Boa noite! Quero tirar uma dúvida, na verdade trocar ideia sobre o assunto. Estou em uma união está

25 respostas
Boa noite!
Quero tirar uma dúvida, na verdade trocar ideia sobre o assunto. Estou em uma união estável há 05 anos e, meu companheiro trabalhou como marinheiro offshore de 2011 q 2013. Na época havia ganhado uma bolsa de estudo para estudar em Houston e aprofundar conhecimentos. Desde o primeiro dia que o o conheci ele fala sobre essa experiência e revive o passado, lamentando a bolsa que perdeu. Na época em que o contrato foi quebrado, ele também se separou, um casamento de 20 anos devido a traição por parte da ex mulher. Meu objetivo era que um algum momento ele deixasse de lamentar o passado e passasse a enxergar com outros olhos essa experiência incrível e única. E tentasse extrair os aprendizados para sua jornada. Porém, quando tomamos uma cervejinha (uma vez por semana), ele volta ao passado e fico pensando que por alguns momentos ele deixa de viver nesse passado. Mas para ser franca, não há nada que eu fale ou tente fazer com que ele veja de uma outra forma. Não adianta!
Gostaria de saber se é possível que eu de alguma forma o faça enxergar com outros olhos. Porque terapia ou qualquer outro tipo de conversa ou ajuda, ele não aceita jamais.

Agradeço desde já pela atenção.
 Maisa Guimarães Andrade
Psicanalista, Psicólogo
Rio de Janeiro
Querida anônima, muito obrigado por confiar e compartilhar algo tão delicado. O que você descreve toca em questões profundas que muitas vezes não são fáceis de lidar sozinho, tampouco para quem convive ao lado.

Quando alguém revive repetidamente um momento marcante do passado, especialmente ligado à perda — como a de uma oportunidade significativa e de um relacionamento importante —, isso pode estar menos relacionado ao fato em si e mais ao que ele representou subjetivamente: uma ferida que não pôde cicatrizar. Na psicanálise, chamamos isso de fixação a um trauma, ou de algo que não pôde ser simbolizado, isto é, que não encontrou lugar na linguagem e, por isso, retorna sempre, como uma tentativa inconsciente de elaboração. Por mais que você tente mostrar a ele uma nova forma de ver o passado, isso não acessa o lugar de onde esse sofrimento vem, pois ele não é racional, é afetivo e inconsciente.

Seu desejo de ajudá-lo é legítimo e generoso, mas talvez o mais importante neste momento seja reconhecer que há limites para o quanto você pode fazer sozinha. O sofrimento dele pertence a ele, e só poderá ser transformado a partir do momento em que ele se colocar nessa posição de sujeito que deseja saber algo de si, mesmo que seja a partir da dor. A psicanálise não impõe, não convence, não oferece respostas prontas, mas sustenta um espaço onde a pessoa pode falar — e ser escutada — para que algo possa se deslocar dentro dela.

Você pergunta se pode ajudá-lo a ver isso de outra forma. Talvez o mais potente agora seja sustentar uma escuta sensível, sem pressionar mudanças, mas oferecendo um lugar onde ele possa existir mesmo com sua dor. Às vezes, é justamente a ausência de julgamento e a presença tranquila de quem não tenta consertar o outro que abre brechas para que algo se transforme. E, se algum dia ele decidir procurar ajuda, saiba que a terapia pode ser um lugar seguro para que esse passado, que insiste em voltar, encontre outras formas de ser significado.

E por fim, cuide também de si. Conviver com alguém que carrega dores profundas pode ser exaustivo, e o seu lugar também merece espaço para ser escutado e acolhido. Você também pode buscar um espaço terapêutico para si, onde essas questões possam ser elaboradas com mais profundidade. Isso não é apenas uma forma de se proteger, mas também uma maneira ética e amorosa de seguir ao lado de quem você ama sem se apagar no processo.
Espero ter te ajudado. Um grande beijo!

