceba que está desenvolvendo sentimentos dessa natureza, o procedimento ético é buscar supervisão clínica e, dependendo da situação, interromper o atendimento para que o paciente possa seguir seu processo com outro profissional.

    O mais comum é que apenas o paciente experimente esses sentimentos, e isso não significa que a terapia esteja dando errado. Pelo contrário. Muitas vezes, a transferência permite reviver formas antigas de amar, de buscar cuidado, de desejar ser escolhido ou compreendido. Quando esses sentimentos são levados para a terapia e podem ser pensados junto com a psicóloga, eles costumam se transformar em um material extremamente rico para compreender como você constrói seus vínculos afetivos.

    Minha sugestão seria não tentar responder essa dúvida sozinho. Em vez de decidir se "é transferência" ou "é amor de verdade", experimente conversar sobre isso na própria terapia. Um bom processo terapêutico consegue acolher esse tipo de sentimento sem julgamento e utilizá-lo como uma oportunidade de compreender aspectos importantes da sua forma de se relacionar. Paradoxalmente, quando deixamos de tratar esses sentimentos como algo que precisa ser consumado e passamos a entendê-los como algo que merece ser compreendido, eles costumam revelar muito sobre nós mesmos e favorecer um crescimento importante nas futuras relações afetivas.


  • Olá, sou jovem e não sei lidar com minha própria cabeça, quando estou com meu namorado estou bem, ma

    Olá, sou jovem e não sei lidar com minha própria cabeça, quando estou com meu namorado estou bem, mas quando tentamos algo mais íntimo, meus traumas tomam conta e eu choro e fico com medo(fui abusada com 5 anos e com 11 anos). Eu não sei o que fazer, sóbria eu fico mal, bêbada eu fico pior, pois eu tenho crises de pânico e vejo meus abusadores e começo a ter memórias dos abusos, não quero que meu namorado tenha uma namorada defeituosa. O que eu faço?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto eu lia sua pergunta, fiquei pensando na coragem que foi necessária para escrever tudo isso. Falar sobre abuso sexual, principalmente quando ele aconteceu na infância, costuma ser uma das coisas mais difíceis que uma pessoa pode fazer. O sofrimento que você descreve é muito intenso e merece ser acolhido com todo o cuidado.

    A primeira coisa que me chamou atenção foi a idade em que esses abusos aconteceram. Aos 5 anos, uma criança ainda tem poucos recursos para compreender o que está acontecendo e praticamente nenhuma condição de se proteger sozinha. Quando esse tipo de violência acontece nessa fase, ela costuma deixar marcas muito profundas na forma como a pessoa passa a se sentir segura no mundo, principalmente nas relações de confiança e intimidade.

    Também fiquei pensando no fato de você dizer que, durante as crises de pânico, ainda vê seus abusadores e revive partes dessas experiências. Isso mostra que essas lembranças continuam muito presentes na sua vida. Fiquei me perguntando se essas pessoas faziam parte do seu convívio ou da sua família, porque, quando a violência acontece justamente em um ambiente onde a criança deveria estar protegida, a sensação de desamparo costuma ser ainda maior.

    Existe outro aspecto que considero muito importante. Você conta que, quando tenta viver momentos de intimidade com seu namorado, o trauma toma conta e você chora ou sente muito medo. Isso não significa que exista algo errado com você ou que você não goste dele. Pelo contrário, muitas pessoas que sofreram abuso sexual justamente encontram mais dificuldade quando estão com alguém por quem sentem carinho, porque o corpo passa a associar proximidade física com perigo, mesmo quando racionalmente sabe que está diante de uma pessoa segura.

    Uma frase sua me tocou de forma especial: "não quero que meu namorado tenha uma namorada defeituosa". Gostaria que você pudesse refletir com bastante carinho sobre isso. O que aconteceu foi uma violência cometida contra você. Você não é defeituosa. Você foi machucada por pessoas que desrespeitaram profundamente sua infância e seus limites. Muitas vezes, o trauma faz com que a pessoa passe a enxergar em si características que, na verdade, pertencem à história da violência que sofreu, e não à sua identidade.

    Também fiquei pensando que, enquanto você demonstra preocupação em oferecer ao seu namorado uma companheira "melhor", talvez ainda esteja faltando um espaço onde o principal cuidado seja com você. Antes de pensar no que ele recebe da relação, é importante que você também possa viver uma vida com menos medo, menos culpa e menos sofrimento. Seu namorado, pelo que você descreve, parece permanecer ao seu lado mesmo conhecendo suas dificuldades. Você consegue conversar com ele sobre essas crises? Consegue contar como elas acontecem e o que você sente nesses momentos?

