Olá, tenho TOC com pensamentos repugnantes. Estudei bastante o TOC pela ótica da TCC, e ela sempre m

30 respostas
Olá, tenho TOC com pensamentos repugnantes. Estudei bastante o TOC pela ótica da TCC, e ela sempre me ajudou muito com meus conflitos. No entanto, comecei a estudar a teoria do TOC pela psicanálise (neurose obsessiva). A maioria dos psicanalistas que acompanho aborda os pensamentos intrusivos como manifestações de desejos inconscientes reprimidos que emergem à consciência. Em outras palavras, seria um processo de substituição: como o desejo reprimido é considerado imoral, ele é recalcado e depois retorna de forma distorcida como pensamento intrusivo. No entanto, achei essa explicação superficial e até desesperadora — dizer que aquilo que você mais repudia é, na verdade, um desejo inconsciente. Será que esses pensamentos não poderiam surgir de medos, traumas ou mecanismos que não envolvem, necessariamente, o desejo? Alguém poderia, por gentileza, me orientar sobre isso?
Olá. Seu raciocínio está perfeito. Essa visão de que os pensamentos são manifestações de desejos inconscientes é muito antiga. Por ser a base inicial do entendimento da psiquê, ainda é tida por muitos da mesma forma. Porém, de novos estudos, surgiram novas abordagens que apoiam a investigação da origem desses pensamentos e comportamentos que usamos para nos adaptarmos à realidade externa. E isso não tem nada a ver com desejos. Fico à disposição para falarmos online. Abraço!

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 Maisa Guimarães Andrade
Psicanalista, Psicólogo
Rio de Janeiro
Querido anônimo ou anônima, agradeço muito pela forma sensível e cuidadosa com que você se dirige a esse tema tão delicado. Sua pergunta revela não apenas um desejo profundo de se compreender, mas também uma grande abertura ao conhecimento — e isso, por si só, já é um importante passo no caminho da escuta psicanalítica.

Na psicanálise, de fato, os pensamentos obsessivos são frequentemente relacionados ao inconsciente — esse lugar psíquico onde ficam guardados não apenas desejos, mas também angústias, conflitos e conteúdos que, por diversos motivos, não puderam ser plenamente elaborados. Quando falamos de “desejo inconsciente”, não estamos falando de um desejo no sentido comum, direto, como algo que queremos realizar conscientemente. Na verdade, esse desejo inconsciente pode se apresentar de forma paradoxal, disfarçada, invertida, e muitas vezes se mostra como aquilo que mais recusamos. O que é importante entender aqui é que não se trata de um desejo a ser realizado, mas de um enigma a ser compreendido.

Você pergunta, com razão, se esses pensamentos não poderiam vir também de medos, traumas ou outros mecanismos. E a resposta é: sim, absolutamente. A psicanálise não reduz a mente humana a um único princípio explicativo. Ela reconhece a complexidade dos afetos, dos mecanismos de defesa, da história de cada sujeito. O que aparece como desejo reprimido pode estar enredado, também, em vivências de angústia, culpa, interdições familiares, traumas e identificações inconscientes.

Na neurose obsessiva, os pensamentos intrusivos podem ser formas de lidar com conflitos muito primitivos e ambivalentes. Muitas vezes, eles servem como uma barreira simbólica para impedir que algo mais angustiante ou mais caótico venha à tona. Por isso, o obsessivo se vê aprisionado numa espécie de circuito mental, tentando controlar a angústia com o pensamento — ainda que isso nunca o leve à paz que busca.

O processo analítico não vai dizer que você "deseja o que pensa", de forma literal. Mas vai escutar, com tempo e profundidade, o que esse pensamento diz sobre você, sobre como você se defende, como tenta reparar, como tenta controlar o que o assusta. Muitas vezes, há uma exigência inconsciente de pureza, de perfeição, de controle absoluto — e o pensamento intrusivo aparece como aquilo que ameaça essa ordem idealizada.

A psicanálise não nega o sofrimento que esses pensamentos trazem. Pelo contrário: ela reconhece sua intensidade, sua força desorganizadora, e propõe justamente um espaço onde eles possam ser escutados, sem julgamento, com cuidado e responsabilidade. A partir da escuta, com o tempo, vai sendo possível entender não só o que esses pensamentos querem calar ou encobrir, mas também de onde vêm, por que se repetem, e o que o sujeito pode construir a partir disso.

Se você já encontrou alívio com a TCC, isso é importante — e a psicanálise não nega nem desvaloriza outras abordagens. Mas se agora há um desejo de compreender mais profundamente o que está em jogo, a escuta psicanalítica pode ser um espaço valioso para isso. E lembre-se: o que angustia precisa ser escutado, não para ser julgado, mas para ser simbolizado. Só assim ele pode perder o poder de paralisar, e passar a ser integrado à sua história de forma menos dolorosa.