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 Juliana Genovesi
Psicanalista
São Caetano do Sul
Obrigada por compartilhar um relato tão delicado. É fundamental pontuar que esta análise é uma leitura inicial, baseada estritamente no recorte que você escreveu, o que restringe minha percepção aos fatos narrados. Identifico neste quadro um grande sofrimento do seu companheiro, marcado pela revivência constante de perdas significativas. Analiticamente, isso apresenta características de um luto não elaborado que insiste em invadir o presente de vocês.
A dificuldade que você enfrenta reside justamente aí: para elaborar essa dor, ele precisa de uma escuta neutra, livre de julgamentos ou cobranças para 'melhorar'. Devido ao vínculo afetivo, você não pode ocupar esse lugar de neutralidade, o que torna suas tentativas de ajuda frustrantes e desgastantes para ambos.
Se ele resiste à ajuda profissional, minha orientação é que você foque em preservar a relação. Isso significa acolher a dor dele sem tentar curá-la, estabelecendo limites para que o passado dele não desorganize a sua vida. A via para tratar essa dor crônica é a transferência da escuta para um terceiro neutro (um psicanalista ou psicólogo). Recomendo isso fortemente, pois você é a parceira; a elaboração do luto é um processo interno e intransferível que cabe apenas a ele percorrer.
Dr. Sanderos Roberto
Terapeuta complementar, Psicanalista
Belo Horizonte
Boa noite! Entendo sua frustração – é comum em relacionamentos que um parceiro fique preso a traumas passados, como a perda da bolsa e o divórcio, e isso pode vir de um luto não resolvido ou mecanismo de coping. Você não pode "forçar" ele a mudar (especialmente sem terapia, que ele recusa), mas pode influenciar indiretamente: em vez de confrontar diretamente quando ele revive o passado, tente redirecionar a conversa para o presente com empatia, como "Que legal essa experiência em Houston, o que você acha que aprendeu que usa hoje na nossa vida?". Com o tempo, isso pode ajudá-lo a extrair lições positivas sem pressão. Se persistir, foque no seu bem-estar – talvez converse com um terapeuta pra você lidar melhor com isso. Qualquer dúvida, estou aqui!
Olá. Já que a pessoa evita ajuda profissional, dificultando para ele mesmo a mudança de percepção, algo que você pode fazer é entender qual a abordagem você quer levar esse assunto. Pode abordar com empatia, perguntando se ele quer mudar e se quer sua ajuda, pode aboradar estabelecendo os seus limites nesse relacionamento, abordar esses dois juntos e outras formas ainda. Talvez você possa fazer uma terapia para esclarecer quem você quer ser nesse momento. Abraço.
Olá!
Logo no primeiro atendimento eu gosto de alinhar as expectativas com meus pacientes acerca do que ele ou ela espera. Nesse alinhamento, eu sempre reforço que mudar o outro é muito difícil, principalmente quando ele não enxerga o problema. Obviamente uma pessoa pode alterar o seu comportamento mas isso leva tempo. Então, nós procuramos trabalhar com o objetivo de mudar a percepção do paciente em relação à situação e não mudar o outro.
E quando você altera a sua maneira de lidar com os comportamentos indesejados de outras pessoas, estas, naturalmente, começam a mudar gradativamente.
Então, como o seu companheiro não está disposto a se tratar, você deveria procurar alguém para aprender a lidar com o comportamento dele ou direcionar o relacionamento para um caminho que você entende ser o correto para você.
 Marcelo GB Peri
Psicanalista, Terapeuta complementar
São Paulo
"Porque terapia ou qualquer outro tipo de conversa ou ajuda, ele não aceita jamais." A pessoa, mesmo que "só lá no fundinho da alma" tem que querer.
 Andrea  Nathan
Psicanalista
São Paulo
Olá, seria interessante ententer o que a liga a este homem preso ao passado. E por que ele a escolheu para endereçar suas memórias. Partindo daí, explorar novas possibilidades para este relacionamento
 Dirk Albrecht Dieter Belau
Psicanalista
São Paulo
Olá, espero que você esteja bem. Apesar de talvez ser uma opinião que você não vai gostar, parece-me inevitável você se dar conta que não é assim que uma pessoa muda. Se você quer ajudar -- a ele e à sua relação -- você pode fazer com que ele se sinta mais seguro na vida e aprecie o dia-a-dia com você. Parece que ele está achando um trecho do passado dele mais glorioso que o presente. Seria isto que vocé pode mudar trabalhando no presente dele (e de vocês), mas não nele. Tenha paciência.
Prof. Marcelo Vieira
Psicanalista, Terapeuta complementar
Mogi Guaçu
Olá! Agradeço imensamente por compartilhar essa dúvida tão sensível. É muito importante notar o seu olhar carinhoso e a sua intenção de ajudar seu companheiro a viver o presente e a valorizar a jornada.