    Na minha experiência clínica, já acompanhei pessoas que sofreram abuso sexual na infância e que carregaram essas marcas por muitos anos. A boa notícia é que esse sofrimento pode ser trabalhado. O trauma talvez nunca deixe de fazer parte da história, mas ele pode deixar de comandar a sua vida. Com um processo psicoterapêutico adequado, muitas pessoas conseguem compreender melhor o que viveram, desenvolver recursos para lidar com as lembranças e, aos poucos, construir uma relação mais segura com o próprio corpo, com a sexualidade e com as pessoas que amam.

    Por fim, gostaria de reforçar algo muito importante. Você não precisa enfrentar isso sozinha. Pela intensidade das crises de pânico, das lembranças e do sofrimento que descreve, acredito que procurar psicoterapia seja um passo fundamental. Seu relato mostra que você não está vivendo apenas uma dificuldade na vida sexual, mas as consequências de uma violência extremamente grave. Você merece um tratamento que acolha essa história com respeito e que lhe ajude, aos poucos, a recuperar algo que nunca deveria ter sido tirado de você: a possibilidade de viver suas relações com segurança, liberdade e confiança.


  • Bom... Eu sempre senti a necessidade de me conectar a alguém num nível mais íntimo. Eu lembro de sen

    Bom... Eu sempre senti a necessidade de me conectar a alguém num nível mais íntimo. Eu lembro de sentir este desejo já nos meus 11/12 anos de idade. Desde então venho tentando lidar com o fato de nunca ter me relacionado com alguém profundamente e isso me deixa bastante triste às vezes. Não quero soar fútil, mas é algo que tem me trazido angústia genuína e não tenho sabido lidar com isso. Estou ficando preocupado pois tenho 25 e, como adulto, eu já deveria ter a resposta pra isso. Sei que tenho que focar em mim mesmo e me amar antes de qualquer coisa, contudo... Eu me sinto vulnerável e gostaria de estar num relacionamento que me proporcipnasse a experiência de partilha de vida. Eu já vivi alguns um tanto quanto superficiais e, em nenhum deles, senti que era a pessoa certa. Eu ainda estou buscando contruir uma carreira, estabilidade, felicidade... Mas será que eu tenho que esperar que minha vida fique estável para enfim procurar alguém? Eu deveria procurar por uma pessoa? Quando serei feliz? Estas coisas passam pela minha cabeça e eu não sei como lidar com todas elas.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto eu lia sua pergunta, fiquei com a impressão de que você não está apenas buscando um relacionamento, mas tentando entender por que esse tipo de conexão profunda ainda não aconteceu na sua vida. Esse costuma ser um questionamento muito comum na vida adulta, principalmente entre pessoas que valorizam vínculos mais significativos do que relações passageiras.

    Uma coisa que me chamou atenção foi você dizer que esse desejo existe desde os 11 ou 12 anos. Isso mostra que não se trata de uma preocupação recente ou apenas de uma cobrança da idade. Parece existir em você um desejo muito genuíno de compartilhar a vida com alguém, construir intimidade e sentir que encontrou um lugar de pertencimento. É compreensível que essa busca gere angústia quando parece não acontecer no tempo que você imaginava.

    Também fiquei pensando em uma das perguntas que você faz: "será que preciso esperar minha vida ficar estável para procurar alguém?". Na prática, não existe uma resposta única para isso. Algumas pessoas constroem uma relação enquanto ainda estão organizando a carreira e a vida financeira. Outras só conseguem investir em um relacionamento depois que sentem maior estabilidade. O mais importante talvez seja refletir sobre outra questão: você acredita que só conseguirá viver um relacionamento profundo quando alcançar determinadas metas, ou acredita que encontrar a pessoa certa fará com que essas outras áreas também façam mais sentido?

    Existe outra reflexão que considero importante. Você conta que já viveu alguns relacionamentos, mas os descreve como superficiais. Isso desperta algumas perguntas interessantes: por que eles permaneceram superficiais? O que impediu que avançassem? Foi uma dificuldade sua em confiar e se abrir? Foi uma incompatibilidade entre vocês? Ou você percebe que costuma escolher pessoas com quem essa profundidade dificilmente aconteceria? Muitas vezes, compreender por que as relações não evoluíram ensina muito mais do que apenas esperar pela próxima.

    Também vale pensar sobre como você escolhe as pessoas com quem se envolve. Algumas pessoas descrevem, em teoria, o tipo de relacionamento que desejam, mas, na prática, acabam se aproximando repetidamente de perfis muito diferentes daquilo que procuram. Outras desejam muita intimidade, mas ainda carregam bloqueios que dificultam mostrar quem realmente são. Quando isso acontece, o relacionamento acaba ficando na superfície, mesmo existindo vontade de viver algo mais profundo.

    Talvez a pergunta mais importante, neste momento, seja outra: como seria, para você, escolher um relacionamento com profundidade? O que precisaria existir nessa relação? E, principalmente, o que essa pessoa encontraria ao se aproximar profundamente de você? Essas perguntas costumam abrir caminhos importantes para compreender não apenas o parceiro que desejamos encontrar, mas também a forma como nos relacionamos.