Se quiser, posso estar ao seu lado nesse processo. Seu sofrimento merece respeito, e sua busca por respostas merece escuta.
 Virginia Lopes
Psicólogo, Psicanalista
Governador Valadares
Ola!! De fato, explicando assim de forma tão breve fica superficial e pode chegar desesperador para quem sente na pele as consequencias que esses pensamentos causam. A verdade é que o "desejo inconsciente" ele nem sempre chega pra gente de forma nitida, ele pode se apresentar de forma distorcida na realidade, pois como é inconsciente, seu objetivo é não ser reconhecido em sua essência. O medo, o toc, os pensamentos intrusivos podem sim vir de traumas ou ser um mecanismos de defesa. Mas não é tão simples de encontrar essa resposta, pois ela estará diretamente ligada à historia da pessoa. Se ser a manifestação de um desejo inconsciente te provocou algo, talvez valha a pena falar sobre isso com alguem que entenda da psicanálise. Ao paciente, não é necessario entender a teoria, mas sim falar do que sente.
 Léa Michaan
Psicólogo, Psicanalista
São Paulo
Olá, nós temos a capacidade de ESCOLHER NOSSOS PENSAMENTOS!
Também trabalho com a psicanálise, no entanto, ela pode ser perigosa quando usamos uma teoria para responder a questões universais e também pode manter o ser humano acreditando que não tem poder em escolher os pensamentos; ou seja, pode manter a pessoa refém da mente.
Nossa mente é uma ferramenta para VIVERMOS BEM; no momento que compreendemos que ela é um presente que existe para nos servir e não para nós servirmos a ela, começamos a observar os pensamentos e discernir os destruivos dos construtivos. Então, mantemos os construtivos e mudamos a chave para substituir os pensamentos toxicos e destrutivos. Você consegue desenvolver essa capacidade exercitando a observação mental e escolhendo o pensamento que vai predominar em você.
Um abraço,
Lea
 Dora Costa
Psicólogo, Psicanalista
Brasília
A Psicanálise vai tentar dar um sentido para o afeto que foi deslocado ( afeto no sentido de afecções), daquilo que te afeta. Vai tentar renomear esse afeto, e a angústiaque o acompanha.
Foi a forma que esse afeto pôde aparecer na consciência. Então esse afeto deslocado é um mecanismo de defesa inconsciente, que comparece através do sintoma obsessivo como uma forma possível, e sim, está relacionado aos medos, desamparos infantis, traumas vivenciados, e etc. E se não puderam ser elaborados na ocasião, ficam na memória como uma inscrição psíquica, uma marca, um traço minemico, um rastro, e podem aparecer de várias formas, como por exemplo através do sintoma obsessivo. E tem uma ligação com o modo de funcionamento psíquico do sujeito, como uma forma de controle causando sofrimento.
Olá!
É importante as suposições que você está elaborando sobre o TOC. Indico buscar um psicanalista lacaniano para aprofundar mais suas elaborações e ver o que é possível tratar. Caso deseje uma escuta a respeito, pode agendar aqui.
 Claudia Cecilia Daniel
Psicólogo, Psicanalista
São José dos Campos
Olá, agradeço por compartilhar suas reflexões e dúvidas tão profundas. Como psicanalista, entendo que a questão dos pensamentos intrusivos, especialmente no contexto do TOC, é complexa e multifacetada, envolvendo tanto aspectos conscientes quanto inconscientes de nossa subjetividade.

Na psicanálise, consideramos que os pensamentos intrusivos podem ter múltiplas origens e não se limitam a uma única explicação. É importante reconhecer que esses pensamentos podem, sim, estar relacionados a desejos inconscientes reprimidos, mas também podem refletir conflitos internos, medos, traumas ou mecanismos de defesa que o sujeito utiliza para lidar com ansiedades e angústias.

Ao contrário de uma visão unicamente baseada na repressão de desejos considerados imorais, podemos entender esses pensamentos como manifestações de conflitos internos mais amplos, que podem envolver a ansiedade, o medo de perder o controle, ou até experiências traumáticas não elaboradas. Eles podem surgir como uma tentativa do psiquismo de simbolizar ou externalizar conflitos que, por diferentes razões, não encontram uma via adequada de expressão consciente.

A psicanálise também nos convida a explorar o significado subjetivo de cada pensamento, considerando o contexto de vida, as experiências passadas e as associações livres do paciente. Assim, o foco não é apenas na origem do pensamento, mas na sua função, no que ele representa na vida psíquica do indivíduo, e na dinâmica de conflitos que ele revela.

Em suma, esses pensamentos podem não ser exclusivamente desejos reprimidos, mas manifestações de uma rede de conflitos, medos e experiências que precisam ser escutados e elaborados com cuidado. A terapia psicanalítica busca justamente esse espaço de compreensão mais profunda, onde o sujeito possa integrar suas emoções, traumas e desejos, promovendo uma maior autonomia e paz interior.

Se desejar, podemos explorar juntos esses pensamentos e os significados que eles carregam, sempre respeitando a singularidade de sua história e de sua experiência.
 Francisco Alves A. Neto
Psicólogo, Psicanalista
São Paulo
Você tem razão, se a compreensão da psicanálise para os atos e pensamentos obsessivos se resumisse à teoria do retorno do desejo reprimido na forma de sintoma, seria simplificar demais o fenômeno. Ainda que na base da teoria freudiana exista essa compreensão, no decorrer da obra, ele esmiúça como isso acontece, você precisaria estudar, se te interessa, o mecanismo obsessivo por trás desses pensamentos e ações obsessivas, ou intrusivas, como você chama. Recomendo o caso completo do Homem dos Ratos, do Freud. Mas de lá pra cá a teoria psicanalítica avançou muito. Existem outras explicações psicanalíticas para o TOC que abrem mão do conflito neurótico na sua compreensão. Recomendo a obra De Narciso a Sisífo, Os sintomas compulsivos hoje, de Julio Verztman, Regina Herzog, Teresa Pinheiro. Um abraço!
 Rosana Britva
Psicanalista
São Paulo
Olá! Entendo perfeitamente suas preocupações e dúvidas sobre o TOC e suas diferentes abordagens na psicanálise e na TCC. É muito válido questionar e buscar uma compreensão que faça sentido para você.

Na psicanálise, de fato, há essa perspectiva de que os pensamentos intrusivos podem estar relacionados a desejos inconscientes reprimidos. Essa ideia pode ser bastante complexa e, para muitas pessoas, até desconfortável, como você mencionou. Acreditar que algo repugnante seja um desejo reprimido pode parecer perturbador.

Por outro lado, como você sugeriu, existem outras perspectivas que também são importantes de considerar. Traumas, medos e outros mecanismos psicológicos podem certamente desempenhar um papel significativo no surgimento e na manutenção dos sintomas do TOC. Cada indivíduo é único, e a psicanálise, como você bem colocou, busca compreender profundamente o ser humano em sua singularidade.

É perfeitamente aceitável explorar diferentes abordagens e encontrar aquela que melhor ressoa com você e com suas experiências. A psicanálise oferece um espaço para investigar não apenas os aspectos conscientes, mas também os processos inconscientes que podem estar em jogo nos transtornos psicológicos.