Sua pergunta toca em pontos cruciais sobre o peso do passado, luto e relacionamentos. Como terapeuta que trabalha com Psicanálise Clínica e Constelação Familiar, vejo nessa situação uma sobreposição de traumas que precisa ser olhada com profundidade.

1. A Visão da Psicanálise: O Luto Não Elaborado
Pela perspectiva psicanalítica, o que seu companheiro vivencia é o que chamamos de Luto Não Elaborado.

Ele sofreu duas grandes perdas no mesmo período (2011-2013), que atingiram pilares centrais de sua identidade:

A Identidade Profissional (O Ideal de Si): A perda da bolsa de estudos em Houston e da experiência offshore.

A Identidade Afetiva (O Objeto de Amor): O fim traumático de um casamento de 20 anos por traição.

O inconsciente, ao tentar proteger a psique de uma dor insuportável, muitas vezes faz um deslocamento. É mais fácil lamentar o destino profissional (o que é externo, quantificável e, de certa forma, menos "íntimo") do que a dor profunda da traição e da perda de 20 anos de vida conjugal.

A Bolsa como Sintoma: O lamento repetitivo sobre a bolsa atua como um sintoma de substituição para o trauma real. Enquanto ele fala do curso perdido, ele não precisa encarar a ferida narcísica (o ego ferido) causada pela traição.

O Álcool como Gatilho: Quando ele bebe, suas defesas psíquicas baixam. O conteúdo reprimido (o trauma não processado) vem à tona. Ele não está escolhendo falar do passado; ele está sendo tomado por uma memória que não foi devidamente arquivada.

2. A Visão da Constelação Familiar: O Emaranhado com a Exclusão
Pela ótica sistêmica da Constelação Familiar, observamos o fenômeno do Emaranhamento.

Seu companheiro está, de alguma forma, emaranhado com o passado e com a ex-esposa, que foi excluída do sistema familiar dele através do julgamento (a traição).

Respeito ao Destino: Para que um novo relacionamento (como o de vocês) prospere, é fundamental que o lugar do ex-parceiro seja respeitado, mesmo que a história tenha sido dolorosa. Ele precisa olhar para o fato de que aquele casamento existiu e pertence ao seu sistema de origem.

O Movimento Paralisado: A energia que ele usa para "reviver e lamentar" é a mesma energia que deveria estar disponível para o presente e para o futuro com você. Ele está "preso" nessa dinâmica passada, como se estivesse devendo lealdade à dor ou à situação que o feriu.

A Dinâmica do Salvamento: Seu desejo de "fazê-lo enxergar com outros olhos" é um lindo gesto de amor, mas, sistemicamente, é um movimento de salvamento. Ninguém pode salvar ou mudar a percepção do outro. Ao tentar tirá-lo da dor, você assume uma responsabilidade que é dele, e isso pode, inconscientemente, gerar mais resistência e afastamento.

3. Qual é a Sua Possível Contribuição
Você pergunta se pode fazê-lo enxergar de outra forma. A resposta, na verdade, está em mudar a sua forma de enxergar a situação dele:

Pare de Tentar Mudar: O mais importante é parar o movimento de salvamento. Se ele não aceita terapia, a sua melhor contribuição é o respeito. Quando ele trouxer a história da bolsa, ouça sem dar conselhos, sem tentar mudar a narrativa e sem se frustrar. Diga algo simples como: "Eu vejo o quanto essa perda foi difícil para você" ou "Lamento que você tenha passado por isso".