    Por fim, gostaria de lhe deixar uma reflexão. Na psicoterapia voltada para relacionamentos, muitas pessoas descobrem que o objetivo não é apenas encontrar "a pessoa certa", mas desenvolver recursos para construir uma relação profunda quando ela acontecer. Um conselho que costumo dar é tentar viver cada relacionamento menos como uma prova de que "agora precisa dar certo" e mais como uma oportunidade de aprender sobre si mesmo, sobre o outro e sobre a forma como vocês constroem intimidade. Curiosamente, quanto mais aprendemos com cada experiência, maiores costumam ser as chances de construir um relacionamento sólido e duradouro quando encontramos alguém realmente compatível.


  • Como eu sei que estou rejeitando o bebê na barriga? Ou somente não aceitei a ideia de ter um bebê ?

    Como eu sei que estou rejeitando o bebê na barriga? Ou somente não aceitei a ideia de ter um bebê ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Concordo com a sua crítica. Essa abertura fica muito mais empática e mais próxima da experiência real da gestação. A ideia de que "amor materno nasce automaticamente" é uma romantização que acaba produzindo muita culpa. Eu reescreveria assim:

    O que mais me chamou atenção na sua pergunta foi justamente a preocupação em entender se está rejeitando seu bebê. Curiosamente, essa dúvida já mostra que existe um vínculo sendo construído. A indiferença costuma preocupar muito mais do que esse conflito. Esse tipo de questionamento faz parte da experiência de muitas gestantes e, embora gere culpa, costuma ser um sinal de que você está tentando compreender o que está vivendo.

    A gravidez é, antes de tudo, o início de uma relação. E toda relação importante passa por um processo de construção. Nem sempre a descoberta da gestação desperta imediatamente amor, conexão ou encantamento. Essa é uma ideia bastante romantizada da maternidade. Na vida real, muitas mulheres precisam de tempo para elaborar a notícia, lidar com as mudanças que estão acontecendo e, aos poucos, construir um vínculo com o bebê.

    Talvez a pergunta mais importante não seja "estou rejeitando meu bebê?", mas "o que está sendo difícil aceitar nesse momento?". Para algumas mulheres, é a mudança do corpo. Para outras, a responsabilidade de ser mãe, as transformações na rotina, preocupações financeiras, mudanças no relacionamento ou até o medo de não conseguir cuidar bem do filho. Muitas vezes, a dificuldade não está no bebê, mas em tudo o que a maternidade representa.

    Também vale observar como você vive essa gestação. Existem momentos em que consegue imaginar seu bebê, pensar nele ou sentir alguma curiosidade sobre quem ele será? Ou a sensação predominante é de medo, culpa ou angústia? Essas emoções fazem parte do processo e costumam mudar bastante ao longo da gravidez. O vínculo vai sendo construído em pequenas experiências e não, necessariamente, em um único momento de "amor instantâneo".

    Outra questão importante é entender como essa gestação aconteceu. Ela foi planejada? Desejada? Aconteceu em um momento de muitas mudanças ou dificuldades? O contexto em que a gravidez acontece influencia muito a forma como cada mulher vive esse processo, e isso não significa que será uma mãe melhor ou pior.

    Se esses sentimentos têm trazido sofrimento ou culpa, acredito que a psicoterapia pode ajudar bastante. Ela oferece um espaço para compreender o que essa gravidez desperta em você, sem julgamentos. Muitas vezes, quando a mulher consegue entender os próprios medos e conflitos, o vínculo com o bebê vai se fortalecendo naturalmente. A maternidade não costuma nascer pronta; ela vai sendo construída, assim como a relação entre mãe e filho, ao longo da gestação e também depois do nascimento.


  • Olá. Tenho TOC diagnosticado e uma dúvida que tem me causado muito sofrimento. Há alguns anos comet

    Olá. Tenho TOC diagnosticado e uma dúvida que tem me causado muito sofrimento.

    Há alguns anos cometi uma infidelidade com uma pessoa do meu passado. Meu companheiro me perdoou e seguimos juntos, mas eu nunca consegui me perdoar.

    Recentemente imaginei como minha vida poderia ter sido se eu tivesse ficado com essa pessoa. Foi apenas um pensamento hipotético, e logo pensei que sou feliz no meu relacionamento atual. Mesmo assim, senti uma culpa muito intensa, como se esse pensamento significasse que fiz algo errado novamente.

    Esse tipo de pensamento pode ser uma manifestação do TOC ou pode indicar que ainda tenho algum sentimento por essa pessoa? Como lidar com essa culpa?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    O que mais me chamou atenção na sua pergunta é que você parece sofrer muito mais pela dúvida do que pelo pensamento em si. Isso costuma ser extremamente desgastante, porque a pessoa passa a tentar descobrir o que aquele pensamento "realmente significa", como se precisasse encontrar uma resposta definitiva para conseguir ficar em paz.

