Perguntas do paciente (113)

  • fiz o uso de lsd por curiosidade e não tive as melhores experiências não, já faz 3 meses desde que u

    fiz o uso de lsd por curiosidade e não tive as melhores experiências não, já faz 3 meses desde que usei, durante esse período comecei a repara pensamentos sem sentido, acreditava que estava em uma simulação ou tinha crise existencial, não me reconhecia, era como se eu tivesse perdido um pouco do meu personagem. Hoje me sinto melhor, mas ainda sinto um pouco disso tudo, estou preocupado se pode ter prejudicado meu cérebro.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado, como vai? Os sintomas que você relata devem ser lavados a sério. Recomendo, como outros colegas, que procure a ajuda de um bom profissional, preferencialmente um psiquiatra. Faço votos de que esteja se sentindo melhor, mas asseguro-lhe que a despersonalização que você mencionou pode se aprofundar, bem como a vivência de estar em uma simulação.


  • Desde criança sempre tive um medo absurdo de fazer as coisas de forma errada e acabar sendo avaliada

    Desde criança sempre tive um medo absurdo de fazer as coisas de forma errada e acabar sendo avaliada negativamente. Isso me afeta em qualquer situação, seja do cotidiano, da faculdade, relacionamentos, interações... Sempre deixo de fazer as coisas porque não me sinto capaz, fico insegura. Meu relacionamento deu errado porque eu deixava de fazer coisas simples, tinha medo de fazer algo errado na frente dele. Não conseguia beija-lo direito porque tinha muito medo de beijar errado e sempre acabava sendo horrível. Fazem 3 anos que não beijo ninguém por medo, nunca tive 1 experiência boa. Deixo de fazer atividades de lazer, como uma brincadeira, porque acho que estou fazendo errado, fico com vergonha. Não consigo me apresentar trabalhos direto, deixo de ir em locais. Uma vez me perdi e fiquei horas sentada em um lugar desconhecido porque não tive coragem de perguntar a alguém como voltar. São nas situações mais simples possíveis. Já me pediram para abrir uma embalagem e eu não tive coragem por medo de abrir errado. Fico muito nervosa e tudo acaba virando um desastre. Não aguento mais viver assim, me sinto paralisada.

    Gostaria de saber se isso é normal. Sei que todos possuem inseguras, mas acho tudo isso muito extremo. O que posso fazer para mudar isso?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezada, um bom dia, como vai? Lamento por seu sofrimento. Asseguro-lhe, no entanto, que ele tem cura. Convém partir de sua ideia de que seu medo de fazer as coisas de forma errada vai muito além da insegurança. Isso é indicativo de que existe algo que te mantém presa a essa atitude quase como se se tratasse de um mantra ou, em outra analogia, de um programa de computador: “não fazer nada errado” é um princípio que é obedecido por você cegamente, e te obriga a sofrer situações insólitas, como o esperar por horas por receio de perguntar “errado”, ou o não abrir a embalagem, pela mesma razão de não poder suportar fazê-lo de forma “errada”. Busque por um profissional que se interesse em investigar o acidente biográfico que conduziu à por assim dizer instalação desse programa, e você descobrirá não apenas sua origem, mas o sentido que ele carrega para sua vida hoje. Isso irá lhe conferir domínio sobre ele. Fico à disposição para mais informações ou para indicações. Desejo-lhe boa sorte e um bom ano de 2023.


  • Olá. Quando eu era criança vivia matando pintinhos, furtei 2 relógios e sempre pegava os giz da prof

    Olá. Quando eu era criança vivia matando pintinhos, furtei 2 relógios e sempre pegava os giz da professora escondido. Tinha uma dificuldade de respeitar autoridades (que se perdura até hoje) e sempre implicava com meus primos. Nunca me levaram ao psicólogo pra averiguar. Isso pode se caracterizar transtorno de conduta ou TOD?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado, como assinalaram os colegas, diagnosticar-se com uma categoria da psiquiatria não equivale a selar o próprio destino. A bem da verdade, tais categorias não servem sequer como ferramentas de autoconhecimento, pelo contrário, o que ocorre normalmente é que o indivíduo se aliena e acredita serem atributos seus aquilo que lê como critérios diagnósticos. Tenha em mente que as atuais classes de transtornos psiquiátricos não passam de esboços e que nenhuma delas, nem mesmo a esquizofrenia, possuem causas ou evoluções bem conhecidas. Se seu desejo for conhecer-se ou se está acometido por um sentimento de conflito relativamente a ações ou atitudes suas, procure por um profissional que esteja interessado em descobrir e a lhe permitir descobrir a dificuldade que se lhe extravia ao conhecimento. Desejo-lhe boa sorte, e um feliz ano de 2023.


  • O que eu deveria esperar de um tratamento com psicólogo? Eu sinto que o tratamento que eu iniciei e