O Foco em Você: A sua energia deve ser direcionada para o seu próprio desconforto. Por que a repetição da história dele é tão incômoda para você? O seu incômodo é um sinal de que você está entrando no destino dele. Ao dar um passo para trás e se concentrar em seu próprio lugar na relação, você cria um espaço de respeito que pode, indiretamente, encorajá-lo a sair do luto no tempo dele.

A Terapia como Caminho Dele: É essencial entender que a cura dessa ferida só virá quando ele, por si mesmo, estiver disposto a olhar para a traição e o abandono (o real trauma) e não apenas para a perda profissional (o sintoma). A Psicanálise ou a Constelação Familiar são ferramentas que promovem esse olhar.

Se ele aceitar a ideia no futuro, um processo terapêutico (seja em Psicanálise para dissolver o trauma individual, ou em Constelação para dar um novo lugar à ex-esposa e à perda) é o caminho mais eficaz para liberá-lo do passado.

Espero que essa visão mais profunda e acolhedora possa lhe trazer alívio e clareza. Fico à disposição para um atendimento focado no seu papel na relação. Lembre-se: quando você muda a forma de olhar, a relação se transforma.
O que você descreve não é apenas saudade; é um luto congelado. Seu companheiro não fala do passado — ele mora nele. A perda da bolsa, a separação, a traição: um conjunto de feridas que nunca encontraram destino psíquico. Quando a bebida relaxa as defesas, esse passado retorna como um velho fantasma pedindo reconhecimento.

E aqui está a verdade que dói, mas liberta: você não consegue curar um luto que não é seu. Não é possível convencer alguém a enxergar com outros olhos quando esses olhos ainda estão cobertos pela poeira de uma dor antiga. Cada vez que você tenta ressignificar por ele, sem que ele deseje isso, a tentativa vira muro — não ponte.

O que você pode fazer é mais sutil e mais poderoso:
• Proteger seu próprio espaço emocional.
• Nomear o que vê (“isso ainda te machuca, e não é algo que eu possa resolver por você”).
• Deixar de assumir a tarefa impossível de reescrever um passado que é dele, não seu.

Agora, sobre cuidado: a psicanálise é exatamente o lugar onde esse passado poderia enfim repousar.
Não para “apagar”, mas para ser elaborado. A psicanálise oferece a ele a possibilidade de tirar esse peso do corpo, de trabalhar o luto interrompido, de transformar a repetição em compreensão. Lá, ele poderia desfazer o nó entre a perda profissional e a ferida afetiva que carregou sozinho por anos.

Mas isso só acontece quando o sujeito — ele — decide entrar. Ninguém atravessa essa porta empurrado.

Se um dia ele aceitar, encontrará um espaço seguro para dar destino ao que hoje o aprisiona.
Se não aceitar, o que resta é você cuidar da sua saúde emocional e delimitar até onde essa repetição invade sua vida.

