Existe "Hiperfoco" no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?

3 respostas
Existe "Hiperfoco" no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ?
Na prática clínica, é importante diferenciar o que é hiperfoco do que é sofrimento emocional intenso.
Quando falamos em hiperfoco, na neuropsicologia, estamos nos referindo a algo mais típico do TDAH e do TEA. É quando a pessoa consegue se concentrar de forma profunda e prolongada em uma atividade, tema ou interesse específico. Esse foco vem do funcionamento da atenção e do sistema dopaminérgico, e não da emoção. A pessoa fica imersa na tarefa, muitas vezes até esquecendo do tempo.
No Transtorno de Personalidade Borderline, o que costuma acontecer é diferente. Não é um hiperfoco cognitivo, mas uma hiperfixação emocional. A mente se prende intensamente a pessoas, relações, medos de rejeição, conflitos ou sentimentos de abandono. Esse movimento é instável, reativo e muito influenciado pelas emoções do momento, não pela atenção sustentada.
Embora por fora possa parecer “hiperfoco”, por dentro o funcionamento é outro. No TPB, a fixação vem da tentativa de aliviar a dor emocional e a insegurança relacional. No TDAH ou no TEA, o foco intenso vem do interesse e da regulação atencional.
Fazer essa distinção é essencial, porque muda completamente a forma de cuidar, intervir e acolher. Quando a gente entende de onde isso vem, consegue oferecer o suporte certo.Portanto, devemos buscar mais empatia, menos rótulo e mais direção terapêutica.

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No Transtorno de Personalidade Borderline não há um “hiperfoco” característico da mesma forma que se observa em transtornos como o TDAH, mas é possível que a pessoa se concentre intensamente em certas situações, relacionamentos ou emoções, especialmente aquelas ligadas a medo de abandono, rejeição ou experiências afetivas intensas. Esse foco intenso geralmente é impulsionado pelo afeto, e não por atenção voluntária ou organizada, e pode tornar difícil desviar o pensamento ou a energia emocional de algo que provoca ansiedade ou sofrimento. Na psicoterapia, esse padrão pode ser trabalhado para ajudar a pessoa a ganhar consciência dessas fixações, equilibrar a atenção e regular melhor a intensidade emocional, promovendo maior clareza, controle e estabilidade nas relações e na vida cotidiana.
Dr. Pablo  Barreto
Psicólogo
Rio de Janeiro
Olá pergunta interessante, mas igualmente complexa. Vou tentar explicar de um modo simples:

O que denominamos de "hiperfoco" no TDAH é um estado de atenção sustentada, involuntária e imersiva em uma atividade que é interessante em si, recompensadora ou urgente para o cérebro desse indivíduo. É um tipo de concentração canalizada e não tem, como objetivo primário, regular o ambiente interpessoal. Pode inclusive levar ao esquecimento do social, ao isolamento social.

Já o que acontece no TPB, e que pode ser confundido com hiperfoco são, na verdade, manifestações da instabilidade afetiva, identitária e relacional que normalmente faz parte do transtorno. São, por tanto, estados de fixação psicológica, e não de atenção concentrada.

Desse modo, não é foco em uma tarefa, mas uma fixação absorvente, ansiosa e intensa em uma pessoa específica. A pessoa com TPB pode ficar horas pensando, monitorando, idealizando ou temendo a rejeição dessa figura.

O medo do abandono e necessidade desesperada de validação externa para regular um self muitas vezes frágil, pode produzir uma concentração relacional ansiosa. Frequentemente levando à exaustão, conflito, comportamentos de "teste" do vínculo e, paradoxalmente, pode precipitar justamente essa rejeição temida.

Assim seria muito mais próximo de um estado de sofrimento, não de fluxo.

Dito isso, podemos olhar para esse fenômeno sob diferentes perspectivas. Para a esquizoanálise, a sociedade produz o medo do abandono ao exacerbar a lógica do desempenho relacional. A fixação na pessoa favorita é um agenciamento onde o desejo de conexão é distorcido por uma produção de pânico-abandono. Isso não desresponsabiliza o sujeito, muito pelo contrário, porém, produz novos modos de enfrentamento ao entender que nem tudo é biológico, que existe uma lógica institucional e estrutural que molda relações e produz sofrimentos para além do indivíduo biológico. Perceber esses fluxos possibilita a produção de caminhos possível para lidar com a autoaprovação, o medo do abandono e problemas com a autoconfiança, que podem gerar esse "pseudo-hiperfoco".

Como disse no início, é uma pergunta muito interessante, mas igualmente complexa. Caso eu não tenha me feito entender o suficiente, pode entrar em contato comigo para conversarmos um pouco mais sobre isso.

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