    O que eu deveria esperar de um tratamento com psicólogo?
    Eu sinto que o tratamento que eu iniciei e abandonei recentemente só me serviu de perda de tempo.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, como vai, tudo bem? Há basicamente três tipos de trabalho terapêutico atualmente. Todos têm por meta permitir que a pessoa viva melhor, com ênfase nos âmbitos do trabalho e do amor. Eles diferem, entretanto, quanto ao método. No primeiro, pode-se dizer que o processo terapêutico é o de uma gradual adaptação a situações adversas. Por exemplo, aprende-se a lidar melhor com pressão no ambiente de trabalho através de encorajamento e a exposição cada vez maior a situações de exigência e responsabilidade. O terapeuta acompanha, através do relato do paciente, passo a passo o progresso conquistado, e vai fazendo como que ajustes finos em sua conduta, designando, aqui, uma reação exagerada, ali, uma falta de iniciativa, acolá, um medo e ansiedade desproporcionais à situação. Trata-se de aprender comportamentos adequados para situações genéricas, o que, espera-se, permitirá ao sujeito não apenas responder bem às exigências da vida, mas não mais se deixar levar e incorrer em situações ruins, como relacionamentos ou empregos abusivos. (Note-se que o ambiente ou estímulo com o qual não lida bem o paciente podem ser seus pensamentos ou, como se diz em jargão, ideações, e que esta modalidade de trabalho não se restringe ao progressivo condicionamento a realidades mal assimiladas. Pode-se tratar também de habituar o sujeito a lidar melhor com ideias compulsivas que gerem ansiedade ou tristeza). A segunda modalidade de trabalho toma por referência a relação entre paciente e profissional e visa, através de uma espécie de trabalho reflexivo sobre ela própria e sobre a maneira como opera, propiciar que o paciente a vivencie de uma maneira que se considera ideal ou boa. A ideia é evidentemente que o paciente, capaz agora de experienciar um vínculo saudável e duradouro, reproduzirá seu modelo nas demais relações de sua vida. É igualmente claro que tal trabalho requer (i) que se tenha uma concepção clara de o que é uma boa relação e (ii) que o polo do terapeuta como que a encarne para o paciente. Noutras palavras, em um trabalho assim, as dificuldades ou insuficiências constatadas pelo profissional serão sempre imputadas ao paciente e colocadas na conta de suas defesas ou de seus temores. Por isso, essa modalidade de trabalho é revestida sempre de muita tensão. O paciente ou está de sobreaviso com relação à possibilidade de estar procedendo mal, ou se vê atalhado pelo terapeuta que enxerga em cada torneio de seu discurso a marca de uma tentativa de se fazer valer, ficar por cima, ou diminuir o psicólogo. Algo assim como uma clínica perpétua do narcisismo, do paciente, bem entendido. A terceira modalidade de trabalho parte do entendimento de que as atitudes e ações de uma pessoa são condicionadas por regras cujo enunciado lhes é desconhecido, quer dizer, cuja vigência na vida do sujeito é inconsciente. Da mesma forma que se fala sem conhecimento das regras da gramática, age-se sem consciência dos princípios que nos orientam as ações. O trabalho terapêutico consiste aqui em fazer emergir tanto o conteúdo do que nos move, quanto os acidentes biográficos que o condicionaram. Parte-se da concepção de que o indivíduo não é mero repositório de comportamentos ou pura vontade de poder, mas um sujeito dividido entre a concepção que tem de si e a verdade que vem à tona nas entrelinhas do seu agir. O terapeuta ele mesmo age não como um coach ou um modelo que deve ser imitado. Ele se torna um investigador ou leitor que revelará ao sujeito aquilo que ele é sem nem ao menos sabê-lo. Respondendo sua pergunta, e falando por experiência própria, entendo que as primeiras duas modalidades de trabalho são desestimulantes para o paciente. A primeira o faz sentir-se como uma criança tutelada, a segunda, como uma criança levada e traumatizada. A fim de fazer uma experiência de terapia que pareça realmente tocar alguma coisa de intimamente nossa e que nos surpreenda, sugiro procurar por alguém que siga as diretrizes da terceira modalidade de trabalho que descrevi. Sem desdizer opiniões de alguns dos colegas, afirmo que, quando a encontrar, você se sentirá aproveitando cada minuto.


  • Qual a diferença entre TCC e Psicanálise? Alguma delas é mais indicada para trabalhar questões em re