Se você sente que uma abordagem que considera os medos, traumas e outros elementos além do desejo inconsciente pode ser mais adequada para sua compreensão e tratamento, é totalmente válido explorar essa linha de pensamento. O importante é encontrar um caminho que seja confortável e que permita um trabalho terapêutico eficaz para você.
Como psicanalista acredito e trato transtornos na minha clinica, fique a vontade em me contatar caso queira conversar.

 Gliselides Lima dos Santos
Psicólogo, Psicanalista
Fortaleza
Olá, seria bom você marcar uma sessão para falar um pouco melhor sobre seu sofrimento, pois o TOC pode está associado a diversas doenças como por exemplo; transtorno disfórico e corporal , arrancar cabelo entre outros, o TOC são obsessões e/ ou compulsões que prejudicam o cotidiano do sujeito trazendo muitos prejuízos.
Um acompanhamento com um profissional capacitado faz todo diferença.
Olá, independente da abordagem terapêutica explicativa dos sintomas. É importante você aceitar que esses pensamentos intrusivos, o próprio comportamento do TOC que não deixa de ser um sintoma interno, isto é, existe dentro de você. Aceitando que pode sim haver desejos reprimidos, incompreendidos, ou traumas mal elaborados, dores que precisam ser vistas e ressignificadas. Você pode elaborar essa angústia a partir dessa reflexão.
É importante fazer terapia com uma Psicóloga que você se identifica para você se compreender e se aceitar de forma mais positiva, a ponto desses sintomas não atrapalharem mais a sua vida.
 Cleide Marchiotti
Psicólogo, Psicanalista
Maringá
Olá. Olha, trabalho com a psicanálise e sobre a neurose obsessiva a resposta não é assim tão simplista e talvez você tenha interpretado de forma errada, ou realmente tenha sido dita, a explicação sobre os pensamentos obsessivos. Não são os pensamentos "absurdos e imoral" que são os desejos reprimidos, mas sim, são pensamentos "encobridores" daquilo que se deseja. Digamos, esses pensamentos intrusivos é uma forma disfarçada de esconder aquilo que realmente se deseja, ou seja, como se fosse "penso isso, para não pensar aquilo". Sei que também estou dando uma resposta simplista, mas é o que posso te esclarecer no momento. O ideal é que você vá para a análise para poder entender o que se passa com você, até porque a historia de cada um é de cada um.
Dra. Rosemeire Garófolo
Psicólogo, Psicanalista
Campinas
Oilá, boa tarde! Que bom que você trouxe essa pergunta. Primeiro, gostaria de lhe dizer: pensamentos intrusivos repugnantes são assustadores, sim, mas não dizem nada sobre “quem você é” ou o que você realmente deseja. É importante que tenha isso de forma clara!

A TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) entende os pensamentos intrusivos como eventos mentais involuntários, muitas vezes resultado de hiperfoco, interpretações catastróficas ou tentativas de neutralização. Em outras palavras: o sofrimento não vem do pensamento em si, mas da forma como você reage a ele. E sim, ela tem ferramentas muito eficazes para lidar com isso. Além do mais, não precisamos desconsiderar a TCC para considerar a Psicanálise.

Já na psicanálise clássica, principalmente na teoria freudiana da neurose obsessiva, os pensamentos intrusivos podem ser vistos como expressões simbólicas de desejos inconscientes reprimidos — o famoso “retorno do recalcado”. Mas calma: essa visão não significa que você “quer aquilo que pensa”. O desejo inconsciente não é literal, e essa linguagem simbólica precisa ser compreendida dentro do conjunto da história do sujeito.

No entanto, sua crítica é válida: muitas vezes essa explicação psicanalítica parece desconectada da experiência vivida, especialmente quando não é transmitida com o cuidado necessário. Reduzir tudo ao desejo pode sim parecer superficial e desesperador, especialmente quando o pensamento intrusivo fere a ética pessoal do sujeito.

Outras correntes dentro da psicanálise — como a psicanálise relacional ou intersubjetiva — consideram também fatores como medo, trauma, história relacional e organização psíquica, indo além do binarismo “desejo vs. repressão”.

Ou seja: sim, é possível pensar os pensamentos intrusivos como resultado de medos profundos, vivências traumáticas, inseguranças existenciais, e não só como distorções de desejos inconscientes. Isso não contradiz a psicanálise — só mostra que ela é diversa e complexa, assim como o TOC também é.

Pois é... quando olhamos pela lente do trauma, essa interpretação ganha outra camada. Na abordagem informada sobre trauma, esses pensamentos podem ser vistos como reações de um sistema nervoso sobrecarregado. Um sistema que, por ter vivido situações de medo, vergonha, humilhação ou negligência, fica em estado de hiperalerta e tenta, de forma caótica, manter a pessoa segura — mesmo que isso gere sofrimento., ou ainda uma tentativa de fazer descarga pelos pensamentos de toda a tenão represada pelo trauma ainda não processado.

Ou seja: o pensamento intrusivo pode ser uma tentativa (distorcida, sim, mas real) do érebro de se proteger, antecipar ameaças ou descarregar energias da reprimidas pelas experiências traumáticas

O pensamento não nasce do desejo, mas do medo. E, muitas vezes, do medo de repetir algo vivido — ou de ser ferido de novo. Essa abordagem considera que sintomas como TOC, ansiedade extrema ou culpa obsessiva são, muitas vezes, manifestações de histórias que o corpo ainda guarda. Experiências que não foram simbolizadas, mas que continuam atuando.

O mais importante: nenhum pensamento intrusivo define você. Buscar autocompreensão em um processo terapeutico numa abordagem que faça sentido para você pode te ajudar a construir um sentido mais cuidadoso, profundo e compassivo sobre o que você sente. Forte abraço!