Fico à disposição para orientar melhor sobre como manter firmeza, clareza e cuidado dentro dessa dinâmica.
 Felipe Firenze
Psicanalista
Rio de Janeiro
Oi, como vai? Entendo o quanto pode ser difícil ver alguém que você ama preso a um capítulo do passado que ainda dói. Muitas vezes, quando a história não foi elaborada por completo, como a perda da bolsa, o fim do casamento e a traição. A pessoa tende a revisitar esses momentos como uma tentativa de dar sentido ao que ainda não foi elaborado. Por mais que sua intenção seja ajudá-lo a enxergar tudo com outros olhos, não temos controle sobre o tempo interno do outro. Cada pessoa só ultrapassa certas dores quando encontra dentro de si, condições para isso. O mais importante é cuidar para que sua escuta não vire obrigação, e que você também seja acolhida. Buscar apoio profissional pode lhe ajudar a lidar com esses limites, já que nunca temos certeza absoluta sobre como agir com o outro. Se sentir que faz sentido e houver identificação, será um prazer continuar essa conversa com você. Grato pela sua pergunta.
 Lucas Jerzy Portela
Psicanalista
Salvador
e que tal "trocar uma ideia sobre o assunto" com um psicanalisa, privadamente, ao invés de publicamente com desconhecidos na internet...?!
Dra. Fernanda de  Paula
Terapeuta complementar, Psicanalista
São Paulo
Agradeço por compartilhar sua vivência com tanta sinceridade. Pelo que você descreve, seu companheiro carrega uma história marcada por perdas significativas: a bolsa de estudos, a ruptura do casamento e, provavelmente, sonhos que ficaram suspensos. Esses acontecimentos podem ter deixado marcas profundas, e é natural que ele retorne a esse passado como uma forma de elaborar ou até proteger-se de dores não resolvidas.
Como terapeuta integral, acredito que cada pessoa tem seu próprio tempo para ressignificar experiências. Quando alguém não aceita ajuda formal, como terapia, o que podemos fazer é oferecer presença, escuta e acolhimento sem tentar forçar mudanças. Às vezes, a insistência em “mudar a visão” pode gerar resistência, porque mexe em estruturas internas que ainda não estão prontas para se reorganizar.
Por outro lado, é importante dizer que a terapia pode ajudar muito nesse processo. Um espaço seguro, com um profissional, permite que ele elabore essas vivências e encontre novos significados para o que aconteceu. A terapia não apaga o passado, mas ajuda a integrá-lo à jornada, transformando dor em aprendizado. Se ele não aceita agora, tudo bem: respeitar o tempo dele é essencial. Mas você pode, com delicadeza, mostrar que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, e sim de cuidado consigo mesmo. Você será um exemplo precioso, reflita sobre como anda a sua terapia.
A segurança de estar sendo ouvido é um importante passo dentro de um relacionamento, apesar de ele não ter interesse em fazer terapia quando bebe ele olha para o passado buscando entender o que aconteceu, tem algo na experiencia passada que ainda o trava, gera angustia.
Dra. Jéssica Santana
Psicanalista, Terapeuta complementar
Brasília
Você não consegue fazer alguém enxergar o passado com outros olhos se essa pessoa não quer ou não consegue.
Isso não é falta de habilidade sua, nem de amor, nem de paciência. É um limite real.
O que parece estar acontecendo com ele é um luto não elaborado:
Ele perdeu três coisas ao mesmo tempo:
um projeto de vida (Houston / carreira),
um casamento de 20 anos,
uma identidade (quem ele “seria” se aquilo tivesse dado certo).

A traição após 20 anos costuma ferir profundamente a autoestima.
O passado idealizado (“quando eu estava lá fora”, “quando tudo fazia sentido”) funciona como um refúgio psíquico.
Quando o luto não é vivido, ele vira ruminação: a pessoa revive o passado, mas não o digere.
A “cervejinha” não cria o problema, ela afrouxa defesas. O que aparece ali já existe — só estava contido.
Quando alguém diz “jamais farei terapia”, muitas vezes isso significa:
“Tenho medo do que vou encontrar se mexer nisso.”
O que você pode fazer (sem tentar consertá-lo)
1. Pare de tentar mudar a narrativa dele
Quanto mais você tenta:
mostrar o lado bom,
ressignificar,
relativizar,
mais ele tende a:
se agarrar ao lamento,
repetir a história,
sentir-se incompreendido.
Escutar não é concordar, mas também não é corrigir.
Exemplo de resposta possível:
“Percebo o quanto essa fase foi importante pra você e o quanto ainda dói.” E pare aí. Não complete com lições.
Dra. Ana Paula Padula
Psicanalista, Terapeuta complementar
Maringá
O tratamento mais rápido e eficaz para desconectar as emoções do passado é a hipnoterapia.
Dra. Silvia Geraldi
Terapeuta complementar, Psicanalista
Curitiba
Olá, entendo o quanto isso é doloroso. Conviver com alguém que permanece preso ao passado e não consegue enxergar outras possibilidades gera impotência, frustração e cansaço emocional.