    Qual a diferença entre TCC e Psicanálise? Alguma delas é mais indicada para trabalhar questões em relação ao âmbito profissional, como ansiedade, lidar com pressão e cobrança, e etc?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    A TCC advém da intuição inaugural de Aaron Beck de que a atuação sobre pensamentos e concepções do indivíduo podiam impactar significativamente o estado depressivo. Na depressão, os pensamentos se apresentam normalmente distorcidos, e o indivíduo tende a atribuir a si próprio responsabilidade por seu sofrimento de uma forma exagerada (por exemplo, referindo o papel de acontecimentos inócuos da infância no que vê como sendo sua atual incapacidade de lidar com certas situações) e pouco maleável (o indivíduo não é suscetível a palavras de conforto por parte do terapeuta, o que indica que a relação com ele não é sem mais de natureza a superar o afeto depressivo). Esse o lado “cognitivo da Terapia Cognitivo-Corportamental. Trata-se de técnicas de reconfiguração do conteúdo do pensamento em suas relações com o sofrimento relatado pelo paciente. A parte “comportamental” pode ser pensada como atuando não no conteúdo, mas na incidência de pensamentos e também na de comportamentos. Para tanto, recorre-se aos conhecimentos acumulados pela escola comportamental de psicologia, os quais se compõem de técnicas voltadas a aumentar ou diminuir a frequência de comportamentos, bem como de correlações entre certas técnicas e modificações em sua incidência. Na prática, a terapia consiste em conversas destinadas a retificar concepções errôneas, e em protocolos de exercícios de exposição a situações temidas, ou de redução controlada de comportamentos e atitudes. Um terapeuta comportamental experiente adquire sensibilidade para a rapidez com que um comportamento ou pensamento pode ser retificado, e costuma em boa parte abrir mão de protocolos anotados de exercícios, o que normalmente deixa o paciente mais à vontade. A psicanálise tem pontos de partida muito diferentes e consiste em uma experiência de outra natureza. Ela tem por base a percepção de Freud de que pensamentos ou ideias podem influir nossas ações sem que se tenha consciência deles e mesmo quando são outras as justificativas fornecidas pelo agente. Essa premissa, que parece abstrusa à primeira vista, está lastreada na experiência da hipnose, técnica muito estudada à época (entre 1880 e 1915). Sob determinadas condições, injunções recebidas sob hipnose são obedecidas por pessoas já acordadas, as quais fornecem para seus atos justificativas totalmente disparatadas relativamente à, digamos, verdade, isto é, ao fato de que foram comandadas agir daquela maneira quando acordassem. Certas síndromes neurológicas apresentam sintomas parecidos. Pessoas tratadas para epilepsia pela dissecção do corpo caloso por vezes obedecem comandos escritos apresentados em seu campo de visão esquerdo sem consciência do por que o fizeram, e justificam seu comportamento com ideias alheias ao fato de que estão a obedecer algo que “leram”. Partindo da generalização dessa como que eficácia inconsciente de pensamentos, Freud mostrou que ela é vigente em um sem número de fenômenos, tais como o sonho, o lapso verbal e de ações, o esquecimento de palavras que se conhece e, o mais importante para nós, a constituição do sintoma psíquico. Deixando de lado estados de ansiedade e angústia, pode-se dizer que todo sintoma conversivo e toda compulsão de pensamento e ação (estes últimos sintomas que caracterizam o que hoje se chama de TOC) correspondem à petrificação de um conflito psíquico cujo âmago é composto por nada mais do que pensamentos inconscientes eficazes na produção de ações. Sua retomada no discurso do sujeito e a assunção por este da importância que tiveram na determinação de sua existência dissolve o sintoma. Isso é feito pela intervenção do profissional sobre aquilo que, no discurso consciente do sujeito, dá a ver os índices desses pensamentos, ou melhor, dessa linguagem inconsciente. Trata-se de um trabalho de decifração e de descoberta, revelação, as quais impactam tanto o paciente quanto o profissional. Um psicanalista experiente aparece para o sujeito como uma espécie de mago, como alguém que extrai de certa profundeza insondável a verdade calada sobre si. Trata-se certamente de uma das experiências mais impactantes que há. Espero ter fornecido elementos que ressoem em sua escolha, e que você encontre um bom profissional. Caso se interesse pela psicanálise, mas se sinta desconfortável com a ausência de pesquisas acerca de sua eficácia, sinta-se à vontade para entrar em contato e ajudarei com suas perguntas.


  • É normal se sentir triste com a felicidade do outro? Ou tendo a sensação que era pra ser seu?

    É normal se sentir triste com a felicidade do outro? Ou tendo a sensação que era pra ser seu?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, saudações. Contribuindo com as colocações dos colegas, o sentimento de satisfação com o infortúnio alheio (o oposto, pode-se dizer, do que você refere) é comum a ponto de estar atestado em alemão (Schadenfreude) e no grego antigo (epichairekakia). Minha experiência é a de que a moral contemporânea se tornou mais pesada do que a própria religião jamais sonhou ser. Se acreditar que esteja cobrando demais de si próprio, provavelmente você estará correto. A única maneira de modificar essa disposição de espírito é através de uma psicanálise.


  • Olá. Tenho TOC diagnosticado e fiz Terapia Cognitivo Comportamental até o momento da alta, hoje tomo

    Olá. Tenho TOC diagnosticado e fiz Terapia Cognitivo Comportamental até o momento da alta, hoje tomo apenas os medicamentos prescritos pelo psiquiatra. Imagino que por essas razões tive o TOC controlado até agora. Porém estou identificando outros sintomas e pesquisando acredito que seja um conceito de Limerência. Qual é o tipo de profissional que trata casos de associados a este conceito? Obrigado.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    A noção de limerência é de baixa corrência na psicologia e, sobretudo, na psiquiatria. A obra de referência é o livro de Dorothy Tennov, cuja primeira edição é de 1979, e onde se trata de uma tentativa de apreensão global do fenômeno do amor, apreensão essa que se pretende científica na medida em que suas principais teses são formuladas de maneira sistemática e, consequentemente, reprodutível. A faceta do amor que é apresentada lá pode gerar estranheza para a sensibilidade contemporânea. Fala-se do amor em seu aspecto arrebatador e fervoroso, por oposição à afeição que vigora entre familiares e amigos e que pode igualmente ser chamada, em nossa cultura, de amor. A distinção entre esses dois tipos de amor é essencial para o tratamento de uma pessoa que, por assim dizer, sofre de limerência. Do contrário, o preço será a incompreensão e o moralismo. Ademais, o estado passional é exemplar por não se sujeitar a terapias comportamentais. Se você realmente se identifica com esse estado, entendo que você deva procurar por um cuidado que leve em consideração a profundidade e extensão do seu sentimento, e sugiro que busque por um bom psicanalista de orientação lacaniana, os quais são, a meu ver, os que mais facilmente escapam à moralidade contemporânea e à confusão que mencionei.


  • Qual a diferença entre psicólogo e psicalnalista ?