Dra. Aparecida Collepiccolo
Psicólogo, Sexólogo, Psicanalista
Jundiaí
Entendo que o que você está questionando é realmente profundo e complexo. Do ponto de vista psicanalítico, os pensamentos obsessivos são, de fato, frequentemente compreendidos como manifestações de desejos inconscientes reprimidos, como você mencionou. Essa visão parte da ideia de que, ao longo da vida, certas pulsões ou desejos (muitas vezes ligados a aspectos sexuais ou agressivos) são considerados inaceitáveis pelo sujeito, levando a um processo de recalque, em que esses desejos são empurrados para o inconsciente.

A psicanálise sugere que, por conta desse recalque, esses desejos não desaparecem, mas retornam de maneira distorcida e fragmentada, por meio dos pensamentos intrusivos. Eles aparecem como uma forma de "sintoma" que a mente tenta controlar, mas que, ao mesmo tempo, geram grande sofrimento, já que o indivíduo não pode simplesmente se livrar deles sem compreender seu significado mais profundo.

No entanto, é muito válido questionar a explicação psicanalítica de que esses pensamentos são puramente uma manifestação de desejos reprimidos. Embora essa seja uma explicação fundamental na teoria psicanalítica clássica, é possível considerar outras influências que podem contribuir para o surgimento de pensamentos obsessivos, como medos, traumas passados ou mecanismos de defesa, como você sugeriu. Por exemplo, traumas não resolvidos, experiências de ansiedade ou até mesmo uma hipersensibilidade emocional podem gerar uma preocupação excessiva ou uma angústia projetada através desses pensamentos obsessivos.

A psicanálise não se limita a um único mecanismo ou explicação, e há espaço para integrar as várias camadas de experiência do sujeito. Então, medos e traumas podem sim estar presentes na dinâmica do TOC, e o sintoma obsessivo pode ser um reflexo de uma tentativa do ego de lidar com a ansiedade ou com algo que não pode ser expressado diretamente. Isso se encaixa tanto na ideia de defesas psicológicas quanto na de sintomas de um conflito interno não resolvido.

O mais importante é entender que, na psicanálise, cada caso é único, e o trabalho terapêutico visa desvelar os significados e os conflitos subjacentes que geram o sintoma, sem simplesmente rotulá-lo como um "desejo reprimido". A compreensão desses processos, de forma mais profunda, pode ajudar você a começar a trabalhar esses conteúdos de forma mais integrada, o que pode ser mais útil do que a visão unilateral do sintoma.

É um processo que exige paciência, mas a psicanálise pode oferecer uma perspectiva mais ampla e libertadora, ao invés de encararmos esses pensamentos como apenas algo a ser eliminado. Ao invés de simplesmente "combater" os pensamentos, a terapia psicanalítica busca entender o que está por trás deles, possibilitando que o sujeito se aproxime mais de si mesmo e, eventualmente, consiga elaborar o que antes era intocável ou inconsciente.

Se você continuar com esses questionamentos durante o processo terapêutico, é importante explorá-los com seu analista, para que possam aprofundar a compreensão conjunta sobre o que esses pensamentos significam para você e de onde realmente vêm.
 Jackson Shella
Psicanalista
Curitiba
Olá, sua reflexão sobre os pensamentos intrusivos no TOC a partir da psicanálise é muito pertinente e demonstra um questionamento profundo sobre a natureza desses conteúdos mentais.

Na psicanálise, os pensamentos obsessivos, especialmente os chamados "pensamentos repugnantes", são frequentemente interpretados como manifestações simbólicas de desejos inconscientes reprimidos. Essa repressão ocorre porque esses desejos são considerados inaceitáveis ou imorais pelo sujeito, e, por isso, são recalcados para o inconsciente. Contudo, como o inconsciente não desaparece, esses desejos retornam de forma distorcida, na forma de pensamentos intrusivos que causam angústia e repulsa — um processo chamado de substituição simbólica.

Porém, essa explicação não esgota a complexidade do fenômeno. É importante considerar que esses pensamentos também podem emergir de outras dinâmicas psíquicas, como medos profundos, traumas não elaborados, conflitos internos entre diferentes instâncias psíquicas (como o ego, o superego e o id), e mecanismos de defesa que não envolvem necessariamente um desejo reprimido no sentido clássico.

Por exemplo, a ansiedade gerada pelo medo de perder o controle ou de agir de forma contrária aos próprios valores pode produzir pensamentos intrusivos que não são desejos disfarçados, mas sim expressões simbólicas do medo e da luta interna para manter a integridade do self. Esses pensamentos podem funcionar como um alerta psíquico, uma forma do inconsciente chamar a atenção para conflitos não resolvidos, para sentimentos de culpa ou para experiências traumáticas que ainda não foram plenamente integradas.

Além disso, a própria estrutura do TOC, com sua característica de dúvida patológica e necessidade de controle, pode gerar pensamentos intrusivos como uma forma de vigilância exagerada, que não necessariamente está ligada a desejos reprimidos, mas sim a um mecanismo de defesa contra a ansiedade.

Portanto, do ponto de vista psicanalítico, os pensamentos repugnantes no TOC podem ser compreendidos como uma expressão multifacetada do inconsciente, envolvendo desejos reprimidos, sim, mas também medos, traumas e conflitos internos complexos. A abordagem clínica psicanalítica busca explorar essas múltiplas camadas, ajudando o paciente a dar sentido a esses conteúdos, a diferenciar o que é produto do transtorno do que pertence à sua identidade, e a elaborar os conflitos subjacentes para reduzir a angústia.
 Mariana Silva de Oliveira
Psicólogo, Psicanalista
São José dos Campos
Sua pergunta é muito pertinente, porque toca numa angústia legítima: a de se ver confrontado com pensamentos intrusivos e repulsivos, e depois ouvir que isso, de algum modo, estaria ligado a desejos inconscientes — como se aquilo que mais o atormenta fosse, no fundo, o que você quer. É compreensível que essa formulação, tomada ao pé da letra, soe desesperadora e até violenta. Mas talvez o incômodo que ela causa também possa ser uma via de acesso para algo mais profundo.