    Pelo que você descreve, acredito que seja importante ampliar um pouco o olhar para além do TOC. O transtorno pode, sim, intensificar esse sofrimento, principalmente quando existe um conflito entre culpa, desejo e necessidade de ter certeza absoluta sobre o que se sente. Nesses casos, o que mais alimenta o sofrimento costuma ser justamente a dúvida: "E se esse pensamento significar que ainda amo aquela pessoa?", "E se eu estiver enganando meu companheiro?". O TOC tende a transformar possibilidades em ameaças que precisam ser resolvidas imediatamente.

    Também gostaria de fazer uma reflexão sobre a sexualidade e os relacionamentos. É natural que, ao longo da vida, nossa mente imagine caminhos diferentes daqueles que seguimos. Pensar como teria sido a vida caso tivesse tomado outra decisão não significa, necessariamente, que você queira viver essa realidade hoje. Nossa mente cria hipóteses o tempo todo, e isso faz parte do funcionamento humano.

    Também fiquei pensando em outra questão. Você relata um conflito muito intenso em torno do desejo, e talvez valha a pena refletir como a sua forma de se relacionar evoluiu desde aquela infidelidade. Ao longo desses anos, você sente que amadureceu na maneira de viver seus relacionamentos? Conseguiu compreender melhor o que o levou àquela escolha e construir uma relação diferente com o desejo?

    Percebo que você parece oscilar entre dois extremos: de um lado, o medo de repetir uma traição; de outro, a ideia de que sentir qualquer desejo ou curiosidade por outra pessoa já significaria um novo erro. Esses dois lugares costumam gerar muito sofrimento. A experiência humana é mais complexa do que isso.

    É natural que, ao longo da vida, sintamos atração, curiosidade ou desejo por outras pessoas. O que diferencia um pensamento de uma escolha é justamente a forma como lidamos com ele. A decisão de procurar alguém, envolver-se ou romper um relacionamento costuma passar por uma avaliação muito mais ampla da própria vida, da qualidade da relação e do desejo de permanecer nela. Já imaginar possibilidades, sentir atração ou viver fantasias não significa, por si só, que exista a intenção de agir dessa maneira.

    Inclusive, algumas pessoas conseguem conversar sobre esses desejos dentro da própria relação e constroem acordos diferentes, como nos relacionamentos não monogâmicos. Esse é outro modelo de relacionamento, baseado em consentimento e negociação, muito diferente de uma traição. Faço essa distinção porque o problema nem sempre está na existência do desejo, mas na forma como cada casal escolhe viver esse desejo.

    Uma pergunta que pode ajudá-lo a refletir é: se, naquela época, você tivesse escolhido ficar com essa outra pessoa, será que hoje não estaria se perguntando como teria sido sua vida se tivesse permanecido com seu companheiro? Em outras palavras, talvez o foco do sofrimento não esteja exatamente na pessoa envolvida, mas na dificuldade de conviver com o fato de que toda escolha implica abrir mão de outras possibilidades.

    Também me chama atenção a intensidade da culpa que você relata. Você conta que seu companheiro o perdoou, mas parece que você ainda não conseguiu fazer esse mesmo movimento consigo. Quando isso acontece, qualquer pensamento relacionado ao passado pode ser vivido como uma nova "prova" de que continua errando, reforçando um ciclo de culpa que nunca termina.

    Na minha prática clínica, observo que pessoas que vivem esse tipo de conflito costumam se beneficiar muito de um espaço onde possam falar sobre desejo sem medo de julgamento. Muitas vezes, o sofrimento diminui quando deixamos de tratar cada pensamento como um perigo e passamos a compreender que ele faz parte da experiência humana, enquanto nossas escolhas continuam sendo construídas pelos valores, pelo compromisso e pela relação que decidimos cultivar.

    Pela natureza do seu relato, acredito que a psicoterapia, especialmente com um profissional que trabalhe com sexualidade humana e relacionamentos, possa ajudá-lo bastante. Além de compreender o funcionamento do TOC, esse trabalho permite desenvolver uma relação mais saudável com o desejo, com a culpa e com as escolhas que fazemos ao longo da vida. O objetivo não é eliminar os pensamentos, mas aprender a não viver prisioneiro deles.


  • Olá, estou em uso de Sertralina 50mg há 22 dias. Neste período já noto melhora significativa na ansi

    Olá, estou em uso de Sertralina 50mg há 22 dias. Neste período já noto melhora significativa na ansiedade, nunca mais tive as crises. Porém, estou me sentindo "muito tranquila", o que me causa até certa estranheza. Comentei com a psiquiatra que acompanha meu tratamento e a mesma afirmou que isso é comum e o organismo tende a acostumar, com o passar das semanas está é a nova sensação que será presente, a de bem-estar. Comentei o mesmo com minha psicóloga e ela aponta que isto é comum e justamente o bjetivo da medicação e que essa nova sensação de tranquilidade deve ser trabalhada em terapia, para que eu aprenda a lidar com ela e finalmente "descansar a cabeça" e que esta estranheza é comum pois vivi muitos anos com TAG e devo me readequar a este novo funcionamento. Ao mesmo tempo, quando paro, acabo me sentindo agoniada, pois parece que "não sou eu" e acabo me sentindo triste com isto.
    Com o andar do tratamento, a tendência é que esta sensação seja comum e "meu novo normal"?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto eu lia sua pergunta, fiquei com a impressão de que você está vivendo algo que costuma acontecer com algumas pessoas no início do tratamento: a melhora dos sintomas trouxe uma sensação nova, mas essa novidade também passou a gerar dúvidas. Isso pode ser bastante angustiante, principalmente para quem conviveu durante muitos anos com a ansiedade como forma habitual de funcionar.