    Qual a diferença entre psicólogo e psicalnalista ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, como vai? Colegas responderam e falaram da diferença entre o psicólogo e o psicanalista no tocante a que tipos de cursos realizam. Falou-se um pouco também da diferença entre ambas do ponto de vista daquilo que seria, e daquilo que não seria ciência. Sendo assim, falarei um pouco de peculiaridades que se pode esperar de um tratamento psicanalítico, isto é, da experiência ela mesma de uma psicanálise. A psicanálise parte do pressuposto de que nossa vida, melhor dizendo, nosso destino, é governado por aspirações, votos e determinações inconscientes. O inconsciente refere o conjunto de pensamentos e formulações que foram assimiladas ao longo de nossa história. Elas são montadas a partir do discurso das pessoas que nos permitiram adentrar no universo do convívio social, na maior parte das vezes, nossos pais. Pode-se dizer que o inconsciente é o discurso do outro. Embora silencioso, ele está sempre em atividade, e pode-se ter uma ideia mais concreta dela a partir do discurso que acomete o esquizofrênico. Embora não haja condições de exibir as razões que permitem sustentá-la, a ideia fundamental é a de que a vida do indivíduo é governada e regida por aquilo que preconiza esse discurso inconsciente. O sofrimento psíquico, que assume formas específicas, decorre do não reconhecimento dessa como que mensagem inconsciente. Uma psicanálise tem o papel de fazer aparecerem os elementos dessa mensagem e de montá-la pouco a pouco junto ao sujeito ao longo de um processo denominado dialético, o que indica que a emergência da verdade individual obedece a uma dinâmica na qual vigoram a permanente revisitação de sentidos que pareciam estabelecidos e uma abertura subjetiva que deve ser entendida sob a máxima do: “Sou aquilo que devo ser para advir aquilo que posso me tornar”. Essenciais são a ideia de fluidez, de desconstrução de identidades que provocam sofrimento, e da surpresa que acompanha os momentos chave desse processo de descobrimento. É possível ver que uma boa psicanálise coloca em questão aquilo que o indivíduo pensa ser, seu ego, e não vai ao encontro de uma ética que almeje a adaptação. A bem dizer, o conflito psíquico que está na base do sofrimento é, na maior parte das vezes, um conflito entre o ego e injunções inconscientes que carregam as condições do desejo do sujeito. O único mote de uma análise é a verdade.


  • Tenho ansiedade e sinto sensação de fraqueza nos braços e pernas. Essa sensação pode ser provocada

    Tenho ansiedade e sinto sensação de fraqueza nos braços e pernas.
    Essa sensação pode ser provocada pela ansiedade?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá. Faço votos de que esteja sentindo-se melhor. Os sintomas que você relatou podem ser vistos sob duas perspectivas. A primeira é a de que eles fazem parte do que se pode chamar uma condição nervosa, a qual será composta por ansiedade ou nervosismo, certos distúrbios de humor como depressões não melancólicas e não psicóticas, manifestações corporais mais ou menos associadas a estresse, e, por fim, fadiga. Trata-se do que se chama correntemente de nervosismo, e corresponde por exemplo ao que foi chamado de psicastenia por Janet ou de neurastenia por muitos autores. Nenhuma classificação utilizada atualmente engloba esses sintomas e a tendência é a de classificar cada um deles em "doenças" diferentes (coloco o termo entre aspas porque não se trata de doenças bem delimitadas, mas de um fenômeno de multiplicação de pseudo-entidades clínicas decorrente do afã da psiquiatria contemporânea em medicar). Do ponto de vista, entretanto, de uma perspectiva classificatória que se valha de conjuntos de sintomas, pode-se sim dizer que as dificuldades que você relata costumam andar juntas, embora não se possa fazer afirmações mais fortes a propósito por exemplo de relações de causa e efeito. Há, agora, uma segunda perspectiva, que passarei a descrever. Ela advém não da tradição psiquiátrica, mas da psicanalítica. Parte-se da ideia de que sintomas têm um sentido na vida do indivíduo e que deve ser dada a este a palavra a propósito de seu sofrimento. Esse ponto de partida redunda em um método de tratamento por meio do qual vem à tona que os sintomas (em especial coisas como depressões, ansiedades e certas dores) são uma como que resposta encontrada pelo sujeito para lidar com conflitos que não podem ou não puderam ser dissolvidos por outros meios. Outra coisa que é constatada por esse método é que esses sintomas desaparecem uma vez formuladas e colocadas em palavras as dificuldades que lhes deram ensejo. Essa perspectiva é muito mais "psicológica" do que a psiquiátrica anterior, já que toma em consideração o indivíduo não como mero organismo, mas como ente dotado de subjetividade e de uma capacidade reflexiva poderosa, a qual, se bem conduzida, repercutirá no corpo ele mesmo. Deste ponto de vista, pode-se dizer que os sintomas que você mencionou, para além de relacionarem-se entre si, relacionam-se cada um à totalidade da sua vida subjetiva ou anímica (o termo não é importante), noutras palavras, relacionam-se ao conjunto de sua história individual.


  • Tive um crise conversiva foi feita tomografia onde está tudo ok Minha dúvida é a partir de agora e

    Tive um crise conversiva foi feita tomografia onde está tudo ok
    Minha dúvida é a partir de agora eu sempre terei essa crise ?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, como vai? Presumindo que o diagnóstico esteja fechado, a crise conversiva é via de regra recorrente. Para fins de compreensão, pode-se imaginar que o sintoma conversivo que ocorre pela primeira vez acarreta uma como que facilitação ou canalização com base na qual manifestações ulteriores suas se deflagrarão com mais facilidade. Algo como a facilitação envolvida no aprendizado de uma atividade nova. Agora, é minha obrigação assinalar que síndrome de conversão é um diagnóstico dificílimo e que tomografia não excluirá epilepsia senão se causada por alterações morfológicas do cérebro, como um tumor. Sugiro recorrer a uma segunda e mesmo, se for o caso, terceira opinião de especialista. Se for de fato fechado o diagnóstico em sintoma conversivo, sugiro buscar pela ajuda de um psicanalista de orientação lacaniana, que será ao meu ver o mais alinhado com a linguagem de que se vale nossa mente para extravasar conflitos e tensões. Desejo-lhe uma boa recuperação e um bom ano de 2023.


