Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso

3 respostas
Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso aceitar doença sem me sentir vulnerável?
Dr. Pablo  Barreto
Psicólogo
Rio de Janeiro
Olá, sua pergunta é muito importante e curiosa, tentarei te ajudar a entendê-la do melhor modo.

Na verdade logo de início me vejo tentado a te fazer uma outra pergunta:
o que exatamente você teme que as pessoas pensem ou façam se te virem como “frágil”?
- Medo de ser tratada como incapaz?
- Medo de que as pessoas se afastem por não saberem lidar?
- Medo de perder autoridade no trabalho, na família, nos espaços que você ocupa?
- Medo de que sua dor seja desqualificada ou, ao contrário, superdimensionada?

Todos esse medos são legítimos. Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a autonomia e a produção, e que muitas vezes trata a dependência como algo vergonhoso. Mostrar-se vulnerável pode soar como dar munição para que desconfiem ainda mais de você. É importante nomear isso: seu receio não é só pessoal, ele é social e político.

Na esquizoanálise, trabalhamos com a ideia de que o corpo é um agenciamento de afetos, não uma essência fixa. A fragilidade que você teme talvez seja uma imagem estática: alguém quebrado, sem potência. Mas a vulnerabilidade — o fato de sermos afetáveis, de dependermos uns dos outros, de termos limites — é constitutiva de todo ser humano. Você não escolheu ser vulnerável; a vida é vulnerável.

Desse modo, acredito ser essencial separarmos "fragilidade" de "vulnerabilidade", em termos conceituais.

A questão talvez não seja deixar de ser vulnerável, mas sim como você percebe essa vulnerabilidade. É possível estar vulnerável e ainda assim ser a pessoa que decide sobre sua vida, que estabelece limites, que pede o que precisa sem se diminuir. A diferença está na agência: você pode dizer “hoje estou com menos energia, mas ainda sou eu quem decide o que fazer com essa energia”.

Esse é um processo de desorganização e reorganização existencial. E é um processo necessário, principalmente quando lidamos com eventos que afetam nossa relação com o nosso próprio corpo e o mundo. Ainda assim é fundamental entender que se desorganizar e se reorganizar faz parte do fluxo da vida, e não significa que essa reorganização seja para algo inferior. É possível se construir modelos de reorganização potentes e grandiosos, lidando adequadamente com os fluxos de relações e variáveis disponíveis.

Assim, acredito que para esse processo de reorganização existencial, a psicoterapia seria essencial, enquanto um espaço seguro, acolhedor e potente, para nomear os sentimentos, produzir sentidos e experimentar modos existenciais possíveis.

Espero ter ajudado com sua pergunta, e me coloco à disposição para auxiliar no que for preciso.



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Dra. Rosana Paula Silva Medeiros
Psicólogo, Psicanalista
Rio de Janeiro
Olá, como vai? Espero poder te ajudar com minha resposta.
Sentir se vulnerável ao receber um diagnóstico de Lúpus é uma experiência real, mas "aceitar" não significa se render à doença ou deixar que ela defina quem você é. É possível integrar essa condição à sua vida mantendo sua força e autonomia.
1. Reenquadre o conceito de aceitação
Aceitar o Lúpus não é admitir derrota; é reconhecer o cenário para poder traçar a melhor estratégia. Pense no Lúpus como uma condição meteorológica: você não é culpado pela chuva, mas aceitar que vai chover permite que você pegue um guarda-chuva e continue seu caminho, em vez de ficar se molhando e se frustrando.

2. Conhecimento é Poder (e Escudo)
Quanto mais você entende sobre a sua condição, menos "vítima" do acaso você se sente. Ao explicar para as pessoas o que acontece, use termos objetivos. Em vez de "estou mal", tente "estou em um período de maior fadiga hoje e preciso priorizar meu descanso para me recuperar logo". Isso demonstra que você se prioriza, não é questão de fragilidade.

3. Estabeleça limites com firmeza, não com desculpas
Muitas vezes, as pessoas nos tratam como "frágeis" porque tentamos esconder a dor até o limite e depois "quebramos".
Seja proativo: Diga o que você precisa antes de chegar a exaustão.
Diga "não" sem culpa: Negar um convite porque você precisa se preservar é um ato de responsabilidade com sua saúde, algo que exige muita força mental.

4. Separe sua Identidade do Diagnóstico
Você tem Lúpus, você não é o Lúpus. Continue investindo em seus hobbies, trabalho e relacionamentos que não orbitam em torno da doença. Quando você se vê como uma pessoa multifacetada, os outros também passam a te enxergar assim.

5. Foque no que você controla
A vulnerabilidade floresce na incerteza. Foque na sua rotina: alimentação, adesão ao tratamento e manejo do estresse. Ver-se como o "capitão" do seu tratamento reforça sua sensação de competência e resiliência.

Lembre-se: A verdadeira força não é a ausência de limitações, mas a capacidade de florescer apesar delas. Quem convive com uma doença crônica desenvolve uma resiliência que a maioria das pessoas "saudáveis" desconhece.

Espero ter ajudado, caso precise estou a disposição.
Abçs

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