    Uma primeira reflexão importante é que, hoje, grande parte dos tratamentos em saúde mental acaba concentrando seus esforços na redução dos sintomas. E isso é muito importante, porque os sintomas podem causar um sofrimento enorme. No entanto, quando eles diminuem, muitas pessoas descobrem que precisam aprender a viver de uma forma diferente. Ou seja, não basta apenas a ansiedade diminuir; é preciso construir uma nova relação consigo mesma e com o mundo.

    Pela sua descrição, parece que isso já está começando a acontecer. Antes, muitas situações do cotidiano despertavam ansiedade e mantinham sua atenção constantemente voltada para o que poderia acontecer no futuro. Agora, com a melhora proporcionada pela medicação, você passa a experimentar um estado de maior tranquilidade. Curiosamente, aquilo que deveria ser um alívio pode causar estranheza justamente porque é uma experiência pouco conhecida para você.

    Também fiquei pensando em uma frase que você escreveu: "parece que não sou eu". Essa sensação costuma assustar bastante, mas nem sempre significa que você perdeu sua identidade. Muitas vezes, ela acontece porque durante anos a ansiedade esteve tão presente que acabou sendo confundida com a própria personalidade. Quando esse funcionamento muda, é natural surgir a dúvida: "quem sou eu sem essa ansiedade?". Essa costuma ser uma das tarefas mais importantes da psicoterapia.

    Existe outro aspecto que considero muito importante. A ansiedade generalizada raramente aparece do nada. Em muitas pessoas, ela vai sendo construída ao longo da vida como uma forma de lidar com determinadas experiências, conflitos ou até situações traumáticas. Aos poucos, o organismo aprende que precisa permanecer em alerta para tentar prever e controlar aquilo que poderia dar errado. Nesse sentido, a ansiedade não é apenas um conjunto de sintomas, mas também uma forma de se relacionar com o mundo.

    Talvez seja justamente esse o trabalho que sua psicóloga esteja propondo quando diz que essa nova sensação precisa ser elaborada na terapia. Se antes sua atenção estava constantemente ocupada tentando antecipar o futuro, agora você passa a ter um encontro muito maior com o presente. E esse encontro também pode ser assustador, principalmente para quem viveu muito tempo acreditando que precisava estar sempre preparada para resolver algo inesperado.

    Uma pergunta que talvez possa enriquecer esse processo terapêutico é: quando você olha para a sua história, consegue identificar quando essa forma ansiosa de viver começou? Houve algum período em que você passou a sentir que precisava controlar tudo ou antecipar tudo para se sentir segura? Compreender como essa maneira de funcionar foi construída costuma trazer muito mais segurança para viver as mudanças do que apenas observar a redução dos sintomas.

    Por fim, acredito que a tendência seja que essa tranquilidade deixe de parecer algo estranho e passe a ser vivida com mais naturalidade. Mas isso normalmente não acontece apenas pelo efeito da medicação. A psicoterapia tem um papel fundamental nesse processo, ajudando você a compreender sua história, fortalecer sua confiança e construir uma forma de viver em que o bem-estar deixe de parecer algo "emprestado" e passe a ser reconhecido como parte de quem você também pode ser.:::


  • Sou mulher, 45 anos e sem experiência sexual com alguém. Recorro a porno eventualmente (fico meses s

    Sou mulher, 45 anos e sem experiência sexual com alguém.
    Recorro a porno eventualmente (fico meses sem acessar, não tenho vontade).
    Em 2015 me deparei com vídeos mais bizarros, como de zoo por exemplo e parei ali mesmo. Mas isso desencadeou uma crise enorme em mim.
    Na época procurei ajuda com um terapeuta sexual, mas depois que relatei o que estou dizendo aqui, a primeira pergunta dele foi: Ninguém nunca quis transar com você?! Não voltei mais.
    Desde 2021 sou acompanhada por uma psiquiatra, diagnosticada com depressão e ansiedade.
    Minha libido é baixa, mas semana passada, por tédio, resolvi ver alguma coisa e me deparei novamente com algo bizarro. Se fiquei 5min foi muito, perdi a vontade na hora e desde então estou muito mal.
    Me sinto culpada, suja, angustiada. Como uma viciada com recaída depois de 11 anos.
    Sei que preciso de terapia, mas podem me dar uma luz, por favor?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto lia sua pergunta, fiquei pensando no quanto deve ter sido doloroso procurar ajuda justamente para falar sobre sexualidade e sair da consulta sentindo-se ainda mais exposta. Sinto muito que essa tenha sido sua experiência. A pergunta que você recebeu não ajuda a compreender o seu sofrimento e, infelizmente, pode fazer muitas pessoas desistirem de buscar o cuidado de que realmente precisam. Ainda assim, quero reconhecer a sua coragem por voltar a falar sobre esse assunto hoje.

