Há alguns anos cometi uma infidelidade no meu relacionamento. Meu parceiro soube de tudo na época, n

Há alguns anos cometi uma infidelidade no meu relacionamento. Meu parceiro soube de tudo na época, nós conversamos sobre o assunto e ele decidiu me perdoar. No entanto, eu não consigo me perdoar. Frequentemente surgem lembranças daquele período, acompanhadas de culpa e remorso intensos. Mesmo já tendo contado o que aconteceu, sinto uma necessidade constante de voltar ao assunto e confirmar se ele realmente me perdoa, como se eu precisasse repetir a história ou acrescentar detalhes para ter certeza disso. Essa necessidade me causa muito sofrimento. Isso pode estar relacionado à ansiedade ou ao TOC? É possível superar essa culpa e essa necessidade de buscar confirmação?

4 respostas


Pelo que você descreve, não é possível afirmar se isso está relacionado à ansiedade, ao TOC ou a outra condição apenas com esse relato. O que chama atenção é o quanto essa culpa continua presente e o quanto existe uma necessidade de buscar repetidamente a confirmação de que seu parceiro realmente o perdoou. A psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender de onde vem essa necessidade de confirmação, o que você espera ouvir do seu parceiro e se, de alguma forma, essa busca está mais relacionada à dificuldade de você mesmo elaborar e conviver com o que aconteceu. É possível construir uma relação diferente com essa culpa, não necessariamente fazendo com que ela desapareça, mas aprendendo a conviver com ela de uma forma que gere menos sofrimento e não conduza suas ações de maneira tão intensa.

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O que você descreve costuma gerar muito sofrimento e, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, em diversos casos quem comete uma infidelidade também sofre profundamente com o que aconteceu. Isso é diferente de situações em que a pessoa trai repetidamente sem demonstrar arrependimento ou sem refletir sobre as consequências dos próprios atos. Pelo que você escreveu, parece que seu parceiro tomou uma decisão importante na época: ele soube do que aconteceu, vocês conversaram e ele escolheu continuar o relacionamento. Hoje, quem parece não conseguir seguir em frente é você. Uma pergunta que eu faria é: quando você sente necessidade de voltar ao assunto, você está buscando uma nova confirmação do perdão dele ou está tentando encontrar uma forma de perdoar a si mesma? Muitas vezes, a pessoa acredita que precisa ouvir novamente "eu te perdoo", mas, na prática, percebe que nenhuma resposta é suficiente. A necessidade retorna pouco tempo depois, acompanhada da mesma culpa. A culpa tem uma função importante. Ela mostra que você reconheceu que aquele comportamento entrou em conflito com seus valores e com a forma como gostaria de viver seus relacionamentos. Nesse sentido, ela pode favorecer mudanças. O problema acontece quando ela deixa de produzir aprendizado e passa apenas a fazer você reviver o mesmo sofrimento repetidamente, como se fosse possível voltar ao passado e reconstruir uma história que já aconteceu. Também considero muito importante compreender o que levou à infidelidade. Não para justificar o que aconteceu, mas para entender o processo. Você estava insatisfeita com o relacionamento? Havia dificuldades entre vocês? Estava vivendo um momento difícil da sua vida? Buscava algo que sentia faltar? Ou simplesmente se deixou envolver pela situação? Essas perguntas ajudam a identificar se a brecha que favoreceu aquela escolha ainda existe ou se ela já foi compreendida e transformada. Outra questão importante é como está seu relacionamento hoje. Você deseja permanecer nessa relação? Vocês conseguiram conversar sobre o que aconteceu de forma profunda ou apenas decidiram continuar? Seu parceiro também conseguiu elaborar essa experiência? Em muitos casos, compreender o significado da traição para os dois é mais importante do que permanecer discutindo apenas o fato ocorrido. Você perguntou se isso pode estar relacionado à ansiedade ou ao TOC. É possível. Na prática clínica, é relativamente comum observarmos sintomas obsessivos em pessoas que estão vivendo conflitos importantes entre culpa e desejo. Quando a pessoa entra em um ciclo de pensamentos como "e se eu não contei tudo?", "e se ele não me perdoou de verdade?", "e se ainda existe algo que preciso confessar?", ela pode sentir uma necessidade intensa de buscar confirmação ou de repetir mentalmente a história na tentativa de aliviar a culpa. Esse alívio, porém, costuma durar pouco tempo, fazendo com que a dúvida retorne novamente. Isso pode acontecer em alguns quadros de ansiedade e também estar presente em pessoas com sintomas obsessivos. No entanto, apenas uma avaliação psicológica consegue identificar se existe um transtorno específico ou se esses sintomas fazem parte da maneira como você está tentando elaborar esse conflito. Na minha prática clínica, especialmente trabalhando com sexualidade e relacionamentos, procuro compreender não apenas o comportamento em si, mas o conflito que existia antes dele acontecer e o significado que ele assumiu depois. O objetivo não é apagar o passado, mas ajudá-lo a deixar de organizar o presente. Quando entendemos o desejo, os conflitos do relacionamento e a função da culpa, ela deixa de ser apenas uma punição interna e passa a se transformar em aprendizado. Esse costuma ser o caminho para reconstruir a confiança no relacionamento e, principalmente, em si mesma.


O sentimento de culpa pode continuar mesmo depois que a outra pessoa perdoa, principalmente quando nós mesmos temos dificuldade em aceitar o que aconteceu. Na psicologia, entendemos que, muitas vezes, tentar buscar repetidamente a confirmação de que "está tudo bem" pode trazer um alívio momentâneo, mas acaba mantendo o ciclo de ansiedade. Essa necessidade constante de revisar o que aconteceu, acrescentar detalhes ou pedir reafirmações pode estar presente em diferentes quadros, incluindo transtornos de ansiedade e, em alguns casos, no TOC. Mas não é possível fazer essa associação apenas com esse relato, é preciso uma avaliação cuidadosa para compreender o contexto e a função desse comportamento. A boa notícia é que esse padrão pode ser trabalhado. Na terapia, buscamos compreender o que mantém essa culpa tão intensa, desenvolver uma relação mais saudável com os próprios pensamentos e fortalecer a capacidade de lidar com a incerteza, sem depender constantemente da confirmação do outro. Você não precisa carregar esse sofrimento sozinha. Buscar ajuda é um passo importante para aprender a acolher sua história, assumir a responsabilidade pelo que aconteceu e, aos poucos, construir também o seu próprio perdão.


Olá, pode estar relacionado à ansiedade e, em alguns casos, também fazer parte de um quadro de TOC, mas é importante dizer que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é uma condição patológica e que exige uma avaliação cuidadosa, por isso não é possível concluir que esse seja o caso apenas com esse relato, nem é recomendado buscar um autodiagnóstico. Mais importante que buscar um diagnóstico, deve ser em lidar melhor com esses pensamentos e lembranças que surgem, desenvolver uma capacidade de separar pensamentos e ações (o que pode ser útil em muitas outras situações também) e buscar mais respostas em si, para lidar a necessidade de reafirmação e construir um processo de autoperdão.

Leonardo Filho

Leonardo Filho

Psicólogo

Rio de Janeiro

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