  • Uma criança com síndrome de Asperger pode ser bem comunicativa até com estranhos?

    Uma criança com síndrome de Asperger pode ser bem comunicativa até com estranhos?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, como vai? O ponto de vista mais diretamente relevante para a pergunta que formulou é o conjunto de critérios diagnósticos apresentado no chamado DSM-IV. Com base nele, o psiquiatra está autorizado a diagnosticar Asperger mesmo em situações em que há contato e comunicação. Isso é assim porque o entendimento desse manual é o de que o contato com outrem inclui, além da comunicação verbal, diversos outros índices de socialização, tais como contato visual, entusiasmo afetivo etc. Dito isso, há pelo menos dois pontos que convêm ser levantados. O primeiro e mais importante é que classes como autismo, TDAH e até mesmo transtorno de ansiedade generalizada vêm sendo vistos como pertencentes à classe mais geral da chamada neurodiversidade. A razão disso é que, salvo em casos muito severos, o "transtorno mental" deve ser pronunciado com aspas e não indica muito mais do que um viés particular da personalidade. As classe de doenças que mencionei não possuem número significativo de marcadores genéticos próprios, e muitas apresentam vários em comum com esquizofrenia; basta pensar no quão diferentes são uma criança diagnosticada com esquizofrenia e outra com grau leve ou mesmo médio de autismo para perceber que as categorias da psiquiatria contemporânea são fluidas demais para poderem ser encaradas como doenças propriamente ditas. Ainda nesse sentido vai o fato de que a nosologia psiquiátrica é tal que mesmo profissionais experientes discordam entre si relativamente a o que se há de efetivamente considerar autismo, e sobretudo asperger. Proponentes do DSM, a série de manuais que se tornou referência no ramo, admitem sem pestanejar que se trata de classificações sindrômicas e que não há sinal de que estejamos próximos de descobrir as causas da depressão, do autismo ou da esquizofrenia. Mas o que é uma doença sem causas conhecidas? Pouco mais do que uma classificação provisória. Digo essas coisas no intuito de mostrar que a criança a que você se refere não recebeu um diagnóstico no sentido forte do termo, mas algo assim como um rótulo que poderá se alterar ao sabor do profissional consultado e da escola a que ele pertence. Se está preocupada com a personalidade dela, o ideal é, como ditará sem dúvida sua própria intuição, ter sempre em consideração a totalidade da pessoa que ela é, e pô-la aos cuidados de quem não se permita perder de vista esse preceito fundamental. Faço os melhores votos a vocês, e desejo-lhes boa sorte.


  • Um vazio existe dentro de mim, consigo preencher me distraindo com as coisas normais da vida, trabal

    Um vazio existe dentro de mim, consigo preencher me distraindo com as coisas normais da vida, trabalho, familia, mas essa sensação de vazio sempre volta acompanhada de uma vontade de desistir de tudo, vivo uma vida feliz aos olhos de todos, tenho amigos, um marido, as vezes sinto que aprendi a conviver com isso, mas ai então algo que não sei explicar muda tudo e volto a não sentir nada, as vezes penso que morrer não seria algo tão ruim, poderia me dar um descanso eterno.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezada, saudações. Destoando do teor das respostas já publicadas, digo-lhe que o vazio que existe dentro de você está presente em todos nós. A sensação dele já se fez presente a cada um nalgum momento, e se caracterizará pelo que você referiu: impressão da morte como um descanso, como algo bom, e uma percepção de que a vida se arrasta e de que é uma repetição intolerável. Pode-se chamar a tal sentimento a dor de existir. Ela se manifesta em momentos privilegiados tais como o luto, a dissolução de um relacionamento ou de um emprego importante, e costuma esvair-se à medida que se assimilam essas perdas. Nalguns casos, ela é suscitada sem que se tenha clareza sobre o evento desencadeador, o qual, entretanto, segundo minha experiência e também a da tradição psicanalítica, estará sempre presente, mesmo na mais severa melancolia. Pode ser de uma banalidade enganosa, e revestir-se de significado para o sujeito em questão. Haveria muito o que se falar acerca do caráter cíclico de certas afecções, mas afirmo-lhe que, guardadas as devidas proporções, estas ideias também valem para elas.


  • Tudo bem? Tenho ansiedade, tenho poucas crises mas tenho sintomas como formigamento no peito e uma s

    Tudo bem? Tenho ansiedade, tenho poucas crises mas tenho sintomas como formigamento no peito e uma sensação de angústia, praticamente o dia inteiro, sempre de manhã após acordar fico tranquilo mas aí começa os sintomas. Essa minha ansiedade começou depois de uma acidente (não foi grave) e na mesma semana do acidente foi uma semana bastante estressante. Queria saber se é normal esse sintomas q eu estou sentindo? Desde já agradeço.

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado, como vai? O principal fator a ser levado em consideração é a duração, quer dizer, há quanto tempo ocorreu o acidente. Você relata que o acidente não foi grave, e aventa a ideia de que teve lugar uma conjunção de fatores—a semana estressante—no desencadeamento de seu mal-estar. Se estiver sentindo-se mal há mais de dois meses, leve em consideração a ideia de que algo no acidente ou nos dias atribulados subsequentes possa ter mexido com seu ânimo sem que você tenha tido chance de, por assim dizer, metabolizar a experiência. Uma psicoterapia que lhe proporcione um espaço para falar livremente deverá nesse caso ajudá-lo. Caso goste da ideia, sugiro procurar por um psicanalista e evitar linhas de terapia que recorram a protocolos de qualquer tipo, como TCC. Desejo-lhe boa sorte, e uma rápida recuperação.