    Pelo que você descreve, não me parece que o maior problema tenha sido o conteúdo do vídeo, mas a forma como você passou a se relacionar com essa experiência. Você relata que, tanto em 2015 quanto agora, perdeu o interesse quase imediatamente, interrompeu o contato e, depois disso, ficou tomada por culpa, angústia e pela sensação de estar "suja". Isso sugere que o sofrimento vem muito mais da interpretação que você faz do que aconteceu do que do desejo em si.

    Também me chamou atenção outro aspecto. Você conta que ficou muitos anos sem procurar esse tipo de conteúdo e que, recentemente, resolveu assistir "por tédio". Quando passamos muito tempo afastados de qualquer vivência ligada à sexualidade, é relativamente comum que uma tentativa de retomada aconteça de forma desconectada do próprio desejo. A curiosidade pode aparecer misturada com o acaso, com algoritmos da internet ou com conteúdos que não representam aquilo que realmente desperta interesse. Isso costuma causar estranheza e, em pessoas que já carregam muita culpa em relação à sexualidade, pode desencadear um sofrimento muito intenso.

    Gostaria também de entender melhor quando você diz que é uma mulher de 45 anos "sem experiência sexual com alguém". Você se refere a nunca ter tido uma relação sexual ou a estar, neste momento da vida, sem um parceiro? Essa diferença é importante, porque existem pessoas que simplesmente nunca encontraram uma relação em que se sentissem seguras para viver sua sexualidade. Outras acabam percebendo que fazem parte do espectro da assexualidade, vivendo pouco ou nenhum interesse por atividade sexual. Há ainda pessoas que só experimentam desejo quando desenvolvem um vínculo afetivo profundo. Todas essas possibilidades existem e merecem ser compreendidas com respeito, sem que uma seja considerada mais correta do que a outra.

    Outro ponto importante é considerar que você está em tratamento para depressão e ansiedade. Tanto essas condições quanto alguns medicamentos utilizados para tratá-las podem reduzir significativamente a libido e modificar a forma como a pessoa percebe o próprio desejo. Isso também precisa fazer parte da compreensão do seu caso.

    Acho que vale a pena olhar com carinho para a forma como você construiu sua relação com a sexualidade ao longo da vida. Como esse tema era vivido na sua família? Você sentia que podia falar sobre isso? Existiram experiências de vergonha, medo, repressão ou culpa? Muitas vezes, o sofrimento não está no desejo, mas na maneira como aprendemos a interpretá-lo.

    Na minha prática clínica, observo que muitas pessoas que passaram anos afastadas da própria sexualidade acabam estranhando qualquer movimento de aproximação. Com o tempo, quando conseguem compreender melhor seus desejos, seus limites e a forma como se relacionam afetivamente, essa estranheza costuma diminuir. O objetivo não é fazer com que a pessoa tenha mais desejo, mas ajudá-la a viver a sexualidade — seja ela qual for — de uma forma mais tranquila e integrada à própria história.

    Acredito que a psicoterapia seja, sim, um caminho importante para você. Pelo seu relato, eu procuraria um profissional que trabalhe com sexualidade humana, para que esse tema possa ser abordado sem julgamentos e com o cuidado que merece. Seu sofrimento não parece estar relacionado apenas ao conteúdo que viu, mas à culpa, à ansiedade e à forma como você aprendeu a olhar para a própria sexualidade ao longo da vida. Isso pode ser compreendido e elaborado de maneira muito mais acolhedora do que foi naquela primeira experiência que você teve ao buscar ajuda.


  • Olá está bem difícil por aqui, pois minha filha está ficando bem irritada , as coisa Tenque ser tudo

    Olá está bem difícil por aqui, pois minha filha está ficando bem irritada , as coisa Tenque ser tudo do jeito dela , arruma uma cama tenq ser do jeito que ela bota se muda pronto já faz escândalo começa a jogar os brinquedos pro alto , as vezes que me bater me morde , as vezes colocar uma meia no pé a meia estando certa ela cisma que está errada aí começa o choro os gritos, está bem difícil até na rua agora ela está fazendo essas coisas ela tem 3 anos , ela fica tão irritada aí ponto até da cara dela ficar cm algumas placas vermelhas. Qual especialista devo procurar?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Imagino o quanto isso deve estar sendo cansativo para vocês. Quando uma criança de 3 anos começa a ter crises tão intensas, é natural que os pais tentem resolver cada situação isoladamente — a cama, a meia, o brinquedo, a roupa. Mas, muitas vezes, esses comportamentos são apenas a parte visível de algo maior que está acontecendo na dinâmica da família.