É possível que o modo como você tem buscado compreender o TOC — com muita leitura e teorização, seja pela TCC ou pela psicanálise — esteja servindo a mais de uma função. O desejo de saber é legítimo, claro, mas na neurose obsessiva ele pode se tornar também uma defesa: uma forma de tentar dominar o indizível, manter à distância o que é angustiante, controlar o que escapa. Em outras palavras, o excesso de teoria pode ser, paradoxalmente, um modo de evitar o confronto direto com o próprio conteúdo inconsciente.

Nesse sentido, o problema talvez não esteja na teoria psicanalítica em si, mas no uso que, em certos momentos, se pode fazer dela: como uma forma de tentar "neutralizar" o sofrimento ao invés de escutá-lo. E aí é importante lembrar que, na psicanálise, o desejo inconsciente não é o mesmo que um desejo consciente, deliberado ou moralmente aceitável. Não se trata de dizer que você quer aquilo que pensa, mas que há algo em você que não encontra outro modo de expressão — algo recalcado, distorcido, que retorna travestido de ameaça, de repulsa, de pensamento intrusivo.

É um equívoco comum interpretar o desejo inconsciente como uma afirmação direta — como se fosse uma espécie de verdade escondida e literal. Mas o inconsciente se exprime de forma cifrada, ambígua, contraditória. O pensamento obsessivo, nessa lógica, é uma formação de compromisso: uma tentativa do psiquismo de representar algo que foi reprimido, mas que insiste em retornar, mesmo de maneira deformada, dolorosa, absurda. Ele pode carregar resquícios de desejo, sim — mas também culpa, interdito, angústia, medo da castração, conflitos infantis não simbolizados.

Você também levanta uma questão importante ao perguntar se esses pensamentos não poderiam ser fruto de traumas, medos, ou outros mecanismos que não envolvem o desejo. A psicanálise não nega isso — ao contrário: ela justamente tenta pensar como o trauma, os interditos e os recalques estruturam o desejo inconsciente. O desejo, aqui, não é um "querer fazer aquilo" — mas o traço deixado por uma cena, um afeto, uma perda, que o sujeito não conseguiu simbolizar inteiramente. Então sim, o pensamento obsessivo pode surgir da tentativa de lidar com traumas ou medos — mas isso também se articula à economia do desejo no inconsciente.

Talvez, então, o mal-estar que você sentiu com a teoria psicanalítica do TOC seja, também, um indício de que ela tocou em algo que resiste — algo que não se deixa dizer facilmente. E isso não é ruim. A psicanálise não pretende oferecer um saber fechado, nem uma explicação definitiva — ela propõe um trabalho de escuta, de construção com o sujeito, para que ele mesmo possa se haver com o que retorna em forma de sintoma.

Por isso, talvez o mais produtivo agora não seja buscar mais teoria — mas encontrar um espaço em que você possa falar, livremente, sem o compromisso de entender tudo. Um espaço em que os pensamentos possam ser ditos sem censura, e onde não se trata de descobrir o que você “realmente quer”, mas de escutar como o seu desejo se construiu, como sua angústia se organiza, e que lugar os sintomas ocupam nessa história.

Essa é, no fundo, a aposta da psicanálise: não interpretar você, mas criar as condições para que você próprio possa começar a escutar o que em você insiste, apesar — ou por causa — do seu esforço em recalcá-lo.

 Cirano Araújo
Psicólogo, Psicanalista
Belo Horizonte
Olá, como tem passado?
Quando falamos que um pensamento intrusivo é expressão de um "desejo inconsciente", muitas vezes essa frase é mal compreendida, pois parece afirmar que o sujeito quer, conscientemente, aquilo que ele mais repudia, mas na verdade é exatamente sobre outra coisa.
Na psicanálise freudiana, o "desejo" não é a vontade consciente de realizar um ato. O desejo inconsciente é um movimento psíquico estruturado em torno do recalque e retorna sob formas distorcidas, disfarçadas, deslocadas ou invertidas. O que quer dizer que o desejo mesmo não é sabido inicialmente, apesar de estar lá, de maneira clara e limpa. Freud já afirmava que o pensamento obsessivo não deve ser tomado ao pé da letra, porque ele surge justamente como defesa contra o próprio desejo inconsciente, não como expressão literal desse desejo.
Na neurose obsessiva, a obsessão funciona como uma formação de compromisso: uma tentativa do sujeito de se proteger contra o que sente como inaceitável. O pensamento intrusivo, repugnante, aparece como um substituto deformado de um conteúdo recalcado, mas isso não quer dizer que o sujeito queira aquilo conscientemente ou que vá realizá-lo. Ao contrário: o sofrimento está exatamente no fato de o sujeito se sentir invadido por algo que o horroriza.
Você traz uma pergunta muito importante: será que esses pensamentos não poderiam vir de medos ou traumas? Sim. O desejo inconsciente, na teoria freudiana, está sempre articulado ao histórico de traumas, experiências infantis, fantasias, angústias de castração, e à maneira como o sujeito se defendeu dessas vivências. Ou seja, não existe desejo inconsciente sem história, sem marcas, sem traumas.
A psicanálise não reduz o sujeito a “você deseja isso”, mas busca escutar o que se repete, o que se forma como sintoma e o que retorna como insistência. O pensamento intrusivo não é um convite à ação, mas um sinal de conflito interno profundo. E é justamente no espaço analítico, sem moralização nem interpretação apressada, que se pode começar a elaborar essa dor.
Será que o que se repudia é de fato tão insustentável? Tão repugnante? Está aí um enigma que todo sujeito pode encontrar na análise uma maneira de responder.
O seu incômodo com a explicação simplista faz todo sentido. O trabalho analítico sério não consiste em dizer “você quer isso”, mas em te ajudar a descobrir o que esse sintoma quer dizer. E isso só pode ser feito com escuta, tempo, e um cuidado ético profundo.
Espero ter ajudado em algo aí, fico à disposição para mais conversas sobre.

 Daniela Oliveira
Psicanalista
Guarulhos
Olá, agradeço profundamente por sua partilha tão honesta e sensível. Sua inquietação é legítima e, de certa forma, também muito saudável. Questionar, refletir, buscar compreender o que se passa em sua experiência interna já é, por si só, um sinal de um movimento importante de elaboração emocional e intelectual.