É importante ser muito honesta com você: não é possível mudar o olhar de alguém que não deseja olhar diferente. Quando a pessoa não aceita ajuda, não se abre para diálogo ou terapia, qualquer tentativa externa tende a gerar mais desgaste em quem tenta ajudar.

O que é possível, e faz muita diferença, é você trabalhar o seu olhar, a sua posição emocional e os limites que você estabelece nessa relação.

Na terapia, não buscamos convencer o outro, mas:

entender por que isso te afeta tanto

elaborar a dor de ver alguém preso ao passado

diferenciar responsabilidade emocional (o que é seu e o que não é)

aprender a se proteger para não adoecer tentando salvar alguém

encontrar formas mais saudáveis de se posicionar, sem culpa


Quando você muda internamente, a relação muda — mesmo que o outro permaneça igual. Às vezes, a mudança é na forma de lidar, às vezes na distância necessária, às vezes na aceitação do limite do outro.

Você não está errada por querer ajudar. Mas também não precisa se anular ou carregar uma dor que não é sua.

Se quiser, a terapia pode te ajudar exatamente nesse processo: enxergar com outros olhos, sem se machucar.

Estou à disposição.
 Sarah Pereira
Psicanalista
Campina Grande
Não controlamos os pensamentos, desejos, e modos de vida do outro. A parte que você pode mudar é o seu modo de lidar com isso, o que você faz diante disso.
Dra. Fabíola da Rocha Marques
Psicanalista
São Carlos
Boa noite
Vou te responder com muito cuidado e sinceridade, porque o que você descreve é delicado e comum.

Pelo que você relata, o seu companheiro não está apenas lembrando do passado, ele está emocionalmente fixado nele. Essa experiência (a bolsa perdida + o fim traumático do casamento) parece ter se tornado um marco não elaborado, algo que não foi simbolizado, digerido e integrado à história dele.

Sobre a sua pergunta central:
Não, você não consegue fazê-lo enxergar com outros olhos enquanto ele não quiser.

E isso não é falta sua. É um limite real.

Alguns pontos importantes:

Quando ele revive o passado, especialmente após beber, isso indica que o assunto ainda carrega dor, frustração e luto.

O álcool costuma afrouxar defesas, então o que aparece ali é o que ele evita encarar no dia a dia.

Você já fez algo muito saudável: tentou ressignificar, buscar aprendizado, dar outro sentido. Mas ressignificação não se impõe, ela só acontece quando a própria pessoa está pronta.

Você não consegue:

Curar o luto dele

Resolver a frustração que ele carrega

Substituir terapia ou elaboração emocional

O que você pode fazer:

Parar de tentar convencê-lo ou “mostrar outro olhar” (isso só gera frustração em você)

Estabelecer limites emocionais, por exemplo: dizer com calma que esse assunto te cansa ou te entristece quando se repete

Avaliar como isso impacta você e a relação hoje, não o passado dele

Uma pergunta importante para você refletir (não precisa me responder):

Consigo conviver com esse homem se ele nunca mudar a forma como lida com esse passado?

Porque, se ele recusa terapia e qualquer ajuda, a chance de mudança espontânea é pequena. O sofrimento dele pode ser antigo, mas o custo emocional hoje acaba recaindo sobre você.