    Pela sua descrição, não me parece que o problema principal seja a cama estar arrumada "errado" ou a meia não estar do jeito que ela quer. Esses episódios costumam esconder uma disputa de poder. Ou seja, o conflito deixa de ser sobre o objeto e passa a ser sobre quem decide, quem conduz a situação e como a criança reage quando é contrariada.

    Na avaliação de casos como esse, considero muito importante compreender toda a dinâmica familiar. Como as regras são estabelecidas? Quem costuma colocar os limites? Todos os adultos que cuidam dela agem de forma parecida ou cada um responde de um jeito? Existem situações em que ela consegue insistir até que as coisas aconteçam exatamente como deseja? Essas informações ajudam muito mais do que analisar apenas cada comportamento separadamente.

    Também é importante lembrar que crianças de 3 anos estão justamente na fase em que começam a descobrir a própria vontade. Muitas já apresentam uma tendência natural de querer decidir as coisas por conta própria. O desafio não é impedir que elas tenham vontade, mas ajudá-las a aprender que viver em família também envolve aceitar limites, tolerar frustrações e compreender que nem tudo acontecerá da forma como desejam.

    As crises intensas, os gritos, jogar objetos, tentar bater ou morder e até essas manchas vermelhas que aparecem durante a irritação mostram que ela está tendo muita dificuldade para regular as próprias emoções. Isso não significa, necessariamente, que exista algum transtorno. Significa que ela ainda não está conseguindo lidar com a frustração e precisa da ajuda dos adultos para aprender esse processo.

    Nesses casos, costumo recomendar uma avaliação com um terapeuta de família ou um psicólogo que trabalhe com primeira infância e orientação parental. O foco não costuma ser "tratar a criança" isoladamente, mas compreender como ela está inserida nas relações familiares e orientar quem cuida dela sobre formas mais consistentes de estabelecer limites, organizar a rotina e responder às crises. Quando os adultos conseguem compreender o que sustenta esses comportamentos, normalmente passam a agir com mais segurança, e a criança também tende a ficar mais organizada emocionalmente.

    Quanto mais cedo esse processo for compreendido, maiores costumam ser as chances de evitar que essas disputas de poder se intensifiquem nos próximos anos e se transformem em um padrão de funcionamento da família.


  • Há 4 anos conheci uma garota, não chegamos a namorar, mas nunca esqueci ela, errei com ela, penso ne

    Há 4 anos conheci uma garota, não chegamos a namorar, mas nunca esqueci ela, errei com ela, penso nela todo dia, até cheguei a namorar outra pessoa depois, mas nunca me senti feliz com o meu relacionamento recente

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Enquanto eu lia sua pergunta, fiquei pensando que, muitas vezes, não é apenas uma pessoa que permanece na nossa memória, mas a história que imaginamos que poderia ter sido vivida com ela. Isso costuma gerar um sofrimento muito intenso, principalmente quando acreditamos que fomos responsáveis pelo fim daquela possibilidade.

    Uma primeira reflexão importante é sobre o momento em que essa relação terminou. É muito comum que uma paixão interrompida ainda no início deixe uma sensação de "algo inacabado". Quando somos afastados justamente na fase em que a paixão está crescendo, nossa mente tende a continuar essa história sozinha, imaginando como ela teria sido se tivesse seguido em frente. Como essa convivência nunca chegou a amadurecer, é natural que a imaginação preencha os espaços com uma versão bastante idealizada da relação.

    Também me chamou atenção você dizer que acredita ter errado com ela. A culpa costuma tornar esse processo ainda mais difícil, porque cria a sensação de que "bastava eu ter agido diferente e hoje estaria vivendo uma vida muito melhor". Embora seja importante reconhecer nossos erros e aprender com eles, também precisamos lembrar que nenhum relacionamento depende apenas de uma decisão ou de um único momento. Uma relação duradoura é construída ao longo do tempo, enfrentando dificuldades, diferenças e mudanças que vocês sequer tiveram a oportunidade de viver.

    Existe outro aspecto que merece atenção. Você conta que chegou a namorar outra pessoa, mas nunca conseguiu se sentir realmente feliz. Isso não significa, necessariamente, que aquela primeira pessoa era o amor da sua vida. Em alguns casos, quando uma paixão fica interrompida dessa forma, ela acaba se tornando uma referência difícil de competir, justamente porque permaneceu idealizada. A comparação deixa de ser entre duas relações reais e passa a ser entre um relacionamento vivido e outro que existiu principalmente na imaginação.

    Talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que você ainda pensa nela, mas o que exatamente ela representa para você hoje. Ela representa aquela pessoa que conheceu há quatro anos ou representa a oportunidade que você acredita ter perdido? Essas duas coisas costumam ser muito diferentes.