  • Colegas psicólogos, sou novo como psicólogo clínico, e inexperiente com o público infantil. Tenho r

    Colegas psicólogos, sou novo como psicólogo clínico, e inexperiente com o público infantil.
    Tenho realizado atendimentos com crianças de diversas idades, e alguns casos tem me deixado perdido quanto ao que pode ser feito.
    Vejo pacientes de 5 anos que não falam quase nada, com interesse por atividades de crianças de 3 e 4 anos, tendo dificuldades em atividades pré escolar. Tenho também pacientes de de 1 ano até 2 anos, que vem com suspeita de autismo para mim, mas não tenho estrutura ou conhecimentos para tal atendimento.
    Nestas situações, fora aguardar a visão de neuropediatra ou geneticistas, sinto que não posso fazer muito por estes casos, sentindo uma grande impotência sobre o que pode ser feito, mesmo estudando muito e buscando mais especializações nesta área.

    O que vocês fazem em situações que não se veem capazes de lidar com algum caso como os que citei? Vocês encaminham para algum lugar? Como trabalham isto?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado colega, como vai? É normal para um psicólogo encaminhar casos frente aos quais ele não se sente, por qualquer razão que seja, apto a ajudar. Dito isso, a criança com dificuldades de socialização representa um dos maiores desafios com que um terapeuta pode se deparar. A ausência de vínculo pode ser mais angustiante e desorientadora do que a relação com alguém em delírio, para mencionar um exemplo. Entretanto, também é verdade que um profissional tomado de ansiedade não deve procurar conduzir um trabalho terapêutico. Para avançar em sua formação e passar a se sentir à vontade para enfrentar desafios novos, é necessário trabalhar em duas frentes, as quais você próprio mencionou: seu conhecimento e sua “estrutura”, como você se expressou. No que diz respeito ao segundo, não há outro caminho que seja bom para você e para seus futuros pacientes senão o de um cuidado que tome em consideração a totalidade da sua subjetividade ou personalidade, por oposição a orientações que encarem o paciente como um conglomerado de sintomas a serem solucionados. Uma dificuldade como ansiedade não representa um sintoma e muito menos uma doença, ela é antes manifestação da personalidade ela toda da pessoa, bem como um precipitado de sua história individual. Para encontrar um bom profissional, converse com colegas que trabalhem com psicanálise, e peça indicações (quanto à supervisão, não tenho nada a acrescentar ao que já disseram os colegas: ela é essencial). Já no que diz respeito ao conhecimento, você mencionou dois tipos de situação, uma com crianças bem pequenas, que presumo que estejam passando por triagens, e outra com pacientes na faixa dos 5 anos, com os quais, além de um diagnóstico, o que é esperado por parte dos pais é normalmente o trabalho terapêutico. Sendo assim, é importante familiarizar-se com (i) os protocolos diagnósticos atualmente em uso para as várias idades e com pelo menos três orientações de tratamento: a (iia) chamada ABA, e as da (iib) psicanálise kleiniana e (iiic) lacaniana. A ABA te ajudará a estar à vontade junto ao paciente por oferecer respostas às diversas situações com que o profissional se depara. A orientação lacaniana mostrará a importância de tomar sempre em consideração a subjetividade do paciente, algo especialmente importante no tratamento do autismo, já que a subjetividade, entendida como a manifestação do desejo do paciente e seu enraizamento no contato linguageiro com o outro, é algo assim como uma profecia auto-realizadora—ela aparece lá onde ela é suposta pelo outro. Quanto à psicanálise kleiniana, ela lhe dará ideias de intervenções que ajudarão a fundar essa subjetividade. Elas podem parecer um tanto cruas e mesmo escandalosas, mas fornecem para a criança elementos simbólicos básicos que servirão de fundamento e orientação na relação com outras pessoas. Você não terá dificuldades para encontrar as referências para (i), (iia) e (iib). Quanto a (iic), procure por trabalhos de Françoise Dolto. Você está deparado com um grande desafio. Não se deixe abater por dificuldades, e entenda que é parte do processo recuar para ter tempo para se preparar para experiências novas. A clínica é repleta de situações que nunca serão vivenciadas na vida cotidiana, e não é esperado de um terapeuta que ele esteja de saída à altura de todas elas. Desejo-lhe boa sorte em sua carreira, e me coloco à disposição se quiser tirar dúvidas. P.S: há uma enorme controvérsia que envolve a psicanálise a propósito das causas do autismo. É sabido que o autismo, como a esquizofrenia, tem causas genéticas e/ou ligadas à gestação. Esse fato foi negado inúmeras vezes por psicanalistas. Não deixe isso desestimular seu estudo desse tipo de tratamento. A razão da denegação das causas orgânicas do autismo foi, na maior parte, a surpreendente eficácia da psicanálise em inúmeros casos aparentemente sem esperança. Um abraço, e boa sorte.


  • A pornografia pode gerar algum tipo de problema psicológico? Tipo TOC e TDAH?

    A pornografia pode gerar algum tipo de problema psicológico? Tipo TOC e TDAH?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado, cada um dos quadros que você mencionou deve ser visto mais como parte de uma personalidade do que como uma doença bem delineada. Alguém com dificuldades em focar a atenção está mais sujeito a ser fisgado por estímulos de grande apelo intrínseco, como a pornografia, e encontrará dificuldades em preteri-la em nome de atividades que exijam aplicação de força de vontade. Do mesmo modo, alguém com tendência a petrificar comportamentos de seu interesse sob a forma de compulsões está sujeito a fazer da cativação pornográfica certo tipo de vício. A relação que você esboçou vai em sentido contrário, e é alguém com TOC ou TDAH que tenderá, sob certas condições, a fazer da pornografia um vício.