Entendo como pode ser angustiante entrar em contato com algumas formulações da psicanálise, especialmente quando elas tocam pontos delicados da subjetividade humana, como o desejo inconsciente. A leitura dos pensamentos intrusivos como expressão de um desejo reprimido não deve ser interpretada de forma literal ou simplista. Na verdade, o inconsciente, tal como compreendido pela psicanálise, opera em uma lógica que muitas vezes escapa à razão consciente e isso não significa, necessariamente, que você "deseje" de fato o conteúdo desses pensamentos no sentido comum da palavra.

A psicanálise não afirma que o conteúdo intrusivo é um reflexo direto do seu ser moral ou afetivo. Pelo contrário: ela busca justamente despatologizar o conflito e entender como certas formações psíquicas emergem como tentativas (embora dolorosas) de lidar com tensões internas, que muitas vezes têm raízes em medos, traumas, culpas, experiências precoces ou exigências internas que ultrapassam a ideia de um "desejo perverso".

É absolutamente possível pensar os pensamentos intrusivos também como fruto de medos profundos, de vivências traumáticas ou como mecanismos defensivos do psiquismo tentando lidar com aquilo que foi intolerável em algum momento da história pessoal. A TCC traz contribuições valiosas nesse sentido, especialmente ao ajudar a enfraquecer a identificação com o conteúdo dos pensamentos e fortalecer uma postura de observação e autonomia diante deles.

A beleza de uma escuta clínica respeitosa (seja ela de orientação psicanalítica ou integrativa) está em não reduzir o sofrimento a uma única explicação. Cada sujeito é único, e seu modo de sofrer, resistir, pensar e sentir merece ser compreendido em toda sua complexidade. Nenhuma teoria dá conta sozinha da riqueza da experiência humana.

Se você sentir que essas formulações da psicanálise despertaram sofrimento ou confusão, talvez seja interessante conversar sobre isso com um profissional que possa acolher sua angústia e caminhar ao seu lado, sem pressa, na construção de sentidos mais pessoais, mais seus.

Você não está sozinho nesse caminho e sua dúvida é não só compreensível, mas profundamente humana. Que você continue se aproximando de si mesmo com gentileza e curiosidade, não para “se explicar”, mas para se escutar com mais liberdade.

Com carinho e respeito,
Daniela Oliveira - Psicanalista
Insta: @danieterapeutaoficial
Olá! O que você está vivendo é uma angústia muito comum entre pessoas com TOC, especialmente quando entram em contato com diferentes teorias que explicam os pensamentos intrusivos.

De fato, a psicanálise tradicional (freudiana) costuma interpretar os pensamentos obsessivos como manifestações simbólicas de desejos inconscientes reprimidos. Segundo essa visão, o conteúdo repugnante dos pensamentos seria uma espécie de “retorno do recalcado” — ou seja, desejos considerados inaceitáveis que voltam disfarçados. Essa ideia pode parecer até lógica dentro da teoria, mas para quem vive o TOC na prática, ela costuma ser extremamente dolorosa e pouco útil.

A boa notícia é que essa visão não é a única — nem a mais eficaz — para entender o TOC.

A abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que você mencionou já ter estudado, parte de um princípio bem diferente: os pensamentos intrusivos não são desejos reais, nem refletem quem você é. Eles são interpretações distorcidas de pensamentos automáticos comuns, que ganham força justamente porque você se importa, porque eles te incomodam.

Pessoas com TOC têm uma tendência a dar importância excessiva a pensamentos involuntários, interpretando-os como perigosos, imorais ou ameaçadores — quando, na verdade, são só ruídos mentais. Na população em geral, esses pensamentos simplesmente passam e são ignorados. No TOC, eles ficam presos num ciclo de medo, culpa e tentativas de neutralização (os rituais ou compulsões).

Então sim: esses pensamentos podem surgir de medos, traumas, crenças rígidas, padrões morais internalizados — e não necessariamente de “desejos” inconscientes. A ciência atual, inclusive, apoia cada vez mais essa visão neurocomportamental.

É completamente válido querer entender o TOC por várias lentes, mas é importante ter cuidado com interpretações que só aumentam a culpa e o sofrimento. Você não é aquilo que pensa. E o fato de esses pensamentos te causarem repulsa já mostra que eles não têm relação com seus verdadeiros valores ou desejos.

Se o seu objetivo for aliviar o sofrimento e sair do ciclo do TOC, a TCC com exposição e prevenção de resposta (EPR) é hoje a abordagem mais eficaz e comprovada para isso. Vale muito a pena investir nessa direção.

Se precisar continuar conversando, estou por aqui. Você não está soziinho
"Desejo" não significa que o sujeito "queira" aquilo de forma consciente ou literal. O inconsciente opera com símbolos, deslocamentos e condensações, e a repulsa intensa já indica conflito e recusa. Além disso, psicanalistas contemporâneos consideram que traumas precoces, culpa, angústia de castração e formações defensivas também produzem esse tipo de conteúdo. Ou seja, o desejo é um dos eixos, mas não o único. A escuta clínica é que deve captar, caso a caso, o sentido singular desses pensamentos.
Olá,

A descrição teórica pouco vai ajudar, ao meu ver, é necessária a experiência de ser atendida/o. Estas questões podem surgir vivamente e se tornarem visíveis para o paciente. Nas sessões não temos a intermediações de livros ou teorias, o que pode ser lido e alcançado é o aqui e agora na sessão.
Tenho tratado várias pessoas ultimamente com pensamentos intrusivos. Cada caso é um caso. Não posso generalizar mas no geral existe uma tentativa de dominar ou até mesmo controlar o mundo, as coisas, porém quando se trata da psique isso não é dominado. O pensar acaba sendo uma satisfação para algo que você não conseguiu lhe dar na realidade e você pode estar gozando no pensamento. Fazer terapia é o melhor caminho para organizar todo esse mundo psíquico e conseguir sair desse ciclo de pensamentos que estão te dominando. Espero ter te ajudado. Abraço.
 Samuel Viana
Psicanalista
São Paulo
Sua dúvida faz muito sentido, e é importante mesmo questionar essa visão mais clássica da psicanálise. Os pensamentos intrusivos do TOC não significam, necessariamente, que você deseja aquilo que tanto te assusta. Na verdade, eles podem ser fruto de medos, traumas, ansiedade e fragmentos emocionais não resolvidos que sua mente tenta expulsar — mas que retornam de forma distorcida.