    Por fim, acredito que a psicoterapia pode ajudar bastante nesse processo. Na prática clínica, é muito comum descobrirmos que a dificuldade em superar uma relação não está ligada apenas ao término em si, mas também a outras experiências afetivas, à forma como construímos nossos vínculos e ao significado que damos às perdas. Quando conseguimos compreender essas dinâmicas, a lembrança daquela pessoa costuma deixar de ocupar um lugar tão central, permitindo que novas relações sejam vividas sem a necessidade de competir com uma história que acabou permanecendo apenas como possibilidade.


  • Sinto que depois que minha esposa engravidou eu comecei a ficar mais tempo preso ao celular rolando

    Sinto que depois que minha esposa engravidou eu comecei a ficar mais tempo preso ao celular rolando feed, depois de um tempo comecei a buscar tbm uma necessidade em pornografia que acabou se tornando uma compulsão, olhava no trabalho ou sempre que ela não estava por perto, qual a melhor ajuda profissional a se buscar e geralmente como é o tratamento?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

     Regis Soster Santa Maria

    Antes de tudo, gostaria de reconhecer um aspecto importante do que você escreveu: você conseguiu perceber um momento em que esse comportamento começou a mudar. Isso faz bastante diferença no tratamento, porque muitas pessoas procuram ajuda apenas quando a compulsão já está instalada, sem conseguir relacioná-la com acontecimentos importantes da própria vida.

    Pelo seu relato, chama atenção que esse aumento no uso do celular e da pornografia tenha acontecido justamente após a gravidez da sua esposa. Isso não significa, necessariamente, que a gravidez seja a causa da compulsão, mas sugere que esse momento merece ser compreendido com bastante cuidado.

    A chegada de um filho costuma representar uma das maiores mudanças na vida de um casal. A relação deixa de ser organizada apenas em torno dos dois e passa a incluir um terceiro membro da família. Naturalmente, a gestação exige mais atenção, cuidados e mudanças físicas e emocionais da mulher. Algumas pessoas conseguem participar desse processo de forma muito ativa; outras, sem perceber, começam a sentir que perderam espaço na relação e procuram outras formas de aliviar esse vazio ou essa ansiedade.

    Também me chamou atenção a forma como você descreve a situação: "minha esposa engravidou". Pode parecer apenas um detalhe da linguagem, mas na psicoterapia costumamos explorar como cada pessoa ocupa seu lugar dentro da história que conta. Como foi para você descobrir que seria pai? Esse filho foi planejado? Como vocês imaginaram que seria a vida de vocês como família? Como era seu pai quando você era criança? Essas perguntas ajudam a compreender como você está vivendo essa transição para a paternidade.

    Outro aspecto importante é entender a função que a pornografia passou a exercer na sua vida. Ela surgiu apenas como busca por prazer sexual ou passou a funcionar também como uma forma de aliviar ansiedade, solidão, estresse ou sentimentos difíceis? Em muitos casos, a pornografia deixa de ser apenas um comportamento sexual e passa a ocupar um lugar de regulação emocional. É justamente aí que o risco de compulsão aumenta.

    O fato de você procurar pornografia durante o trabalho ou sempre que sua esposa não estava por perto também merece atenção. Esses comportamentos podem indicar que o uso deixou de acontecer apenas por desejo sexual e passou a fazer parte de um padrão automático, repetitivo e difícil de controlar.

    Na psicologia da sexualidade, entendemos que a pornografia, por si só, raramente é o problema principal. Ela costuma ser uma resposta a conflitos mais profundos relacionados à forma como a pessoa vive o desejo, o prazer, as responsabilidades e os relacionamentos. Por isso, mais importante do que apenas tentar interromper o comportamento é compreender por que ele se tornou necessário naquele momento da sua vida.

    Na minha prática clínica, especialmente com pessoas que apresentam compulsão sexual e dificuldades nos relacionamentos, o tratamento busca compreender toda essa construção. Investigamos como sua história afetiva, sua forma de viver a sexualidade, a relação com sua esposa, a chegada da paternidade e outros acontecimentos importantes contribuíram para esse comportamento. A partir dessa compreensão, trabalhamos para que o prazer deixe de funcionar como uma compensação emocional e volte a ocupar um lugar saudável dentro da vida e do relacionamento.

    Na minha opinião, o profissional mais indicado para iniciar esse processo é um psicólogo com experiência em sexualidade humana e relacionamentos. Dependendo da avaliação, também pode ser útil envolver sua esposa em alguns momentos do tratamento, especialmente se essa compulsão estiver afetando a intimidade e a confiança do casal. O objetivo não é apenas reduzir o consumo de pornografia, mas ajudá-lo a compreender o que esse comportamento está comunicando sobre sua história e construir formas mais saudáveis de viver sua sexualidade, sua relação conjugal e sua nova etapa como pai.


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