  • Tenho pensamentos ruins sobre machucar as pessoas, as vezes as olho diferente, me pego pensando em v

    Tenho pensamentos ruins sobre machucar as pessoas, as vezes as olho diferente, me pego pensando em várias maneiras de mata-las e não sinto nada em relação à tudo isso.
    É normal pensar em machucar qualquer pessoa?
    OBS:Não tem nada a ver com raiva ou ódio e sim "desejo".

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezado, preciso contrapor-me aos colegas e afirmar com ênfase que não, não é normal. A boa notícia é que trata-se de algo que pode ser eliminado mediante tratamento. Como você próprio se dá conta, seu estado causa preocupação não apenas por não gerar arrependimento, mas por emergir de um desejo e causar prazer. Não aguarde mais para buscar cuidar disso. Seu destino está em jogo. Caso decida fazê-lo, busque por um psicanalista de orientação lacaniana. A meu ver, ele é o melhor aparelhado para tratar de elementos profundamente arraigados na personalidade, tais como fantasias.


  • Quando paramos de tomar antidepressivo, mesmo com terapia, consentimento médico e desmame , porém me

    Quando paramos de tomar antidepressivo, mesmo com terapia, consentimento médico e desmame , porém mesmo assim após um mês os sintomas voltam com menor intensidade; pode ser o cérebro se readaptando sem o medicamento ou o que seria? Os sintomas desaparecem com o tempo?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Olá, como vai? A retirada de medicamentos psiquiátricos pode ter uma variedade de efeitos. Os cenários mais importantes para sua situação quero crer que são: (i) o de um efeito rebote usual, digamos assim, que consiste na reprodução, em grau mais leve, do estado que o medicamento buscava suprimir; (ii) o de uma pequena dependência, estado que, em tese, exigiria a restituição do protocolo medicamentoso. Se seu caso for o de uma depressão que não responde à terapia ou se ela for muito severa, não é recomendado abrir mão de medicamentos e correr o risco de recair em um estado de depressão profunda, e isso independentemente de (ii), isto é, se há ou não há uma dependência em jogo. Agora, se seu caso for o mais comum, o de uma depressão que melhora com terapia, é recomendado preservar-se tanto quanto possível longe de medicamentos, já que mesmo um estado de dependência, para não falar de um efeito rebote "usual", são combatidos com eficácia pelo hábito de se manter livre de remédios. Os efeitos de longo prazo de medicamentos psiquiátricos são em larga medida desconhecidos, e pesquisas recentes sobre dependência vêm sugerindo que ela assume muito mais formas—algumas dignas de preocupação—do que se pensava.


  • Minha filha de 9 anos, disse que ouviu na sua cabeça para matar seu pai. Disse que foi sua própria v

    Minha filha de 9 anos, disse que ouviu na sua cabeça para matar seu pai. Disse que foi sua própria voz na cabeça dela, me falou isso chorando que nunca mais queria ouvir isso. Ela é tratada com amor e carinho e ensinamos princípios cristãos. O que pode estar acontecendo com ela ? Por favor

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezada, olá. Levada em consideração a variedade de contextos dos quais sua filha poderá ter extraído a ideia de vozes e de pensamentos ruins, concordo com os colegas e entendo que deve se tratar de um fenômeno relativamente inócuo. Uma interpretação mais literal pode, entretanto, ser motivo para alguma preocupação. Se o que sua filha relata for tomado ao pé da letra, pode-se afirmar que não parece se tratar de uma fantasia, já que a fantasia é uma construção na qual o sujeito reconhece sua participação, e ela afirma, como você relata, que certas coisas foram ditas para ela. Além disso, uma criança que fantasia algo de ruim para uma pessoa querida dificilmente o confessará porque há de se sentir muito culpada. Com relação à ideia de que se trata de pensamentos intrusivos, é forçoso reconhecer que eles frequentemente pintam cenários nefastos, tais como a morte de um ente querido; no entanto, eles não assumem a forma de uma ordem, mas sim de uma preocupação ou de uma consequência. Por exemplo, uma pessoa ansiosa será acometida de preocupações com a segurança de sua família, preocupações que, a outra pessoa, parecerão exageradas e muito distantes da realidade. Ela se sentirá como que invadida por pensamentos relativos à integridade física de familiares, e poderá chegar a tomar medidas para afastar qualquer possibilidade de realizarem-se, medidas que, mais uma vez, parecerão extravagantes para alguém mais "tranquilo". Outra forma que o pensamento intrusivo assume é a que aflige pessoas que sofrem com obsessões. Muitas pessoas que lavam a mão compulsivamente, por exemplo, o fazem por acreditar que, do contrário, algo de muito ruim acontecerá consigo ou com outras pessoas—estas, frequentemente familiares próximos. O pensamento tem, portanto, a forma: "se eu não fizer isto, tal coisa acontecerá à minha mãe, ou a meu pai". Ou seja, o cenário formulado no pensamento intrusivo não tem por agente, nestes casos, a própria pessoa, como no caso que sua filha relata. Além disso, nenhum pensamento intrusivo é ouvido, ele não é pronunciado. Normalmente sua presença tem a forma de uma intuição, talvez uma sensação. A terceira opção, além de fantasias e de pensamentos intrusivos no sentido descrito, seria a de uma autêntica voz que formula injunções nefandas, o que poderia ser indício de uma condição que mereceria atenção e tratamento imediato. Há muitas condições mentais que refletem um processo orgânico que deve ser combatido e revertido o quanto antes para assegurar a preservação da integridade de estruturas nervosas. Elas são raras e seu relato não contém informações suficientes para afirmações taxativas. Porém, essas condições têm um impacto tão importante na vida do sujeito que considero sua mera possibilidade remota suficiente para levar a buscar a opinião cuidadosa do profissional. Vejo, assim, razões para procurar profissionais capazes de avaliar com exatidão o que está se passando. Como sugerido por colegas, são necessários conhecimentos em psicologia e em psiquiatria. Acrescento, porém, que eles estariam idealmente reunidos na mesma pessoa, já que a consulta do psiquiatra pode ser às vezes apressada demais para detectar todo o necessário para uma avaliação adequada, e o psicólogo frequentemente não é versado em psiquiatria. Minha indicação é a de um profissional que trabalhe com terapia, mas que conte também com formação psiquiátrica.


