Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso

1 respostas
Não quero que as pessoas me vejam como frágil por ter lúpus eritematoso sistêmico (LES). Como posso aceitar doença sem me sentir vulnerável?
Dr. Pablo  Barreto
Psicólogo
Rio de Janeiro
Olá, sua pergunta é muito importante e curiosa, tentarei te ajudar a entendê-la do melhor modo.

Na verdade logo de início me vejo tentado a te fazer uma outra pergunta:
o que exatamente você teme que as pessoas pensem ou façam se te virem como “frágil”?
- Medo de ser tratada como incapaz?
- Medo de que as pessoas se afastem por não saberem lidar?
- Medo de perder autoridade no trabalho, na família, nos espaços que você ocupa?
- Medo de que sua dor seja desqualificada ou, ao contrário, superdimensionada?

Todos esse medos são legítimos. Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a autonomia e a produção, e que muitas vezes trata a dependência como algo vergonhoso. Mostrar-se vulnerável pode soar como dar munição para que desconfiem ainda mais de você. É importante nomear isso: seu receio não é só pessoal, ele é social e político.

Na esquizoanálise, trabalhamos com a ideia de que o corpo é um agenciamento de afetos, não uma essência fixa. A fragilidade que você teme talvez seja uma imagem estática: alguém quebrado, sem potência. Mas a vulnerabilidade — o fato de sermos afetáveis, de dependermos uns dos outros, de termos limites — é constitutiva de todo ser humano. Você não escolheu ser vulnerável; a vida é vulnerável.

Desse modo, acredito ser essencial separarmos "fragilidade" de "vulnerabilidade", em termos conceituais.

A questão talvez não seja deixar de ser vulnerável, mas sim como você percebe essa vulnerabilidade. É possível estar vulnerável e ainda assim ser a pessoa que decide sobre sua vida, que estabelece limites, que pede o que precisa sem se diminuir. A diferença está na agência: você pode dizer “hoje estou com menos energia, mas ainda sou eu quem decide o que fazer com essa energia”.

Esse é um processo de desorganização e reorganização existencial. E é um processo necessário, principalmente quando lidamos com eventos que afetam nossa relação com o nosso próprio corpo e o mundo. Ainda assim é fundamental entender que se desorganizar e se reorganizar faz parte do fluxo da vida, e não significa que essa reorganização seja para algo inferior. É possível se construir modelos de reorganização potentes e grandiosos, lidando adequadamente com os fluxos de relações e variáveis disponíveis.

Assim, acredito que para esse processo de reorganização existencial, a psicoterapia seria essencial, enquanto um espaço seguro, acolhedor e potente, para nomear os sentimentos, produzir sentidos e experimentar modos existenciais possíveis.

Espero ter ajudado com sua pergunta, e me coloco à disposição para auxiliar no que for preciso.



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