Quando Freud falava em “desejo reprimido”, muitas vezes se referia a qualquer impulso interno não aceito, não apenas a um desejo literal. Teóricos mais recentes, como Winnicott e Bion, mostraram que o sintoma pode surgir como defesa contra o medo do colapso emocional, e não apenas como expressão de um desejo escondido.

Então, acolha sua angústia: esses pensamentos não dizem quem você é, nem revelam desejos ocultos ruins. Eles são um pedido de ajuda da sua mente para processar algo mais profundo. E buscar um terapeuta que olhe para isso com humanidade pode fazer toda a diferença. Você não está sozinho nisso.
Oi! Primeiro, quero reconhecer o quanto é corajoso da sua parte estudar e refletir sobre o que está sentindo. Nem sempre encontramos respostas fáceis quando se trata da mente, e você está fazendo um movimento valioso de autocompreensão.

Sim, na psicanálise clássica, especialmente na visão freudiana, os pensamentos obsessivos podem ser compreendidos como uma “formação de compromisso” — uma tentativa do inconsciente de expressar desejos reprimidos, mas de forma distorcida e até angustiante.

Mas vale lembrar: isso não significa que o pensamento intrusivo revela um desejo literal ou consciente. Pelo contrário! Ele causa sofrimento justamente porque vai contra o seu senso de identidade e moralidade. E mais: psicanalistas contemporâneos (como Winnicott, Lacan ou mesmo autores mais integrativos) já ampliaram muito esse olhar.

Seus pensamentos podem, sim, ter origens em traumas, medos, vivências reprimidas, superidentificação com regras rígidas, ou mecanismos de defesa como a formação reativa (amar tanto algo que se defende atacando-o inconscientemente).

Ou seja, não se resume a “você quer isso”. O que você sente é aversão, medo, culpa — e o próprio sofrimento mostra que isso não é um desejo verdadeiro, mas um sintoma. E todo sintoma tem um sentido simbólico, não literal.

Se a TCC te ajudou, continue com ela, sem abandonar o olhar humano e simbólico da psicanálise — mas não absorva como verdade tudo que lê, principalmente se te desespera. Em qualquer abordagem séria, o mais importante é compreender o sofrimento psíquico com respeito, cuidado e sem julgamentos.

Se quiser, posso te mandar textos mais claros sobre isso. Estou por aqui!
 Helton Alcioní Da Silva
Psicanalista
Florianópolis
Essa sua inquietação é super válida. De fato, na psicanálise, os pensamentos obsessivos são muitas vezes compreendidos como formações do inconsciente, ligadas a desejos recalcados — mas isso não quer dizer que o desejo seja algo que se deseja de forma consciente ou que se aceite tranquilamente. Pelo contrário: é justamente o conflito com esse conteúdo que gera tanto sofrimento.

Mas isso está longe de ser uma explicação simples ou fechada. Cada pessoa tem uma história singular, com traumas, medos, fantasias, culpas... O desejo inconsciente na psicanálise não é algo literal, nem fácil de acessar — é construído na fala, aos poucos, no processo analítico. Não se trata de afirmar que “você quer aquilo que mais repudia”, mas de escutar o que esses pensamentos insistentes podem estar tentando dizer de uma forma deslocada, cifrada.

É compreensível que essa ideia assuste no começo. Mas na análise, isso pode ser trabalhado com cuidado, sem julgamentos, respeitando o tempo e o sentido que cada coisa tem na sua história. Você está fazendo um caminho de elaboração muito interessante — e essas dúvidas fazem parte do processo.
Na psicanálise, o TOC (neurose obsessiva) é frequentemente abordado como sintoma decorrente de conflitos inconscientes, onde os pensamentos intrusivos podem, sim, ser manifestações de desejos reprimidos, mas não se limitam apenas a essa explicação. Os pensamentos repugnantes também podem surgir de medos, traumas ou outros mecanismos internos que não necessariamente envolvem desejo—cada sujeito é único, e o conteúdo dos pensamentos intrusivos deve ser compreendido considerando toda sua história emocional.
Explicação Psicanalítica Ampliada
Para Freud, o TOC envolvia desejos reprimidos e conflitos do passado, frequentemente ligados a questões morais e afetivas, mas abordagens contemporâneas da psicanálise reconhecem que pensamentos intrusivos podem ser respostas a angústias, medos profundos, traumas e conflitos não resolvidos. A função desses pensamentos é aliviar ou neutralizar ansiedades internamente vividas pelo sujeito, e a origem pode ser múltipla—não apenas ligada a desejo reprimido, mas também a experiências traumáticas e medos existenciais.
Pensamentos Intrusivos: Medos, Traumas e Outros Mecanismos
Diversos psicanalistas e estudos recentes apontam que nem todo pensamento intrusivo indica um desejo; ele pode ser uma representação simbólica de algo temido, um alerta para riscos, resultado de traumas passados ou até mesmo reflexo de ansiedade sobre o futuro. Muitos reconhecem que o conteúdo desses pensamentos tem menos a ver com intenções reais e mais com a forma como o psiquismo lida com conflitos e emoções difíceis.
Orientação Profissional
O tratamento psicanalítico busca ampliar o entendimento dessas manifestações, sem julgamento, promovendo um espaço de escuta para que o paciente possa reconhecer seus próprios mecanismos internos e compreender o papel dos pensamentos repugnantes em sua vida. Ao articular e explorar esses conteúdos junto ao analista, é possível encontrar significados menos desesperadores e mais alinhados à história singular de cada pessoa, incluindo fatores como traumas e medos—não apenas o desejo inconsciente.
 Lucas Jerzy Portela
Psicanalista
Salvador
ótimas perguntas pra você se fazer em sua psicanálise, com um psicanalista...
Essa ideia de que o pensamento intrusivo seria um “desejo escondido” é uma simplificação que não representa bem a psicanálise. Na prática clínica, esses pensamentos não são entendidos como vontade real de fazer algo, nem como algo que define quem a pessoa é. O inconsciente não funciona como um lugar onde ficam desejos imorais esperando para aparecer.
No TOC, os pensamentos intrusivos costumam surgir muito mais ligados ao medo, à culpa e à necessidade de controle do que ao desejo. A mente cria essas imagens ou palavras justamente porque a pessoa se importa demais em não errar, não machucar, não ser alguém ruim. Quanto mais ela rejeita o pensamento, mais ele volta, não porque seja um desejo, mas porque virou um ponto de alerta constante.
Pela psicanálise, o importante não é o conteúdo do pensamento, e sim a função dele: ele aparece como uma tentativa da mente de lidar com uma angústia que não encontrou outra forma de expressão. Por isso, esses pensamentos dizem mais sobre o sofrimento e o medo da pessoa do que sobre qualquer desejo oculto.
Na psicanálise, especialmente em leituras mais contemporâneas e cuidadosas da neurose obsessiva, não se trata de afirmar que o conteúdo do pensamento intrusivo corresponda diretamente a um desejo real do sujeito. O inconsciente não funciona de maneira literal, nem moral. Pensamento, fantasia, afeto e desejo não se equivalem automaticamente. Um pensamento pode emergir justamente contra o desejo, como forma de defesa.