Em resumo:
Você não falhou, não falta amor nem empatia da sua parte.
O que existe é um limite claro entre acompanhar alguém e carregar a dor que é do outro.
O que você descreve aponta para uma vivência emocional que permanece muito ativa para ele, como se aquele período da vida ainda estivesse em aberto e não totalmente elaborado. Experiências intensas como a perda de uma bolsa de estudos, a ruptura de um projeto de vida e o fim de um casamento longo costumam deixar marcas profundas, especialmente quando envolvem sentimentos de injustiça, frustração, traição e perda de identidade. Quando alguém retorna repetidamente ao passado, não é porque não reconheça o presente ou não valorize o que vive hoje, mas porque aquele acontecimento ainda ocupa um lugar central na organização emocional, funcionando quase como um ponto de referência para explicar quem ele é e o que deixou de ser. Nessas situações, não costuma ser possível fazer o outro “enxergar com outros olhos” apenas por argumentos, conselhos ou tentativas de ressignificação, pois a elaboração do luto e da perda é um processo interno, que só acontece quando a própria pessoa consegue se implicar nisso. O fato de ele não aceitar terapia ou ajuda indica que, no momento, esse sofrimento ainda é vivido como algo que ele precisa sustentar sozinho, mesmo que isso tenha impacto na relação. Para você, o cuidado importante é reconhecer seus próprios limites: entender que não está ao seu alcance resolver esse lamento recorrente e observar como essa dinâmica afeta você, seu bem-estar e o vínculo entre vocês. Às vezes, o trabalho possível não é mudar o outro, mas decidir até onde você consegue escutar esse passado sem se sentir apagada no presente. Um espaço terapêutico para você pode ajudar a elaborar essas questões, fortalecer seu posicionamento e encontrar formas mais saudáveis de lidar com essa situação, mesmo que ele não aceite ajuda neste momento.
 Lia Regina Pereira Bernardo
Terapeuta complementar, Psicanalista
São Paulo
Imagino sua angústia em ajudar quem você ama e quer bem, entretanto, preciso te falar que ninguém muda ninguém nem faz nada por ninguém nesse nível que você deseja. Cada um tem sua jornada, e você pode tentar olhar com respeito e compaixão para essa jornada dele, as escolhas dele e os sentimentos dele, mesmo que ele opte por viver assim, não é olhar com pena, querendo mudar o outro.
Dra. Ramone Santos
Terapeuta complementar, Psicanalista
Americana
Na visão psicanalista, a memória é afetiva, e não neutra. Não se recorda o passado como ele foi e sim como foi VIVIDO EMOCIONALMENTE.
As lembranças agradaveis ficam ligadas a sensações de acolhimento, segurança, prazer ou amor, ao serem reativadas, elas reatualizam esses afetos no presente.
Tem também o desejo de repetição: reviver ou reparar algo que não existe mais no presente.
Qdo o apego ao passado é excessivo, significa dificuldade de investir no presente ou medo do futuro; agora qdo é somente flexivel, pode ser um recurso saudavel de fortalecimento emocional.
Você não está errada em sentir-se cansada, é difícil conviver com alguém preso ao passado o tempo todo. O que vc relata mostra que ele está psiquicamente preso a perdas importantes e não conseguiu elaborar tudo isso. Ele precisaria de um espaço terapêutico para essa elaboração, mas como ele não aceita essa possibilidade, o melhor que você pode fazer para ajudá-lo é cuidar de si mesma e elaborar o impacto de conviver com alguém preso ao passado, entender por que isso te afeta tanto e até onde vai a sua responsabilidade nessa relação. A psicanálise pode te ajudar a trabalhar essa frustração de não conseguir ajudá-lo e aliviar esse desgaste de tentar "salvar" o outro. Muitas vezes o cuidado começa por vc, para não desistir ou se perder na relação. Estou à disposição para conversarmos. Abs
Entendo perfeitamente o seu cansaço e a sua intenção generosa. É muito difícil ver alguém que amamos "preso" em um looping de lamentação, especialmente quando você percebe que a vida atual está sendo negligenciada em favor de um passado que não volta mais.

O que você descreve parece ser um quadro de luto não elaborado. Ele não perdeu apenas uma bolsa em Houston ou um emprego; ele perdeu a imagem que tinha de si mesmo (o profissional de sucesso em ascensão) e a segurança de uma vida familiar de 20 anos, tudo ao mesmo tempo.