  • Qual a diferença de medo, angústia, ansiedade, ansiedade social e pânico

    Qual a diferença de medo, angústia, ansiedade, ansiedade social e pânico

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Ansiedade significa um estado de expectativa apreensiva na maior parte das vezes passível de ser referida a um estado-de-coisas definido. Uma pessoa está ansiosa porque conheceu alguém de quem gostou e preocupa-se se esse sentimento é recíproco. Sua preocupação será difusa porque relativa a tudo o que tiver associação a essa pessoa, e poderá ser suscitada na mais casual troca de mensagens por WhatsApp; e ela será bem delineada na medida em que possui algo como um objeto bem definido, a pessoa que começa a conhecer melhor.
    Essa lógica opera para outros “objetos”, tais como: trabalho, reconhecimento, família, o sustento desta e de si próprio.
    Em razão da importância desses objetos, a ansiedade e o sentimento de expectativa apreensiva podem dar o tom da existência ela toda do sujeito. Ela é, assim, algo como um estado, uma disposição.
    Angústia, pânico e medo são passageiros—não à toa, fala-se em crises de pânico e em crises de angústia. Pode-se dizer que se trata de sentimentos que vão e que, passado mais ou menos tempo, dissolvem-se.
    O medo é o que tem vínculo mais estreito com um objeto. Se a ansiedade se refere a toda a variedade de situações e riscos inerentes a se ter uma família, por exemplo, o medo é um sentimento que remete a uma situação específica: o medo de que o filho sofra bulliyng no colégio, ou o medo de que, indo sozinho para a escola, venha a ser abordado por um mal-intencionado; o medo também que se sente ao se dirigir ou perambular por um bairro de aspecto perigoso—e a ideia concomitante de que alguma violência possa sobrevir. Para cada medo, um objeto ou representação, e, para cada ansiedade, inúmeros medos e receios.
    A angústia e o pânico são passageiros e se manifestam como crises. É sabido que crises de pânico não têm objeto entendido como representação mental de algum estado-de-coisas cuja realização é indesejada. Quando se diz que a pessoa acometida por pânico se acreditava prestes a morrer, tal ideia decorre não de uma disposição psíquica—o pessimismo inerente à ansiedade—mas das sensações peculiares a um autêntico ataque cardíaco e à opressão gerada por uma respiração descontrolada, esbaforida e aflita.
    Angústia e pânico são vivências tão pungentes que qualquer ocorrência sua merece ser denominada crise.
    Angústia designa um estado passageiro no qual impera um sentimento de profunda desvalia. O sentimento de perigo iminente pode se fazer presente até o limite das manifestações corporais que caracterizam o pânico. Tem-se a sensação de tudo o que se refere à própria existência, à própria vida, está perdido e malogrado, que todos os esforços empenhados se mostraram baldados. O ser ele todo se dá a ver como um imenso à toa. É o sentimento verdadeiro do desamparo e do abandono.


  • Minha filha tem 3 anos, fica toda hora metendo cabelo na boca

    Minha filha tem 3 anos, fica toda hora metendo cabelo na boca, como proceder?

    RESPOSTA DO ESPECIALISTA DA SAÚDE :

    Dr. Luiz Bruder

    Prezada, olá, como vai? O hábito de levar o cabelo à boca não é tão raro em crianças. Entretanto, se ela ingere os fios, ela pode estar sendo motivada por alguma deficiência nutricional, e eu recomendaria a visita a um nutricionista. Se não, ou se a ingestão for bem pouca, sugiro o seguinte expediente para se livrar do hábito: esteja preparada com um brinquedo que possa ser levado à boca e mastigado; na próxima vez que o comportamento for exibido, apresente-lhe a novidade e diga-lhe de maneira branda ou neutra: "não levamos cabelo à boca, mas você pode morder isto". Sempre que ela manifestar aceitação pelo brinquedo, em especial espontaneamente, manifeste de sua parte aprovação com o comportamento. Dentro de algumas semanas—e não dias, em se tratando de um hábito prazeroso—ela abandonará o costume. Algumas observações: (i) esta estratégia de reforçamento positivo é muito superior à de qualquer método punitivo; (ii) a razão por que a comunicação de que cabelos não devem ser levados à boca e de que existe um interessante brinquedo que pode substitui-los deve ser feita de forma brando é a de não permitir que a criança percebe que o assunto é uma questão de importância para os adultos, no que sua birra ou capricho poderiam ser despertados. Desejo-lhe boa sorte, e saúde para sua criança.


Todos os conteúdos publicados no doctoralia.com.br, principalmente perguntas e respostas na área da medicina, têm caráter meramente informativo e não devem ser, em nenhuma circunstância, considerados como substitutos de aconselhamento médico.