Em muitos casos de TOC, o que aparece como pensamento repugnante está muito mais ligado ao medo, à culpa antecipada, à necessidade de controle e à tentativa de evitar uma catástrofe psíquica do que à realização de um desejo. O pensamento intrusivo pode funcionar como uma espécie de “sentinela”: algo que surge para vigiar, impedir, neutralizar ou garantir que “aquilo jamais aconteça”. Ou seja, ele aparece não porque o sujeito queira, mas porque não quer de forma alguma.
sim: esses pensamentos podem surgir de medos, traumas, defesas e da relação do sujeito com a lei, a culpa e o controle, sem que seja necessário entendê-los como desejos inconscientes no sentido moral ou literal. A psicanálise séria não diz ao sujeito: “isso é o que você quer”, mas pergunta: o que essa formação está tentando impedir, conter ou organizar?
É muito positivo que você tenha se beneficiado da TCC, e não há qualquer incompatibilidade ética ou clínica em reconhecer isso. A psicanálise não precisa disputar com outras abordagens, mas pode oferecer um espaço complementar, onde o objetivo não é confrontar o pensamento, e sim compreender a função que ele ocupa na sua economia psíquica, sem julgamentos e sem interpretações violentas.
Como profissional, me coloco à disposição para seguir conversando sobre isso com o cuidado que o tema exige. Seu incômodo com explicações simplistas é legítimo e, clinicamente, ele já aponta para uma busca por compreensão mais profunda e menos cruel consigo mesmo(a).
É perfeitamente compreensível que a interpretação de que seus pensamentos intrusivos seriam desejos ocultos tenha causado desespero, mas é muito importante esclarecer que essa é uma leitura simplista e muitas vezes equivocada do que a psicanálise realmente propõe sobre a neurose obsessiva. Quando falamos em desejo na psicanálise, não estamos nos referindo a uma vontade consciente ou a um plano de ação, e muito menos a algo que você realmente queira realizar na realidade. Na verdade, o pensamento intrusivo repugnante funciona muito mais como uma formação reativa, ou seja, uma barreira que a sua mente cria justamente para garantir que você jamais chegue perto de algo que considera imoral ou perigoso. O conteúdo do pensamento não é o desejo em si, mas sim uma representação distorcida e muitas vezes oposta ao que está no cerne do conflito.

Muitas vezes, o que a psicanálise chama de desejo inconsciente está muito mais ligado a impulsos agressivos ou sexuais primordiais que todos os seres humanos possuem, mas que, no obsessivo, são vividos com uma culpa e um rigor moral muito acima do normal. O pensamento repugnante surge então como um castigo ou uma forma de vigilância constante: sua mente cria o pior cenário possível para que você se sinta culpado e, através dessa culpa, sinta que está controlando esses impulsos humanos básicos. Portanto, o pensamento intrusivo não é uma prova de que você é uma pessoa má ou que deseja o mal, mas sim um sinal de que você possui um juiz interno, o superego, extremamente severo, que transforma qualquer sombra de dúvida ou impulso em uma cena de horror para te manter sob controle.

Além disso, é perfeitamente válido olhar para esses pensamentos como manifestações de medos profundos, traumas ou falhas no processamento da ansiedade, como você bem pontuou. A mente humana é complexa e nem tudo passa pelo filtro do desejo sexual ou agressivo; muitas vezes, o cérebro apenas se fixa naquilo que mais nos assusta para tentar criar uma defesa contra isso. Se você valoriza muito a sua integridade e a sua moral, é natural que sua ansiedade escolha justamente temas que atacam esses valores para te causar impacto, pois é aí que ela consegue prender a sua atenção. O pensamento intrusivo é o avesso do seu valor: ele só é tão repugnante para você porque ele fere exatamente aquilo que você mais preza.

Você não precisa abandonar o que aprendeu na TCC, que oferece ferramentas excelentes de manejo, para entender a profundidade da sua mente. A psicanálise, quando bem conduzida e acolhedora, busca aliviar o peso desse juiz interno tão carrasco, ajudando você a aceitar que ter pensamentos estranhos faz parte da natureza humana e não define quem você é. A cura não vem de admitir um desejo horrível que você não tem, mas de diminuir o medo e a culpa que fazem com que esses pensamentos tenham tanto poder sobre você. Você pode ser uma pessoa ética e boa e ainda assim ter uma mente barulhenta; uma coisa não anula a outra.

Espero ter ajudado! Fique bem!

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