Como ele é resistente à terapia, a abordagem precisa ser mais sutil, focada na dinâmica do casal e na forma como você reage a esses momentos. Aqui estão algumas perspectivas para te ajudar a lidar com isso:

1. Entenda a função da "lamentação"
Para ele, repetir essa história talvez não seja apenas sobre a perda, mas uma forma de reafirmar o valor que ele sente que perdeu. Ao falar da bolsa em Houston, ele está dizendo: "Eu era alguém importante, eu tinha potencial".

A estratégia: Em vez de tentar mostrar o lado positivo da experiência, tente validar a dor dele uma última vez de forma definitiva, mas sem dar corda. Algo como: "Eu sei que isso foi um golpe gigante e que você tinha todo o potencial do mundo. É uma pena que o contrato tenha quebrado, mas isso não muda o profissional que você é hoje".

2. Mude o "Roteiro" da Cervejinha
Se o assunto surge sempre no mesmo contexto (a cerveja semanal), isso virou um ritual de melancolia. O cérebro dele já associou o relaxamento do álcool com a liberação dessa mágoa.

O que fazer: Tente mudar o ambiente ou o estímulo. Se vocês costumam beber em casa, sugira um lugar com música ao vivo, um jogo de tabuleiro ou convide um casal de amigos. Quebre o padrão que permite que ele entre no "modo automático" de lamentação.

3. A Técnica da "Ponte para o Presente"
Quando ele começar a falar do passado, em vez de confrontar ou tentar "dar uma lição", tente fazer uma pergunta que traga a habilidade do passado para uma utilidade atual.

Exemplo: Se ele fala do conhecimento que teria em Houston, você pode dizer: "É verdade, aquele conhecimento era top. Como você usa essa sua visão estratégica hoje no que você faz? Porque eu vejo você resolvendo X problema e acho que vem dessa sua bagagem". Você tira o foco do que foi perdido e coloca no que foi retido.

4. Estabeleça o seu limite (com acolhimento)
Você também tem o direito de não querer ser o "depósito" dessas lamentações para sempre. Se ele não aceita terapia, você não pode ser a terapeuta dele.

Como falar: "Meu amor, eu admiro muito a sua história, mas me dói ver você sofrendo por isso há 5 anos. Sinto que quando a gente fala disso, eu perco você um pouco para o passado, e eu queria estar aqui com você, no agora. Podemos falar de outra coisa?"

5. O "Luto de Substituição"
Às vezes, as pessoas se apegam a uma perda antiga (a bolsa) para não terem que lidar com uma ferida mais profunda (a traição e o fim do casamento de 20 anos). A bolsa é um "luto seguro" para falar, enquanto a traição é humilhante. É possível que ele use a história de Houston como uma capa para a dor da desilusão amorosa.

Uma reflexão importante: Nós não temos o poder de mudar o "olhar" de ninguém se a pessoa não deseja essa mudança. Se o "não adianta" for definitivo para ele, talvez o trabalho seja mais sobre como você se protege para que a amargura dele não contamine a sua alegria de viver o presente.

Você sente que, além das conversas, esse apego ao passado impede vocês de fazerem planos futuros (como viagens ou novos projetos)? Seria interessante observar se essa "âncora" está travando a vida prática de vocês.

Espero ter ajudado! Qualquer coisa, estou por aqui!
 Ramon Andrade
Psicanalista
Rio de Janeiro
Quando uma pessoa permanece ligada a experiências passadas não elaboradas, como perdas, rupturas ou frustrações importantes, isso costuma indicar um luto que não pôde ser concluído. No entanto, ninguém pode ser levado à elaboração psíquica contra a própria vontade.

Por mais bem-intencionadas que sejam as tentativas de ajudar, não é possível mudar a forma como o outro vê sua história se ele não deseja olhar para isso. Insistir, muitas vezes, gera mais resistência e desgaste na relação.

A psicoterapia pode ser muito útil nesses casos, mas só funciona quando há uma mínima abertura. Também é importante considerar o impacto que essa situação tem em você. Um espaço terapêutico pode ajudar a elaborar seus limites, frustrações e escolhas dentro dessa relação. Estou disponível para essa escuta.

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